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segunda-feira, 14 de julho de 2014 Bicadas, Brasil, Crise Brasileira, Politica Economica, Sem categoria | 02:44

Intervencionismo 10 x 1 Brasil

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Não pretendo aqui tentar encontrar uma explicação para o que aconteceu dentro de campo com nossa seleção. Não é minha praia, pois sou das quadras e raquetes, e tampouco é o foco desta coluna. Fico com a resposta do goleiro Julio Cesar, quando disse que era difícil explicar o inexplicável depois dos 7 a 1:

http://www.cidadeverde.com/cvamarela/2014/07/08/julio-cesar-explicar-o-inexplicavel-e-muito-complicado/

Da mesma forma respondeu a  nossa Presidente Dilma quando os jornalistas estrangeiros lhe perguntaram por que o Brasil crescia tão pouco, como vemos abaixo:

http://br.reuters.com/article/topNews/idBRKBN0EF12G20140604

E ainda sob os efeitos do choque traumático causado pelo fracasso de nossa seleção, que tomou uma goleada como nunca antes vista em nossa história, o Governo, nas vozes da Presidenta Dilma e do Ministro dos Esportes, impulsivamente expressou recentemente o desejo de intervir também no futebol, assim como faz na economia, no BC, nos preços administrados, nos juros, no Câmbio, na Petrobrás, etc,  como vemos neste trecho de artigo retirado do Estadão:

http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,dilma-defende-renovacao-na-gestao-do-futebol-aldo-fala-em-intervencao,1526779

E em outros noticiários:

http://www.ecofinancas.com/noticias/rebelo-defende-fiscalizacao-publica-futebol/relacionadas

Logo em seguida ele tratou de desmentir, pois caiu na real que tal intenção seria no mínimo maluquice, uma vez que se o governo não consegue dar conta  da educação tampouco da saúde, imagine o que faria se viesse a se meter no futebol:

http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2014-07/governo-nao-quer-comandar-futebol-mas-modernizar-diz-dilma

E é bom lembrar que esta mesma CBF que está aí, com esta mesma organização pífia, nos levou a cinco campeonatos mundiais, e que o Felipão, campeão em 2002, gozava até há pouco do apoio completo do governo:

http://blogdobrunovoloch.blogosfera.uol.com.br/2012/11/27/marin-consulta-dilma-e-aldo-rebelo-recebe-aprovacao-do-governo-e-escolhe-felipao-para-assumir-selecao/

Tanto que a própria presidenta afirmou que seu Governo tem o padrão Felipão:

http://oglobo.globo.com/brasil/dilma-meu-governo-padrao-felipao-8879264

Diga-se de passagem, o mesmo Felipão que levou meu Verdão para a segunda divisão e abandonou o time poucas rodadas antes do rebaixamento no Brasileirão. E de fato, abusando das analogias futebolísticas usadas com muita precisão pelo presidente Lula, pelo menos no front econômico nós estamos com uma inflação de vigor similar ao do time alemão e um crescimento similar ao desempenho brasileiro na copa.  E a derrota diante da Holanda apenas confirmou o fiasco, assim como os dados mais recentes da inflação e da atividade econômica.

Aproveitando-me assim dos eventos recentes e entrando agora na economia, a reação inicial emblemática de nossas autoridades mostra bem algumas características da ideologia intervencionista do governo:

