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sexta-feira, 21 de junho de 2013 Brasil, Politica Economica | 01:00

A economia vai pra rua!

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As manifestações recentes surpreenderam aos políticos, aos analistas políticos e a este que vos fala. Não dá para entender o que levou a turma a reclamar agora. Deixo a tarefa de explicar isto aos sociólogos, historiadores e analistas políticos. Porém gostaria de tentar analisar o pano de fundo econômico deste momento, usando uma lógica de quem observa o mercado e a economia. O texto é mais longo do que o habitual, mas creio que o momento atual demanda uma reflexão mais profunda.

Creio que estamos vivendo hoje uma manifestação social que reflete o resultado de um modelo econômico que começou torto a partir da Constituição Cidadã de 1988:

http://www.istoe.com.br/reportagens/161883_A+CONSTITUICAO+CIDADA

Sou da geração das diretas já e da abertura política. Participei das caminhadas pelas diretas e acabei tendo que apoiar a posse do então Vice Presidente Sarney eleito pelo colégio eleitoral, resultado de nossa derrota nas ruas.

O programa agressivo de investimentos públicos das empresas estatais durante os governos militares foi financiado com poupança externa, o que elevou nosso endividamento externo.  Tal modelo econômico, nacionalista e estatizante, quebrou com a elevação dos juros internacionais e com os choques do preço do petróleo nos anos 70 e 80. [ As vezes eu me pergunto se o que de fato induziu o governo do então Presidente Figueiredo a acelerar a abertura política não foi a saturação do modelo econômico.]

A solução adotada pelo novo governo, o primeiro civil em quase 30 anos, foi tentar esticar a corda e financiar os déficits públicos crescentes através da emissão de moeda. Com a moratória externa decretada em 1987, o acesso à poupança externa acabou de vez. Logo sobrava apenas o financiamento monetário. O resultado destas políticas foi um processo hiperinflacionário sem precedente em nossa história. Conquistamos a liberdade política, mas no caminho destruímos a nossa moeda. Isto não só nos impediu de atender as demandas consagradas em nossa constituição, como também reprimiu toda a possibilidade de crescimento econômico nas décadas seguintes, com efeitos nefastos na renda, consumo e investimento privado.

Cabe a leitura do texto abaixo para entender um pouco esta dinâmica:

http://www3.tesouro.fazenda.gov.br/Premio_TN/XIVPremio/divida/MHafdpXIVPTN/monografia_Tema1_Claudio_Jaloretto.pdf

Tivemos naquele instante uma situação onde um governo quase democrático era confrontado com restrições reais orçamentarias e de financiamento não conseguia fazer escolhas entre as diversas demandas da sociedade e recorria assim ao déficit público e ao financiamento inflacionário. Ou seja, ele tira do povo para dar parte de volta ao próprio povo.

A constituição cidadã de 1988, que pode ser lida no link abaixo:

(http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm

foi fruto do processo de abertura, e serviu para atender todas as demandas sociais e institucionais que foram reprimidas sob o regime militar. Tal carta impôs obrigações ao Estado ao assegurar inúmeros direitos básicos aos cidadãos. O cumprimento pleno de tais determinações constitucionais criaria um ônus ao estado, e, portanto, ao povo. Tais demandas eram impossíveis de serem atendidas dadas as restrições de oferta e financeiras daquele momento. Não tínhamos acesso ao crédito internacional. Logo contávamos apenas com a nossa poupança interna para financiar nossos gastos. E, com uma população reprimida e ainda novata na prática democrática, os governos sentiram-se obrigados a tentar atender a tal demanda social, porém sem articular uma forma de financiá-la.

Este quadro levou ao descontrole monetário absoluto que produziu uma inflação crescente. Tal inflação foi suportada pelas elites na medida em que o uso da indexação protegia parcialmente os capitais. Já os trabalhadores sofreram perdas enormes.

Inúmeras tentativas de eliminar a inflação foram postas em prática, porém nenhuma teve sucesso em interromper a inércia inflacionária que fora criada com a adoção de mecanismos formais de indexação de contratos. Além disto, a inflação em aceleração reduzia os gastos públicos e ajustava automaticamente o déficit, como descreve bem G Franco:

