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quinta-feira, 18 de setembro de 2014 Bancos, bizarro, Brasil, Empresas, Impostos, Inflação, Juros no Brasil, Livros e publicações, Politica Economica | 21:48

Robin Hood e o Bolsa Empresário

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Como já falei aqui algumas vezes, a carteira de empréstimos do BNDES tem subido bastante desde 2008. Ela dobrou de tamanho ( como % do PIB ) nos últimos 6 anos, como mostra o gráfico azul abaixo da evolução da carteira total de empréstimos do BNDES como % do PIB dos últimos 12 meses desde 2007:

 

 

bndespibserie

 

 

 

Uma das críticas mais contundentes feitas pelos candidatos da oposição ao governo atual está centrada nos critérios adotados pelo BNDES em seus empréstimos. De fato é muito difícil saber para quem o BNDES empresta, a que taxas,  em quais condições e com qual finalidade. Não há nenhuma transparência uma vez que o BNDES é considerado um banco e, portanto, estaria protegido pelo siglo bancário, da mesma forma que os clientes do BB estariam. Contudo, há uma falha enorme neste argumento, pois na prática o BNDES de fato é uma agência de fomento e um mero repassador de recursos do Tesouro Nacional para seus clientes em condições favorecidas vis a vis as existentes no mercado de crédito.  O BNDES toma recursos junto ao Tesouro Nacional e junto aos Fundos Públicos sob administração do Governo e os repassa a seus “clientes” a taxas inferiores às taxas de mercado.

Os dados que mostrarei abaixo foram retirados das demonstrações financeiras do BNDES:

http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/export/sites/default/bndes_pt/Galerias/Arquivos/empresa/download/0614pt.pdf

Também coletei alguns dados nos demonstrativos financeiros individuais de empresas que têm suas ações listadas na bolsa. Estas são grandes empresas, com acionistas privados, que gozam de pleno acesso aos mercados bancário e de capitais, doméstico e internacional. Além disto levantei dados  de algumas grandes empresas que não possuem ações listadas na bolsa, mas que têm amplo acesso ao mercado de capitais e, portanto, divulgam informações sobre seu endividamento.

Vamos começar olhando os dados recentes do BNDES. Embora ele seja considerado um banco, 90% de seus recursos vêm de apenas um depositante: o G0verno Federal ( “nóis”), seja através do Tesouro Nacional ou dos Fundos Públicos sob administração do Governo ( PIS/ PASEP e FAT), os quais listo abaixo:

Repasses do Tesouro Nacional: 430 bi

Repasses do FAT : 192 bi

Repasses do PIS/PASEP: 33 bi

Capital Aportado pelo Tesouro: 74 bi

Total aportado pelo Governo: 729 bi

Total do Ativo do BNDES: 803 bi

Ou seja, o BNDES na verdade não é um banco que capta recursos no mercado junto a investidores e depositantes, competindo com outros bancos por recursos, como é o caso da CEF e do BB. Quando o BNDES precisa de dinheiro ele liga para o Tesouro e pega emprestado por 50 anos de prazo. Estes repasses do governo e dos recursos dos fundos dos trabalhadores ao BNDES ( e aos tomadores de recursos) são na sua maioria indexados a TJLP . Como a TJLP hoje custa 5% a.a. e a taxa de juros paga pelo governo em sua dívida é de 11% a.a., há um subsídio real implícito de 5,4% a.a. que é repassado por nós contribuintes, através do Tesouro ou do nosso FGTS, ao BNDES.  O BNDES capta assim recursos 5% a.a. mais barato do que o BB precisa pagar para levantar novos recursos no mercado. 

Levantei alguns dados do BB em seu site para poder comparar os dois “bancos”:

file:///C:/Users/ricardo.gallo.GALLO/Dropbox/2T14DemoContBR.pdf

Na medida em que o BNDES capta recursos bem mais baratos do que o BB, seria razoável presumir que o BNDES fosse um banco extremamente rentável.  Porém o quadro não é assim. O BNDES lucrou R$ 5,5 bi no primeiro semestre de 2014, o que representou um retorno sobre o patrimônio líquido de 7,4% no semestre. O BB lucrou os mesmos 5,5 bi, o que representou um retorno de 7,7% no semestre. Ou seja, apesar do nossos subsídios ao BNDES,  os lucros e os retornos das duas instituições são bastante similares. Ou as despesas do BNDES são muito maiores que as do BB ou os subsídios que damos ao BNDES estão indo parar nas mãos de seus clientes tomadores de recursos.