  • Eventuais resultados positivos levam o governo à euforia (como a conquista da Copa das Confederações) nacionalista ufanista,  sem uma correta análise das razões que nos levaram a vitória e sobre a dimensão relativa do ganho (onde as seleções adversárias que estavam mais interessadas nas praias do que no torneio). O mesmo aconteceu com as “conquistas sociais dos últimos 10 anos”, que são creditadas apenas à competência do Estado, mas que só foram conquistadas devido a um cenário externo extremamente favorável e às políticas econômicas ortodoxas e liberais herdadas do governo FHC e que foram adotadas com rigor no primeiro mandato do governo Lula.  Esta preparação anterior, o  forte treinamento, conquistado através de anos de sacrifícios e de políticas prudentes e consistentes, nos deixaram um legado que permitiu a forte expansão das políticas sociais e a forte queda do desemprego. Além disto, estudos mostram que vários outros países emergentes tiveram ganhos sociais iguais ou superiores aos nossos neste mesmo período. Porém, nos iludimos facilmente com tais sucessos e paramos de treinar e investir no futuro. A húbris patriótica.
  • Há uma incapacidade enorme de identificar os problemas antes que eles materializem gravemente: os problemas com nossa seleção já vinham sendo apontados por vários analistas especializados e a reação Felipão foi como um “toiss”. Os críticos da seleção, nas palavras do excelente José Trajano, eram apontados nas redes sociais como antipatriotas que torciam para o Brasil perder! Tivemos que sucumbir diante da força alemã, que já era conhecida por todos, para reconhecer os nossos problemas e aí então disparar uma resposta impensada e irracional à “crise”.  Foram feitas várias substituições para o jogo contra a Holanda mas os defeitos continuaram lá. O mesmo se aplica a situação econômica atual e ao que estamos vivendo na questão da Petrobrás e da Energia elétrica, da inflação, da falta de poupança interna, dos déficits externos persistentes, da falta de investimentos privados, do aumento de gastos públicos acima do crescimento do PIB. Os críticos são massacrados e isolados da mesma forma.  Parece que vamos precisar sucumbir diante da crise, para aí reagir no desespero, inicialmente de forma errada, como hoje estamos fazendo ao aumentar estímulos ao consumo.
  • O diagnóstico do problema é sempre afoito e enviesado. Uma hora é o problema com os laterais que são fracos, outra é o Fred que fica parado, outra é o Hulk que está querendo resolver tudo sozinho, outra é que o meio de campo não combate, outra é que os árbitros estão querendo prejudicar o Brasil, e por aí vai. Ninguém questiona se a estratégia ou o investimento feito na preparação do time foram bem feitos ou adequados ou se o técnico é o melhor para o momento atual do futebol ou da economia. Só o fazem após a catástrofe. E sempre numa tentativa de afastar de si a responsabilidade pelo fracasso, apontando o dedo para culpados. O mea culpa feito pelo Felipão e o choro dos jogadores depois do fiasco são tentativas melodramáticas de escapar das críticas ao tentar sensibilizar os ouvintes. Assim como o populismo do marketing eleitoral, que coloca os candidatos do lado dos pobres e defendendo a justiça social, os patrocinadores da copa mostram o futebol sendo jogado nas favelas ou nas várzeas.
  • Sempre que há um problema sério na administração pública, o governo tende a desconversar e afirma que tudo está bem, que a economia está ótima.  Quem aponta as falhas na condução da política econômica são oposicionistas mal intencionados que torcem para a derrota, para o fracasso, com agendas políticas escondidas. A imprensa seria enviesada para direita, controlada pela elite capitalista reacionária e conservadora que estaria conspirando contra o sucesso de nossa seleção nacional e de nossa nação. Ou pior ainda, os críticos são agentes dos abutres neoliberais que desejam o aumento do desemprego e a queda nos salários, assim como os jornalistas esportistas estariam a serviço da FIFA visando proteger os interesses dos grandes times da Europa. Nossos intervencionistas nunca reconhecem os problemas ou propõem alguma mudança de rumo. Insistem nos mesmos remédios que não estão funcionando. Exatamente como o Felipão, que começou a apontar para uma possível conspiração da FIFA contra o Brasil, e não quis reconhecer os problemas da equipe que, do ponto de vista tático, mostrava sinais claros de fraqueza na ocupação dos espaços no campo desde o início da copa.
  • Quando há algum problema localizado no setor privado,o governo, a pedidos, corre para intervir, pois acredita que o setor privado não tenha a competência necessária  para resolver os seus problemas e que os “mercados” só agem para defender o grande capital e assim arruinar o povo. Nesta mesma linha, os intervencionistas no poder acreditam que o governo, e só o nosso governo, sabe sim o que é melhor para todos. E isto se aplica a qualquer setor: energia elétrica, petróleo, crédito ao consumo, financiamento a projetos, financiamento imobiliário, saúde, educação, segurança, logística, preservação ambiental, agro negócio e agora futebol! Ou seja, os intervencionistas no governo defendem o famoso “deixa comigo que eu resolvo o jogo”, tão desprezado no futebol. O governo se reconhece como um onipotente e onipresente supercraque com as características combinadas do  Neymar, Messi, Neuer, Hummels, Loew, Maradona e Pelé, coisa que nem as superequipes europeias conseguem replicar em seus times com seus milhões de Euros. E  tampouco o governo da mais rica, da mais avançada e poderosa nação do planeta há décadas, os EUA, consegue fazer em sua economia. Seria isto um sinal da prepotência Felipiana chegando ao Planalto?
