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segunda-feira, 12 de maio de 2014 bizarro, Inflação, Politica Economica, Sem categoria, utilidade | 02:28

O populismo inflacionário e a corrosão dos salários e da poupança

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Tenho notado em alguns artigos e discursos políticos algumas frases que me deixam confuso:

  • Não vamos usar o desemprego para combater a inflação”
  • “Não podemos usar os juros e a política monetária para combater a inflação”
  • Se reduzirmos meta de inflação para 3% teremos desemprego e enormes custos sociais, pois isto não seria compatível com uma economia como a nossa”

Tais frases e suas variações soam assim nos meus ouvidos:

  • Existiria uma troca entre inflação e desemprego, ou seja, o desemprego não cairia com inflação baixa
  • Existiria alguma “fórmula mágica” de se combater a inflação no curto e médio prazo que não passa pela política monetária, ou seja, pela elevação dos juros.
  • Um pouco de inflação “a mais não dói” e mantém o desemprego baixo.

Eu entendo que em anos eleitorais alguns se empolguem e prometam coisas impossíveis, porém existe sim um limite ético em tudo isto. Mas vamos assumir que de fato alguns pensem desta forma, pois  nem todos são desonestos intelectualmente mesmo em ano eleitoral.  Sei que alguns acham que tal hipótese é heroica, mas eu prefiro acreditar nisto, pois a alternativa é péssima.

Vamos levantar alguns exemplos contrafactuais que mostram que tais afirmações, embora sejam “esteticamente apreciáveis” em período eleitoral, não passam de bravatas.

  • Bravata 1: Inflação baixa não é compatível com queda de desemprego no Brasil, pois temos problemas estruturais de oferta…

De Março de 2004 até Março de 2011, o desemprego caiu em 66 dos 85 meses da amostra ( desemprego médio dos últimos 3 meses comparado com o mesmo período do ano anterior), ou seja, durante 78% do tempo. Neste mesmo período a inflação esteve abaixo de 5% a.a. em 37 ocasiões ( 44% do tempo) . SE apenas consideramos os eventos onde o desemprego caiu e a inflação esteva abaixo de 5% a.a., temos 24 casos. Ou seja, 65% das vezes em que a inflação esteve próxima do centro da meta ( < 5% a.a.) o desemprego caiu. Logo, manter inflação próxima ao centro da meta não parece ter impedido queda do desemprego.

  • Bravata 2: Um pouco de inflação a mais é melhor do que aumentar desemprego

Mesmo assumindo que uma inflação baixa não seja compatível com desemprego baixo, existe uma falácia que é melhor um pouco de inflação do que o desemprego para o coletivo. Bom, aí depende de quanto e por quanto tempo…. O Gráfico abaixo mostra o que acontece com renda real de um trabalhador na medida em que inflação sobe:

inflrenda

 

 

Imagine uma situação que você acabou de ter seu salário reajustado e terá de esperar 12 meses para ter um novo reajuste. No mês seguinte ao reajuste, quando você recebe seu salário, ele já perdeu 0,5% do seu poder de compra, assumindo uma inflação de 6% a.a..  Após 11 meses seu salário perde mais de 5% do poder de compra. O gráfico azul acima mostra o que acontece com o poder de compra de um salário mensal de R$ 100 nos 12 meses após seu reajuste. Se a inflação nestes 12 meses for de 6% a.a. seu salário médio recebido ao longo destes doze meses cai, do pico de 100 logo após seu reajuste inicial, para 97,5 na média dos 12 meses. Ou seja você perde 2,5% do seu poder de compra ( seta preta) no ano. Vemos que na medida em que a inflação aumenta ( seta vermelha), o poder de compra de seu salário cai. Mesmo com um processo de indexação anual que reponha toda a inflação do período, o salário cai em termos reais com a aceleração da inflação. Pelo gráfico acima notamos que a renda real do trabalhador subiria cerca de 1% se a inflação cair de 6% para 4% a.a. 

Bom, VAMOS FALAR DE DESEMPREGO… Desemprego é uma medida que mostra qual o % da população que está economicamente ativa ( empregada ou a procura de emprego) que está a procura de emprego, e portanto não recebe renda do trabalho, mas só do seguro desemprego, que na verdade é uma transferência de renda de quem trabalha ( e paga impostos) para quem está desempregado.

