Publicidade

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013 Juros no Brasil, Politica Economica | 14:09

A retórica monetária do BC do B

Compartilhe: Twitter

Recebi o texto abaixo com uma excelente análise do que podemos esperar da próxima reunião do COPOM, texto preparado pelo pessoal do Banco Original:

Uma opinião sobre a provável decisão do Copom na semana que vem seria facilitada pelo comunicado das últimas três decisões, segundo o qual a estabilidade das condições monetárias por um período de tempo suficientemente prolongado é a estratégia mais adequada para garantir a convergência da inflação para a meta. Como se entende por período prolongado mais que quatro meses e meio, a afirmação levaria a crer na manutenção da taxa e na repetição do comunicado pela quarta vez.

Ocorre que o balanço de riscos para a inflação alterou-se significativamente, ao ponto do comunicado de janeiro reconhecer que o balanço apresentou piora no curto prazo e a comunicação posterior, por meio de discursos e entrevistas, sinalizar que a inflação continuará pressionada por todo o primeiro semestre.

A ata da última reunião em janeiro também promoveu outra mudança ao afirmar que a recuperação menos intensa da atividade se deve essencialmente a limitações no campo da oferta e, por essa razão, não podem ser endereçadas por mais estímulos da política monetária à demanda.

Os últimos dias viram também uma sinalização forte, quando o presidente do Banco Central disse – provavelmente pela primeira vez desde o início dos cortes em 2011, que o seu objetivo é a inflação e não o crescimento.

Todo esse esforço para alterar o discurso aponta, portanto, para a manutenção da taxa Selic em 7,25%, porém acompanhada de algum ajuste no comunicado da decisão. Um ajuste óbvio seria reconhecer que a piora da inflação irá além do curto prazo, o que já foi feito em declarações. Porém, o ajuste mais importante seria retirar a menção ao período prolongado, ou condicionar a estratégia da estabilidade do juro à evolução da inflação.

Uma razão para esse ajuste é a constatação que a manutenção do juro por um período prolongado deixará de ser a estratégia mais adequada caso a inflação suba muito além do previsto. Uma pista para a possibilidade de alguma condicionalidade da estratégia ao cenário é a (falta de) reação à alta contínua das taxas de juros de 1 e 2 anos, pois os membros do Copom continuaram afirmando ao longo de fevereiro a sua preocupação com a inflação, o que mostra conforto com a alta das taxas de juros mais relevantes para a política monetária e uma provável disposição de sustentá-las mais elevadas através do comunicado da decisão semana que vem.

A magnitude do ajuste no comunicado ao ponto de apenas abrir novas possibilidades de política, além da atual estabilidade prolongada, ou chegar ao ponto de sinalizar uma alteração mais iminente de política, encontra-se numa zona de difícil avaliação.

O motivo principal é a necessidade de ajustar tão rapidamente uma estratégia pensada para um período prolongado, exatamente num momento tão esperado pelo governo como um todo.

Como se sabe, o Banco Central desistiu de estabilizar a inflação em agosto de 2011 quando realizou um corte surpresa e passou a destacar o risco de desaceleração do crescimento. Os membros do Copom também aceleraram o ritmo de corte e estenderam o ciclo até outubro  passado, sempre na justificativa que o baixo crescimento da economia global iria ter impactos sobre a inflação brasileira, assim como as medidas de redução de impostos e preços específicos iriam contribuir para a convergência da inflação de volta a meta.

O principal evento da estratégia para administrar a inflação se dá justamente agora. A redução de 18% na energia elétrica para o consumidor desconta diretamente 0,6 ponto percentual da inflação, ao mesmo tempo em que a redução de até 32% na energia elétrica para uso industrial, associada à transferência dos encargos sociais sobre a folha para o faturamento, cria a expectativa (especialmente para o governo) que a redução dos custos industriais terá impactos deflacionários para os preços industrializados.

A necessidade de tempo para a observação dos possíveis efeitos indiretos da queda da energia sugere que o comunicado pode apenas aumentar a flexibilidade para decisões futuras, uma forma de ganhar tempo e manter a expectativa de elevação da taxa Selic embutida na curva futura, o que cria um ligeiro aperto monetário enquanto se observa os preços (e o ritmo de recuperação do crescimento).

O aumento da flexibilidade é possível mesmo com a manutenção da sinalização que a estabilidade das condições monetárias por um período de tempo suficientemente prolongado é a estratégia mais adequada. Basta que esta mensagem seja combinada a uma alteração que sinalize que o Banco Central está acompanhando a evolução da inflação.

