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quinta-feira, 4 de setembro de 2014 Bancos, Crise Brasileira, Juros no Brasil, Politica Economica, Sem categoria | 02:24

A estatização do crédito

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Recentemente a Presidenta Dilma afirmou que se não fossem os bancos públicos a economia estaria parada:

http://m.estadao.com.br/noticias/politica,sem-credito-publico-brasil-para-afirma-dilma,1552177,0.htm

De fato os bancos públicos cresceram de forma importante a sua participação no crédito total, como mostra gráfico abaixo:

 

creditopibpubpriv

 

O gráfico laranja mostra a evolução do volume total da carteira de crédito dos bancos privados em % do PIB desde 2003. O gráfico azul mostra o mesmo para os bancos públicos. Vemos em amarelo que o volume de crédito concedido pelos bancos privados está estagnado como % do PIB desde 2008, ou seja, ele tem crescido acompanhando o crescimento do PIB. Já os bancos públicos aceleraram suas concessões após 2008, tendo superado recentemente os bancos privados no volume total de crédito concedido na economia ( marrom). O que levou a este comportamento? Devido à prudência e a seus modelos de gerenciamento de risco, os bancos privados normalmente reduzem a oferta de crédito quando a economia patina, como tem ocorrido desde a crise de 2009. Podemos ver no gráfico abaixo a evolução da taxa de crescimento anual do índice de atividade do BC do B desde 2004, cuja tendência central ( gráfico laranja) indica uma forte desaceleração ( seta vermelha) que se inciou em 2010:

 

 

taxacrescibc

 

 

 

O governo utilizou os bancos públicos a partir de 2009 para estimular a economia ofertando mais crédito e  mantendo assim o ritmo de crescimento do crédito total na sua tendência prevalecente desde 2005, apesar do recuo dos bancos privados, como vemos no gráfico abaixo da evolução do crédito total como % do PIB:

 

creditotlpib

 

Apesar deste esforço do governo, após 2010 a economia vem perdendo folego. Ou seja, parece que a oferta turbinada de crédito por parte dos bancos públicos não tem ajudado a aquecer a economia, ou na visão dos desenvolvimentistas de plantão, ela deveria subir ainda mais para aquecer a economia….

DE fato é interessante analisar a eficiência econômica do aumento do crédito interno ( ou velocidade de circulação do crédito) sobre o crescimento da economia. Para se estimar tal eficiência econômica  precisamos avaliar quanto o PIB cresceu em determinado ano vis a vis o crescimento de crédito naquele mesmo ano. Desta forma, a eficiência pode ser estimada dividindo-se o crescimento nominal do PIB ( em R$ ) em determinado ano pelo crescimento nominal do estoque de crédito naquele mesmo ano em R$ correntes. OU seja, tal índice mede quanto  R$ 1,00 de aumento nominal no estoque de crédito “gerou” de aumento de PIB nominal em R$ naquele ano. Fiz esta análise separadamente para o crédito privado e para o crédito público desde 2004, e o gráfico segue abaixo:

eficienciacreditoanoano

 

 

 

O gráfico azul mostra a eficiência econômica calculada como descrevi acima apenas para o crédito dos bancos públicos, ano a ano desde junho de 2004.  E o laranja a mesma coisa é feita para o crédito privado. Notamos que há sim uma tendência de queda na eficiência econômica da expansão nominal de crédito por parte dos bancos públicos (seta vermelha), e uma certa estabilidade para os bancos privados.  Ou seja, a mesma expansão de crédito público está produzindo efeitos cada vez menores na atividade econômica.

O gráfico abaixo ajuda a comparar a eficiência econômica média dos bancos privados e públicos antes e depois de 2010:

 

ate2010

 

 

 

As barras azuis mostram a eficiência econômica média dos bancos privados, entre 2004 e 2010, à esquerda, e entre 2011 e 2014, à direita. As barras em laranja mostram a mesma coisa para os bancos públicos. Vemos que houve uma enorme queda na eficiência econômica dos empréstimos dos bancos públicos ( seta amarela). Isto não quer dizer que se os bancos públicos saírem de cena o PIB não cairia. Tampouco que os bancos públicos sejam piores que os privados. Isto apenas demonstra que expandir o crédito dos bancos públicos não está tendo o mesmo retorno em termos de atividade econômica que tínhamos até 2010.

Por exemplo, para uma inflação de 6% a.a. e um crescimento do PIB real desejado de 3% a.a., o PIB precisaria crescer em termos nominais cerca de R$ 460 bilhões ( 9,2 % a.a. ) por ano. Assumindo que a eficiência do crédito público seja 2,o e do crédito privado seja 3,8,  seria preciso um crescimento anual de R$230 bi na carteira dos bancos públicos, ou seja, 15,5% a.a., ou 5,8% a.a. acima do PIB. Neste ritmo, em 5 anos os bancos públicos deteriam 40% do PIB em crédito e os bancos privados teriam 27% do PIB, ou seja, o estado controlaria 60% do crédito na economia.

Na prática estamos gradualmente estatizando o crédito interno. De fato, se projetarmos para o futuro a tendência prevalecente nos últimos 4 anos, fica evidente este quadro, como vemos em amarelo no gráfico abaixo:

 

tendcreditpubpriv

 

 

SE mantivermos a tendência dos últimos anos teremos um sistema de crédito dominado por bancos públicos ( linha azul). É isto o que queremos??