Assumindo que os salários reais permaneçam estáveis, quando o desemprego aumenta de 5% para 6% há no agregado uma perda de renda dos trabalhadores de 1%, assumindo que as pessoas que são demitidas ganhavam o salário médio pago no sistema. Quando o desemprego aumenta, há portanto, uma perda de renda do coletivo dos trabalhadores e assim de consumo na economia em geral.

Porém quando a inflação aumenta também há uma perda de renda e, portanto, de consumo na economia:

rendainfla

 

 

O gráfico azul mostra o que acontece com a renda total do trabalho, quando a inflação sobe ( vermelho) ou desce ( verde) partindo dos 6% anuais que temos hoje ( amarelo), em termos de variação equivalente do desemprego. Ou seja, se a inflação subir de 6 para 8% a.a. ( seta vermelha), O EFEITO EM PERDA DE PODER DE COMPRA COLETIVO DOS TRABALHADORES É  EQUIVALENTE ÀQUELE QUE OCORRE QUANDO O DESEMPREGO SOBE APROXIMADAMENTE  1 PONTO PERCENTUALO inverso ocorre quando a inflação cai: neste exemplo simplificado acima ( em verde), se trouxermos a inflação para 4% a.a. isto teria um efeito positivo na renda do trabalho equivalente a uma queda do desemprego de 5 para 4% a.a., o que aumentaria a capacidade de consumo e de poupar de todos. Os políticos se esquecem deste efeito quando atacam o sistema de metas de inflação! 

Isto aqui não é nenhum exercício econométrico, mas apenas uma demonstração simplificada de que a inflação afeta o poder de compra dos salários, ou seja, seu valor real. E que quando permitimos uma inflação maior, o trabalhador perde, o pensionista perde, o desempregado perde,  o beneficiado pelos programas sociais perde, pois seus rendimentos de fato não são 100% protegidos contra a inflação. Quem ganha? O empresário que produz bens e serviços escassos, quem está protegido por indexação mensal de seus rendimentos, os bancos e os devedores a juros fixos….

A discussão sobre uma suposta “escolha entre desemprego e inflação”, além de ser irreal e falsa como já vimos, não endereça a questão do custo social do desemprego. O custo social do desemprego precisa ser endereçado através da fixação do valor do seguro desemprego, que deve aumentar nos momentos de desemprego maior ( quando este ultrapassar, por exemplo, 6,5% )  e cair nos períodos de desemprego baixo, como o atual, através de flutuações anticíclicas na carga tributária para financiar tais movimentos e da constituição de um fundo montado com este propósito exclusivo.

Ao permitimos uma inflação maior, estamos na verdade tributando todos os trabalhadores e também punindo os desempregados e pensionistas, pois estes tampouco têm  reajuste mensal de seus rendimentos.

  • Bravata 3: Inflação baixa implica em crescimento baixo

Fato: a inflação até 2010 foi abaixo da inflação que tivemos de 2011 para cá, como vemos abaixo:

inflabra01414

 

 

Inflação média até 2010: 5,2% a.a. ( verde).  Inflação média de 2011 para cá: 6,15%, vermelha.

Fato: o PIB cresceu mais até 2010 do que de 2011 para cá:

gdp0214

 

Em verde, 4,5% a.a. na média até 2010. Em vermelho,2,3% a.a. após 2010: ou seja, caiu para a metade

O mesmo pode ser visto na velocidade de queda do desemprego, no gráfico abaixo:

quedadesem

 

 

Fato: Até 2010 ( verde)  o desempego caía  a uma velocidade média 2 vezes superior a que tivemos  após 2011 ( amarelo).

  • Bravata 4: Uma Inflação maior  penaliza o grande capital financeiro ao derrubar o rendimento real de seus investimentos.

