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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013 Câmbio, Crise global, EUA, Investimentos, Juros no Brasil, Politica Economica | 16:35

E quando tudo voltar ao normal novamente?

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Vivemos os últimos 5 anos acompanhando as notícias da crise externa que vinham inicialmente dos EUA e depois da Europa. Seguiam várias previsões sobre uma possível crise final do capitalismo causada pela explosão da bolha imobiliária americana, a implosão do sistema financeiro global, a quebra dos estados soberanos da Europa, o fim do Euro, e por aí vai.

Este clima de pânico afetou a confiança de investidores e empresários ao redor do globo, o que causou uma enorme volatilidade dos preços dos ativos e um contágio da atividade econômica global. Isto levou as autoridades monetárias do mundo todo a praticar politicas super expansionistas. E isto era de fato necessário.

Para se ter uma ideia do estrago que tal crise causou segue o gráfico abaixo que mostra a evolução da taxa de desemprego nos EUA desde 1999:

A reta azul horizontal mostra que o desemprego nos EUA oscilava entre 4% e 6% até 2008, uma oscilação bastante razoável para ciclos econômicos normais. Em 2008 a taxa disparou atingindo 10% em 2010. De lá para cá o desemprego vem caindo gradativamente ( linhas paralelas verde, branca e vermelha ), mas com consistência, sinalizando que, a continuar o ritmo atual, o desemprego deve voltar à “região de normalidade” no inicio de 2015 ( em amarelo).

Na Europa a cise atingiu os países periféricos que tiveram suas taxas de risco elevadas dramaticamente, como vemos no gráfico abaixo que mostra a evolução da taxa de risco dos papéis de dívida pública espanhola desde 2005 :

Vemos em laranja que a taxa de risco antes de 2008 estava ao redor de zero, pois ninguém considerava a hipótese de um país como a Espanha quebrar ou deixar a zona do Euro. De 2009 até meados de 2012 tal taxa de risco disparou, batendo 6% a.a. ( marcado em vermelho) . Com as intervenções do BC Europeu  emprestando recursos para os bancos europeus com problemas e com o estabelecimento de um programa de compra de títulos públicos de tais países, a taxa de risco vem caindo, batendo os 2,5% a.a. ( em verde) . Ainda está bem acima do que estava em 2008, porém parece que o pior já passou e agora é possível esperar uma melhora daqui para frente, ainda que de forma gradual e volátil, voltando para algo ao redor de 1% a.a. ao longo dos próximos anos. Tal retorno é fundamental para garantir a solvência dos estados soberanos afetados pela crise e para restabelecer o canal de crédito privado.

Como mencionei, os BC’s do mundo todo adotaram políticas expansionistas, através de compras de títulos e empréstimos a bancos, inundando o mercado de moeda, o que por sua vez ajudou a desentupir o canal de crédito na economia. Isto tende a promover o restabelecimento gradual das condições necessárias para o crescimento do investimento e do consumo privado no médio prazo.

Vejam abaixo o que aconteceu com o balanco do FED ( total de ativos comprados pelo BC americano e carregados em sua carteira) neste período de 5 ano:

Vemos que o balanço do FED aumentou consistentemente desde 2008 ( linhas vermelhas , branca e verde), porém com períodos de aceleração mais forte, como visto em 2008, no início de 2011 ( amarelo) e mais recentemente (lilás). Nestes  períodos o FED iniciou expansões mais agressivas de seu balanco, “imprimindo” o dinheiro usado na compra de títulos de médio e longo prazo, encharcando o mercado com liquidez, num montante hoje que chega a mais de US$ 3 tri.

Este movimento provocou uma forte queda das taxas de juros de longo prazo, como podemos ver no gráfico abaixo que mostra a evolução da taxa de juros dos títulos de 10 anos dos EUA desde 2008:

Vemos que desde 2010 as taxas de juros caíram de 3,5% a 4% a.a. para quase 1.5% a.a. em meados de 2012 ( marcado em amarelo) . Uma queda dramática das taxas, o que representou uma valorização de mais de 15% em tais papéis neste período.