Dois mecanismos básicos têm operado para impedir que o déficit potencial se materialize, e ara ambos a inflação joga papel fundamental: i) a corrosão das dotações orçamentárias pela inflação; e ii) a repressão fiscal. A primeira ocorre porque as dotações orçamentárias não são perfeitamente indexadas e por isso vão sendo corroídas pela inflação ao longo do exercício fiscal. O Congresso Nacional, ao receber do Executivo o projeto de lei de orçamento, que utiliza como referência preços de maio do exercício anterior, introduz um multiplicador para o valor das dotações – que se destina a converter preços de maio do exercício anterior a preços médios do exercício corrente – que geralmente embute uma previsão muito otimista da inflação e fixa as dotações em moeda nominal. Dessa forma, a inflação se encarrega de tornar factível a execução de um orçamento que, em condições normais, i.é., com uma inflação baixa, seria irrealizável. É nesse sentido que o Executivo se torna dependente e sócio da inflação. Essa dependência se amplia dada a necessidade de se utilizar a receita do chamado “imposto inflacionário”, ou seja, a receita oriunda da emissão de moeda, para financiar o déficit remanescente. Todavia, mesmo com a corrosão das dotações pela inflação, o Executivo se vê forçado a utilizar o expediente de repressão fiscal para manter as despesas em níveis administráveis. O expediente reduz despesas de forma temporária e inevitavelmente reversível. Isto se observa, por exemplo, quando os salários do funcionalismo são rebaixados além do razoável ou quando o Executivo adia despesas incontornáveis de manutenção dos serviços e infraestrutura pública.

Após o fracasso do primeiro governo democraticamente eleito, tentamos uma experiência agressiva de controle da inflação usando o dólar como ancora de preços. Aproveitamos a oportunidade que surgiu em 1994, quando o Brasil reabriu as portas de acesso aos mercados internacionais de capitais ao renegociar sua dívida externa nos moldes do Plano Brady, seguindo o caminho de países como o México e Argentina, que recuperaram o acesso aos mercados de capitais internacionais da mesma maneira.

O Plano Real teve como objetivo inicial eliminar o componente inercial da inflação, mantendo a paridade cambial estável e juros elevados. Desta forma a inflação se reduziu o que eliminou a fonte de financiamento monetário do déficit e o imposto inflacionário como descrito por G Franco. Os turbulentos anos 90, com suas diversas crises, impediram que nossa economia mantivesse um ritmo de crescimento sustentável. Tal situação impediu que as fragilidades fiscais que se acumulavam desde a democratização do país fossem endereçadas, pois não havia ambiente ou sustentação política que viabilizasse uma complexa negociação com os diversos setores da sociedade. A fragilidade fiscal não foi corrigida, e as inconsistências entre as demandas sociais e as reais possibilidades de seu atendimento não foram sanadas. Mais uma vez um governo falhou em reconhecer a inconsistência entra o atendimento das demandas sociais existentes e as realidades orçamentárias.

A despoupança do setor público, decorrente da eliminação do tal imposto inflacionário sem a correspondente adequação dos gastos públicos, alimentou um déficit crescente de conta corrente e nosso endividamento externo. Isto, somado ao uso do balanço do setor público para oferecer proteção cambial e aos juros elevados para segurar a ancora cambial, levou a uma situação fiscal insustentável.

Chegávamos então a uma crise de confiança enorme quando a onda de crises asiáticas, nas América latina e russa testou nosso modelo econômico, forçando um abandono da chamada âncora cambial em 1999.  Fomos forçados a mudar o modelo de ancoragem das expectativas inflacionárias, com o risco de perder o controle da mesma, pois já não podíamos usar a taxa de câmbio com este propósito. O modelo então adotado se baseava no famoso tripé:

– câmbio flutuante, visando a amortecer choques externos;

– sistemas de metas de inflação, com uso da taxa de juros como instrumento de ancoragem das expectativas inflacionárias;

– maior disciplina fiscal, com metas de superávit primário e lei de responsabilidade fiscal, que impedia o aumento de gastos sem uma fonte de financiamento orçamentário.

A adoção deste tripé causou inicialmente uma forte oscilação no produto, com uma forte queda do investimento, que veio de quase 20% do PIB até 1998 para 16% em 2004. Porém o tal tripé foi capaz de impedir o descontrole inflacionário. O grosso do ajuste fiscal feito naquele momento foi centrado no aumento da carga tributária, que saiu de 29% do PIB em 1998 para 34% do PIB em 2003.  Isto fez com que o Brasil passasse a gerar superávits em suas contas externas e um enorme excedente de mão de obra. Ou seja, estava criada aí uma reserva potencial de oferta que viria acomodar o futuro aquecimento do consumo interno.

Este tripé foi posto a prova em 2003, quando o país escolheu um novo governo para comandar a nossa nação. Um governo que seria mais alinhado com as aspirações das massas que tiveram muitas de suas demandas sociais frustradas desde o final da ditadura. O Pres. Lula assumiu e decidiu continuar com o tal tripé. E assim foi possível  estabilizar a economia e mostrar aos agentes econômicos que o compromisso com a estabilidade econômica é uma condição precedente em qualquer democracia.

