Publicidade

domingo, 17 de novembro de 2013 Crise Brasileira, Politica Economica | 18:59

Mas cadê a poupança?

Compartilhe: Twitter

Já falei aqui umas 26.753 vezes: não há como investir mais na produção se não gerarmos poupança interna. Se quisermos aumentar o investimento, seja ele público ou privado, financiado ou não pelo BNDES, mas sem aumentar a poupança interna, o déficit externo aumentará ainda mais. Isto não é teoria econômica, mas sim pura aritmética e contabilidade básica. Os pseudo keynesianos podem espernear, mas estou falando que 2 + 2  = 4.

E veja o gráfico azul abaixo que mostra a evolução de nossa taxa de poupança bruta, ou seja, a parcela do PIB anual ( renda)  que de fato é poupada e não consumida, desde 2000:

poupnacpib

Ou seja, nossa taxa de poupança,  que saiu de 14% do PIB em 2000 e bateu  quase 19% em 2008 ( verde), voltou ao que era em 2002 ( amarelo).

E veja o gráfico abaixo que mostra a correlação do crescimento do PIB com a taxa de poupança desde 2004:

pibpoup

 

O eixo horizontal indica a taxa de de crescimento do PIB enquanto o eixo vertical mostra a taxa de poupança correspondente. Os pontos azuis são as amostras trimestrais que levantei desde 2004. Os pontos vermelhos mostram a correlação entre a poupança e o crescimento, correlação esta manifestada nestes últimos 10 anos.

Ou seja, se o nosso PIB ficar crescendo estes míseros 2 ou 3% a.a. ( amarelo), nossa taxa de poupança dificilmente passa dos 17%. Se, por um milagre, nós conseguirmos acelerar nosso crescimento para 4,5% a.a., nossa taxa de poupança não sobe além dos 18%…. Ou seja, nossa taxa de poupança é muito, muito pouco elástica em relação ao PIB. Nem com o PIB andando a 7% a.a. conseguiríamos taxas de poupança acima de 19% do PIB. Logo, aquela hipótese que basta crescer que a poupança aparece, defendida pelos neo super keynesianos de buteco, não está rolando, como diz meu afilhado.

E veja o risco do modelo atual, no gráfico azul abaixo, que mostra a razão entre a taxa de crescimento do PIB daquele momento e a taxa de crescimento do consumo das famílias, desde 2004:pibconsumo

 

 

DE 2004 para cá o PIB ( produção de bens e serviços) cresceu, em média, a uma velocidade equivalente a 80% ( reta vermelha) da taxa de crescimento do consumo. Ou seja, pelo modelo atual, se desejarmos acelerar o PIB para 4% a.a., precisaríamos acelerar o consumo para 5% a.a. Não acho que isto seria viável, pois dadas as pressões inflacionárias e o mercado de trabalho aquecido, neste cenário a inflação iria disparar. Porém, assumindo por instante que isto fosse possível, com o consumo crescendo mais rápido que a produção, a poupança interna tenderia a cair ainda mais, pois:

poupança = renda ( ou produção) – consumo

Logo, se a renda ( produção) sobe menos que o consumo, a poupança cai! E com a poupança caindo, o déficit externo necessariamente aumentaria, elevando ainda mais nosso risco externo num momento em que os mercados externos começaram a virar as costas para nós.

Concluindo: como Mr. Palocci afirmou, o modelo foi pro saco. É hora de repensar a coisa. Mudar esta equação que está toda torta:

  • não conseguimos crescer mais pois há falta de mão de obra em todos os níveis, a produtividade não sobe pois gargalos continuam presentes e o estoque de capital não aumenta pois não investimos;
  • mesmo se conseguíssemos acelerar a produção, a poupança interna não sobe como esperado;
  • se tentarmos aumentar a produção acelerando ainda mais o crescimento do consumo, o PIB sobe junto, porém menos do que o consumo, o que acaba levando à queda da taxa de poupança, e consequentemente, a déficits externos crescentes.
  • e se tentarmos acelerar o investimento na marra, sem aumentar a poupança, iremos criar déficits externos ainda maiores.

Ou o governo muda o ” modelo”, ou os desequilíbrios só aumentam, nos deixando fadados a:

  • manter juros elevados e, portanto, ter um crescimento pífio, o que nos levará a sérios problemas fiscais nos próximos anos, ou
  • a aumento do déficit externo, nos levando a uma crise cambial, ou
  • a um aumento da inflação, nos levando a uma crise monetária.