Desde o final de 2012 tais taxas voltaram a subir ( vermelho )  com os sinais de melhora na economia americana, apesar dos problemas com o debate político sobre o programa de redução de gastos públicos daquele país. A melhora do quadro econômico permite uma expectativa mais positiva com relação ao crescimento futuro e, portanto, sinaliza taxas de juros maiores no futuro.

Assim, na cabeça daqueles que não acham que esta seja a crise definitiva do capitalismo, é natural ter alguma opinião a respeito do processo de normalização das taxas de juros de longo prazo, taxas que tendem a antecipar os movimentos das taxas de juros de curto prazo fixadas pelos BC’s. Ou seja, as taxas longas se movem bem antes do movimento das taxas do BC.

Neste cenário de normalização gradual da economia, é bastante razoável espera em algum momento nos próximos meses ou anos uma elevação destes juros de 10 anos que hoje estão ao redor de 2% a.a. , para algo entre 3 e 4% a.a. num primeiro momento.

Para se ter uma visão de mais longo prazo, veja abaixo as evolução da mesma taxa desde 1995:

Vemos que as taxas já vinham caindo desde 95 ( vermelho) quando estavam ao redor de 6% a.a. Elas se estabilizaram em 2004 ( azul claro), caíram com a crise de 2008 para cerca de 3,5% a.a. (verde) , e desabaram para menos de 2% com as ações do FED mais recentemente. Ou seja, há um espaço importante para uma elevação dos juros internacionais de longo prazo nos próximos anos ainda que seja em ritmo gradual. Acho improvável que os juros voltem para 6% a.a. pois há ainda uma digestão dos excessos de endividamento público e privado que deve ocorrer nos EUA e na Europa, o que deve limitar uma aceleração maior da economia. Logo, seria razoável esperar que taxas de longo prazo não superem os 4% a.a. nos próximos 5 anos pelo menos.

Porém é bem razoável esperar juros de longo prazo de 3 ou 3.5% a.a. num horizonte não muito distante. O que não sabemos é se isto ocorrerá daqui a 1 ano ou em 3 anos, porém para quem não acredita que esta seja a crise final do capitalismo, é esperado assumir uma trajetória crescente de juros de longo prazo nos EUA .

Isto tem enormes implicações para preços de ativos, porém é algo que pretendo abordar em outra oportunidade.

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12 comentários | Comentar

  1. 62 ernesto coutinho 14/03/2013 8:23

    caro ricardo,

    leio com frequencia sua coluna.

    em artigo anterior vc finalizou com:

    ” Isto tem enormes implicações para preços de ativos, porém é algo que pretendo abordar em outra oportunidade”

    Gostaria de saber quando vc irah abordar o tema em relacao a preco dos ativos.

    muito obrigado.

    ernesto

    • Ricardo Gallo 14/03/2013 10:47

      em breve. obrigado pelo comentario….ainda eh cedo… ainda eh cedo… deixa passar o sequestro de gastos publicos nos eua e a questao politica italiana…. mais para maio…

  2. 61 carlos 27/02/2013 17:34

    obg, pela resposta. Qt ao consultor tenho poucas condicoes. Mas vou continuar estudando o assunto e lendo seus comentarios.

    • Ricardo Gallo 27/02/2013 17:49

      pd: desculpe mas de fato nao posso dar opinioes de investimento assim por questoes regulatorias. sou regulado em minhas atividades pela anbima e cvm…

    • Ricardo Gallo 27/02/2013 17:48

      procure seu banco. para quem nao quer risco e pensa no longo prazo, ter investimento em ntnb via tesouro direto é bom. porem eu recomendo as que nao pagam juros intermediarios, aquelas que tem juros descontado na frente.