  • Toda intervenção estatal passa por uso dos escassos recursos orçamentários do setor público, seja via subsídios, desonerações localizadas ou empréstimos subsidiados em condições muito favoráveis. Com isto não sobra alternativa senão tributar ainda mais  aqueles setores da economia que (ainda) estão indo bem e que, portanto, não “demandam ajuda do governo e podem ajudar o país neste momento”. Porém, aqueles que hoje ainda estão indo bem começam a sucumbir diante da elevada carga de impostos e aí precisam recorrer ao Estado Intervencionista, alimentando o ciclo negativo. No futebol já se fala em refinanciar as dívidas tributárias dos clubes, sempre em condições subsidiadas, ao invés de impor pressões sobre os mesmos para que resgatem sim suas obrigações com o Estado, vendendo o direito de uso de sua marca dos times e  entregando a gestão de seu futebol, tanto nas categorias de base e de topo, para grupos empresariais que visem lucro e o sucesso das equipes e de seus jogadores. Ninguém fala que é preciso privatizar o Futebol, transformar nossos clubes em projetos profissionais e empresariais como as grandes máquinas de futebol da Europa.  O governo prefere manter os times Zombies, endividados, que não conseguem assim reter nem formar grandes jogadores, e que precisam exportar seus craques para pagar as suas contas. Da mesma forma que o governo tenta dar sobrevida a setores da indústria que não conseguem gerar valor e competitividade com subsídios e BNDES,  prejudicando assim setores outros com potencial maior de crescimento: é a política de que não se mexe em time que está jogando mal, a mesma que justificou a presença teimosa de Fred no nosso ataque.
  • A intervenção do estado geralmente passa por controle de fluxo de capital e do comércio externo visando “proteger” a indústria local, o que na verdade é uma forma de violência e de repressão financeira e econômica. No caso do futebol, a reação inicial de nosso governo intervencionista foi a de proibir que jogadores jovens saiam do Brasil e se dirijam para outros países, como se tais jogadores (cidadãos) fossem um patrimônio nacional, promovendo uma espécie de ” lei do sexagenário” . Com isto,  pensa-se  estar protegendo os pobres e fracos times brasileiros que “perdem” seus jogadores ao grande capital financeiro internacional imperialista, e se esquece assim dos milhares de jovens jogadores que sonham em jogar fora do país algum dia. Nesta mesma linha podemos questionar se algum dia iremos proibir que engenheiros ou médicos brasileiros recém formados saiam do Brasil para trabalhar no exterior caso vislumbrem chance de ganhar mais por lá.
  • O protecionismo intervencionista acaba desestimulando a inovação. Ou seja, hoje inúmeros jovens talentosos esportistas decidem entrar nas escolinhas sonhando em algum dia ir para Europa, jogar nos grandes times, treinar com as equipes que adotam técnicas de vanguarda, ter acesso a patrocinadores globais, tornando-se de fato marcas e não apenas jogadores. Nosso maior craque deixou claro isto quando declarou que seu sonho era um dia jogar no Barcelona. E aposto que 9 entre 10 jovens meninos nas categorias de base pensam assim. Com isto eles podem acumular mais patrimônio e uma possibilidade de alongar suas carreiras participando de campanhas de marketing. Jogadores que normalmente estariam aposentados aqui no Brasil, como Beckham, desfrutam ainda de prestígio junto à comunidade desportiva em função deste “merchandising”.  Se encurtarmos os horizontes econômicos dos jogadores, menos talentos irão se dedicar nas escolinhas de futebol ou simplesmente irão migrar ainda bastante jovens para o exterior onde tal repressão não exista, e com isto perderemos de vez os talentos. Negar esta nova realidade do futebol mundial, assim como a globalização, significa nos condenar a outros vexames. O mesmo ocorre com indústrias que dependem da inovação para crescer. Não é de se estranhar que só tenhamos uma Embraer aqui e que a nossa indústria esteja sucumbindo.
  • O intervencionismo com este viés protetor acaba isolando o país. O que torna o nosso futebol famoso hoje em dia não é mais o sucesso da nossa seleção canarinho, mas sim os nossos jogadores de sucesso que jogam na Europa. A Europa é hoje o maior centro consumidor de futebol do mundo. Vejam os preços pagos por jogadores por lá e o público pagante médio na Liga Espanhola ou Alemã vis a vis o nosso Brasileirão. Isto permite que os patrocinadores paguem bem aos clubes que podem ter times mais fortes. Na globalização, o centro produtor e o mercado consumidor estão muitas vezes em diferentes países. Intervencionistas com viés nacionalista odeiam isto.
