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terça-feira, 16 de setembro de 2014 Crise Brasileira, Juros no Brasil, Politica Economica, Sem categoria | 02:51

Endividamento elevado demanda ajuste nos gastos públicos

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Qualquer família entende isto: se você deve ao banco e sua renda não sobe, é preciso controlar as despesas. Certo? Alguém discorda?

E o mesmo vale para empresas ou governos.

Em post recente mencionei a questão da queda do nosso superávit primário, que é a economia que o governo faz para poder arcar com os juros que incidem sobre a dívida:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/09/12/saldo-das-contas-publicas-desaba-e-leva-consigo-a-poupanca/

O governo arrecada recursos via impostos, contribuições, taxas, royalties e o lucro das estatais que é distribuído na forma de dividendos. Ou seja, o governo nos taxa de forma direta ou indireta e com esta receita paga a folha de pagamento e toda a despesa para manter a máquina pública funcionando. O que sobra dos recursos arrecadados depois de pagar estas despesas é o chamado superávit fiscal primário.

O Resultado Nominal do Governo é um conceito mais amplo: é o resultado das contas públicas que sobra depois do governo receber os juros sobre seus investimentos (juros recebidos nos empréstimos ao BNDES e nos investimentos das Reservas Internacionais) e pagar os juros sobre a dívida pública ( interna e externa). SE o resultado for positivo significa que sobrou dinheiro para o governo amortizar o principal de sua dívida. Se o resultado for negativo significa que o governo precisará se endividar ainda mais para cobrir seus encargos correntes com juros.

A evolução do endividamento bruto do governo pode ser visto no gráfico azul abaixo:

 

divbruta

 

Ele mostra o total da dívida do governo como % do PIB desde 2001. O gráfico laranja mostra sua tendência central filtrada. Vemos que de 2002 até 2008 havia uma tendência forte de queda em nosso endividamento que foi interrompida na crise. O forte crescimento da economia e os elevados superávits daquela época nos permitiram reduzir o montante de nossa dívida como % do PIB rapidamente. Porém de 2008 para cá a dívida mostra uma tendência de elevação. Parece que não conseguimos vir abaixo dos 60% do PIB. Mas isto é muito? Sim , como podemos ver no gráfico abaixo:

 

 

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As barras azuis verticais mostram a dívida total de alguns países emergentes, como % de seu PIB, valores médios de 2010 a 2013. Vemos o Brasil, em vermelho, e a Índia como destaques negativos. Em amarelo notamos que a média da amostra está ao redor de 40% do PIB, ou seja, bem abaixo dos nossos mais de 60% do PIB.

Mas quando comparamos nossa dívida com a dos países Europeus periféricos como Espanha, Portugal e Itália, ou até mesmo com Estados Unidos, nossa situação não é tão ruim:

 

 

divbrutadevbras

 

 

Vemos que vários países desenvolvidos apresentam endividamento bastante superior ao nosso. Contudo, é importante lembrar que as taxas de juros reais ( juros básicos do BC local subtraídos da inflação)  destes países desenvolvidos é bem menor do que a nossa, como vemos em amarelo no gráfico abaixo:

 

jurorealpaises

 

 

A razão é simples: quanto maior a autonomia dos BC´s, mais rígido seja o sistema de metas de inflação adotado,  mais credibilidade tem o BC. Assim são necessárias taxas de juros cada vez menores para se manter a inflação na meta. No caso brasileiro, apesar dos juros elevados não temos conseguido trazer a inflação para centro da meta, o que mostra que houve uma certa erosão da credibilidade do nosso BC nos últimos anos.

Mas e daí? Bom, se você deve R$ 60 mil e paga 4% de juros, seus encargos com juros somam R$ 2400,00. Se você deve R$ 120 mil, mas paga 1% de juros, seus encargos serão de R$ 1200,00, ou seja, a metade. Logo, comparar o tamanho das dívidas sem levar em conta os juros pagos é uma enorme tolice. Ou seja, a combinação de juros elevados e o estoque elevado de nossa dívida aumentam o montante de encargos que o governo precisa pagar, o que demanda uma economia maior por parte do governo ( superávit primário) para saldar os juros da dívida..