As demandas sociais não puderam ser atendidas naquele momento, mais uma vez, pois ainda não tínhamos construído um aparato fiscal sustentável capaz de atendê-las de forma sustentável em horizonte razoável. O custo político para o governo entrante foi muito elevado, porém os frutos de tal aposta logo foram reconhecidos. Caso tal austeridade inicial se prolongasse por mais alguns anos seria razoável esperar que o governo viesse a ceder às pressões sociais e abandonasse a essência deste tripé, como mostra a experiência recente de baixíssima tolerância política a períodos de baixo crescimento apresentada pelo governo Dilma.

Os mercados internacionais começaram a reconhecer e a valorizar a estabilidade econômica, o que fez com que o país viesse a receber fluxos crescentes de financiamento externo, atraídos por juros ainda elevados e uma economia mais estável.

A demanda pelos produtos onde temos uma vantagem competitiva e comparativa (produtos agrícolas e minerais)  foi impulsionada pelo surgimento da China como uma economia de mercado em 2001:

http://www.wto.org/english/thewto_e/acc_e/s7lu_e.pdf

Este fluxo de comércio permitiu a manutenção de um excedente nas nossas contas externas. Os juros elevados e a estabilidade econômica, aliados ao equilíbrio das contas externas, atraíram capitais internacionais e propiciaram a acumulação de reservas internacionais e uma forte valorização de nossa moeda. Este aumento da renda vinda de fora e o fluxo de financiamento externo permitiu uma expansão do crédito interno inédita, que gerou mais demanda, mais consumo, mais emprego, mais renda e mais investimento. Um ciclo positivo se instalou.

Isto gerou uma aceleração do crescimento da demanda e do investimento privado, o que começou a pressionar as contas externas. Este choque de renda externa demandou a manutenção de juros reais mais elevados, pois não tínhamos a capacidade de expandir a oferta na mesma velocidade que se expandia a demanda sem criar pressões inflacionárias.  Contudo, passamos a absorver poupança externa para financiar nossa demanda interna, o que acelerou a apreciação do R$, o que serviu para conter as expectativas inflacionárias e permitir uma queda gradual das taxas de juros reais.

A entrada de divisas exigiu que o nosso BC comprasse dólares no mercado visando impedir sua apreciação excessiva. Porém tal intervenção tinha como subproduto uma expansão monetária decorrente do aumento do passivo da autoridade monetária. Mais dólar que entrava e mais R$ era produzido pelo BC. Esta liquidez interna e externa, a estabilidade econômica e o ambiente positivo para negócios impulsionava o crédito interno que começava a crescer a taxas inéditas em nossa historia. Carros, roupas, celulares, linha branca, turismo, tudo agora podia ser financiado. Estava criado assim um mecanismo apara atender as demandas sociais de segunda ordem, ou seja, as demandas sociais relacionadas ao consumo e bem estar. Já as demandas de primeira ordem, ou seja, saúde, segurança, educação e transporte não avançaram na mesma intensidade. Porém, pela primeira vez em 20 anos algumas demandas reprimidas estavam sendo atendidas. O governo também focou em programas sociais focadas nas classes mais baixas, visando reduzir a pobreza e a miséria. Isto serviu para ampliar a popularidade do governo garantindo um período de hegemonia política . Este estado de coisas aliviou a tensão social e conseguiu adiar o atendimento das chamadas demandas sociais de primeira ordem. O aumento de arrecadação de impostos gerado pela vitalidade da atividade econômica financiava estas políticas sociais sem comprometer o resultado fiscal do tesouro. Porém a carga tributária começava a atingir níveis muito elevados.

Creio que neste momento perdemos uma ótima oportunidade de revisitar as demandas sociais definidas em nossa constituição cidadã num contexto de um programa amplo de reformas que estabelecesse as nossas prioridades, em termos de demandas sociais, e os meios mais eficientes de se atender a tais demandas. Mas os benefícios trazidos pela expansão do consumo e pelas políticas assistencialistas abafaram os anseios de reformas estruturais mais profundos.

O mercado de trabalho, que apresentava no início do século um excedente de mão de obra em decorrência das crises nos anos 90, e o aumento de produtividade gerada pelo programa privatização feito naquela época criaram as condições para atender a demanda e o consumo exuberantes da última década.  Porém já em 2007 sentíamos que as pressões inflacionárias ficavam mais resistentes e estava cada vez mais difícil trazer a inflação para baixo do centro da meta, sinal de que o crescimento de nossa produtividade chegara a seu limite, e que, consequentemente, a oferta de bens começava a enfrentar alguns gargalos. Lembro-me de ouvir pela primeira vez a expressão apagão da mão de obra em conversas com empresários naquela época. Ou seja, já havia sinais de problemas de oferta. Os salários começavam a subir acima da produtividade.