Bom, de fato a inflação corrói o poder de compra do dinheiro poupado e investido em ativos financeiros de renda fixa. O gráfico azul  abaixo mostra a evolução do poder de compra de R$100,00 depositados na caderneta de poupança em 2003, com os juros recebidos sendo reinvestidos todos os meses:

poupreal

 

Vemos que até 2010 ( amarelo) havia um pequeno ganho real anual sobre os saldos acumulados, que seguiam uma tendência de valorização ( reta cinza) mais ou menos estável. De lá para cá o rendimento da caderneta de poupança se afastou  bastante daquela tendência e praticamente acabou em termos reais. São milhões de pequenos e médios poupadores que estão assistindo o valor de suas economias estagnar. O mesmo ocorre com os depósitos no FGTS, que rendem bem abaixo da inflação. Somente uma minoria que tem acesso aos títulos indexados à  inflação consegue  proteger suas economias financeiras de alguma forma, porém precisando assumir um risco maior, pois tais títulos são de longo prazo e e seus valores oscilam bastante ao longo do tempo. Novamente vemos que a inflação pune, desproporcionalmente, o pequeno poupador.

Aqui cabe destacar que a tributação dos investimentos no Brasil incide sobre a inflação também, pois incide sobre 100% do ganho nominal. Assumindo uma alíquota de 15% de imposto de renda na fonte, para cada 1% a.a. a mais de inflação, o governo confisca 0,15% a.a. do ganho desta forma. Como temos hoje uma inflação acima de 6% a.a., o imposto sobre tal parcela do rendimento dos investimentos que serve apenas para repor o valor real dos mesmos representa um confisco de cerca de 1% a.a sobre o principal investido. Não é de se estranhar que grandes investidores prefiram investimentos em títulos isentos de impostos, como CRI’s, LCI’s e LCA’s.

E é neste capítulo que se encontra um dos riscos que hoje corremos por não termos um BC totalmente independente e autônomo: a dominância fiscal. Este termo é empregado quando, numa situação de crise fiscal, o governo recorre a monetização da dívida pública (“imprime dinheiro” para financiar dívida e déficit fiscal). Neste cenário, o BC é forçado pelo governo a comprar títulos públicos emitidos pelo Tesouro, emitindo moeda em contrapartida. Isto derruba a taxa de juros e alimenta a inflação. A inflação elevada destrói o valor da  moeda, gerando ganhos enormes ao BC , que os repassa ao Tesouro. O Tesouro reduz assim sua dívida e os poupadores que mantiverem seus recursos depositados nos bancos ou investidos em títulos públicos sofrem grandes perdas no valor real de seus investimentos. Esta é uma forma pouco elegante de se tributar a poupança privada, equivalente, em termos econômicos, a um calote na dívida pública. Esta forma de calote foi adotada na Argentina até recentemente e pelos governos brasileiros até 1994, que usavam a inflação para cobrir os buracos no orçamento público.

  • Bravata 5: Ao invés de subir os juros, precisamos investir mais para conter a inflação.

Bom, de fato se aumentarmos a oferta de bens e serviços através de mais investimentos haverá uma  redução das pressões inflacionárias. Porém o que se esquece aqui é que o investimento, num primeiro momento, gera mais demanda e, portanto, mais inflação.  Vamos supor que você ache que os preços dos cortes de cabelo estejam elevados e pretenda investir no setor de barbearias e com isto aumentar a oferta destes serviços, o que deveria reduzir os preços dos cortes  de cabela e reduzir a inflação. Porém, para investir você precisa:

a. alugar um ponto, o que aumenta a demanda por imóveis comerciais e o preço do aluguel;

b. contratar barbeiros, o que deve aumentar a demanda por mão de obra no setor, elevando o salário pagos a estes no mercado, o que deve causar aumento maiores nos preços dos cortes por parte das barbearias hoje instaladas;

c. comprar equipamentos, como cadeiras e outros utensílios, o que deve gerar mais demanda por tais produtos e, consequentemente, por empregados em tais fábricas, além de mais consumo de energia e de outros insumos;

d. reformar o imóvel, contratando mais pedreiros e demandando mais material de construção;

e. somente depois de tudo isto estar pronto, com a turma treinada, imóvel reformado e equipamento pronto, a barbearia começará a funcionar, cobrando inicialmente os mesmos preços dos seus competidores que demorarão um bom tempinho para reduzir os preços em reação ao aumento de oferta;

e. e, se tudo der certo e os preços dos cortes começarem a cair, o lucro das barbearias e os salários dos barbeiros irão cair também, levando algumas barbearias menos eficientes a fecharem suas portas,  causando a demissão de barbeiros… 

Ou seja, o aumento de investimento inicialmente gera mais demanda por recursos ( humanos e materiais), o que pressiona ainda mais a inflação. Só depois da maturação destes investimentos é que a inflação cai em função da maior oferta de serviços ou produtos. E mesmo assim, este processo gera desemprego, pois tal queda de preços provoca a saída de alguns agentes menos eficientes do mercado, levando a demissão de funcionários.

