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segunda-feira, 1 de setembro de 2014 Crise Brasileira, Crise global, Crise na Europa | 01:48

Os reais efeitos das crises americana e européia em nosso crescimento

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Um dos argumentos usados para justificar a performance fraca de nossa economia nos últimos anos está centrado nos efeitos da grave crise externa, européia  e americana, em nossa economia. De fato a crise americana e sua irmã européia tiveram um forte impacto na economia global, cujas sequelas serão sentidas ainda por alguns anos.  Logo, é incontestável a tese de que a crise tenha tido algum impacto sobre a performance de nossa economia nos últimos anos

Contudo, o que é preciso avaliar é se o impacto de tal crise em nossa economia é suficiente ou não para explicar a nossa pífia performance econômica dos últimos anos. Mas avaliar diretamente os efeitos colaterais no Brasil de tais crises e das reações dos governos daqueles países a elas é uma tarefa muito difícil. O que é possível fazer é comparar o desempenho relativo de nossa economia com outros países e tentar tirar daí alguma conclusão.

Usando dados retirados do banco de dados do FMI :

http://www.imf.org/external/pubs/ft/weo/2014/01/weodata/weoselgr.aspx

eu preparei alguns gráficos, para variar, que mostram a evolução anual de nosso PIB vis a vis outros países desde 2006. Lembrando que crise americana teve seu pico em 2009 e a Européia em 2012.

Vamos começar comparando a evolução do PIB brasileiro  e do americano neste período:

pibeuabrasil

 

 

As barras azuis mostram a variação de nosso PIB ano a ano e as laranjas mostram o mesmo para o PIB americano de 2006 até 2014, usando para 2014 as projeções do FMI, que , estão bem otimistas no caso brasileiro pois apontam um crescimento de quase 2%, algo que, segundo a média dos analistas consultados pelo BC, não deve passar de 1%. Vemos que até 2010 nossa economia performava bastante melhor do que a deles e que de 2010 para cá a diferença entre a nossa taxa de crescimento e a deles ficou bem pequena, como mostra bem o gráfico abaixo:

 

braseua

 

 

Vemos ( seta amarela) que de 2006 até 2010 nosso PIB em média andava bem mais rápido do que o deles. Já após 2010 a coisa se inverteu…

Ou seja, por estes gráficos temos a sensação que a crise americana foi pior para nós do que para os próprios americanos em termos de performance relativa, o que, a meu ver parece meio absurdo.

Outro aspecto comentado por alguns membros da equipe econômica é que o desaquecimento da economia chinesa nos prejudicou muito.  Podemos ver no gráfico abaixo a evolução do PIB anual Chinês ( azul) e o do PIB Brasileiro desde 2006:

brasilchinapib

 

Vemos ( seta amarela) que o PIB chinês vem se desacelerando desde 2007, quando crescia a 14% a.a, e hoje parece ter se estabilizado ao redor de 7,5% a.a.. Nosso PIB teve um comportamento similar,  o que pode ficar mais claro no gráfico de dispersão abaixo:

pibbrasxchina

 

Parece que há uma correlação razoável entre a variação do PIB anual Chinês (verde) e nosso Pib anual ( cinza), cuja regressão aparece na reta pontilhada. Tal regressão indica que se o PIB Chinês crescer 1 ponto percentual mais rapidamente, nosso PIB acelera 0,7% a.a. . Aqui temos uma outra má notícia, pois isto indicaria que se o PIB Chinês em 2015 crescer a 6,5% a.a ao invés dos 7,5% a.a. deste ano, nosso crescimento se desaceleraria em 0,7% do PIB… Ou seja, se terminarmos este ano com 0,7% de crescimento do PIB, ano que vem dá zero, tudo mais constante.. Se isto for verdade quer dizer que não temos vida própria, pois dependemos dos chineses para crescer mais rápido. Mas não seria isto muito perigoso? Seria sim, pois não é razoável esperar que economia chinesa volte a crescer a 10% ou 12% a.a., o que significaria que vamos ficar estacionados em 1 ou 2% a.a. de crescimento por alguns anos pelo menos.