A crise de 2008 neste sentido nos ajudou, pois serviu de freio externo para a demanda interna muito aquecida, ao derrubar a renda que recebíamos na venda de produtos exportáveis, ao elevar taxas de juros de longo prazo e ao interromper o fluxo de capital externo. Este freio externo ajudou a evitar uma aceleração inflacionária que, se tal crise não tivesse ocorrido, provavelmente teria nos atingido em 2009.  O debacle do sistema financeiro americano ajudou o BC do B a conter a inflação em 2008.

A gravidade da crise levou nosso governo a adotar medidas anticíclicas excepcionais, como a redução de compulsórios, de impostos, a elevação de gastos públicos e a expansão da oferta de crédito direcionado pelos bancos públicos, através do BNDES e BB. O capital acumulado desde 2001 nos ajudou a encarar a crise de forma ativa. Tal expansão fiscal e para fiscal acelerou nossa economia.

Aí entra em cena um novo impulso externo de tal magnitude que foi qualificado corretamente como tsunami pelo nosso governo. Os bancos centrais do G3 adotaram políticas monetárias expansionistas numa intensidade nunca vista na história econômica, em esforço coordenado globalmente. Isto trouxe os juros de curto prazo internacionais para próximo de zero e expandiu o balanço dos BC´s de forma agressiva, inundando o sistema de liquidez. As taxas de juros reais de longo prazo despencaram e ficaram negativas. Ou seja, os investidores precisariam “pagar” aos tomadores para garantir a proteção de seu patrimônio contra possíveis elevações da inflação.

Com isto as taxas de retorno dos ativos no mundo desenvolvido desabaram, como resultado do efeito de rebalanceamento de carteiras, aonde o dinheiro vai sempre atrás de retorno com baixo risco. Nosso país surge então como um destino óbvio para os capitais internacionais.

O fluxo de capitais de longo e de curto prazo para o Brasil explodiu, exigindo uma aceleração no ritmo de acumulação de reservas por parte de nosso BC para impedir uma valorização mais violenta de nossa moeda. Contudo, na medida em que o BC acumulava mais reservas, o risco cambial caía, o que valorizava ainda mais nossa moeda. Tal expansão monetária externa causava assim uma forte expansão no crédito interno. E nós passamos a surfar no tsunami.

O fluxo de capitais externos, as políticas contra cíclicas mantidas e ampliadas pelo governo e o aumento da renda deram um enorme impulso ao consumo alavancado pela ampla oferta de crédito. O investimento, contudo, não crescia na mesma velocidade e a produção ficava bem para trás. O contínuo deslocamento da produção interna do setor industrial para o de serviços e da construção civil manteve a absorção de mão de obra em ritmo intenso, apesar da desaceleração do produto. O governo chegou a dizer que o crescimento que importava não era o do produto, mas sim o do emprego. Ou seja, tínhamos taxas decrescentes de crescimento do produto interno com taxas crescentes de emprego e salários. Não precisa ser economista para entender que tal cenário cria uma enorme pressão de custos, reduzindo o lucro e a competitividade de nossas empresas, o que acaba reduzindo seus investimentos. De fato algo estranho se passava em nossa economia: apesar do crescimento estar se desacelerando, havia ainda restrições no mercado de trabalho, com o desemprego e o estoque de capital humano se reduzindo rapidamente , e com a inflação em elevação e déficits externos crescentes.

No front externo, a alta dos preços das commodities que seguiu ao processo de expansão monetária nas economias desenvolvidas tornava nossas exportações mais competitivas, o que ajudou ainda mais a valorizar nossa moeda. Este choque de termos de troca empurrou nossa economia e os investimentos ainda mais para os setores de serviço, construção civil e varejo. A indústria continuava a perder competitividade. A valorização do R$ e a maior absorção da poupança externa permitiu que a inflação ficasse moderada, dando espaço para nosso BC reduzir os juros reais a níveis nunca praticados nestas bandas.  Para atender tal consumo sem o crescimento da produção, nossos déficits externos precisavam subir, pois importávamos aquilo que não era produzido aqui.  Os estímulos mantinham a demanda aquecida, mas a oferta não reagia na mesma velocidade. E o mercado de trabalho continuou impulsionado pela demanda dos setores de serviços.