O que esta turma que defende esta bobagem esquece é que a política monetária serve para gerenciar tal processo de realocação de recursos na economia. Quando há uma inflação elevada,  pois a oferta não consegue acompanhar a demanda e há indícios de plena utilização de recursos capital ou trabalho ( como hoje!!!), a política monetária serve para esfriar a demanda e assim gerar excedentes de mão de obra nos setores menos eficientes da economia ou com maior ociosidade, criando desta forma espaço e recursos para que investimentos se direcionem para os setores onde haja gargalos. A perda de emprego que ocorre neste processo tende a ser menor do que a perda de renda real que ocorre se a política monetária não for ajustada, como vimos acima. Estes conceitos foram demonstrados por inúmeros economistas, vários Prêmios Nobel, inúmeros bancos centrais no mundo todo, nestas últimas décadas. Não são inovações feitas em economias malucas, da “direita neo liberal“.  Isto funciona em inúmeras democracias avançadas, como nos EUA, na Europa, Japão, Inglaterra,  Austrália, Suécia,  Suíça, e  até mesmo em emergentes, como México, Chile, Colômbia, Peru, Polônia, Coréia, Filipinas, Albânia, etc:  países que apresentam metas formais ou informais para a inflação e as cumprem através do uso da política monetária há décadas:

https://www.imf.org/external/pubs/ft/fandd/basics/target.htm

  • Bravata 6: Se a inflação subir mais, podemos sempre aumentar a frequência dos reajustes e dos pagamento dos salários ( mensais? diários? )  e assim evitar a perda de valor real que ocorre por causa da inflação

DE fato sempre podemos retomar a prática de reindexar os salários totalmente. No limite poderíamos criar um índice diário para correção dos salários: o ID. O IBGE calcularia tal índice diariamente com base na estimativa da inflação diária e assim todos os salários poderiam ser corrigidos e pagos com a frequência que for. Porém as pessoas se esquecem que todos os outros preços seriam corrigidos pelo mesmo índice com o passar do tempo.  O R$ aos poucos deixaria de ser usado na fixação de preços, uma vez que seria mais conveniente fixar os preços e salários já em ID’s. Em algum momento seria então mais simples substituir todos os R$ em circulação por uma nova moeda, o ID$. O BC converteria todos os R$ para ID$ na taxa de indexação diária faixada pelo IBGE.  O ID$ teria assim uma taxa de conversão para o falecido R$ igual ao valor do índice diário de correção monetária. O R$ seria então extinto e teríamos uma economia cujos preços e salários seriam denominados agora em ID$, o que facilitaria a vida, pois todos os preços já estariam sendo corrigidos em ID’s. O governo, contudo, poderia continuar divulgando eternamente a cotação diária dos ID$ em R$ só para dar “aquela sensação aos tralhadores que os seus salários estariam sendo protegidos contra a inflação”, embora todos os preços da economia já estivessem sendo cotados em ID$. Eventualmente os bens que apresentarem uma demanda maior do que a oferta, terão seus preços aumentados em ID$, pois a lei da oferta e da procura continuaria válida, infelizmente, no mundo em ID$. Criaríamos então um novo sistema de meta de inflação para o ID$ visando controlar este processo. Porém, algum outro político ou economista “heterodoxo desenvolvimentista com foco no social“, mais no futuro, diria que um pouco de inflação em ID$ não faz mal nenhum… e em alguns anos sairíamos do ID$ para o o IDIO$. Como eu sei isto? Porque foi assim de 1984 até 1994.