  • Outra característica do intervencionismo estatal é que ele logo se politiza, o que é natural, pois o Estado tem que ser político. Contudo, algumas práticas normais na política são completamente inadequadas na vida econômica e nos esportes. Por exemplo, a emoção e o medo decorrentes da pressão por vitórias no esporte não podem ser externos ao campo por estarem vinculados a outras agendas maiores, como a salvação nacional ou da economia ou mesmo da eleição. A pressão legítima, que motiva e coloca sangue na boca dos atletas, vem do desafio dos gramados e da quadra, do desafio de superar o adversário. Da vontade absoluta de vencer. O título, o bicho, o reconhecimento popular e o patrocínio, vêm naturalmente depois. Na hora H, este medo saudável se transforma em gana ou raça,  termo que usamos frequentemente no futebol. A euforia, o gozo e o choro de alívio aparecem apenas quando o juiz dá o apito final. Quando a pressão sobre os jogadores é externa ao campo e ao esporte, repete-se o que ocorreu com os próprios atletas arianos alemães na Olimpíada de 1936, que, cegos pelo ufanismo eugênico nazista, sucumbiram diante dos atletas afro descendentes americanos. Teria sido o choro dos nossos jogadores durante o hino nacional cantado a capela um sintoma ou reação inconsciente a esta exacerbada  pressão política extracampo que estava presente na imprensa e na torcida devido a super politização da copa?
  • Outra característica fascinante do intervencionismo do governo é o entendimento de que, se há algo de errado, para arrumar as coisas precisamos fazer uma completa revolução. Um mega plano, uma utopia ou o super PAC, sempre  tentando se reinventar a roda e ignorando outras experiências de sucesso adotadas no resto do mundo. Tal Plano sempre exige uma enorme articulação gerencial e política para ser formulado e que na prática nunca é implantado na forma ou nos custos planejados. Às vezes na vida a solução mais adequada não é a ótima, a “ideal” , mas sim a segunda melhor e mais simples: que tal  pressionar os clubes, cobrando seus impostos devidos, e as federações, cortando as subvenções existentes, exigindo uma melhor governança e profissionalização de seus quadros?  Que tal forçar os clubes a profissionalizar sua gestão do futebol, e, no caso dos times profissionais, exigir que estes negócios sejam apartados dos clubes na forma de empresas privadas, sujeitas a impostos, com a participação do capital privado nacional,  que assumam também a gestão do futebol em suas divisões inferiores?  O governo é credor dos clubes e dos estádios de futebol. Basta usar este poder de pressão para fazer com que a turma pague a dívida e se profissionalize. Isto funciona para o resto da economia no mundo todo, até mesmo no cinema ( Hollywood)  e no entretenimento ( Disney). Com times profissionais, as federações terão que se adaptar e modernizar, o que levaria inevitavelmente à reforma da CBF.
  • Este intervencionismo excessivo leva também o governo a assumir a “propriedade” de eventos e de resultados que são de propriedade e responsabilidade da sociedade civil. Ou seja, o sucesso da Embraer, da Vale e do agronegócio é muitas vezes apropriado pelo governo de forma completamente oportunista, visando justificar o próprio intervencionismo. Isto gera uma reação contrária destes setores, que começam a ser vistos pela sociedade como os “queridinhos do governo” que foram agraciados de benesses estatais.  Esta reação se converte em indiferença ou até mesmo em ódio daqueles que não foram, ou melhor, não se sentem agraciados pelo governo com tais benesses. E o governo, ao tentar se apropriar politicamente da Copa, traz este clima para as arquibancadas. Acredito que isto explique um pouco das vaias e os xingamentos às autoridades durantes os jogos da copa. Ou seja, o intervencionismo, ao evidenciar tratamentos diferenciados, cria rivalidades entre os diversos grupos sociais e isto se reflete dentro do campo, pois os jogadores sentem que há algo, além da copa, em jogo. Isto eleva a pressão sobre os jogadores além do normal, o que acaba tornando um gol sofrido em uma hecatombe paralisante, o tal do “branco de 6 minutos” que vimos no jogo contra a Alemanha. E pior, quando as coisas dão errado no campo, os custos políticos recaem sobre os ombros do governo de maneira totalmente desnecessária.
  • A presidenta Dilma, que pareceu bastante incomodada no momento do gol dos alemães nos hermanos kirchnerianos, tem afirmado que não pretende estatizar o futebol, mas apenas modernizá-lo. E a derrota dos hermanos nos traz uma alívio adicional neste ponto, pois caso eles vencessem,  poderíamos, quem sabe,  ter aqui uma revolução bolivariana no futebol, pois para os intervencionistas, modernizar significa fazer algo impensável, que muitas vezes é somente algo impensado. Sugiro  assim que a Presidenta deixe as forças naturais do mercado e do nosso amor ao futebol tomarem as rédias do processo e foque suas energias em outros assuntos mais urgentes, como saúde e educação.
  • Porém é preciso fazer justiça e dizer que este DNA intervencionista não é exclusividade do PT. Há este mesmo DNA, em maior ou menor escala, no PSDB, no PSB, no PMDB e no PSD, só para listar alguns. E este intervencionismo ideológico se casa com o patrimonialismo estatal e com a corrupção de forma perfeita, o que potencializa seus efeitos nefastos quando tais grupos chegam ao poder. Não creio que uma maior interferência do governo na CBF ou nos clubes possa reduzir o patrimonialismo, a incompetência e a corrupção hoje presentes no futebol. De fato, nossa experiência tem mostrado que a corrupção aumenta nos setores onde o governo mais interfere.

