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quinta-feira, 14 de março de 2013 Câmbio, Inflação, Juros no Brasil, Politica Economica, Sem categoria | 12:46

A política da âncora "isentomonetária"

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Sou de uma geração que sentiu na pele o sofrimento de viver em uma hiperinflação. Preços que subiam em média 2 ou 3% ao dia. Salários eram reajustados mensalmente com base na inflação passada, mas que não conseguiam acompanhar a aceleração dos preços. Imaginar hoje em dia uma situação destas é como criar uma experiência surreal, algo muito fora do alcance das mentes das novas gerações, que sempre viveram numa economia onde tais fatos não povoam nem os mais tenebrosos pesadelos. Estamos hoje muito, mas muito longe disto. Ainda bem.

Eu também me recordo dos inúmeros esforços heroicos e criativos tentados ao longo de vários anos visando combater a inflação cronica que nos assombrava:

. congelamento de preços

. prisão de especuladores

. confiscos monetários

. ancoras cambiais

. mudanças de moeda

. contingenciamento na oferta de crédito

. depósitos compulsórios sobre bancos

e por a foi…

Em todas estas tentativas  tinha-se como objetivo reduzir a inflação, porém minimizando o custo social que é natural em tais batalhas. Um objetivo bastante justo.

Porém, na  medida em que o custo social de se combater a inflação subia, o governo perdia sustentação política e afrouxava seus esforços,  o que acabava frustrando a tentativa de debelar a dita, que voltava cada vez mais forte depois de cada fracasso.

A coisa foi assim até que,  através de um sequenciamento correto de medidas tomadas durante vários anos e por três presidentes de diferentes partidos, a inflação foi finalmente domada  e estabilizada. Foi um processo longo e  doloroso, porém os resultados estão aí. São mais de 15 anos com uma inflação civilizada.

Aprendemos muito com isto tudo e este conhecimento é um patrimônio de nossa sociedade que precisa ser usado e resgatado sempre que necessário.

Pois bem, eu acho que  é momento de pelo menos refletir um pouco sobre algumas ações do governo atual no que diz respeito ao combate à inflação.

O governo Dilma decidiu adotar uma política mais intervencionista visando reduzir os preços de alguns produtos e serviços que pesam bastante no IPCA através de medidas administrativas e tributárias. Tais medidas visam reduzir o custo dos produtos consumidos  e produzidos no país, o que é algo louvável. Este tipo de medidas se tornou mais frequente assim que a inflação tomou um trajetória ascendente no final de 2012. O governo atua visando reduzir a aceleração dos índices de preços. Com isto a inflação medida pelo IBGE ficaria contida o que retardaria ou até mesmo eliminaria a necessidade de uma elevação dos juros pelo BC do B.

Até aqui tudo isto faz enorme sentido. Juros maiores geram um custo maior na rolagem da dívida pública e uma redução na taxa de investimentos, tão necessários neste momento. Como um amigo me diz, é um objetivo bacana, porém a questão reside em sua viabilidade no mundo real…

Eu apelidei está política de isentomonetária, já que nesta política:

a. o governo aumenta seu déficit, reduzindo a arrecadação de impostos sem uma contrapartida de redução de despesas;

b.o governo espera que tais desonerações sejam repassadas para os preços praticados, implicando em queda temporária dos índices de inflação;

c. aí ele espera que tais quedas temporárias reduzam as expectativas com relação a inflação futura, ajudando na convergência da dita para a meta, ou melhor, evitando que tal inflação fique acima do que foi em 2012, que parece ser a novo objetivo do BC de acordo com entrevista do Presidente do BC do B.

Enfim, é uma maneria bastante criativa de atuar no canal das expectativas, pois na forma tradicional de política monetária praticada há anos pelos inflation targeters, como menciona o Mr Bernanke no texto http://www.federalreserve.gov/Boarddocs/Speeches/2003/20030325/default.htm , utiliza-se  mudanças nas taxas básicas de juros para ajustar as expectativas de inflação e com isto induzir os agentes econômicos a praticar preços condizentes com as metas de inflação do BC. A ideia é simples: se a inflação dá sinais de baixa, o BC antecipa tais movimentos e reduz os juros, sinalizando que não pretende tolerar uma inflação abaixo do target por muito tempo, e vice versa. Com o tempo,  o BC ganha credibilidade e são precisos movimentos cada vez menores das taxas de juros para trazer as expectativas e a inflação corrente para dentro do alvo, reduzindo assim o impacto desta flutuação dos juros na atividade econômica. Foi adotando esta visão que fomos capazes de manter a inflação estável nos últimos 12 anos.