As pessoas não entendem que os preços são apenas denominados em alguma moeda ( R$ ou US$ ou ID$), mas na verdade eles servem para mostrar o valor relativo entre as coisas. Se um determinado corte de cabelo custa R$50,00 e uma babá ganha R$ 2 mil por mês, isto apenas quer dizer que a relação de troca entre os serviços oferecidos por uma babá durante um mês e o de um barbeiro num corte é de 40 x, de acordo com o mercado de tais serviços.  Quem determina estas relações de troca são as curvas de oferta e demanda dos inúmeros bens e serviços em nossa economia, suas utilidades relativas e os fatores de produção disponíveis. E a experiência já nos mostrou que o processo inflacionário não é a maneira mais eficiente de se ajustar tais preços relativos. O fato é que eu ainda não vi ainda nada melhor do que o sistema de metas de inflação e política monetária para controlar a inflação.

  • Bravata 7: o custo social do desemprego gerado por uma elevação de juros, mesmo que temporária, é insuportável.

De fato quando se sobe a taxa de juros, a atividade esfria e o desemprego sobe. A política monetária atua ao elevar o custo do crédito e reduzir sua oferta, o que reduz o consumo e o investimento, contraindo a demanda. O inverso ocorre quando os juros são reduzidos. Porém, quanto mais eficiente for a política monetária e mais credibilidade tiver o BC, mais curto é o ciclo de alta dos juros e menor o custo em termos de emprego e produto, como mostra a vasta experiencia internacional no assunto, suportada por dezenas de estudos. Um BC com credibilidade ancora as expectativas de inflação de longo prazo, trazendo-as para perto da meta. Isto reduz enormemente a dose necessária de juros para  reduzir a inflação corrente. Basta assim uma pequena sinalizada nos juros para que os agentes reduzam a velocidade de reajuste dos preços.  Traduzindo: o sistema de metas cria um processo onde a dose do remédio necessário para se combater a doença cai na medida em que os agentes acreditem que o BC não terá medo de administrar a dose que for necessária para trazer a inflação para meta. Numa linguagem mais doméstica, se você for firme, você não precisa dar um tapa na mão de seu filho toda vez que ele ameaçar por o tênis sujo sobre o sofá da sala. Basta um pequeno grito que ele saberá que não pode fazê-lo. O medo da multa e do radar escondido impede o excesso de velocidade nas estradas….

O gráfico abaixo mostra a evolução da taxa de juros Selic fixada pelo BC ( azul) e de sua tendência central ( laranja) desde 2004:

selictend

 

Vemos que a taxa fica ora acima de sua tendência  durante os ciclos de aperto monetário ( como o mostrado em preto em 2008), ou abaixo, como em 2009 em verde.

Vemos um comportamento similar no desemprego, como vemos no gráfico abaixo:

desemptend

 

Vamos colocar agora num mesmo gráfico a evolução dos desvios do Selic de sua tendencia  ( em azul, se referindo ao eixo da direita)  e dos desvios do desemprego de 12 meses de sua tendencia ( em laranja, referindo-se ao eixo da esquerda):

desvselicdesemp

 

Vemos que durante os ciclos de aperto monetário ( quando o gráfico azul está bem no alto) o Selic chegou a se desviar 2,5 pontos percentuais de sua tendência ( seta azul), tendência esta que hoje está ao redor de 8,7% a.a. Estes picos de aperto monetário ( azul) antecedem os picos de alta do desemprego (laranja) que chegou a se desviar no máximo cerca de o,5 ponto percentual  de sua tendência, que hoje se encontra em 5,1%. Ou seja, o custo social destes ciclos de aperto monetário em termos de desemprego é relativamente baixo e temporário, como mostra nossa história recente.   Já os danos de uma inflação elevada são maiores e mais prolongados, como vemos abaixo:

inflatend

 

O gráfico azul mostra a evolução da inflação do IPCA desde 2004. O gráfico laranja mostra sua tendência central filtrada. A reta cinza horizontal, o centro da meta do BC. Vemos que desde 2010 a tendência da inflação se desviou do centro da meta e se estabilizou ao redor de 6 % a.a. ( verde claro e vermelho)  Como vimos mais acima, este aumento da inflação equivale, em termos de perda de renda agregada dos salários, a um aumento do desemprego da ordem de 0,7 pontos percentuais.