As despesas administrativas e de pessoal do BB somaram R$ 17.9 bi nos primeiros 6 meses deste ano. Já no caso do BNDES as mesmas despesas somaram menos de R$ 1 bi.

Fica assim demonstrado que, na medida em que os dois bancos têm lucros similares e patrimônios similares e que o BNDES tem despesas menores, o benefício do  subsídio recebido pelo BNDES está sendo portanto repassado para seus clientes tomadores de recursos.

Assumindo que este subsídio de 5% a.a. se mantenha ao longo do tempo, como esperam os tomadores de recursos junto ao banco,  e que pelo menos 80% dos repasses do Tesouro e dos Fundos ao BNDES são indexados a TJLP ( aprox. R$ 600 bi), podemos estimar que o montante total de subsídios anual dado aos clientes do BNDES ultrapassa R$ 30 bi, o que equivale a o,6% do PIB,  ou  50% do total de economia feita pelo governo nos últimos doze meses, como mostrei em :

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/09/12/saldo-das-contas-publicas-desaba-e-leva-consigo-a-poupanca/

Mas quem paga este subsídio?

A conta é mais ou menos dividida assim:

a. 70% é pago pelos contribuintes que pagam impostos ( ou pelos usuários do sistema público de saúde que recebem um serviço de péssima qualidade do governo), pois o governo recebe apenas 5% A.A. DE JUROS nos repasses ao BNDES e paga mais de 11% a.a. para levantar os mesmos recursos no mercado;

b. 30% é pago pelos trabalhadores, pois o saldo do FAT, que poderia ser emprestado ao governo a 11% a.a. sem nenhum risco, é emprestado ao BNDES a 5% a.a.;

Mas quem recebe este subsídio?

Aí a coisa fica mais difícil, pois o BNDES se esconde atrás do sigilo bancário e não divulga o nome das empresas que tomaram recursos junto ao banco ou junto aos bancos privados para os quais ele repassa recursos subsidiados. Para levantar estes dados precisei colocar uma turma de “detetives financeiros” atrás de dados das empresas, uma a uma, que publicam seus demonstrativos de acordo com as regras da CVM. Lá podemos identificar o montante de recursos que cada uma delas levantou junto ao banco. Porém, para limitar o trabalho, eu fiz algumas amostras:

a. levantei os dados das 60 empresas que têm ações listadas na bolsa e compõem o Índice Bovespa. São empresas que possuem acesso a mercados de capitais e recursos internacionais.Das 60 empresas, 44 devem algum para o BNDES ( 73%). O total da dívida junto ao BNDES ( diretamente ou via repasses de bancos privados) destas empresas chega a 126 bi em Dezembro de 2013, ou seja, 22% do total de empréstimos do “banco” naquela data. Os empréstimos do BNDES representam na média 17% da dívida total destas empresas. Catorze destas empresas possuem dívidas junto ao BNDES que representam mais de 20% de seu endividamento total.

b. verifiquei se havia outros casos entre as empresas listadas na bolsa e que possuíam montante relevante de dívidas junto ao BNDES. Identifiquei mais 3 empresas listadas na bolsa que deviam no total R$ 6 bi ao BNDES.

c. Identifiquei mais 7 grandes empresas, que não possuem ações listadas na bolsa, mas que devem ao todo R$ 9 bi ao BNDES.

Ou seja, no total identifiquei, com muito esforço, 54 grandes empresas que têm acionistas privados, que devem no total 141 bi ao BNDES ou cerca de 25% do total de empréstimos deste em Dezembro último.

Entre as 44 empresas que devem ao BNDES e fazem parte do IBOVESPA pude identificar que pelo menos 80% do montante devido tinha algum tipo de subsídio nos juros cobrados.  Ou seja, podemos estimar que estas 54 grandes empresas levantaram R$ 112 bi em empréstimos subsidiados, absorvendo anualmente mais de R$ 5 bi em subsídios que saíram de nossos bolsos e foram para o colo dos acionistas destas empresas. 