Esta linguagem, no passado, permitiu sinalizar o período de manutenção e evoluir do acompanhamento para o monitoramento da inflação quando se tornou necessário sinalizar que a mudança das condições monetárias é iminente. Esta simples mudança já é suficiente para mostrar uma alteração da estratégia da política monetária, pois o período prolongado vai se tornar condicionado à evolução da inflação (e ao ritmo de atividade).

Outro aspecto que sugere que o Banco Central ainda prefere ganhar tempo é a insistência com que a comunicação por declarações públicas afirma que a inflação recua no segundo semestre. A insistência e o prazo mostram exatamente o desejo e a necessidade de tempo para se avaliar o efeito deflacionário das medidas.

A combinação desta comunicação com a necessidade de tempo para se avaliar os efeitos da redução da energia elétrica (e da alta da gasolina) aponta para uma alteração marginal no comunicado da manutenção da taxa Selic em 7,25%, no qual a mensagem do período prolongado apareceria junto com o acompanhamento do cenário. Este será o primeiro passo até o momento em que a taxa Selic será novamente elevada para um nível, no mínimo, semelhante ao neutro.

Sem a pretensão de acertar o texto do anúncio da decisão, uma combinação de textos passados mostra abaixo a possível alteração do comunicado na semana que vem. Caso a opção seja pela retirada completa do período prolongado e a adoção somente doacompanhamento do cenário para definir os próximos passos, neste caso, estaremos muito próximos de uma alta de juros.

Último Comunicado

16/Jan/2013: O Copom decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 7,25% a.a., sem viés. Considerando o balanço de riscos para a inflação, que apresentou piora no curto prazo, a recuperação da atividade doméstica, menos intensa do que o esperado, e a complexidade que ainda envolve o ambiente internacional, o Comitê entende que a estabilidade das condições monetárias por um período de tempo suficientemente prolongado é a estratégia mais adequada para garantir a convergência da inflação para a meta.

Possível alteração

6/Março/2013: ” O Copom decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 7,25% a.a., sem viés.   Considerando o balanço de riscos para a inflação, a recuperação da atividade doméstica, e a complexidade que ainda envolve o ambiente internacional, o Comitê entende que a estabilidade das condições monetárias por um período de tempo suficientemente prolongado é a estratégia mais adequada para garantir a convergência da inflação para a meta. O Comitê irá acompanhar a evolução do cenário macroeconômico até sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária.

Reuniões seguintes do Copom:     17/abril;  29/maio;  10/julho;  28/agosto;  9/outubro;  27/novembro.

Marcelo Petersen Cypriano

Pitaco do Gallo:

Concordo com a análise no geral.  Faz todo sentido.

Além disto acho que BC está bem inseguro com relação a velocidade  e a sustentabilidade da retomada da economia.

Veja nos gráficos abaixo a razão:

O gráfico acima mostra a evolução do  ( LOG) PIB mensal dessazonalizado , estimado pelo time de economistas do Banco Itau, desde 2004.  Destaquei os 3 últimos ciclos de alta. Em verde escuro a aceleração entre 2004 e 2008, que foi interrompida pela crise nos EUA. Em verde claro temos a retomada desde 2009 até 2011, que, como vemos na reta verde claro, teve uma aceleração similar à ocorrida no ciclo anterior ( reta verde escuro). Porém vemos que o crescimento desde o início de 2011 vem com intensidade menor ( reta amarela) e menos vigor.

O mesmo pode ser visto no gráfico abaixo que mostra a evolução da taxa de crescimento das vendas no varejo e a sua média móvel de 6 meses em vermelho:

Notamos que a taxa de crescimento tem mostrado uma certa tendência de queda ( em amarelo), embora ainda esteja andando acima da taxa média do período ( reta fina horizontal no meio do gráfico) mas abaixo dos picos de 2010 e 2008.

Enfim é cedo para afirmar que a retomada da atividade esteja perdendo gás na margem, porém também é cedo para afirmar que ela será vigorosa e sustentável.

Portanto dá para entender o medo do BC em subir os juros…. imagina abortar a retomada justamente agora?

Ps: gostaria de destacar uma coisa interessante levantada pelo Marcelo: pode ser que o BC do B esteja tentando subir o juro na retórica apenas, ou seja, ao adotar um discurso mais agressivo no combate a inflação recentemente, ele causou uma elevação dos juros de 2 anos, que saíram de 7,8% a.a. em meados de Janeiro ( marcado em verde) , para cerca de de 8,4% a.a. ( em amarelo), como vemos no gráfico abaixo:

De fato, falar custa menos politicamente do que subir os juros, pois o mercado acaba fazendo o serviço sujo por algum tempo. Porém o mesmo mercado pode vir a derrubar os juros caso perceba que o BC do B não pretenda de fato elevar juros…. Ou seja, não dá para terceirizar a execução da política monetária por muito tempo, pois esta estratégia de retórica tem prazo de validade. Torçamos para que até lá a inflação tenha caído…

Autor: Tags:

5 comentários | Comentar

  1. 55 Diego 05/03/2013 13:14

    Gallo,

    Tenho lido alguns comentaristas que, de certa forma, criticam a forma como o BNDES vem ofertando recursos ao mercado, pois segundo o pensamento isso prejudicaria a formação de um mercado de crédito saudável com a participação dos bancos privados.