O governo confrontado com esta realidade decidiu tomar outras medidas a fim de estimular a economia, partindo do diagnóstico que bastava estimular o consumo e a demanda que o investimento viria. Porém o efeito delas se dava apenas na manutenção da taxa de crescimento do consumo, e não da produção. Foi ampliada a oferta de crédito ainda mais agora através da Caixa Economia Federal nos seus empréstimos imobiliários. Isto trouxe mais demanda por mão de obra na construção civil e um forte aquecimento no mercado de terrenos nos grandes centros. Esta febre imobiliária não foi acompanhada por investimentos na infraestrutura urbana, causando a falência do sistema de transporte coletivo nos grandes centros, hoje alvo de enormes críticas nas manifestações.

Nesta tentativa de dar uma sobrevida ao consumo, este passou a ser financiado não somente pelo aumento da renda, mas cada vez mais pelo aumento acelerado do endividamento das famílias, que comprometiam cada vez mais sua renda com juros e amortizações dos empréstimos contraídos. Os bancos públicos foram usados neste esforço, ocupando o espaço deixado pelos bancos privados que se retraíam em função da elevada inadimplência.  A renda disponível para o consumo, depois de pagar juros, amortizações e impostos foi caindo, o que levou a um aumento da inadimplência, apesar dos níveis baixíssimos de desemprego. Este foi o sinal que algo começava a dar errado no front do consumo. Os investimentos privados despencaram, uma vez que havia indícios que a demanda e o consumo estavam desacelerando. Para agravar a situação, a elevação da inflação começou a reduzir a capacidade de consumo das famílias, o que trouxe uma desaceleração do consumo.

Vendo a elevação da inflação, o governo iniciou um programa de desonerações tributárias localizadas, visando reduzir o preço de produtos e serviços e assim reduzir a inflação corrente.  O objetivo era impedir uma elevação dos juros por parte do BC, que já percebia que a inflação existente se devia a problemas de falta de oferta. Os preços dos combustíveis foram represados, apesar da elevação do dólar, prejudicando bastante a capacidade da Petrobrás financiar seus investimentos. Estas medidas reduziram o superávit fiscal real do governo, uma vez que os impostos arrecadados já não subiam na mesma intensidade.  O endividamento bruto do governo reverteu assim sua trajetória de queda, o que foi agravado pelo uso do BNDES e dos bancos públicos como principais financiadores da economia. O governo passou a recorrer a mecanismos contábeis para mascarar a queda do superávit fiscal, porém os indicadores de endividamento continuaram a subir.

Como os investimentos menores e o mercado de trabalho ainda aquecido, a inflação permanecia elevada em seu núcleo.  Choques externos elevaram a inflação acima do topo da meta, forçando o BC do B a rever suas políticas expansionistas. Este movimento do BC do B poderia ser evitado se o R$ continuasse a se valorizar em termos reais, algo que não aconteceu. O BC do B induziu uma desvalorização de nossa moeda em 2012 ao reduzir os juros reais de forma agressiva, pois acreditava que a atividade mais fraca iria impedir a elevação dos núcleos da inflação. Contudo, no início deste ano, ficou evidente que a inflação não se devia apenas a choques de preços externos, mas também à falta de investimentos que ampliassem a oferta interna.  O BC, ao perceber que a inflação estava muito disseminada e persistente, e tendo perdido a âncora cambial informal, decidiu iniciar um processo de alta de juros que ainda está em curso.

Chegamos assim a uma situação bastante difícil pois estamos:

  • Com inflação elevada apesar da queda do produto;
  • Com desemprego nas mínimas e salário real no topo, porém com lucros e margens comprimidas por parte das empresas;
  • Investimento insuficiente e gargalos na infraestrutura;
  • Baixo nível de poupança interna e déficits externos crescentes;
  • Saldo fiscal primário em queda, apesar da carga tributaria recorde, e com despesas públicas crescentes;
  • Elevado endividamento das empesas estatais, com Petrobrás, Eletrobrás, CEF, BB e BNDES;

Ou seja, nosso espaço para manobra interna é muito pequeno.