Mas infelizmente a poupança que o governo vem fazendo é insuficiente para pagar os juros da dívida, o que tem impedido que a dívida bruta caia como vimos no primeiro gráfico acima. O gráfico azul abaixo mostra a evolução do resultado nominal do governo ( necessidade de financiamento do setor público – série 5727 do site do BC)  como % do PIB dos últimos 12 meses desde 2002 :

 

resnom

 

 

O gráfico vermelho mostra sua tendência central filtrada. Faz muit0 tempo que não apresentamos um superávit nominal. Vemos que de 2002 até 2008 ( seta verde) o nosso déficit nominal caiu  de 5,5% do PIB para menos de 3%. Porém a partir de 2012, o déficit voltou a aumentar ( seta negra) e está em tendência bastante preocupante, como mostra a projeção que fiz seguindo a tendência dos últimos 2 anos. No final de 2015, mantida esta tendência dos últimos 2 anos, nosso déficit chegará a 4% do PIB: ou seja, recuamos 10 anos no tempo…

O que isto quer dizer?

Nosso estoque de dívida cresce em função do tamanho do déficit nominal. Numa economia onde o PIB não cresce (estagnada) um déficit nominal de 4% do PIB eleva a dívida bruta na mesma magnitude no período de um ano. Ou seja, no final de 2015 nossa dívida bruta deve atingir 70% do PIB se continuarmos nesta trajetória e se nosso PIB não reagir.

Tal situação preocupa e pode nos levar ao rebaixamento de nossa nota de crédito externo, o que pode encarecer ainda mais o custo de capital e afetar negativamente os investimentos no país. Sem uma consolidação fiscal, que aumente a poupança do setor público rapidamente, e sem reformas estruturais, que permitam a redução sustentável de nossa taxa de juros, nossa situação fiscal só tende a piorar. Parece que os candidatos da oposição está cientes disto e apresentam algumas propostas neste sentido, porém seria importante a Presidenta Dilma também prestar atenção nestes fatos gravíssimos. 

 

 

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5 comentários | Comentar

  1. 55 ricardo r 17/09/2014 16:42

    Olha, eu repito minha aposta do comentario do penultimo post. 5% esse ano, pela conta do governo e muito mais ano que vem, com receitas tendo crescimento nominal abaixo da inflação e despesas crescendo nominalmente nos dois digitos.

    vc fala em 4% de déficit nominal ali no ultimo grafico… mas já estamos com isso hj (3,84% acumulado em 12 meses, incluindo ai todo o leilao de libra e o refis do fim do ano passado, que juntos somam uns 35 bilhoes de reais, portanto sem essa receita extraordinaria e fingindo que o governo nao fabricou dividendos ou esqueceu de pagar as contas, ja seriam mais de 4,5% hj).

    e as receitas do primeiro trimestre ainda foram levemente acima da inflação, mas a coisa ta piorando rapidamente agora. e tá cheio de conta q o governo não tá pagando, isso que é pior.

    • Ricardo Gallo 17/09/2014 16:49

      entendo. eu usei o nfsp do bc do b…. para dar moral….

  2. 54 Marcos 17/09/2014 0:18

    Não tá fácil!

    Dilma Rousseff no Debate CNBB com os candidatos à Presidência da República:

    “Agora eu queria, candidato, te dar uma informação, o orçamento do Brasil é cinco trilhões e o Brasil é um dos países que têm a menor dívida líquida em relação ao PIB. Nós temos 34% de dívida líquida sobre o PIB. O Brasil não está quebrando. Pelo contrário.”