  3. 60 carlos 26/02/2013 19:30

    Gallo,

    voce acha que vale apena continuar aplicando em titulos indexados a inflacao????

    • Ricardo Gallo 27/02/2013 10:09

      depende… de quanto voce ja tem, de sua idade, do que pretende fazer com a grana…. sugiro que voce converse com um consultor especializado…

  4. 59 J.Leite 22/02/2013 21:04

    Com o governo vai aumentar a taxa selic? Ja estamos com crescimento do PIB proximo de zero. Se aumentar o juro agora o país entra em recessão.

  5. 58 Marconi 22/02/2013 20:07

    Gallo, dah uma dica ai sobre os ativos. Queda no preço dos imóveis?

    • Ricardo Gallo 22/02/2013 21:03

      nao acho, depende do local. fala com especialista….

  6. 57 Frabengis 21/02/2013 22:52

    O maximo que os EUA aguemntam pagar de juros é zero % reais, mais que isto eles quebram

    • Ricardo Gallo 22/02/2013 21:04

      sei.. pib deles andou o dobro do nosso….

  7. 56 JIL 21/02/2013 19:49

    Complementando com alguns números sobre liquidez internacional…

    Evolução da base monetária das maiores economias de janeiro de 2008 a janeiro de 2013:

    Reino Unido: +362% (de £ 73 bi a £ 338 bi);
    EU: +230% (de USD 831 bi a USD 2.742 bi);
    Japão: +47% (de ¥ 90 tri a ¥ 132 tri);
    Zona do Euro: +32% (de € 3.848 tri a € 5.086 tri).

    Faltaria complementar com os mesmos dados para China e Brasil.

  8. 55 Fabrício 21/02/2013 17:06

    Gallo, será que o Brasil não cresce, apesar da Selic baixa e de todos os incentivos dados pelo governo, justamente devido ao ambiente de incerteza causado por outro lado, pelo próprio governo, devidos às intervenções meio atabalhoadas nos setores elétricos e da Petrobrás, entre outros? Outro tema interessante que você poderia abordar é a maneira que o governo mata o mercado de empréstimos de longo prazo através do subsídio do BNDES, que um economista já chamou de “bolsa empresário”.

    • Ricardo Gallo 22/02/2013 21:04

      irei..irei…. a estatizacao do sistema bancario.

  9. 54 JIL 21/02/2013 12:12

    O maior risco de instabilidade para as finanças, cambio, comércio e economia internacional seria um descompasso grande e persistente entre uma economia americana que voltaria a crescer, com juros ascendentes e economias europeia e japonesa ainda deprimidas e juros perto de 0.
    A famosa guerra cambial do Guido é isso: vai ver quantas centenas de bilhões de dolares os EU, RU e Japão despejaram de liquidez no mercado desde a crise de 2008. Como isso não afetaria o cambio? A Europa não pode despejar tanto quanto Japão, Reino Unido e Estados Unidos; o Euro continua alto demais, o que constitui fator agravante na sua hipotética retomada.

  10. 53 Alexandre 20/02/2013 18:38

    Boa noite Ricardo tudo bem?
    Concordo com voçê que o pior da Crise Financeira tenha passado, desde que tenhamos conciência e responsabilidade do que a causou.

    • Ricardo Gallo 21/02/2013 11:16

      impossivel….. é da natureza humano cometer alguns excessos…..e o capitalismo é um terreno fertil….

  11. 52 Diego 20/02/2013 16:38

    Gallo,

    Até que ponto um aumento nos juros externos pode contribuir para elevação da SELIC, já que precisamos atrair investidores externos?

    • Ricardo Gallo 21/02/2013 11:18

      precisamos de muito pouco capital externo para financiar nosso deficit de conta corrente e temos muita reserva. logo, nao vejo risco neste front. se selic subir é pq bc esta desconfortavel com inflacao e nao preve desaceleracao da economia aqui…

  12. 51 walace 20/02/2013 10:38

    Good!

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