Para agravar a situação há uma forma de repressão financeira imposta pelo governo que obriga os bancos públicos e privados a direcionarem uma fração importante de seus empréstimos para setores específicos da economia ( Bndes, imobiliário e rural, principalmente) a taxas subsidiadas, sejam pelos cofres públicos ou sejam pelos  tomadores de recursos livres junto aos bancos através de subsídios cruzados onde os tomadores de empréstimos a taxas livres precisam pagar aos bancos taxas maiores para compensar os juros subsidiados cobrados pelos bancos nos empréstimos direcionados. Hoje tais empréstimos direcionados pelo governo representam mais de 25% do PIB , ou seja, quase 50% do crédito total na economia. A persistir a tendência de crescimento destes empréstimos dos últimos 4 anos, em 5 anos eles representarão quase 40% do PIB, como mostra o gráfico abaixo:

 

direcionado

 

 

Isto reduz a eficiência da política monetária na economia pois 50% do crédito total é insensível a variações das taxas de juros Selic fixadas pelo BC do B, o que acaba demandando do BC a imposição de juros Selic mais elevados do que seriam necessários  num cenário onde os juros de todos empréstimos fossem fixados pelo mercado. Em outros palavras, a intervenção excessiva do estado no crédito acaba elevando a taxa básica de  juros de nossa economia.

Também é preciso avaliar se com esta queda de eficiência econômica, o subsídio fiscal implícito nestes empréstimos subsidiados está tendo um retorno econômico satisfatório. O exemplo abaixo mostra que num empréstimo feito pelo BNDES na TJLP, de 13 anos de prazo com 3 de carência, o valor presente do subsídio concedido pelo governo ao tomador é de cerca de 28% do principal:

 

 

subsidbndes

 

 

Traduzindo: o tomador leva para casa R$ 100 mas só precisa devolver 71. É muito dinheiro, na medida em que somente o BNDES tem cerca de R$ 600 bilhões em empréstimos. Cada R$ 100 bilhões de aumento na carteira de empréstimos do BNDES gera um subsídio de R$ 29 bilhões, ou seja, isto representa um aumento de 0,55% do PIB na dívida líquida do setor público que está se aproximando a 40% do PIB.

É fundamental portanto que os candidatos (as) à Presidência da República se posicionem com relação a este problema e digam o que pretendem fazer para acabar com mais esta distorção criada pelo governo nos últimos anos.

 

 

 

 

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3 comentários | Comentar

  1. 53 Marco 10/09/2014 14:11

    No embalo das eleições tenho notado um aumento do discurso de vários políticos sobre o pagamento elevado dos juros da dívida pública. Embora todos deixem subentendido, por trás destes comentários está a ideia simplória de que ao invés de pagar juros, o país deveria investir estes recursos em saúde, educação, etc.
    Dado o nosso passado de desrespeito a contratos, poupanças, etc…, que chegou ao ponto de confisco de recursos no caso do Plano Collor, você acha possível que, se a situação continuar piorando de forma a realimentar o circulo vicioso que entramos (inflação elevada, necessidade de juros alto e cambio valorizado com perspectiva de rebaixamento do investment grade) , “mudem a regra do jogo” no caso da dívida interna ? Com isso estou pensando desde um caso mais extremo como renegociação forçada de juros e vencimento até casos menos agressivos como criar uma conta virtual dos juros devidos e pagar “quando a situação assim o permitir”. Isso sem falar no tradicional, aumento do imposto sobre os juros e principal.

    • Ricardo Gallo 10/09/2014 17:50

      eu acho improvável isto, pois qualquer brincadeira com isto representaria a ruína do país. é mais fácil deixar inflação subir e assim corroer o valor real da dívida pública em R$, da mesma forma que os hermanos o fazem…. mais simples. O trabalhador se ferra, e o grande capital foge e se protege….

  2. 52 Gilmar 09/09/2014 9:39

    Ricardo já me falaram que esse governo esta atrasando os repasses dos subsídios do MCMV a CEF e BB, esse tipo de “calote” não pode colocar em risco o sistema financeiro nacional ?

    • Ricardo Gallo 09/09/2014 10:23

      não acho. apenas colocaa a perder toda credibilidade fiscal do governo junto a investidores.

  3. 51 Guilherme 05/09/2014 0:55

    My two cents:

    – É interessante notar que mesmo com o grande crescimento do crédito pelos bancos públicos o nivel de inadimplência de suas carteiras está perto do low histórico, o que não seria o esperado. Ou os bancos púbicos entendem de crédito melhor que Itaú e Bradesco, ou tem alguma coisa contábil (como renegociaçao de dívidas) que mascara isso. O próprio BNDES tem PDD perto de 0% (deve ser o melhor banco do mundo nesse critério).

    – Esse governo só utiliza o mesmo remédio para tudo: crédito, crédito, crédito. Eu até acho que beira o irresponsável dado o o já preocupante nível de endividamento das famílias e empresas.

    – Para terminar, acho que foi você que em um artigo comentou do aumento da alavancagem dos bancos públicos via pagamento de 100% dos dividendos possíveis para o governo para cumprimento do primário.

    • Ricardo Gallo 08/09/2014 15:01

      sim. o governo sangra os bancos públicos com dividendos insustentáveis

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