  • Bravata 8: Não faz sentido subir os juros para combater choques temporários de preços ou de câmbio que elevam a inflação momentaneamente

Sem dúvida!! Porém é preciso ficar muito atento pois tais choques temporários podem contaminar outros preços e se espalhar pela economia. Cabe a política monetária evitar que isto ocorra. Uma forma de avaliar se isto está ocorrendo é acompanhar o comportamento do índice de difusão, que mostra o % de items que compõe o IPCA que estão subindo naquele mês, cuja evolução desde 2004 é mostrada no gráfico azul abaixo:

difusao

 

 

O gráfico laranja mostra a tendência central deste índice. Fica claro que desde 2010 a inflação está cada vez mais espalhada ( seta vermelha), se contrapondo ao que acontecia até 2009 ( verde). Ou seja, num ambiente como o atual assumir que choques de preços são pontuais é bastante temerário.

  • Bravata 9: Um país como o nosso não pode ter uma meta de inflação de 3% a.a.

Isto eu chamo de síndrome de cachorro vira lata. Dá uma sensação que não temos competência ou capacidade para nos comportarmos como outros países mais desenvolvidos em termos de disciplina monetária, por alguma distorção cultural, que beiras  o preconceito. O Gráfico de barras abaixo mostra a inflação média dos últimos 4 anos de alguns países, segundo banco de dados do FMI:

inflapaises

 

 

O Brasil, marcado em vermelho, se situa na “liga” da Argentina, Uruguay e Indonésia, bem distante dos outros que apresentam inflação abaixo de 4% ( linha amarela horizontal).  Eu pergunto: o que torna os países abaixo da linha amarela  melhores que o nosso? E por qual razão não podemos almejar chegar lá nos próximos anos?

  • Bravata 10: Nossa prioridade é combater as desigualdades sociais e melhorar a distribuição de renda, e combater a inflação pode atrapalhar este objetivo

Aqui o discurso perde completamente o sentido, pois a inflação é um método extremamente injusto de distribuir renda. A inflação transfere renda do trabalhador, poupador e o pensionista para os devedores e os rentistas que investem em ativos que oferecem rendimentos protegidos da inflação ( dividendos, juros pós fixados, aluguéis, dólar, etc). E os rentistas tendem a ser mais ricos do que os trabalhadores e pensionistas. Logo, nada é mais equivocado.

Enfim, podem me chamar de monetarista. Fiquem a vontade. Mas, por favor, me mostrem qual seria o método alternativo e onde ele funcionou. 

Seguem abaixo algumas frases que encontrei sobre a inflação:

Uma pequena inflação não tem a mínima importância. É exatamente como uma pequena gravidez. Dino Segre Pitigrilli

A inflação é a criação de uma tensão dentro da economia para modificar a constituição da renda. Ela é sempre antisocial. Celso Furtado

 A inflação é como o pecado: todo governo a denuncia e a pratica. Leith- Ross

A inflação dissolve o dinheiro, avilta os tesouros, compromete o crédito, perturba a produção, paralisa as obras, dessora os governos, depaupera os particulares, fermenta as revoluções. Jânio Quadros

Invista em inflação. É a única coisa que continua subindo. Will Rogers

Inflação é ter que viver pagando os preços do ano que vem com o salário do ano passado. Anônimo

O primeiro remédio para uma nação mal administrada é a inflação da moeda; o segundo é a guerra. Ambos trazem uma prosperidade temporária; ambos acarretam uma ruína permanente. Entretanto, ambos são recursos usados por oportunistas políticos e econômicos. Ernest Hemingway

A inflação tem lá as suas utilidades. Uma moedinha é sempre útil quando não se tem à mão uma chave de parafuso. H. Jackson Brown

Mas a minha frase favorita envolve Lenin e Keynes, muitas vezes mencionados por alguns dos autores das bravatas que mencionei  acima:

 

frase-lenin-disse-que-a-melhor-forma-de-destruir-o-sistema-capitalista-era-corromper-o-dinheiro-por-um-john-maynard-keynes-127880

 

http://www.pbs.org/wgbh/commandingheights/shared/minitext/ess_inflation.html

Lenin is said to have declared that the best way to destroy the capitalist system was to debauch the currency. By a continuing process of inflation, governments can confiscate, secretly and unobserved, an important part of the wealth of their citizens. By this method they not only confiscate, but they confiscate arbitrarily; and, while the process impoverishes many, it actually enriches some. The sight of this arbitrary rearrangement of riches strikes not only at security but [also] at confidence in the equity of the existing distribution of wealth.