    Minha dúvida é: Foi publicado que o nível de poupança na economia brasileira caiu de 17% para 14%, com esse nível de poupança o mercado teria forças para financiar os investimentos necessários sem a participação do governo via BNDES??

    • Diego 05/03/2013 19:26

      Obrigado pelo esclarecimento!!

      Um detalhe seria a garantia desses bonds, porque em geral nós, meros mortais que não entendemos de economia, compramos títulos do governo com nosso dinheirinho suado pela segurança e rentabilidade garantida, mesmo que baixa.

      Novamente muito obrigado, suas análises são muito esclarecedoras!

    • Ricardo Gallo 06/03/2013 11:03

      olha, gestores de fundos poderiam comprar estes bonds… e eles fariam a selecao e a diversificacao da carteira, como ocorre no mundo todo ….. ai todos nois mortais poderiamos aplicar nestes fundos… eh assim no resto do mundo menos na terra da jabuticaba….isto nao resolve contudo a flata de poupanca….heheh

      obrigado e por favor continue comentando.

    • Ricardo Gallo 05/03/2013 15:07

      a. de fato o bndes ao praticar estas taxas subsididas e de forma dirigida acaba distorcendo o processo de alcoacao de capital na economia…

      b. de fato o bndes ao praticar juros subsidiados forca que juros necessarios para o resto da economia tenham que ser maiores…. eles de fato reduzem os efeitos da politica monetaria

      c. como nao ha poupanca, nem publica nem privada, nao faz a menor diferenca ter bndes emprestando ou setor privado… bndes para poder emprestar emite titulos que sao comprados pelo tesouro, que por sua vez emite titulos que sao comprados por nos, aqueles mesmos que nao tem a poupanca.. logo este argumento de falta de poupanca nao voa… se nao ha poupanca privada nao ha publica…logo…

      d. o bndes simplesmente serve como um subsidiador e como uma alternativa ao mercado de capitais…. por causa do bndes o mercado de capitais local nao voa…

      pergunto: nao seria mais simples as empresas emitirem os bonds diretos no mercado e o governo, via tesouro, desse um subsidio direto aos tomadores de tal forma que reduzisse o custo de tais papeis??? com isto eliminariamos dois intermediarios: bndes emprestando e tesouro emitindo….

      enfim…

  2. 54 Marconi 01/03/2013 22:07

    Tá mais do que na cara que é só discurso. Aposto R$100,00 que a taxa selic não vai subir nem 0,25%. Juros só pra baixo e deixa rolar a inflação.

    • Ricardo Gallo 03/03/2013 13:41

      comigo nao tem aposta… acha outro …. tamo na mesma ponta.

  3. 53 Ricardo 01/03/2013 21:45

    E agora, a política de valorização do crédito dos governos LUDILMA, está trazendo efeitos perversos na economia. Houve aumento de crédito, inflação em alta e povo endividado. Como o governo pode retomar a economia se o povo está endividado???

    1 – Se aumentar os juros, PIB pode cair, mas inflação pode arrefecer;
    2 – Se não aumentar os juros, PIB pode retomar mas inflação continua alta;

    ou
    3 – Pior hipótese: aumenta os juros, PIB cai, inflação continua ascendente. Estagflação???

    • Ricardo Gallo 03/03/2013 13:41

      calma…. acho que vai ter um certo impulco dos investimentos… e popularidade da presidenta ta alta…

  4. 52 carlos rocha 01/03/2013 11:17

    O mercado já precificou um provavel aumento de juros; salvo engano, da ordem de 1 a 2 pontos percentuais; Não aumentar os juros não aumenta essa expectativa e acaba causando um aumento maior dos juros? aumentar agora pode acabar sendo benéfico; enfim…

    • Ricardo Gallo 01/03/2013 17:02

      sim. porem veja dados do pibinho…..logo...bc nao devia ter baixado tanto os juros…. agora para corrigir vaoi ter que ser muito delicados…..

  5. 51 carlos 28/02/2013 14:28

    excelente análise

    • Ricardo Gallo 28/02/2013 16:31

      gracias

  1. ver todos os comentários

Os comentários do texto estão encerrados.