Meu amigo Leopold Nosek, extraordinário psicanalista e pensador, apesar de corintiano fanático, colocou com brilhantismo em sua coluna na Folha que o Futebol é a versão moderna da tragédia grega e que representa simbolicamente os acontecimentos e sentimentos reais de nossas vidas individuais e coletivas:

http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/07/1481477-leopold-nosek-sofocles-dionisio-messi-e-neymar.shtml

Talvez a tragédia da Copa das Copas para nossa seleção mostre a todos nós um pouco dos equívocos do coletivo de nossa sociedade no que diz respeito à maneira que queremos resolver nossos problemas econômicos.  Mostrou que, por um lado, conseguimos sim organizar um evento desta proporção com enorme qualidade a despeito do pessimismo inicial dos mais céticos, porém mostrou também que a sede intervencionista e centralizadora, o patrimonialismo que habita a CBF e modelo anacrônico de gestão de nossos clubes precisam ser repensados, assim como várias das instituições econômicas hoje em vigor. Em particular  é preciso acabar de vez com a visão de que o estado grande, o Super Neymar que irá decidir o jogo, disfarçado de Leviatã, pode resolver tudo sozinho. Nosso Neymar não foi suficiente para compensar as fraquezas táticas de nosso time, e a fatalidade do atropelo violento do Zuniga, um golpe cruel do destino como a esperada subida dos juros nos EUA, inutilizou nosso poderoso Leviatã. Transformar a CBF em outro tentáculo deste monstro estatal não nos trará resultados melhores, vide a nossa Petrobrás. Neste cenário, seria razoável prever a criação de mais um imposto sobre o preço dos ingressos ou nas negociações de passes de jogadores, criado com a finalidade de alimentar este monstro. E inúmeros presidentes de clubes de futebol seriam então apontados por partidos políticos que dariam apoio parlamentar ao governo. E quem sabe seria criado o bolsa jogador…