Bem, aí vem o que faltava: o quadro de financiamento externo que permitiria uma sobrevida ao modelo de crescimento em vigor está piorando. Nosso principal parceiro comercial, a China, mostra sinais de fadiga, o que deve reduzir a demanda pelos produtos que exportamos. E com a gradual recuperação da economia americana e estabilização da crise na Europa, os juros internacionais começam a subir e a oferta de capitais tende a diminuir, o que tornará o financiamento de nosso déficit externo mais difícil. O FED esta semana deu um sinal claro neste sentido. O desempenho das economias emergentes quando comparado ao das economias desenvolvidas piorou em termos relativos, o que deve afastar os capitais que vinham para cá. Assim, o câmbio, que serviu de agente estabilizador da inflação nos últimos anos, passa a ser um elemento que alimenta a inflação. Isto vai demandar juros maiores, causando assim uma retração maior no consumo e no investimento e uma elevação do desemprego.  A redução do fluxo de capitais externo irá impedir a expansão do balanço do BC e reduzir a oferta de crédito para o investimento privado. Os juros de longo prazo estão subindo, encarecendo a rolagem da dívida pública, o que aumenta pressão fiscal sobre o estado.  Ou seja, estamos diante de um cenário bastante desafiador.  Os pilares que sustentavam o modelo foram danificados, seja por erros de política ou por pressões democráticas legitimas. E o espaço para gerenciar tal fragilidade se apoiando nos ventos favoráveis do front externo ficou limitado.

O cenário político também ficou mais complexo. As dificuldades do governo no congresso são evidentes e o processo eleitoral de 2014 já se iniciou. Isto, aliado às manifestações populares, torna qualquer discussão política sobre os destinos da economia mais complexa. Há ainda a questão da popularidade do governo, que pode sofrer novas quedas em virtude dos acontecimentos nos mercados e nas ruas e de uma provável elevação do desemprego nos próximos meses.

Portanto esperar saídas mágicas a esta altura não é nada realista. Teremos tempos turbulentos em nossa economia daqui para frente.

Mas o fato é que AGORA a demanda social VEIO PARA A RUA. E o modelo usado nos últimos anos para atender tais demandas se exauriu. “Atender” aos legítimos anseios dessa mocidade que está nas ruas com mais gasto público, mais imposto ou mais crédito para o consumo não resolve, pois só adia o debate. E endividar o Estado através de subsídios pontuais significa endividar as próximas gerações.

Estamos vivendo mais uma vez uma crise que é decorrente da nossa incapacidade de ajustar as expectativas das demandas sociais às realidades das restrições orçamentárias, incapacidade política esta que está presente desde que saímos da ditadura. Desta vez ganhamos tempo usando o consumo e algumas políticas assistencialistas no seu limite, anestesiando esta demanda latente por reformas e evitando assim o debate político e econômico mais profundo. No passado tais momentos terminaram em crise monetária, cambial ou fiscal. Vamos ver se conseguimos evitar isto tudo desta vez. Precisamos encarar de uma vez as questões reais que nos são colocadas há 30 anos e nos recusamos responder.

Temos sim os recursos naturais, humanos e institucionais para sairmos desta crise muito melhores do que entramos. Mobilizar tais recursos de forma eficiente, fazendo as escolhas mais produtivas, sem onerar as gerações futuras com uma dívida pública ou social impagável é a única saída sustentável. Devemos começar a fazer as escolhas sobre o que queremos ter agora, e o que podemos deixar para amanhã e depois de amanhã, dentro de um debate político de alto nível, que defina uma agenda de prioridades e metas realistas. Talvez viajar ao exterior não seja uma prioridade de gastos a ser financiada por um câmbio valorizado que arrebenta nossa indústria. Talvez um carro novo deva dar lugar a um transporte público melhor e mais barato. Talvez um estádio de futebol deva dar lugar a um porto mais moderno para escoar nossa produção de forma eficiente. Talvez um celular 4g devesse dar lugar a uma educação melhor.  Estamos sim no começo de uma crise de alocação de recursos. A abundância de financiamento vai acabar. E os mecanismos de financiamento do crescimento precisam mudar. Logo, é hora de priorizar o que de fato desejamos. E assumir os custos políticos de fazer tais escolhas. Teremos que abrir mão de certas vantagens no tempo presente, para assegurar que tais vantagens sejam viáveis e sustentáveis no nosso futuro. As eleições de 2014 serão um excelente momento para termos este debate, pois nossa economia já foi para a rua!

A “molecada” que está nas ruas (aqui fica registrada a inveja de um cinquentão…) está mostrando que devemos fazer escolhas. A bola está no campo dos quarentões, cinquentões, etc.. Não faz sentido esperar que os manifestantes especifiquem detalhadamente as medidas que devem ser tomadas. Basta ouvir e ler as mensagens: é hora de mudar, pois o que está aí não está bom não.

Não é hora de mudar de partido, mas de prioridade. Vamos trazer o debate para a política, e não a politicagem ao debate.

Ps: Obrigado a meninada!!! VALEU!!!


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11 comentários | Comentar

  1. 61 Michel 23/06/2013 10:28

    Ótimo texto! Parabéns!

    Agora, aproveitando a chance, gostaria de perguntar: o que você, Ricardo, entende por reforma política? Cansei de ouvir gritos por “reforma política” como se fosse uma panacéia – estou a fim de discutir *concretamente* o que ela significa.