Parece que o governo está inovando mais uma vez neste front adotando as “ancoras desonerantes” para os preços.

Não creio que isto tenha sido testado com sucesso em nenhum lugar do mundo,  em particular quando:

a. há um quadro clássico de falta de oferta na economia e não de falta de demanda. O BC reconhece isto na Ata de sua última reunião;

b. há um quadro de aceleração forte nas expectativas de inflação e da inflação prevista nos modelos do próprio BC do B, tanto para 2013, como também para 2014, quando os efeitos diretos dos choque positivos de preço desonerados acabam;

c. o BC trabalha com uma recuperação forte da economia para segundo semestre, o que traz mais demanda e, portanto, uma maior probabilidade de que tais desonerações não sejam repassadas aos preços praticado, como mostra a tal da lei da procura e da oferta;

d. a suposta economia gerada pela redução dos gastos com os itens desonerados não irá ser poupada necessariamente, algo que reduziria a demanda agregada. Tal economia de gastos pode liberar espaço no orçamento das famílias para gastos adicionais em  outros itens, como serviços, cujos preços estão disparando e pressionando o mercado de trabalho. O próprio BC reconhece em sua ata no parágrafo 28 que a inflação está espalhada em vários itens. E o próprio BC atesta em sua ata que o mercado de trabalho está com pouca ociosidade;

e.  há sinais que a utilização da capacidade ociosa na industria esteja subindo ( gráfico abaixo marcado em vermelho)  e entrando em níveis onde há uma tendencia de recuperação de margens por parte dos empresários, apesar do BC não reconhecer o fato mostrado no gráfico abaixo:

f. o próprio BC afirma em sua ata no importante parágrafo 27 que precisa do dólar baixo ( os tais dos ativos reais e financeiros) pois ele ajuda a segurar a inflação. OU seja, nem o BC acredita na ancora desonerante..

g. há uma questão de consistência aqui: quando o preço de alimentos sobe por que um fator externo anormal e não recorrente faz com que a inflação suba  ( devido a secas ou chuvas excessivas ), o BC tende a ignorar a alta e trata-la como choque temporário, certo? Por que não tratar tais desonerações da mesma forma, uma vez que não dá para ficar desonerando tudo todos os anos sem cortar gasto público??

Enfim, acho que o experimento isentomonetário apresenta um elevado risco a esta altura. Elevadíssimo.

Como não sou economista, apenas observador, peço ajuda aos Universitários, como naquele programa de TV.

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11 comentários | Comentar

  1. 61 JIL 20/03/2013 13:40

    Fiquei estarrecido pela ginastica incrível ao qual se livrou o eminente economista no artigo publicado (link da folha). Para mim o fato de precificar as quantidades produzidas em um ano pelos preços de um determinado ano anterior (os “preços constantes”) invalida justamente o raciocínio ao qual ele se deixa levar. A preços constantes não há como raciocinar em termo de percentuais de participação em PIB…

    Não deixo de concordar com ele e com o colunista sobre o potencial de crescimento brasileiro, produtividade do trabalho, formação da mão de obra, etc…

    • Ricardo Gallo 20/03/2013 15:30

      viji… mas onde a coisa pega? veja as contas externas… com este pibinho e tudo… ai coisa pega…

  2. 60 Walistton Silva 17/03/2013 19:59

    A defesa da moeda foi abandonada?
    Se a Dilma deixar para cuidar da inflação só depois que se reeleger, as meidas serão bem mais duras, isso se você ganhar, claro>

  3. 59 Bruno Aguiar 17/03/2013 14:00

    Ricardo, você poderia fazer um artigo comentando este artigo:

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/98981-anular-efeito-de-precos-muda-debate-sobre-modelo-de-crescimento.shtml

    • Ricardo Gallo 18/03/2013 13:05

      ps: de fato nao acho que tenha caido,. eu acho que nunca foi 4%…. era 3 , eh 3 e serah 3….