O nosso futebol não é tão diferente da nossa realidade como nação: pentacampeã, apesar de tudo, porém não mais deitada em berço esplêndido. Torço aqui para que até 2018 tenhamos aprendido isto, tanto no front econômico como no futebolístico e que possamos aí repetir o gesto e o sorriso alegre do Cafu em 2002, mesmo que seja com o próprio Felipão, como marcado em vermelho na foto abaixo, abraçado ao corintiano Vampeta, só que daquela vez usando uma camiseta branca e sem o agasalho da “sorte” que usou no jogo contra a Alemanha:

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5 comentários | Comentar

  1. 55 IRCR 16/07/2014 19:25

    Obrigado pela resposta.

    No caso da Colombia que tb apresenta deficit externo, mas que não está no mesmo nivel de “evolução/desenvolvimento” dos outros países citados apesar que estão fazendo boas reformas pró-mercado, como que fica a historia ?
    O deficit para eles seria mais seguro que o nosso ?

    • Ricardo Gallo 17/07/2014 11:30

      Em economia você não pode ficar analisando uma variável de forma individual. Deficit, inflação, equilíbrio fiscal, etc. Tem que ver todo um contexto. No caso brasileiro, é preocupante um cenário de deficit externo crescente e persistente, com inflação elevada, divida publica elevada e crescimento pífio. Mostra que há um profundo desequilíbrio na economia. Como uma febre. Febre em si não é ruim, nem bom. É um sintoma. O deficit no Brasil não é um sintoma de excesso de investimentos privados, mas de pura falta de poupança pública. Outra questão relevante é se os investimentos financiados por este deficit irão no futuro gerar as divisas e a renda necessárias para pagar o endividamento que se acumula em função de seu financiamento.

      Talvez valesse a pena você olhar os fundamentos macros da economia Colombiana e ver se eles apresentam desequilíbrios similares aos nossos, e aí poderá concluir se o déficit para eles é um problema maior ou menor que o nosso.

    • Ricardo Gallo 17/07/2014 9:03

      nao fica. vce precisa analisar as coisas no conjunto macro dentro do contexto geral da economis

      o texto que lhe indiquei pode te ajudar a entender

  2. 54 IRCR 16/07/2014 8:58

    Gallo,

    Por tem tanto medo do deficit externo ? Australia a Nova Zelandia bem como (USA e UK) possuem deficit externo há tempossss e nem por isso.

    • Ricardo Gallo 16/07/2014 15:34

      eles conseguem se endividar em suas proprias moedas que sao conversiveis, e possuem rating de credito elevadissiomo, pois tem boa governanca macro ha decadas… os fundos soberanos na asia compram bonds em nzd e aud e uk para diversificar reservas….os 3 paises tem moeda estavel, com inflacao baixa e sistema de metas de inflacao, bc’s independentes e consagrados. nzd foi o primeiro a adoar sistema formalmente. isto reduz volatilidade do cambio. e com a plena convertibilidade da conta capital, o risco no fluxo de capital é pequeno. aqui nao temos nada disto. nada. la bc nao interfere no cambio. o que reduz incerteza…

      eua tambem tem deficit enorme e consegue se financiar, por este mesmo motivo…

      quem sabe chegamos la algum dia…

      existe alguns trabalhos excelente do hausmann que conheci quando estive no hks:

      http://www.hks.harvard.edu/about/faculty-staff-directory/ricardo-hausmann

      sobre isto.

      o pecado original…

      o pecado original é ter dficit e moeda sem credibilidade: brasil, argentina, etc….

  3. 53 Marcos 14/07/2014 20:42

    Oi, Gallo.

    Poderia falar sobre a balança comercial?