Those to whom the system brings windfalls, beyond their deserts and even beyond their expectations or desires, become “profiteers,” who are the object of the hatred of the bourgeoisie, whom the inflationism has impoverished, not less than of the proletariat. As the inflation proceeds and the real value of the currency fluctuates wildly from month to month, all permanent relations between debtors and creditors, which form the ultimate foundation of capitalism, become so utterly disordered as to be almost meaningless; and the process of wealth-getting degenerates into a gamble and a lottery.

Lenin was certainly right. There is no subtler, no surer means of overturning the existing basis of society than to debauch the currency. The process engages all the hidden forces of economic law on the side of destruction, and does it in a manner which not one man in a million is able to diagnose. 

In the latter stages of the war all the belligerent governments practiced, from necessity or incompetence, what a Bolshevist might have done from design. Even now, when the war is over, most of them continue out of weakness the same malpractices. But further, the governments of Europe, being many of them at this moment reckless in their methods as well as weak, seek to direct on to a class known as “profiteers” the popular indignation against the more obvious consequences of their vicious methods.

These “profiteers” are, broadly speaking, the entrepreneur class of capitalists, that is to say, the active and constructive element in the whole capitalist society, who in a period of rapidly rising prices cannot but get rich quick whether they wish it or desire it or not. If prices are continually rising, every trader who has purchased for stock or owns property and plant inevitably makes profits. By directing hatred against this class, therefore, the European governments are carrying a step further the fatal process which the subtle mind of Lenin had consciously conceived. The profiteers are a consequence and not a cause of rising prices. By combining a popular hatred of the class of entrepreneurs with the blow already given to social security by the violent and arbitrary disturbance of contract and of the established equilibrium of wealth which is the inevitable result of inflation, these governments are fast rendering impossible a continuance of the social and economic order of the 19th century. But they have no plan for replacing it….

The inflationism of the currency systems of Europe has proceeded to extraordinary lengths. The various belligerent governments, unable or too timid or too short-sighted to secure from loans or taxes the resources they required, have printed notes for the balance. In Russia and Austria-Hungary this process has reached a point where for the purposes of foreign trade the
currency is practically valueless. The Polish mark can be bought for about [three cents] and the Austrian crown for less than [two cents], but they cannot be sold at all. The German mark is worth less than [four cents] on the exchanges….

But while these currencies enjoy a precarious value abroad, they have never entirely lost, not even in Russia, their purchasing power at home. A sentiment of trust in the legal money of the state is so deeply implanted in the citizens of all countries that they cannot but believe that some day this money must recover a part at least of its former value…. They do not apprehend that the real wealth, which this money might have stood for has been dissipated once and for all. This sentiment is supported by the various legal regulations with which the governments endeavor to control internal prices, and so to preserve some purchasing power for their legal tender….

The preservation of a spurious value for the currency, by the force of law expressed in the regulation of prices, contains in itself, however, the seeds of final economic decay, and soon dries up the sources of ultimate supply. If a man is compelled to exchange the fruits of his labors for paper which, as experience soon teaches him, he cannot use to purchase what he requires at a price comparable to that which he has received for his own products, he will keep his produce for himself, dispose of it to his friends and neighbors as a favor, or relax his efforts in producing it.

A system of compelling the exchange of commodities at what is not their real relative value not only relaxes production, but [also] leads finally to the waste and inefficiency of barter. If, however, a government refrains from regulation and allows matters to take their course, essential commodities soon attain a level of price out of the reach of all but the rich, the worthlessness of the money becomes apparent, and the fraud upon the public can be concealed no longer.

The effect on foreign trade of price-regulation and profiteer-hunting as cures for inflation is even worse. Whatever may be the case at home, the currency must soon reach its real level abroad, with the result that prices inside and outside the country lose their normal adjustment. The price of imported commodities, when converted at the current rate of exchange, is far in excess of the local price, so that many essential goods will not be imported at all by private agency, and must be provided by the government, which, in re-selling the goods below cost price, plunges thereby a little further into insolvency….