E a Europa? A enorme depressão vivida naquelas bandas estaria nos arrebentando? O gráfico abaixo mostra a taxa média de crescimento entre 2006 e 2010  ( barras azuis) e entre 2011 e 2014 ( em laranja) para o Brasil, Espanha e Itália, 2 países periféricos fortemente afetadas pelos problemas na Grécia e Portugal:

brazieuropa

 

 

Vemos que no caso brasileiro houve uma queda na taxa de crescimento quando se comparam os dois períodos, em linha com o que ocorreu na Itália como na Espanha. Porém parece que os efeitos da crise européia aqui foram maiores do que lá, como vemos no gráfico abaixo que mostra o diferencial de crescimento Brasil / Itália ( barras azuis) e Brasil / Espanha ( barras em laranja) , até 2010 e após 2010:

brasileuroparelat

 

Vemos em verde que antes da crise crescíamos de 3,5 a 4,5% a.a. mais rápidos do que eles, e em vermelho vemos que após a crise européia o diferencial entre nosso crescimento e o deles caiu para 2,5% . Ou seja, novamente parece que a crise Européia nos afetou mais do que aos próprios europeus, o que não me parece fazer sentido tampouco.

Mas quais os efeitos destas crises nos nossos vizinhos da America Latina?

Usei dados da variação do PIB anual de uma amostra alguns países da região desde 2006 como mostra o gráfico abaixo:

 

piblatam0614

 

Embora estejam na mesma região, estes países apresentam vocações diferentes:

– Uruguay, Panamá: serviços

– Argentina, Costa Rica : agricultura

– Chile, Peru, Equador, Colômbia: recursos naturais

– México: manufatura

As barras verticais mostram a variação do PIB anual para cada um dos países da amostra, com destaque em verde para o Brasil e em preto para a média da amostra incluindo o Brasil. Já dá para ver aí que nos últimos anos a coisa aqui ficou pior, mas creio que o gráfico abaixo nos ajude a ver melhor nossa posição relativa:

 

 

posrelatlata,

 

O gráfico vermelho mostra a evolução de nossas taxas anuais de crescimento desde 2006. E o gráfico preto mostra a evolução da média aritmética da taxa de crescimento da amostra inteira. Fica evidente que após 2010 nossa economia tem performado consistentemente pior que a de nossos vizinhos. Ou seja, parece que a crise nos afetou mais do que a nossos vizinhos!

Vemos no gráfico abaixo, que entre 2006 e 2010 crescíamos a uma taxa apenas 0,6% a.a. abaixo da média da amostra, e nos últimos 4 anos temos crescido a quase 3% a.a. abaixo da amostra:

 

 

brazilvsmedialatam

 

 

Para se ter uma idéia do que isto  representa, o gráfico abaixo mostra o crescimento acumulado de cada um dos países latinos de nossa amostra  entre 2011 e 2014:

 

 

piblatamacum1114

 

 

Vemos em verde que nosso país cresceu no período menos de 10%, a pior performance da amostra, vis a vis uma média de 20% da amostra ( amarelo), e bem abaixo dos campeões ( marcado em laranja).

Vamos analisar agora da ótica da inflação, que tem estado persistentemente elevada, apesar da nossa taxa baixa de crescimento. O gráfico abaixo mostra a evolução ano a ano desde 2004 de nossa inflação comparada a de alguns outros países:

 

inflabrasmundoserie

 

 

Nosso gráfico (em verde) se descolou bastante da amostra (vermelho) após 2008, e de lá para cá a coisa só piorou.  Veja o gráfico abaixo que mostra a evolução da diferença entre a nossa taxa de inflação e a média da amostra acima ano a ano desde 2004:

 

infbrasilamostra

 

Vemos que de 2004 até 2007 tal diferença só caiu (seta verde) e que depois de 2008 só subiu (seta vermelha). Ou seja, nossa inflação subiu mais do que a inflação média dos países das amostras após 2008.

