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quarta-feira, 22 de junho de 2011 bolsa, Crise global, Crise na Europa, EUA, Investimentos, Sem categoria | 16:22

Surpresas e sustos que movem os mercados

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Os mercados tendem antecipar os acontecimentos,  dizem alguns. Na verdade, os mercados não antecipam, mas são sim orientados pelas expectativas. Se algum fato econômico for o consenso entre os analistas, tal fato já é precificado, isto é, ele já é computado quando os agentes formam os preços das coisas. Por exemplo, se o consenso entre os analistas for que a inflação vai cair, o mercado já precifica isto e embute tal expectativa nos preços dos ativos, reduzindo, por exemplo, as taxas de juros de longo prazo. O mercado só se move se as expectativas começarem a mudar ou se os dados que forem saindo, a realidade dos fatos, se mostrarem diferentes daquele que for previsto. Assim, no exemplo acima, se os dados da inflação forem surpreendendo e se mostrando acima do esperado pelo consenso dos analistas, os mercados entram em parafuso, e começam a subir as taxas de juros futuras.

Bem, existe um índice bastante interessante que mostra se os dados econômicos que saem surpreendem os analistas para cima ou para baixo.  Ele é calculado pelo Citibank para as economias do G10. Este dado mostra quanto cada dado econômico que sai desvia do esperado pela média dos analistas do mercado, com base no desvio padrão histórico. Assim se um dado surpreende para baixo o equivalente a 1,5 desvio padrão, este dado entra como -1,5 no cálculo do índice. Os dados computados são os dos últimos 90 dias, e tem como peso seu impacto sobre o mercado no dia de seu anúncio, e sua idade: dados mais recentes pesam mais.

O gráfico branco abaixo mostra a media móvel ponderada destas surpresas que é o índice CESI, representado na linha branca para as economias do G10 como um todo. A linha vermelha horizontal mostra a média histórica das surpresas, ou seja, na média não há surpresas:

Vamos começar pela esquerda.  No início de 2004, região marcada em violeta, os economistas vinham errando para baixo suas previsões, isto é, os dados reais da economia mundial surpreendiam para cima. Porém ao longo do ano de 2004 estas surpresas foram diminuindo, pois os analistas foram ajustando suas expectativas para cima o que trouxe o índice de surpresas para zero na metade do ano pois os dados começaram a confirmar as novas expectativas mais elevadas. Porém aí os dados econômicos começaram a desapontar e o índice entrou no território negativo. Os dados que saíam deixaram de serem surpresas e se transformaram em sustos. O que houve ali não foi um crash da economia. O que houve ali é que a economia em 2002 e 2003 vinha se recuperando com força depois do estouro da bolha da internet impulsionada pela política de juros baixos do FED. Esta aceleração da economia fez com que os com que os analistas elevassem suas projeções de crescimento, que se frustraram na medida em que FED elevou os juros em 2004. O bom momento de 2003 elevou demais as expectativas de 2004, que acabaram sendo frustradas. Esta é uma situação típica onde as pessoas acham que as coisas vão continuar ótimas para sempre e embutem isto em suas expectativas para o futuro.

De 2005 A 2007, marcado em amarelo, os desvios das expectativas oscilaram dentro de uma faixa de normalidade (entre as linhas brancas paralelas horizontais).

Na segunda metade de 2008, marcado em marrom, os dados econômicos que saiam surpreendiam negativamente aos analistas e muito: a economia global afundava em função da crise de crédito global mais rápido do que se esperava e os erros de previsões eram enormes. Tal tendência se reverteu no começo de 2009, marcado em verde, quando os analistas começaram a prever o fim do mundo, enquanto que os estímulos monetários e fiscais no G10 deram tração à economia global. Um caso onde nada é tão ruim que nunca acabe. Os dados foram surpreendendo cada vez mais aos analistas que ainda estavam céticos quanto à recuperação da economia americana. Este clima de boas surpresas, de crescimento acima das expectativas, veio até o começo deste ano, quando a coisa começou a se reverter, como vemos na região marcada em vermelho.

Os dados econômicos recentes mostram uma economia global mais fraca do que as expectativas dos analistas apontam.  O desapontamento com os dados atingiu níveis similares àqueles vistos em 2004, porém estão aquém do que vimos em 2008.

Há algumas explicações possíveis para isto: efeito da tragédia no Japão que interrompeu o suprimento de componentes fundamentais à indústria americana, elevação do preço do combustível no início do ano que reduziu poder de compra das pessoas ou simplesmente a economia começa a perder gás, pois se espera um ajuste fiscal importante no G10. Ou quem sabe isto é também efeito do aperto monetário dos emergentes ou da crise Européia na economia real.

Vamos analisar agora  a correlação destas surpresas e sustos com o comportamento das bolsas de valores.

O gráfico abaixo mostra, em branco, a evolução do índice da bolsa americana SP500 versus o tal índice de surpresas na economia americana apenas, em laranja:




Podemos ver que desde 2007 a bolsa cai quando as surpresas se tornam em sustos mais rapidamente, como vimos nos períodos marcados em marrom, em amarelo e em verde.

O que surpreende é a impressionante virada para baixo recente no índice de surpresas econômicas, e o impacto relativamente pequeno nas bolsas, marcado em vermelho. Trata-se de um comportamento similar àquele observado no período anterior a 2007, marcado em azul, quando as flutuações no índice de surpresas não causavam flutuações tão grandes na bolsa de valores. Minha interpretação para este fato é que, até 2007, não se tinha dúvida sobre solidez dos fundamentos econômicos nos EUA e que tais variações nas expectativas eram consideradas naturais dentro do ciclo econômico normal.

A dúvida que fica é:

  1. Estariam hoje os mercados adotando a mesma postura do início da década passada, ou seja, eles assumem que a economia dos EUA tem sólidos fundamentos e que tais oscilações de humor e de previsões são transitórias e normais?
  2. Ou estariam os mercados assumindo que tais sustos acabarão em breve, que foram produto de efeitos transitórios,  e que os dados, portanto,  voltarão a surpreender positivamente em breve?

Seja o que for, se os dados econômicos não começarem a surpreender para cima, podemos ver as bolsas dos EUA caindo ainda mais e levando provavelmente as bolsas do resto do mundo junto.

Como dizia um grande banqueiro: eu odeio surpresa… Porém não há como evitá-las.

Vamos ficar de olho nas notícias que vem dos EUA.

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