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quinta-feira, 6 de março de 2014 Crise Brasileira, Juros EUA, Juros no Brasil, Politica Economica | 20:46

E por falar em poupança pública…

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Vocês já devem estar exaustos de ler o que escrevo sobre a falta de poupança e o déficit externo:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/02/27/o-pib-e-a-falta-de-poupanca/

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/02/25/um-ajuste-inevitavel/

Porém está aí um dos principais desequilíbrios em nossa economia, algo que pode nos levar a uma crise grave de crédito interno ou externo se persistimos nesta toada por muito tempo.

Os indivíduos e o governo são os responsáveis pela formação da poupança ( ou pela falta da dita..).  Todo aquele dinheiro ganho pelos famílias que não é gasto no consumo, mas usado  para pagar dívidas ou depositado nos bancos, forma a chamada poupança.  O mesmo se aplica ao governo. A parcela do que o governo arrecada, ( via impostos, royalties, contribuições, dividendos das estatais, etc)  que não é transferida de volta para famílias ( via programas sociais ou previdência), via salários pagos aos seus funcionários ou consumida com gastos para operar a máquina,  forma o superávit primário do governo. Esta é a poupança que o governo faz para poder pagar os juros de sua dívida e amortizá-la.

O governo anunciou há alguns dias o superavit do governo federal em Janeiro. O resultado do governo foi bem abaixo das expectativas do mercado:  12,9 bi vs. 19.2 bi esperados pelo mercado.

Temos abaixo um gráfico que mostra a evolução deste saldo como % do PIB dos últimos 12 meses desde 2001:

primgovcentral

 

Em verde marquei o período de 2003 a 2008, quando o governo poupava em média 2,4% do PIB ( reta laranja). DE 2011 para cá ( marcado em amarelo)  a economia do governo vem caindo consistentemente ( reta cinza) . Os dados de dezembro último nos deram a esperança que poderíamos estar mudando esta tendência, porém os números de janeiro foram um banho de água fria. SE desconsiderarmos o período da grande crise de 2009 e 2010, quando a poupança do governo despencou, os dados de superavit primário do governo tem se situado em seu pior nível em mais de 10 anos ( preto). E sua tendência ( cinza) é preocupante. Melhoras pontuais como a que vimos no final de 2013 e no final de 2012, são resultados de esforços heroicos do governo para mostrar dados anuais razoáveis, que simplesmente acabam adiando o reconhecimento do problema que acaba aparacendo, como o gráfico acima demonstra claramente. Todos os picos de superávit que ocorreram depois de 2011 foram seguidos por quedas de maior intensidade, o que caracteriza uma tendência inequívoca de piora.

O gráfico azul abaixo  mostra a evolução da taxa de poupança doméstica desde 2000:

poupanpib

 

Vemos claramente que ele se assemelha muito ao gráfico do superavit primário. O período de queda da poupança interna ( marcado em preto) coincide com o período de piora do superavit fiscal.

E já vimos em outros posts que isto explica bem o comportamento do nosso déficit externo mostrado no gráfico abaixo:

ccdefi

 

 

Ou seja, fica evidente que  a despoupança do governo está contribuindo para a piora de nosso déficit externo.

Por outro lado veja o que está acontecendo com a arrecadação de impostos:

 

arrecadimpofedicms

 

 

O gráfico azul mostra a taxa de crescimento anual  ( 12 m / 12 m anteriores) da arrecadação dos impostos federais e do ICMS, que representam mais de 50% dos impostos e contribuições arrecadados no Brasil. Vemos que até 2008  tal arrecadação crescia entre 10 e 20% a.a. ( amarelo). Entre 2010 e meados de 2013 o crescimento  da arrecadação se desacelerou fortemente ( vermelho) em função do desaquecimento da economia ocorrido naquele período, que pode ser visto em vermelho no gráfico abaixo da taxa de crescimento do PIB:

pibbrasil4t

 

Porém, os últimos dados de arrecadação do final de 2013 mostram uma melhora ( verde no gráfico anterior).  Apesar desta melhora da arrecadação vemos que o superávit do governo ainda continua baixo. ou seja os gastos do governo estão subindo.

Assumindo que o crescimento do PIB de 2014 fique entre o que o mercado prevê 1,7 a 2% a.a. e os 2,5% a.a. do Ministro Mantega, é improvável que a arrecadação de impostos continue a se acelerar. Lembro que o Refins ocorrido no final de 2013 ajudou bastante a arrecadação, algo que não deve correr nos próximos meses, como os números de Janeiro já mostraram.

Ou seja, não é realista esperar uma poupança maior do governo contando com um aumento da sua receita. Logo, o governo irá precisar reduzir fortemente o ritmo de crescimento de seus gastos para cumprir com a meta anunciada recentemente pelo Ministro Mantega, meta que, como já disse, acho bem ambiciosa, quando levamos em conta que estamos em ano de eleições e as dificuldades políticas enfrentadas pelo governo no Congresso. Além do mais, há muito tempo que não vemos sinais de uma atuação mais determinada do governo no sentido de evitar uma elevação maior dos gastos.