    • Ricardo Gallo 17/09/2014 12:43

      de fato nao esta quebrado. o problema eh que esta ficando cada vez mais difícil cobrir os gastos com os juros.

      ps: o orcamento brasilerio nao eh de 5 trilhoes. o pib eh de 5 trilhoes….

  3. 53 Ezequiel Alves 16/09/2014 18:53

    Você respondeu em parte o que queria saber, mas vamos mudar um pouco o teor da pergunta, o dinheiro que todas as empresas e indústrias do Brasil e de outros países ou pessoa física deposita nos bancos brasileiros e os 10 porcentos de serviços bancários é o suficiente para cobrir todos os empréstimos que o governo e as empresas privadas fizeram ao longo dos anos até agora sendo que o governo fez empréstimos em valores muito altos? Será que que a gente precisa depositar mais ou pedir empréstimos de menos?

    • Ricardo Gallo 17/09/2014 12:41

      o dinheiro, como escrevi, eh sempre suficiente…. eh da contabilidade… todo ativo = passivo + pl… do ponto de vista monetário e de credito no final não falta grana…. ela pode se empossar em algum lugar e não chegar a quem precisa…. como ocorre na europa.

      o problema é outro: a que taxa de juros esta coisa se equilibra? a que taxa de juros quem recebe a grana decide deixar grana no banco que eh usada para emprestar? a que taxa de juros os governos e empresas param de tomar emprestado?? quanto mais gente quer tomar dinheiro emprestado mais caros ficam os juros e vice versa….

      ou seja, dependendo do nível de juros o montante de grana disponível para o credito igual a demanda por empréstimos. logo, se governo tomar menos grana emprestado os juros caem.

  4. 52 Hudson 16/09/2014 14:33

    Mais um artigo expondo a realidade nua e crua, limpo de ideologias.

    Um governo de idiotas como este não viria a pública conversar sobre isso. E tome minhas NTNB em 2015 pagando acima de 6%aa hehehe

  5. 51 Ezequiel Alves 16/09/2014 9:04

    Sempre ouço falar nos noticiários que o BNDES e outros bancos privados e públicos emprestam dinheiro na casa de bilhoes e bilhoes e bilhoes para os outros fazerem investimentos de inúmeros tipos como em infraestrutura, programas sociais, socorrer empresas e muitos outros. De onde os bancos tiram tanto dinheiro para emprestar? Será que é dos depósitos bancários, dos juros, dos pagamentos de outras contas efetuadas no banco, dos serviços bancários oferecidos, dos royates do petróleo e mineração, do tesouro direto, das concessões, dos lucros das empresas estatais, dos impostos dos contribuintes ou os bancos mandam a casa da moeda fabricarem mais dinheiro para eles?

    • Hudson 16/09/2014 14:34

      Amigo, estude um pouco a respeito do sistema de reservas fracionárias e sobre como o mau uso deste ardil pode destruir um país.

    • Ricardo Gallo 16/09/2014 14:08

      pensa assim: quando banco te empresta $ pra voce e voce compra algo com este dinheiro, ou seja, voce gasta em consumo, voce transfere a grana para quem te vendeu o bem ou servico.

      ai quem te vendeu este bem paga salarios aos empregados e tem lucro como um empresario normal.

      estes salarios e lucro sao entao depositados no banco que te emprestou dinheiro.

      ou seja o dinheiro que o banco te emprestou vem daqueles para os quais voce transferiu o dinheiro. é assim que se cria credito na economia. voce toma emprestada e repassa grana para alguem e este alguem deposita em algum banco que empresta para alguem e por ai vai….

      apenas 10% do dinheiro que o banco te empresta vem dos acionistas e dos lucros retidos pelos bancos. o resto vem de outros depositantes, que guardaram ( pouparam) dinheiro no banco enquanto voce se endividou….

      porem se no final do dia algumas pessoas nao pouparem dinheiro, nao haverah dinheiro para todos que querem tomar emprestado para consumir ou investir.

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