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terça-feira, 8 de outubro de 2013 Brasil, Crise Brasileira, Juros no Brasil, Politica Economica, utilidade | 11:31

Mais sobre a nossa falta de poupança

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Conceito de poupança: é toda a grana que sobra de nossos rendimentos e que não é gasta em consumo.

Caderneta de poupança é  apernas uma maneira de acumular poupança, assim como investimentos em  fundos, depósitos em bancos, ações, imóveis, títulos do tesouro,  abertura de negócios, etc.

Conceito de Capital: resultado da acumulação líquida da nossa poupança ao longo da vida, que é investido em bens que geram renda futura.

Para que serve poupança: transforma o dinheiro que não é consumido hoje, em muito mais consumo no futuro.

Vejam o excelente texto abaixo sobre isto recomendado por um leitor desta coluna. O texto é do Marcelo Neri, um economista que entende muito bem as dinâmicas sociais e vai bem além do pensamento monetarista e fiscalista tradicional:

Marcelo Côrtes Neri

Autor(es): Marcelo Côrtes Neri
Valor Econômico – 24/04/2012
Mistérios são frutos da falta de conhecimento. Nossa ignorância sobre poupança impressiona pela sua centralidade ao desenvolvimento do país. A taxa de poupança doméstica brasileira é metade da chinesa e um quarto da taxa familiar deles.Nosso parco conhecimento sobre poupança é restrito à área macro, destaque aos estudos de João Issler e Samuel Pessoa. Trabalhos microeconométricos, mesmo tabelinhas descritivas são raros aqui, contrastando com a riqueza de estudos sobre pobreza. A ONU escolheu o Brasil como sede do International Poverty Center, seu think tank global no tema.

Há tempos me interessei pelo tema poupança. Minha tese de mestrado na PUC foi sobre o boom de consumo do Cruzado. Fui a Princeton estudar com Angus Deaton, o maior especialista vivo no tema. Ganhei de brinde aulas com Ben Bernanke, John Campbell e cia. Não foi pela falta de bons guias que perdi o rumo da poupança. O fato é que me juntei à bela manada de pesquisadores sobre pobreza e desigualdade, antes a mania era inflação.

Seria falta de dados? O Brasil recordista mundial de inflação teve sempre forte demanda por pesquisas de orçamento familiares (POF). POFs permitem incorporar efeitos-substituição de aumentos de preço, gerando índices de inflação mais precisos e baixos. O governo deveria ter financiado mais POFs, nem que fosse só para pagar menos correção monetária na dívida pública. Pelo menos hoje dispomos de POFs nacionais que permitem não só estimar os determinantes de poupança, como medir melhor indicadores de pobreza e de desigualdade.

Seria a acumulação de poupança tema de sociedades ricas? A literatura de desenvolvimento nega. O jovem agricultor indiano que poupa frente às intempéries climáticas, ou sofre as consequências de não fazê-la, é figurinha fácil nos estudos internacionais. A anedota do campo é que há mais estudos sobre poupadores rurais indianos do que entrevistados em pesquisas domiciliares sobre o tema.

A baixa taxa de poupança familiar inibe o financiamento do investimento requerido para sustentar altas taxas de crescimento. O Brasil encontra-se num círculo virtuoso onde democracia, equidade e crescimento se retroalimentam. Agora a minha positividade é inversamente proporcional com a perspectiva de taxa de poupança das famílias. Nossa taxa condicionada às suas causas centrais é ainda menor. Senão vejamos:

Desigualdade em queda inibe a poupança. Famílias mais pobres, em particular naquelas em que os filhos estudaram mais tendem a consumir uma parte maior de sua renda. Na década passada a renda da metade mais pobre cresceu 588% mais que a dos 10% mais ricos. A desigualdade de renda brasileira continua caindo pelo efeito combinado de melhoria na distribuição de educação e de programas sociais.

Poupança precaucional é desincentivada pela crescente estabilidade macroeconômica e pela ampliação do Estado de bem-estar. Para além de melhora das rendas correntes, elas provocam redução dos riscos de renda das famílias. A conquista do “investiment grade” e os novos programas sociais sob a égide do Brasil Sem Miséria implicam menor motivação a poupar. Se redistribuir é preciso, Bolsa Família com incentivos à poupança, tipo fundos de pensão, também é preciso.

Envelhecimento diminui a poupança. Na teoria do Ciclo de Vida do Nobel Franco Modigliani, idosos despoupam, em particular sob nossas regras constitucionais. Na transição demográfica em curso, a população idosa cresce três vezes mais rápido que a total. O aumento de renda dos idosos anunciado pelo gatilho do salário mínimo, acaba de disparar reajuste de 14%, prova fumegante do nosso viés gerocrático, ferindo de morte a poupança.

Juros mais baixos, em particular na captação, desestimulam a poupança. As sucessivas quedas da Selic e a pressão sobre os spreads bancários configuram outro viés de baixa poupança.

Crédito é despoupança. Apesar da razão crédito/PIB ter dobrado nos últimos oito anos, é ainda baixa para padrões internacionais. A diminuição das restrições de crédito como no consignado são exemplares.

Fatia do trabalho e formalização maiores desestimulam a poupança, dadas garantias do aviso prévio, FGTS e seguro desemprego.

Minha Casa, Minha Vida sem incentivos à acumulação prévia também. Países quase sem crédito imobiliário, como Japão e Itália, apresentam taxas de poupança financeiras mais altas, voltadas à compra prospectiva de imóveis. Por outro lado, imóveis (e educação) sintetizam bem o hábito construído ao longo de décadas de instabilidade inflacionária de alocar o binômio poupança/investimento em ativos reais.

Otimistas por natureza, como na fábula da cigarra e da formiga, poupam menos. Em quatro pesquisas do CPS/FGV, somos tetra campeões mundiais de felicidade futura. Não há sinal de queda do brasileiro, profissão esperança.

Paradoxalmente, quanto mais otimista sou com as conquistas tupiniquins em desigualdade, incertezas, informalidade, trabalho, longevidade, juros e spreads, crédito e habitação; mais pessimista fico com as perspectivas da poupança das famílias brasileiras. Em tempos de nova classe média e de inevitável mexida na caderneta, é preciso inovar nas políticas pró-poupança

Marcelo Côrtes Neri, economista-chefe do Centro de Políticas Sociais e professor da EPGE, Fundação Getulio Vargas. Autor dos livros “Ensaios Sociais”, “Cobertura Previdenciária: Diagnóstico e Propostas” e “Microcrédito, o Mistério Nordestino e o Grammen brasileiro”.

 

 

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