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quarta-feira, 4 de junho de 2014 Bicadas, bizarro, Brasil, Crise Brasileira, Politica Economica, Sem categoria | 01:12

Até tu, Lula?

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A frase, “Até tu, Brutus”, entrou para a história como a última frase dita por Julio Cesar quando foi assassinado no Senado Romano e viu seu filho adotivo, Brutus, entre os seus assassinos. Hoje tal frase é usada em situações de desapontamento. O Ex presidente Lula deu uma importante entrevista à revista Carta Capital, onde deixa claro suas posições políticas, mostrando enorme alinhamento com as idéias de seu partido e com a Presidenta Dilma. Vale a pena leitura:

http://www.cartacapital.com.br/revista/802/lula-em-campanha-3387.html

Não pretendo debater aqui as questões do Presidente com a classe média, ao endossar o pensamento de Marilena Chauí, ou com a liberdade de imprensa e com a reforma da constituição. Estes são assuntos que deixo para as colunas políticas. Eu vou me limitar a um tema: política macroeconômica. E, neste sentido, uma resposta do Presidente me deixou bastante incomodado e perplexo, pois mostra que o Presidente minimiza o impacto dos avanços “macro” conquistados em seu primeiro mandato.

Vejam o trecho abaixo:

CC: Notáveis avanços são inegáveis. Mas como vai ser daqui para a frente?

Lula: Eu fazia debates mundo afora, com o Mantega, o Meirelles, às vezes a Dilma. E eu dizia: esses ministros meus, eles falam de macroeconomia, mas o que eles não dizem é que essa macroeconomia só deu certo por causa da minha microeconomia. O que foi a microeconomia? Foi o aumento de salário, foi a compra de alimentos, a agricultura familiar, foi o financiamento, foi o crédito consignado, foi o Bolsa Família. Foi essa microeconomia que deu sustentabilidade à macroeconomia.

Não quero entrar na discussão mérito da contribuição individual dos Ministros Mantega, Meirelles, Dilma, e até mesmo Palocci que nem sequer foi mencionado, para a estabilidade econômica. Normalmente eu esperaria, abusando de mais uma metáfora futebolística como as utilizadas pelo presidente de forma impecável, do técnico de um time de futebol vencedor que ele dividisse com os seus jogadores o reconhecimento pelas conquistas atingidas. Mas cada técnico tem seu estilo.

O que me incomoda mesmo é a inversão da relação de causalidade entre o que o Presidente chama de “macro e de micro”. Sem entrar aqui na questão filosófica do nexo de causalidade na visão de Aristóteles, Leibniz, Descartes, Spinoza , Hobbes ou Kant, pois certamente esta não é minha praia e tampouco do Presidente, é preciso entender um pouco das condições necessárias para que as políticas “micro” a que o presidente se refere sejam sustentáveis. Esta visão equivocada que o “macro” serve para a elite e o “micro” serve para o pobre é  muito comum na nossa esquerda, equívoco este que pode sim levar a perda de todas as conquistas “micro” referidas pelo Presidente. Boas práticas macroeconômicas são vistas por alguns mais à esquerda como valores burgueses que só atendem a elite e ao grande capital, em detrimento dos menos favorecidos. Na mesma linha que estudar, ler e se preparar para as provas é uma prática burguesa. Ou seja, há neste grupo uma completa dissociação entre a estabilidade econômica e bem estar social.

Todos nós defendemos  políticas “micro” que visem reduzir a desigualdade social e promovam o crescimento setorial. Porém, sem o “macro”, o impacto do “micro”  é bastante menor.

Os elementos “micro” a que o Presidente se refere, “aumento de salário, foi a compra de alimentos, a agricultura familiar, foi o financiamento, foi o crédito consignado, foi o Bolsa Família.“, dependem todos, assim como 100% das políticas sociais, o emprego e o investimento privado,  do ambiente macroeconômico e do crescimento sustentável da economia. Não basta apenas a tal da vontade política para se implantar tais políticas “micro”.  A “vontade política” que algumas políticas micro demandam é uma necessidade, porém não é suficiente . O que permite que tais políticas “micro” tenham sucesso e sejam sustentáveis é a existência de condições macro favoráveis. Abusando mais uma vez a analogia futebolística, não basta ter um bando de jogadores talentosos em campo, se não tivermos preparo físico, treinamento, disciplina tática e determinação.