Consultando os demonstrativos disponibilizados pelo BNDES podemos ver que 50% da carteira de empréstimos vencem de 2018 em diante. Ou seja, as empresas que tomaram este dinheiro “social” do governo irão usufruir por um bom tempo destes subsídios. E para minha surpresa, além dos R$ 59o bilhões em empréstimos já desembolsados e que estavam carteira do BNDES em junho último, existe o compromisso assinado para liberar mais R$ 170 bi, como vemos em vermelho abaixo:

 

 

compromissocredito

 

 

Isto que dizer que se o BNDES continuar apenas a rolar os empréstimos hoje em carteira, parando totalmente de fazer novas concessões, só com os compromissos já assumidos a carteira total de empréstimos irá para R$ 760 bi ou 15 % do PIB! O BNDES terá assim  quase 25% de todos os empréstimos feitos por todos os bancos no Brasil. Neste sentido vale a pena ler:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/09/04/a-estatizacao-do-credito/

E o subsídio anual, que hoje passa de R$ 30 bi, saltaria neste cenário para R$ 38 bi, ou seja, 50% a mais do que gastamos anualmente com o Bolsa Família!

Além disto, os repasses do Tesouro Nacional ao BNDES aumentam a dívida pública do Governo Federal, pois obrigam o Tesouro a emitir mais títulos de longo prazo para financiar tais aportes. Hoje já são mais de R$ 430 bi em aportes do tesouro junto ao BNDES ( 8,4% do PIB), que  já representam 13% da dívida total do governo. Para entender os problemas que isto causa vale a pena ler:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/09/16/endividamento-elevado-demanda-ajuste-nos-gastos-publicos/

Finalizando, existem também as participações acionárias do BNDES. O BNDES investe direto em empresas, comprando ações das mesmas, tornando-se assim sócio minoritário.  São 66 bi em ações de empresas, na sua grande maioria listadas nas bolsas. Deste total 37 bi estão investidos em ações da Petrobrás e 7 bi em ações da Vale. Além disto, ele tem mais 16 bi em investimentos em ações de 6 empresas privadas onde o BNDES participa do bloco do controle. Deste montante  6 bi estão investidos na JBS somente.

Enfim é preciso questionar os candidatos, situação e oposição, sobre como eles irão lidar com estas questões:

  • Até quando irá crescer a carteira de crédito do BNDES?
  • Como será feita a redução da carteira?
  • Quando iremos conhecer quem recebeu estes subsídios do BNDES até hoje? Iremos manter o sigilo bancário no BNDES, mesmo sendo ele uma agência de fomento e que distribui subsídios a brasileiros e brasileiras escolhidos a dedo?
  • Quais os critérios que serão usados daqui para frente na seleção dos clientes e projetos que merecem ser subsidiados através do BNDES?
  • Quem vai fixar e aprovar quanto do orçamento público será gasto anualmente com subsídios ao BNDES nos próximos 5 anos?
  • O que irá ocorrer com a TJLP? Ela vai continuar 5% a.a. abaixo do custo de financiamento do Governo ou vai subir?
  • O que ocorrerá com o custo dos empréstimos do BNDES que hoje estão indexados a TJLP se o governo decidir aproximá-la da taxa Selic, como proposto por alguns economistas mais ligados ao governo?
  • Caso se decida colocar um limite no crescimento dos ativos do BNDES, quem irá entrar no lugar do BNDES e financiar às empresas que precisam de recursos de longo prazo?
  • O que será feito para ampliar o mercado de capitais doméstico?
  • Iremos finalmente liberar os controles de capitais e ampliar a convertibilidade de nossa moeda e assim permitir que bancos e investidores estrangeiros atuem mais livremente no financiamento de nossas empresas aqui, competindo de forma saudável com bancos e fundos locais? 
  • Não teria o governo criado a bolsa empresário na forma de subsídios dados através do BNDES?
  • Não estaria o governo sendo um Robin Hood às avessas, tirando dos pobres e dando aos ricos?

 

 

Robin Hood  Net7Art

 

 

 

E quem seriam os Leões no nosso caso?

Para aqueles que gostam do assunto intervenção do Estado na economia, recomendo a leitura de:

9780674729681

 

 http://www.hup.harvard.edu/catalog.php?isbn=9780674729681

Há um capítulo especial dedicado ao nosso BNDES.