    Li hoje que as exportações caíram 1,6% frente ao mesmo período do ano passado. Observei que as queda nas exportações aconteceram de março a junho (4 meses seguidos). Acredito que essa queda seja pequena, mas gostaria de saber sua opinião visto que a mesma vem acontecendo mês-a-mês. Essa queda ajudaria a esfriar a inflação ou vai mesmo pegar na produção?

    Abraços,
    Marcos

    • Ricardo Gallo 15/07/2014 13:17

      Nao creio que va ajudar inflacao nao…. mostra mesmo que vamos ter que subir mais o dolar pra frente…quanto pior deficit externo mais pressao na infla na frente….. se mesmo com este pibizinhozinho deficit externo nao cair, meu amigo, sai da frente!

  4. 52 diego 14/07/2014 19:12

    Gallo,

    No comentário anterior não quis dizer que a R é gerada por aqueles itens, ao contrário. minha intenção foi refletir se talvez o governo não queira seguir por este caminho por medo de causar mais R, uma vez que a economia já não tem mais o cenário externo favorável como ocorreu durante o governo Lula e o pibão nunca veio.

    O que me deixa intrigado é entender se o governo enxerga tudo isso e não atua simplesmente por uma questão de viés ideológico (seja ele por heterodoxia, “esquerdismo”, populismo ou puro medo das urnas) ou se é incapaz de enxergar o óbvio.

    Aliás, quero saber se os demais candidatos tbm já viram isso, por que até agora não vi nenhuma proposta capaz de virar o jogo.

    Parabéns pelo post!! e obrigado pelo espaço para comentar e atenção em responder.

    • Ricardo Gallo 15/07/2014 13:14

      Concordo com voce 100%. Eu apenas respondi com tom de discordancia retoricamente, para enfatizar concordancia…. hehehe!

      valeu.

  5. 51 diego 14/07/2014 9:37

    Gallo,

    Como os milhões de técnicos das arquibancadas, todos parecem ter receitas vencedoras para o futebol e para o país…. focando no objetivo do blog, a receita equilibrio das contas + superavit primário + responsabilidade no controle da inflação e etc. não gera o medo do desemprego e, como vc mesmo diz, da tão temida palavra “R” ?

    Como o futebol da nossa seleção o nosso pib tbm anda bem fraquinho… e como nossos jogadores o medo de errar tbm parece paralisar os Scolaris e Parreiras lá de Brasília.

    Se bem que a comparação pode levar a um questão mais importante afinal não sabíamos antes da derrota que ambos os campeões mundiais já não eram os mais indicados para tarefa?

    • Ricardo Gallo 14/07/2014 14:19

      A R está sendo gerada hoje e não é por causa de nada disto que voce menciona: equilibrio das contas + superavit primário + responsabilidade no controle da inflação …. ao contrario, estamos tendo R por causa da falta disto!!! Estamos tomando de goleada na economia por que não treinamos ou praticamos os fundamentos básicos de uma economia saudável. Ficamos dando passes de lado na defesa….

      No primeiro mandato de Lula fizemos tivemos: equilibrio das contas + superavit primário + responsabilidade no controle da inflação,sem medo do R…. e deu certo. não teve R…

      Eu acho que o que paralisou Filipao no Palmeiras e na seleção é uma visão antiguada do futebol, uma visão que deu certo em 2002 e no Palmeiras de Marcos e Rivaldo, mas que nos últimos 12 anos ficou ultrapassada, como o nacionalismo intervencionista hoje aqui defendido. Como nossa economia que deu certo sem se reformar ate 2010 pois havia abundancia de mão de obra. Quando acabou a abundancia da mao de obra, sem reformas que aumentassem a produtividade, a economia atolou…. e começaram a entrar os gols dos alemães…o modelo de absorção de capacidade ociosa via consumo acabou e o governo não vê!

      Sabiamos? A midia, os ufanistas, todos nós acreditamos na brincadeira da copa das confederações, como acreditamos hoje que é possível manter as conquistas sociais crescendo 1 ou 2% a.a. e com inflação de 6 ou 7% a.a…. sabemos hoje que não da para fazer isto? ou só descobriremos lá em 2018?

      nos acomodamos na economia como nos acomodamos no futebol. o sucesso da copa das confederações nos enganou assim como os 7% do pib de 2010… e o resultado está aí.

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