O BC tem afirmado que espera que o superavit do governo se estabilize no nível atual. Caso contrário, o BC será levado a continuar seu processo de alta de juros, para fazer com que a poupança privada aumente ainda mais, de forma a compensar a queda da poupança pública.  Os juros têm este papel: maiores juros reduzem o consumo e investimento, elevando a poupança líquida. Caso contrário, o dólar subirá ainda mais e as pressões inflacionárias aumentarão.

Os mercados reagiram bem à fala do Ministro sobre a meta fiscal e aos dados do PIB, porém bastou um desapontamento no front fiscal para que o mercado mudasse de humor. Se o PIB de 2014 de fato desapontar como alguns analistas esperam, esta situação pode ficar ainda pior. Tivemos uma trégua no front externo graças ao inverno mais forte no hemisfério norte. Isto reduziu o ritmo de atividade nos EUA, o que deve manter o FED em ritmo lento no seu processo de normalização das condições monetárias. Contudo, se a economia americana recuperar o ímpeto na primavera que lá se aproxima, as discussões sobre a data do início do processo de alta de juros nos EUA  vão ser retomadas, com repercussões negativas para o fluxo de capital para os mercados emergentes.

 

 

 

 

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7 comentários | Comentar

  1. 57 José Humberto 21/03/2014 16:53

    O nobel de economia, aquele petista americano, não concorda com as suas afirmações.
    A dona do Magazine Luiza, aquela eleitora da Dilma, contradiz as suas previsôes que aliás, coincidem com aquele que fala na Globonews, direto de Veneza (que usa o filho para ganhar dinheiro).

    • Ricardo Gallo 23/03/2014 13:52

      ta falando do krugman?

      http://g1.globo.com/economia/noticia/2014/03/brasil-deve-sofrer-choque-com-crise-na-china-diz-nobel-de-economia.html

      pois bem , o pessoal da revista the economist tem outra opiniao… qual gringo voce prefere?

      de fato nao estamos tao vulneravleis como no passado. concordo com ele. porem nossa economia tem fragilidades. nao tao vulneravel eh um fato. e o que reduziu vulnerabilidade foram as politicas de :

      . meta de inflaçao
      . fiscal
      . e cambial

      o famoso tripe, e nao a nova matriz do mantega que derreteu.

      o que tenho dito e insistido aqui é que o atual governo tem fragilizado tal matriz para manter popularidade.

      se continuarmos assim, em 45 anos estaremos como a petrobras, bem fragilizada e que se nao fosse o suporte da uniao nao conseguiria levantar um centavo la fora…

  2. 56 José Humberto 17/03/2014 18:59

    260mil novos empregos em Fevereiro de 2.014?
    QUE HORROR!!!!!

  3. 55 hudson 13/03/2014 11:12

    Mais repetitivo que você, somente eu com a ideia de remover os idiotas do poder. Ambos estamos certos.

  4. 54 Asiatico 09/03/2014 8:20

    Ricardo Gallo, tu és palmeirense e eu sãopaulino, mas seu blog é sensacional.

    Infelizmente o governo federal ai mente muito para os Brasileiros sobre a situação economica brasileira, mas os dados provam o contrário. Parabéns pelo blog!

    • Ricardo Gallo 09/03/2014 17:51

      obrigado…. mas minguem é perfeito….

  5. 53 Asiatico 09/03/2014 8:20

    Ricardo Gallo, tu és palmeirense e eu sãopaulino, mas seu blog é sensacional.

    Infelizmente o governo federal ai mente muito para os Brasileiros sobre a situação economica brasileira, mas os dados provam o contrário. Parabéns pelo blog!!!

  6. 52 Guilherme 07/03/2014 11:23

    Gallo,
    qual seria o nível desejável e viável para levarmos o Investimento como % pib na sua cabeça? Se tivermos como meta os 22% que nossos “peers” tem, isso significa que a cada ano investimos aproximadamente 170bi a menos (proporcionalmente) do que o ideal. Bom, imagina em 10, 20 anos o quanto que isso dá….
    um abs

    • Ricardo Gallo 07/03/2014 23:39

      boa pergunta… vou pensar e postar algo…. depende de aumento de produtividade e lucro das empresas

  7. 51 Ricardo R 07/03/2014 0:26

    Haha! Ainda hoje eu estava discutindo seu post anterior com um colega. A boca do jacaré tá enorme, e pra manter o juro no patamar atual, com toda essa “despoupança”, só mesmo com uma violenta expansão monetária que leva a uma violenta inflação de preços. Por isso, o seu penúltimo paragráfo resume bem o que eu pensava (só não tinha certeza se era certo). Agora acho q finalmente compreendi bem o mecanismo do trio “juro, poupança, inflação”.

    E viva o nosso parmera. ganhemo mais uma.

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