    Meu cansaço vem de que vi muita gente fugir de discutir isso para não ter de ver os pontos de discordância que vão surgindo à medida que a coisa se torna concreta. :-(

    • Ricardo Gallo 23/06/2013 13:32

      voto distrital, mudar representatividade no congresso, nova lei partidaria, financiamento publico de campanha… aproximar congressista da populaçao que ele representa, maios accountability, orçamento publico debatido com sociedade…. por ai vai.

  2. 60 Trabalhando 23/06/2013 8:58

    Hoje é 23,julho chegando e vendas despencando,ninguém sai,viaja,todo mundo com medo,faturei um pedido ficou preso nas manifestações,foi devolvido.Adiaram a entrega para 15/07,mas está tudo lindo pacífico…E vamos ficando sem venda para pagar os compromissos…Tudo lindo pacífico…Cuidado para o tiro não sair pela culatra!!!E depois ter de voltar as ruas por emprego.

    • Trabalhando 23/06/2013 21:29

      Curioso amigo,não tem muito tempo e o “modelo” funcionava muito bem!!!Em um post sobre venda de carros eu falei que o mercado estava parando,falo mais, o modelo já explodiu a muito tempo,o povo está muito mais endividado do que nas estatísticas oficiais,nas duas últimas semanas o mercado simplesmente parou,teve loja minha que ficou seis dias sem vender nada,zero de faturamento.Em16 anos isso nunca ocorreu,tenho medo de 2015.

    • Ricardo Gallo 23/06/2013 21:40

      obrigado pelo depoimento. de fato consumo ta fraquinho mesmo…..

    • Ricardo Gallo 23/06/2013 21:40

      bom, podia funcionar bem por um tempo…porem as inconsistencia deste modelo são mencionadas aqui ha alguns anos…. soh ler varios posts na categoria politica economica…..

    • Ricardo Gallo 23/06/2013 13:34

      o modelo economico saturou meu caro. saturou. e as massas perceberam. povo nao eh cego.

  3. 59 Doug_SP 21/06/2013 18:48

    Uau… belo texto.

    Deu gosto de ler.

    Obrigado Ricardo.

    • Ricardo Gallo 22/06/2013 21:59

      gracias!

  4. 58 Wilson 21/06/2013 18:39

    Vai sobrar muita grana, pois oque tem de político com a consciência na mão e vai pensar duas vezes antes de roubar… uns bilhões segundo chutômetros confiáveis.

  5. 57 Rodrigo 21/06/2013 18:22

    Gallo, só uma pessoa com sua inteligência, competência e discernimento seria capaz de fazer uma análise tão vasta e ao mesmo tempo tão conclusiva.
    Enquanto o próprio povo e por consequência seus governantes não entenderem que demandas básicas como saúde, educação e transporte demandam investimentos e são mais prioritárias que consumo e entretenimento, não seremos um gigante de verdade. Enfim, faltam visão de longo prazo e pessoas capazes de implementar esta visão em nosso país, utilizando meios democráticos, claro. Espero que nós e os jovens que estão manifestando sejam capaz de aprender com os erros do passado e escrever um futuro melhor. Abraços!

    • Ricardo Gallo 22/06/2013 21:59

      valeu

  6. 56 Marconi 21/06/2013 18:07

    Belíssima análise!

    Prever o futuro é difícil, mas o PT deu sorte (China) e não precisou enfrentar crises difíceis, onde as demandas sociais tivessem que ser reduzidas.

    Agora, vai enfrentar um dilema brabo de ter de priorizar gastos. Pra uns vai dizer sim, pra outros não.

    Acho, acho, acho, que o PTzão, petê mesmo, vai acabar dominando e o Imposto de Renda dos “ricos” vai subir. Antes, vão tirar Mantegão da Fazenda, colocar Henrique Meireles e tentar viver de poupaça externa mais um pouquinho, devido a credibilidade extra.

    Vamos ver o que vem aí!

    • Ricardo Gallo 22/06/2013 22:00

      valeu!

    • Ricardo Gallo 21/06/2013 18:11

      tenhamos fé ma moçada da rua….

  7. 55 Magos 21/06/2013 18:03

    Mais uma vez, meus parabéns! Impressionante como perdemos inúmeras janelas de oportunidade e como continuamos a perdê-las. No post mais abaixo, instei-o sobre a confiança dos empresários em virtude do recuo do Alckmin/Haddad. Pois bem, hoje o governador do Paraná pediu para que a CPLE6 não reajustasse as tarifas…bom…neste exato momento queda de + de 16,5%. PETR4 – 3%. Veja bem, não estou falando de portfólio mas, da redução na capacidade de investimento!!! O custo do KM do Metrô é de R$100 MM. Como vamos financiar isso? Ano que vem tem eleição, alguém acredita que haverá reajuste nas tarifas? PPPs? Quem é o louco que vai investir? Acho que teremos novamente uma década perdida!!!