    • Ricardo Gallo 18/03/2013 11:52

      Diante disso, afirmar que o potencial de crescimento brasileiro despencou de 4% para 3% ou menos nos últimos dois anos -sem que tenha acontecido alguma guerra, desastre natural ou epidemia no meio do caminho- soa conflitante com os números expostos acima. Isso não quer dizer que novas medidas para estimular os investimentos e aumentos de produtividade não sejam bem-vindas -afinal, o Brasil ainda investe menos do que a média internacional (sobretudo em infraestrutura) e o nível de nossa produtividade também não é dos melhores.

      há varios posts meus na categoria politica economica onde falo isto ha meses… meses…

      http://ricardogallo.ig.com.br/2012/05/30/desemprego-continua-baixo-assim-como-a-produtividade-do-trabalho/

  4. 58 Lauro 16/03/2013 18:20

    Gallo,

    O problema é que Dilma tem uma visão demasiada keynesiana e monetarista elevando a inflação.
    O consumo e o investimento são concorrentes e o investimento pressupõe poupança. A Formação Bruta de Capital, serve hoje de radiografia para se perceber o que será a economia brasileira amanhã.
    Então, o que fazer para aumentar poupança interna? Dou algumas ideias:
    – Podia se pagar o 13º e 14ª dos servidores em títulos de tesouro
    – Colocar um teto no pagamento das pensões
    – Diminuir o número de feriados (aumento de produção e diminuição do consumo aliviava a pressão infaccionista)

    O que achas?

    • Daniel 17/03/2013 22:42

      Olha Poupança = investimento ou S=I é uma mera identidade contábil, se a poupança se tornasse toda ela em investimento, como explicar o Japão, dono de alta taxa de poupança estar
      estagnado a algum tempo, e não da para dizer que foi o choque exogeno do tsunami.Acredito que é necessário para haver investimento não só poupança mas também mecanismos de financiamento , pois no Brasil so quem financia a longo prazo a grosso modo é o BNDES.

    • Ricardo Gallo 18/03/2013 11:47

      sim. porem meu caro se aumentarmos investimento sem poupanca arregaca o deficit externo…. veja meu proximo post…

    • Ricardo Gallo 17/03/2013 1:32

      ps: nos ja pagamos o salario dos servidores com titulos publicos…. como tesouro tem deficit nominal, uma parte dos salarios e das despesas publicos sao financiadas com divida….

    • Ricardo Gallo 17/03/2013 1:27

      boas ideias….porem eh mais facil onerar consumo com impostos e desonerar lucro das empresas que investirem….. ai vai mais facil…..com mais lucro empresas investem mais…

      e cortar empregos publicos….

      e obviamente mudar regras da aposentadoria…..

  5. 57 carlos 16/03/2013 9:40

    Belo post! essa política intervencionista, pode não se sustentar durante mt tempo!

    • Ricardo Gallo 16/03/2013 10:49

      obrigado

  6. 56 Mauro 15/03/2013 20:01

    Mais um post muito bom, parabéns.

    Síndrome do sapo fervido “na veia”. O governo está aí há uns bons anos fazendo besteira, o BC se juntou à empreitada mais recentemente.

    Fazemos tudo errado, sempre otimistas, acreditando que temos os instrumentos necessários e que no final vai dar tudo certo . Mas, incrível, as coisas já começam a dar errado – e provavelmente vão seguir assim. Simples, não?

    Lembrando que a sua geração (que também é a minha) pegou o auge de um processo inflacionário resultante de décadas de política econômica equivocada. Algo bem parecido com o que temos agora, mas que por algum motivo nos recusamos a acreditar.

    Sou economista, conheço um pouco dessa história toda e entendo que as coisas estão se repetindo. Não é exatamente igual (e nem poderia), mas vejo bem mais semelhanças com nossos erros passados do que eu gostaria.