 

 

 

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4 comentários | Comentar

  1. 54 IRCR 24/09/2014 7:29

    Tem que deixar bem claro que o BNDES se financia além de impostos tradicionais, do imposto oculto, ou seja, da inflação, pois o BC financia indiretamente o tesouro no mercado secundario.
    Logo se o BC financia alguma coisa só pode ser imprimindo dinheiro. Resultado disso são os preços das coisas cada vez mais altos. E ainda espolia os mais pobres. Aqueles que mais se prejudicam com a inflação.

  2. 53 Ezequiel Alves 21/09/2014 22:08

    Parece que houve um mal entendido que causei nessa pergunta, não quis dizer doar nesse sentido, seria ridículo o governo simplesmente doar de graça aos bancos mas você ainda não respondeu a minha pergunta específica se o governo injetasse dinheiro no valor de 600 ou mais na maioria ou em todos os bancos ajudaria a reduzir os juros e aumentar o investimento no Brasil? E só essa pergunta que quero saber.

    • Ricardo Gallo 22/09/2014 12:57

      Ps: por favor continue fazendo perguntas e comentando pois ajuda muito aos leitores desta coluna. obrigado pelos comentarios. abraços!

    • Ricardo Gallo 22/09/2014 10:38

      bom, voce disse doar… e eu respondi sim…..

      Nao ajudaria pois o problema aqui nao eh falta de liquidez, tampouco entupimento do canal de credito.

      problema aqui é falta de confiança por parte do emrpesario.

      esta satisfeito?? respondi ???

      e voce nao me respondeu como o governo geraria este caixa para emprestar aos bancos….

  3. 52 Ezequiel Alves 21/09/2014 13:07

    Tenho uma pergunta curiosa, se seguirmos o exemplo dos europeus, o governo conseguisse gerar um caixa de 600 bilhões ou mais e simplesmente doasse aos bancos privados do Brasil, os juros abaixaria e os investimentos aumentaria mais? É só uma hipótese, não é obrigado a ser seguida.

    • Ricardo Gallo 21/09/2014 19:56

      so ha 3 formas do governo gerar este caixa:

      a. aumentar impostos
      b. cortar gastos
      c. se endividando

      como voce sugere?

    • Ricardo Gallo 21/09/2014 19:54

      Os Europeus nao doaram dinheiro algum aos bancos. Onde voce ouviu isto??? O BC europeu tem emprestado aos bancos que terao que devolver o dinheiro com juros em alguns anos….. Bc Europeu empresta para bancos que recebem a grana e a depositamde volta no bc europeu, ate emprestarem o recurso para quem precisa…..nao ha doacao nenhuma….

      Doar dinheiro para banco nao me parece uma grande ideia nao…. por que voce nao doa direto a quem precisa da grana para investir? è exatamente o que o bndes faz….. É só uma hipótese, não é obrigado a ser seguida.

  4. 51 Ezequiel Alves 20/09/2014 9:11

    Será que o banco BNDES lucra o suficiente para se auto sustentar ou tem essa pretensão, ou o banco sempre vai depender o tempo todo do dinheiro dos impostos?

    Houve uma notícia que o IBGE errou os cálculos de sua pesquisa onde mostrava um país que teve baixos índices sociais e de repente o Brasil mudou para um cenário melhor, de pleno desenvolvimento social, Eu não sei se isso foi um dos maiores erros da história do IBGE ou a influência política influenciou na modificação dos dados, seja qual for o motivo eu não posso mais confiar no ibge pois dados errados teria consequências desastrosas no campo da política, econômica e social sendo desperdício de recursos e tempo e sempre sujeito a falhas enormes. Gostaria de você me indicasse órgãos de pesquisa, se preferência que não tenha nenhuma ligação do governo, que fazem as mesmas pesquisas do IBGE como na área econômica, geográfica, social, populacional abrangendo todo território brasileiro. Agradeceria muito.

    • Ricardo Gallo 20/09/2014 13:20

      Infelizmente só conheçoo IBGE

      o BNDES não lucra o suficiente para se auto sustentar. lucra apenas 10 bilhoes por ano e cresce seus empréstimos a mais de R$ 100 bi por ano. ele precisa levantar recursos do tesouro todo ano senão ele para.

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