Tanto no quesito crescimento como no quesito inflação nossa performance relativa nos últimos anos foi pior do que outras economias igualmente ou mais expostas aos efeitos da crise de 2008/2010. Sejam quais forem os motivos da nossa pífia performance dos últimos anos, acho perigoso e temerário assumir dizer que isto se deva apenas à crise externa, pois se isto for verdade, devemos ser bem mais frágeis que nossos vizinhos ou do que os países que foram diretamente afetados pela crise. Precisamos ou inventar outra desculpa melhor ou tentar entender o que de fato nos tem levado a esta performance horrível e começar a mudar as políticas para reverter este quadro.

Novamente é fundamental que os candidatos(as) à Presidência da República tenham em mente a situação internacional e saibam que não mais seremos empurrados pelos bons ventos externos que nos ajudaram até 2008. Pois quando precisamos usar nossas próprias pernas para nos movermos para frente, elas se mostraram atrofiadas. Ficar usando a economia internacional com desculpa não nos serve para nada. Só atesta nossa incompetência.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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2 comentários | Comentar

  1. 52 Ivan Caliu Candiani 11/09/2014 15:19

    Ricardo,
    Acompanho sua coluna a algum tempo e parabenizo pela sua forma de analizar a economia de forma que eu compreenda, mesmo não sendo economista.
    Neste período de eleições, fiquei curioso quanto ao desempenho econômico do Brasil frente a outros paises no periodo de 1994 a 2002.
    Foi intencional não ter plotado os gráficos partindo de 1994 ou antes?

  2. 51 Michel 01/09/2014 18:49

    Caro Ricardo,
    Novamente, excelente post e adorei a análise, que está muito boa. Acho que você foi no cerne da questão com o gráfico da posição relativa do crescimento do nosso PIB em relação à média dos nossos países.

    É que nem sempre acho justo dizer que devemos crescer tanto quanto nossos vizinhos, pois quanto maior o PIB, mais difícil fica sustentar a taxa de crescimento anterior, em razão até de limitações físicas (tecnologia, população etc.). Então, dizer que o crescimento de nosso PIB tem de ser igual ao da Bolívia não me parece uma crítica consistente – é como criticar os Estados Unidos porque seu PIB não cresce aos 14% da China.

    Por isso mesmo, a nossa posição relativa em relação aos outros países me parece uma base mais sólida para avaliação de nosso desempenho. Quer dizer, o referencial importante não é “nossos vizinhos estão crescendo mais rápido do que nós?” e sim “nossos vizinhos estão crescendo mais rápido do que costumavam?”

    E sua análise confirma o que eu já achava: a crise internacional tem, sim, influência negativa sobre nós, mas o grosso da nossa queda de performance (tanto em termos de produto como de inflação) é devida à nossa própria incompetência.

    Obs.: e ainda vem gente me dizer que cálculo diferencial é inútil… (1ª e 2ª derivadas, hehehe)

    • Ricardo Gallo 01/09/2014 21:19

      Obrigado; o correto mesmo seria fazer o que os economistas chamam de analise contrafactual, ou seja, quanto teríamos crise com vs sem crise…. porém é quase impossível fazer isto sem assumir 500 hipóteses sobre canais de transmissão da crise ( trade, fluxo de capitais, preços de ativos, etc…) ….. o que nos resta é uma analise diferencial….

      agora eu não acho que seja incompetência o problema não: eu acho que foram escolhas mal feitas por questões puramente dogmáticas e ideológicas que se provaram equivocadas. se fosse só incompetência bastaria trocar as pessoas responsáveis por tal incompetência… o problema, infelizmente, é bem mais profundo…

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