The note circulation of Germany is about 10 times what it was before the war. The value of the mark in terms of gold is about one-eighth of its former value….

It is a hazardous enterprise for a merchant or a manufacturer to purchase with a foreign credit material for which, when he has imported it or manufactured it, he will receive mark currency of a quite uncertain and possibly unrealizable value….

It may be the case, therefore, that a German merchant, careful of his future credit and reputation, who is actually offered a short-period credit in terms of sterling or dollars, may be reluctant and doubtful whether to accept it. He will owe sterling or dollars, but he will sell his product for marks, and his power, when the time comes, to turn these marks into the currency in which he has to repay his debt is entirely problematic. Business loses its genuine character and becomes no better than a speculation in the exchanges, the fluctuations in which entirely obliterate the normal profits of commerce….

Thus the menace of inflationism described above is not merely a product of the war, of which peace begins the cure. It is a continuing phenomenon of which the end is not yet in sight….

Pergunta que não quer calar:

1.Teríamos perdido de vez a crença que o sistema de formação de preços num economia de mercado funciona?

2. Seriam os partidários do Populismo Inflacionário de fato Leninistas que desejam acabar com o capitalismo?

E pensar que a foto deste mesmo Lenin já decorou a nota de 10 rublos:lenin

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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2 comentários | Comentar

  1. 52 IRCR 13/05/2014 11:00

    Inflação é algo muito velho, existe desde o imperio romano, quando o governo clipava as moedas, aumentando a oferta monetaria.
    Hoje, a inflação é institucionalizada e legalizada pelo monopolio autorgado para os bancos centrais. Basta o banqueiro central apertar uma tecla no computador que ele cria dinheiro, junto com o sistema bancario. Muito mais facil que clipar moedas como antigamente.
    O dolar entre 1800 e 1900 basicamente manteve o seu valor quando não havia o FED, na criação dele em 1913 até 2013 o dolar já perdeu 95% do seu valor.
    Os unicos que ganham com a inflação são os governos que podem aumentar seus gastos livremente, os banqueiros centrais e o sistema bancario, pois tendem a ser os primeiros usuarios da moeda recem inflada.
    Inflação é o robin hood as avessas, pois tira riqueza do pobre e passa para os ricos, nem é de se espantar que desde as decadas de 70\80 a desigualdade aumentou tanto, pois o processo inflacionario pós fim do lastro em ouro e a financeirização fez com que os mais ricos tivessem acesso a instrumentos de investimentos para proteger da inflação, coisa que o mais pobre não tem.

    • Ricardo Gallo 13/05/2014 11:19

      exato. é uma distribuição de renda às avessas. os rentistas agradecem….

      tem que bater no bicho até ele morrer. bicho: dragão da inflação.

  2. 51 Fabrício 12/05/2014 11:13

    Gallo, eu acho que seria muito melhor que os políticos neste caso fossem realmente desonestos intelectualmente, pois o dano seria menor. Assim eles prometeriam não combater a inflação, mas quando chegassem no poder, de fato combateriam. O dano à economia seria muito menor do que se de fato eles fossem “honestos” intelectualmente. Assim, hipoteticamente falando, a Dilma prometeria não combater a inflação, mas de fato ela saberia que teria que adotar os remédios amargos, e mudaria sua forma de governar. Mas o fato é que não confio mais nas promessas da Dilma populista. Apesar de já ter sido um de seus eleitores. Fora Dilma. Avante Aécio e avante Eduardo Campos!

    • Ricardo Gallo 12/05/2014 16:17

      vamos la: eu não sei ainda como os outros candidatos pretendem endereçar estas questões. ate agora não ficou muito claro o como… só os desejos… portanto, não consigo opinar sobre os candidatos e seus planos. só consigo falar sobre a situação atual e sobre as políticas atuais.

      quando a questão da honestidade intelectual eu prefiro sempre a honestidade, pois é a unica forma do povo fazer escolhas educadas, e assim evoluir junto com a nossa jovem democracia. fazendo escolhas conscientes e vivendo com as consequências de tais escolhas. com o passar dos anos iremos aprendendo …. senão ficamos no engana que eu gosto que só favorece uma minoria esperta….

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