As  políticas macro implementadas no primeiro mandato do Presidente Lula, embora impostas por uma situação externa desfavorável causada pela desconfiança existente sobre a agenda macro de seu governo, trouxeram enormes benefícios para nossa economia. Com tais políticas voltamos a atrair capitais externos, o que nos permitiu acumular um volume expressivo de reservas externas reduzindo nossa vulnerabilidade externa. A estabilidade de preços e o compromisso com as metas de inflação, aumentou a confiança dos empresários que ampliaram seus investimentos produtivos. A maior disciplina fiscal, com superávits primários sólidos, permitiu a redução da dívida pública e uma queda maior da taxa de juros de longo prazo, propiciando um aumento na oferta de crédito imobiliário e ao consumo. Este ambiente de estabilidade econômica levou a uma forte aceleração da atividade econômica. Um PIB maior quer dizer uma produção maior e uma renda maior. Este é o significado de PIB!!! Uma renda maior ajuda a impulsionar o consumo e a aumentar a arrecadação de impostos. Com mais impostos, foi possível expandir os programas sociais. Um PIB maior significa mais empregos e mais salários, que viabilizam mais crédito e mais consumo.  Ou seja, foram as políticas macro que garantiram a viabilidade das políticas “micro” a que o Presidente se refere, e não o contrário como o Presidente afirma.  Os custos iniciais de tais políticas macro viabilizaram a queda do desemprego e a consequente melhoria da renda e aumento dos gastos sociais. Os custos “impostos” inicialmente pelos “agentes de mercado” em 2003 e 2004, viabilizaram uma agressiva agenda social e econômica que permitiu  a entrada de 60 milhões de pessoas na classe média, como o próprio governo propaga. Tais politicas permitiram a queda do desemprego de 11% para 5% .

Não quero dizer aqui que os méritos das políticas macro adotadas no seu primeiro mandato são mérito exclusivo de seus ministros, pois foi o Presidente quem os escolheu e endossou tais políticas. Apenas quero enfatizar que as políticas macro adequadas viabilizaram as “micros”.  E vejo que a reversão destas políticas macro está nos levando a uma trajetória que ameaça as conquistas sociais “micro” que o Presidente defende. Esta  dissociação entre o macro e o micro ficou mais evidente nos últimos anos,  e o seu resultado pode ser visto no gráfico abaixo que mostra claramente em amarelo a queda do PIB que ocorreu após 2010:

 

pibinho

 

E os dados da FENABRAVE de vendas de veículos  mostram no gráfico vermelho abaixo ( média mensal de vendas últimos 12 meses), que depois de uma forte aceleração até 2011 ( verde) , de lá para cá as vendas estagnaram ( amarelo) e recentemente há sinais de queda ( seta cinza):

 

vendafenbrave

Achei importante destacar este aspecto pois é neste debate de causalidade que se encontra a principal diferença entre a minha visão do processo econômico e a defendida pelos economistas mais ligados à esquerda. Não discordo da necessidade de ampliar as políticas sociais, porém acho que precisamos criar mais condições econômicas de fazê-lo, pois, se não o fizermos acabaremos perdendo as conquistas que já foram feitas. E creio que as políticas econômicas atuais, assim como as adotadas nos últimos anos, nos levarão a taxas de crescimento ainda menores, como mostraram os dados recentes do PIB, o que deverá reverter muitos dos ganhos sociais conquistados até agora.

Infelizmente, ainda estamos no estágio de desenvolvimento econômico que precisamos crescer para fora da pobreza, ao mesmo tempo que a combatemos, pois nosso país chegou muito tarde ao capitalismo, em função de inúmeras políticas intervencionistas desastradas de governos passados. E só iremos de fato acabar com a pobreza quando todos todos brasileiros chegarem a classe média ou acima, para horror da Marilena Chauí. Para mim, uma classe média forte e grande é sinal do fim da miséria e da pobreza. Não um problema.

Espero que o Presidente não pense de fato que dá para ter o “micro” sem o “macro”, pois isto seria uma grande apunhalada no coração do seu governo, que tanto trouxe para este país.

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3 comentários | Comentar

  1. 53 Alex 06/06/2014 0:51

    Parece que o sucesso do governo Lula foi um misto de sorte com acerto nas indicações da equipe no início do 1º mandato.

  2. 52 Carlos Eduardo 04/06/2014 15:50

    Lula: Vamos supor que a Dilma seja eleita e eu resolva indicar o Belluzzo. E ela falasse “não”. O que iria acontecer? Ia ficar um arranhãozinho na nossa relação de amizade.

    O cara é um corintiano nato.

    • Ricardo Gallo 04/06/2014 16:14

      neste cenario, eu iria ate brasilia e agradeceria a dilma….

  3. 51 Joe Zeibars 04/06/2014 10:28

    Gallo, não sei se ele acha que dá para ter o micro sem o macro mas ficou bem claro que para ele são duas coisas distintas e passíveis de priorização. O que fomenta o medo da guinada para o populismo bolivariano/argentino caso seja necessário. Assustador esta entrevista, mostra o potencial de polarização binária nas políticas do país em épocas de vacas magras sem liquidez abundante que estão no horizonte…

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