  7. 55 Daniel 15/03/2013 11:56

    Bom post, é bom saber da expectativa de um homem de mercado, o grande problema Gallo é que o governo dilma é muito heterodoxo, isto não quer dizer que este pensamento não deva se preocupar com a inflação, mas no caso deste governo parece ser bem leniente.Outro problema é com relação as expectativas racionais, dado que o governo diz que a meta de inflação é 4,5%, mas parece que persegue 6,5%, isto gera incertezas aliado a intervenção pontual na economia visando amenizar o impacto inflacionário via redução de impostos como os da cesta básica piora ainda mais o cenário inflacionário. Lembrando-se que a gestão lula 2003-2010 construiu toda uma credibilidade com o mercado, e por muitas vezes foi demasiadamente ortodoxo, que o governo dilma insiste em debelar. Com isto mesmo com a selic a níveis baixos, pelo menos no caso brasileiro, o investimento não deslancha, dada a incerteza que o governo gera por meio das expectativas.

    • Ricardo Gallo 15/03/2013 13:13

      pois é…. chato… .pois adoro os caras do bc. sao gente serissima. e competente pacas.

  8. 54 carlos rocha 15/03/2013 10:55

    Ola bom dia

    Como sempre, análise extremamente clara e coerente; Eu tambem pertenço a essa geração

    que conviveu com a hiperinflação e tambem com , enfim, as providencias que conseguiram

    manter as coisas sob controle; Não sou daqueles que acham que em time que está ganhando não se meche, as coisas mudam e precisamos estar em constante adaptações;

    Não da para aceitar, entretando, que se abandone a politica de juros quando se percebe claramente que não está dando resultado;
    Talvez os gringos tenham razão e está na hora de trocar um determinado professor…

    • Galo cego 16/03/2013 3:51

      A verdade é que a posição ideológica desde governo não permite que ele tome as medidas dolorosas e vamos empurrando com a barriga..

    • Ricardo Gallo 15/03/2013 13:15

      nao gosto de personalizar as culpas. nao acho que o problema eh de pessoas mas de ideologias e de uma falta de transparencia ao comunica-las….

      eles precisam ser mais transparentes e mudar o que acham que precisa ser mudado de forma clara e direta e assumindo o custo politico da mudanca eassim como colhendo os beneficios.

  9. 53 Marconi 14/03/2013 16:37

    Belo post! Estamos no rumo da estagflação.

    • Ricardo Gallo 14/03/2013 16:57

      haha…nem tanto… porem vale a pena ler o paper do bernanke…

  10. 52 Ricardo 14/03/2013 16:18

    Eu tenho ouvido mta ladaínha pra uma coisa bem básica. O governo dá um aumento de 14% num ano pros aposentados + assalariados mínimos e mete mais 9% no ano seguinte. A economia não cresce nem 3% no combinado dos dois anos. A poupança interna cai de 17,8% pra pouco menos de 15% do PIB em apenas 12 meses.

    É uma mistura de expansão monetária com uma absurda queda na poupnaça interna (sinal que a população tá torrando mesmo as reservas, já que não vale a pena poupar), sem qqr aumento da produção do país.

    No mesmo passo vem o mantega e pá, mete dolar lá a altura e ainda enche de cota, imposto e o kct pra evitar importação.

    Em questão de 12 meses o governo conseguiu numa tacada só restringir a oferta e “enriquecer” a população, daí agora acha que a inflação vai cair por gravidade. haha, isso aí vai dar um belo case de como não gerenciar a economia pros próximos 100 anos.

    • Galo cego 16/03/2013 3:49

      Concordo,falei isso quando o governo indexou o salário mínimo ao pib/inflação…..

  11. 51 Fabrício 14/03/2013 15:29

    Parabéns pelo post! Bélissima análise! Acho que o governo tem que voltar ao que é normal, e deixar de querer reinventar a roda. Segurar os preços na unha, através da Petrobrás, por exemplo, fazendo a empresa começar a ter prejuízo, ou interferências atrapalhadas no setor elétrico, o que fazem com que; o mercado de alcool caia, pois com a gasolina artificialmente barata, não se tem incentivo ao produtor nem ao consumidor de etanol, e pode atrapalhar os investimentos no setor elétrico, podendo causar futuros apagões. Ainda não chegamos como na Venezuela, em que a gasolina é mais barata que água. Um venezuelano me disse uma vez; “Nosotros deveriamos beber gasolina!”.

    • Ricardo Gallo 14/03/2013 15:32

      obrigado.

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