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sexta-feira, 12 de setembro de 2014 Crise Brasileira, Politica Economica, Sem categoria | 01:35

Saldo das contas públicas desaba e leva consigo a poupança

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Gráfico abaixo mostra o que está acontecendo com o saldo das contas do governo nos últimos 12 meses:

 

superavitprima

 

 

Em verde marquei o comportamento do saldo primário ( poupança feita pelo governo ) de 2002 até 2009, que andava acima de 3% do PIB por ano. DE 2011 para cá a coisa afundou ( vermelho), e sua tendência central ( gráfico laranja) é muito preocupante, pois indica que o pior ainda está por vir. O gráfico abaixo, preparado pelos economistas do Banco Fibra, ajuda a ver a gravidade da situação:

 

 

prim7m

 

 

As barras azuis verticais mostram ano a ano o montante de saldo fiscal acumulado nos primeiros sete meses de cada ano desde 2003, como % do PIB. Vemos que até 2008 este saldo acumulado nos primeiros sete meses do ano ficava acima de 4,0% do PIB ( verde), pois a maior parte do superavit é atingido no começo do ano. Vemos em amarelo que de 2011 para cá o saldo fiscal acumulado nos primeiros 7 meses do ano tem desabado, chegando a apenas 0,8% do PIB este ano (preto), ou seja, menos de 1/5 do que tínhamos até 2008. Isto é muito preocupante pois mostra que dificilmente atingiremos a meta fiscal este ano. Além disto, este saldo pífio e cadente tem sido inflado por estratégias de engenharia contábil que ferem alguns princípios da contabilidade:

  • receita decorrente de dividendos dos bancos públicos recebidos pelo Tesouro Nacional é tratada como receita primária do governo, embora os bancos públicos apresentem níveis já elevados de endividamento e demandam muitas vezes mais capitalizações: ou seja, governo injeta capital nos bancos e retira este mesmo capital na forma de dividendos para aumentar a receita contábil;
  • o Tesouro Nacional está atrasando o repasses aos bancos dos benefícios a serem pagos aos cidadãos. Tais bancos então adiantam tais recursos aos beneficiários antes de recebê-los do governo, gerando assim uma pendência de despesas do governo não contabilizadas no cálculo do superávit primário;
  • o TN está atrasando o pagamento de recursos a empresas estatais que são devidos em função de subsídios concedidos por estas em suas atividades, adiando assim o reconhecimento de tais despesas fiscais;
  • e por aí vai…

OU seja, a situação fiscal piorou muito . Economistas de diversas linhas acreditam que o saldo primário real ( sem estes truques) do governo este ano deve atingir 0,3% do PIB apenas e ficar negativo em 2016!

A principal vítima deste comportamento do governo é a formação de poupança, cujo gráfico segue abaixo:

 

formpoup

 

 

A poupança nacional é a parte da renda nacional que não é gasta em consumo. Vemos que o gráfico da poupança formada é bastante similar ao do superávit fiscal do governo. Em verde vemos que o período onde mais aumentamos nossa poupança foi aquele até 2009 (verde) e que de 2011 para cá nossa taxa de formação de poupança desabou (vermelho). Ou seja, não precisa ser economista para concluir que o aumento dos gastos do Estado levou à queda do superávit primário do governo, que levou à queda da poupança formada.

E aqui eu volto, pela enésima vez,  para as minhas igualdades favoritas da contabilidade nacional, que funciona tanto para os desenvolvimentistas  como para os neo liberais:

Poupança Interna + Poupança Externa = Investimento Produtivo Total

Poupança externa = Déficit Externo

Lembrando que o crescimento aumenta com o aumento de estoque de capital que é obtido através de mais investimentos. Os investimentos, para que aumentem o estoque de capital, precisam superar a taxa de depreciação do mesmo, que hoje pode ser estimada em cerca de 12% do PIB ao ano. OU seja, se não fosse nosso déficit externo e a poupança importada de fora para financiá-lo, nosso estoque de capital estaria praticamente estagnado. Desta forma,  se quisermos aumentar o volume de investimentos produtivos sem aumentarmos a taxa de formação de poupança, estaremos gerando déficits externos cada vez maiores, o que vai demandar uma apreciação real de nossa moeda ainda maior, algo que prejudicaria ainda mais a nossa indústria. A alternativa, como tenho dito há tempos, é aumentar a nossa formação de poupança, e a maneira mais fácil de fazer isto é reduzindo os gastos do governo.

Além disto, a piora das contas públicas e os artifícios usados pelo governo para inflar tais números podem nos levar ao rebaixamento de nossa nota de crédito externo, como foi sinalizado recentemente pela agência classificadora de risco Moody’s:

http://g1.globo.com/economia/noticia/2014/09/agencia-de-classificacao-de-risco-altera-perspectiva-de-rating-do-brasil-para-negativa.html

Se o cenário atual persistir, é bem provável que tenhamos nossa nota de crédito rebaixada ainda no primeiro trimestre de 2015. Isto levará ao encarecimento da poupança externa que hoje importamos para financiar nossos investimentos tão necessários aqui, além de pressionar ainda mais as taxas de juros de longo prazo. É fundamental que os candidatos(as) à Presidência da República se posicionem a respeito disto e tragam propostas reais para o equacionamento dos desequilíbrios fiscais gerados nos últimos anos. Ficar dizendo que ajuste fiscal gera desemprego e por isso não pode ser feito não nos ajuda em nada neste debate. O desemprego virá se formos de fato rebaixados.

 

 

 

 

 

 

 

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4 comentários | Comentar

  1. 54 Guilherme M 15/09/2014 18:01

    Gallo,
    o BC está vendido perto de usd 95 bi via swaps. Se o câmbio rasgar isso pode comprometer ainda mais o superávit primário certo? O resultado do governo central inclui os resultados do BC e não vejo muita gente falando desse risco, para cada 10% de valorização real (já descontando o diferencial de juros) o resultado do governo piora em 22bi, que é aproximadamente 0.5% do pib..
    Me parece que o BC se meteu num beco meio que sem saída com essa posição giga em swaps…concorda??

    • Ricardo Gallo 16/09/2014 14:10

      nao afeta o primario. soh a nfsp.

      a despesa com swaps seria despesa com juros. e lembre que se o dolar subir o bc tem US$ 380 bi em reservas em cash….logo ele ganha!!!!

  2. 53 Hudson 13/09/2014 20:14

    Sinto que em breve voltarei a comprar NTNB Principal com taxas acima de 6%aa rs

    • Ricardo Gallo 14/09/2014 19:22

      se nao vierem as reformas, e voce tiver paciencia ano que vem vais poder comprar a 7.

  3. 52 Antônio Silva 12/09/2014 21:25

    Excelente, como sempre, Gallo!

    Não adotamos aqui o superavit/deficit nominal, mas será que dá pra ter uma ideia da evolução do nosso deficit nominal?

    Imaginei corte do rating, subida dos juros e a necessidade de manter todas as benesses sociais, instituídas… O dinheiro tem de fato que vir do éter…..

  4. 51 Ricardo R 12/09/2014 17:38

    Só com muita engenharia fiscal pra terminar no azul o Superavit Primário esse ano. Considerando que vamos gastar uns 5% do PIB em juros, já dá pra chutar os 5% de déficit nominal, agora para o ano que vem a coisa fica ruça, pq vai ser uns 2% de deficit primario com uns 6% de gasto com juros, ai 8% de deficit nominal não tem quem segure o país, é morte na certa.

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