    Abs

  8. 54 Vicente Prieto 21/06/2013 13:38

    É, Gallo, nosso “povão” sempre foi muito indulgente na hora de escolher seus líderes, e a nossa geração assiste – e administra – as consequências disso. Já era passada a hora de nós assumirmos nosso papel de formadores de opinião, porque eu não acredito em movimentos que não se iniciem a partir da “elite intelectual” no bom sentido. Bem, agora que “a bola está quicando” cabe a nós não deixá-la correr para o lado errado. Abraços.

  9. 53 Jeferson 21/06/2013 9:32

    Sua análise esta correta em vários pontos …..

    Mas as manifestações atuais, ainda não ha uma explicação plausível para o que ocorre. É lago inédito no Brasil e no mundo (no mundo porque aqui não ha ditadura, etc, além disso a avaliação do governo é de boa para ótima …) …. só com o tempo será possível saber o que representaram estas manifestações ….

    Se fosse para resumir hoje eu diria é que as pessoas não se sentem mais representadas por governos da maneira que eles são organizados …. querem mudar toda a estrutura, embora muitos nem saibam que querem isso e nem o que viria no lugar …

    De qualquer modo, é bom o que esta ocorrendo ….. hoje e amanhã qualquer político terá que pensar mais em infraestrutura, principalmente para os pobres …. muito mais do que fizeram até hoje…

    • Ricardo Gallo 22/06/2013 22:03

      pois eh…. acreditando nas pesquisas podemos concluir que ha uma grande minoeria educada que estah nas ruas…. e de fato ou fazemos uma reforma politica ou nossa economia vai ficar andando de lado como esteve nos ultimos 20 anos…. tendo uns surtos de crescimento economico…… quando os ventos la fora nos ajudam….

    • Ricardo Gallo 21/06/2013 12:26

      sim. nao sei o que motivou, porem entendo bem o que estao dizendo…..

      e meu caro, quem estava na rua nao era pobre nao.. era classe media….. classe media…..

  10. 52 Marcio Novis de Souza 21/06/2013 9:25

    Bom dia, Gallo.
    Parabéns pelo texto brilhante. Ele mostra nossa incapacidade constante de ter, implementar, corrigir e dar continuidade a metas de médio e longo prazos em todas as esferas. Nossa opção tem se mostrado sempre pelo caminho mais fácil e conveniente(como está bem demonstrado no texto). Daí, o resultado….

    • Ricardo Gallo 22/06/2013 22:00

      obrigado

  11. 51 luiz aubert neto 21/06/2013 9:08

    Bom dia Ricardo

    Parabens pela anailse!!

    Nesses anos de luta por um Brasil melhor, me convenci q a reforma politica ela é prioritaria, pois do jeito q está com 34 partidos politicos ( tem uns 4 a mais q estão vindo por ai e isso virou um grande negocio ), 39 ministerios, esse pais está engessado, ingovernavel , o congresso virou um mercado persa, é toma lá dá cá, não há a minima preocupação em se fazer as reformas q tanto esse pais necessita. vide as ultimas tentativas da reforma do ICMS e da guerra fiscal, não há como mudar do jeito q está, temos q aproveitar esse momento historico e de alguma forma coodernar esse movimento para tentarmos uma constituinte especifica com alguns pontos basicos e inegociaveis.
    Mais uma vez, obrigado pelo excelente trabalho.

    • Ricardo Motta 24/06/2013 18:56

      Caros Gallo e Luiz,
      Parece que a Presidente Dilma leu o que vcs escreveram, pois em pronunciamento hoje com a presença dos Governadores e Perfeitos das capitais propôs um plebiscito para a aprovação de uma constituinte especifica para formular uma reforma política.
      Quanto a economia e ao seu texto, primeiro os parabéns pelo brilhantismo e clareza, segundo, espero que as suas previsões estejam pessimistas demais, e que o cenário não fique tão adverso como vc previu.
      abcs

    • Ricardo Gallo 24/06/2013 18:58

      quem vai fazer parte da constituinte? quem serao os representantes DO POVO? ESPERO QUE NAO SEJAM OS MESMOS……

    • Ricardo Gallo 21/06/2013 12:28

      pois é…. acho que prioridade eh educacao, saude e transporte urbano….. se começar por ai ja esta muito bom…. pelo menos é o que as ruas estao pedindo…

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