Ou seja, precisamos fazer reformas. E o tempo passa, como diria o saudoso Fiori Giglioti:

http://www.youtube.com/watch?v=ATUWncVJVOM

 

fiori

 

Autor: Tags:

3 comentários | Comentar

  1. 53 Diego 20/11/2013 13:00

    De que jeito?

    para os pequenos poupadores…. se deixar na poupança a inflação leva, para os demais investimentos precisa ter um valor maior e ainda vai ter que pagar 2% de taxas, fora performance… e IR
    o governo só incentiva o consumo… é redução de IPI pra linha branca, automóveis e sei lá mais o que…

    Enquanto eu faço um esforço danado pra poupar e ver um rendimento de 0,6% ao mês…. tem gente que ganha metade do meu salário trocando de “financiamento” do automóvel todo ano, comprando pacotão da CVC pra Disney e o caramba…

    Assim fica difícil de poupar! comprar imóvel então… Deus me livre!!! Conseguem colocar uma varanda Gourmet num ap de 60m² e querem vender essa droga por 500 ou 600 mil…. tudo com o crédito farto da caixa e juros mais fartos ainda….

    Pra quem quer poupar, a situação está preta!!

    Gallo vc que tem mais influênciia lá em Brasília…rs…. poderia seugerir um desconto no IR para o pequeno poupador… o que acha? Assim a gente poderia começar a pensar em poupar.

    • Ricardo Gallo 20/11/2013 13:46

      ja existe… tem os cri´s… lca´s, lci´s…..

      minha influencia me brasilia? se eu pisar em brasilia me matam.

  2. 52 Ronaldo 18/11/2013 15:37

    Ricardo, primeiramente gostaria de parabenizá-lo pelo excelente blog.

    Concordo em gênero número e grau com o comentário do “Ricardo R”. Para algumas áreas ou setores, a inflação é até maior que 9% ao ano já faz algum tempo. Vide o custo da alimentação.
    E sim, também, o governo anda acumulando muitos problemas que uma hora ou outra, a conta vem para pagar. Acho incrível como os preços dos imóveis na região onde moro vem crescendo a incríveis 26% a.a. e todo mundo acha normal.

    Agora só queria acrescentar uma opinião minha a questão da poupança.
    Pelo menos na região onde moro e com quem converso, pessoas com por volta de 50 anos de idade, pessoas que sofreram muito com a hiper inflação dos anos 80 ( e tudo que aconteceu naquela época que vai desde vários planos milagrosos, confisco da poupança, quebras de bancos grandes como o economico e etc) possuem até um certo medo de poupar dinheiro. Foi tanta pauladas que elas tomaram na cabeça naquela época, que deixar R$ 50.000 no banco é um risco e tanto. Qualquer dinheiro poupado é para comprar um imóvel ou qualquer outra coisa do gênero. Deixar dinheiro no banco…. vixi.. nem se eles receberem um juros de 30% a.a..

    • Hudson 20/11/2013 5:32

      Para o setor de bens não duráveis está em 13%…

      Aí o cara compra o imóvel, a bolha imobiliária estoura e a perda de dinheiro é até pior que deixar no banco. Acho que devemos deixar os antigos com suas ideias e viver ideias novas. Imóveis hoje são péssimos investimentos. E os únicos grupos que defendem o contrário são os antigos, de um tempo onde se construía individualmente e a baixíssimo custo, ou os representantes do mercado com aquele índice fipe-zap mentiroso.

      Existem boas aplicações que remuneram IPCA + % fixa fora dos bancos.

    • Ricardo Gallo 20/11/2013 13:51

      sim. tesouro direto. porem sempre ha o risco da situaçao fiscal piorar e tais papeis cairem de preço….

    • Ricardo Gallo 18/11/2013 16:41

      bom ponto. nossa tradicao de passar a mao nos ativos financeiros seja atraves de impostos ou confiscos ou da inflacao desenfreada tira a vontade de poupar da turma.

      no brasil o devedor é sempre uma vitima e o credor/ investidor / poupador um vilao!!

      excelente ponto.

      vou escrever algo nesta linha….

      e obrigado…

  3. 51 Ricardo R 18/11/2013 11:07

    dá nada. o tesouro emite mais uns titulos, o banco centrla recompra, e com o dinheiro eles repassam pro BNDES financiar os campeões nacionais. No fim, a poupança interna é paga com uma inflação absurda que ja tá aí na casa dos 9% a.a. sem aquele pó de arroz que o governo anda passando nos números.

    Eu particularmente estou mais que convencido que esse momento brasil potencia vai virar uma espécie de brasil miséria nos proximos anos. é uma quantidade muito grande de problemas acumulando, problemas cujo custo político de se resolver ngm quer assumir.

    • Ricardo Gallo 18/11/2013 11:21

      ps: concordo 100% com relacao ao daignostico:

      é uma quantidade muito grande de problemas acumulando, problemas cujo custo político de se resolver ngm quer assumir.

    • Ricardo Gallo 18/11/2013 11:13

      ouch…. eu to ficando cade vez mais pessimista tambem….

      interessante sua resposta da nada. me fez observar que “cade ” nao quer dizer onde, mas me de aqui!!! boa!

  1. ver todos os comentários

Os comentários do texto estão encerrados.