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domingo, 28 de setembro de 2014 Crise Brasileira, Inflação, Politica Economica, Sem categoria, utilidade | 19:13

Em favor da redução da autonomia do governo na condução da política monetária

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Todo este debate sobre autonomia do BC, independência, entregar o BC aos bancos privados, tirar comida da mesa dos brasileiros, me fez pensar sobre o tema. Eu acho que na verdade existe hoje, nas mãos do Governo Federal e do BC,  um excesso de autonomia e de discricionariedade na gestão da política monetária. Talvez se precise mesmo reduzir a autonomia do executivo neste front, e digo isto não só em relação ao nosso BC, pois não há hoje uma autonomia do BC, mas sim com relação aos poderes do Executivo nesta área.

Para que não seja apedrejado aqui por Dilmistas, Aecistas e Marinistas simultaneamente, cabe aqui alguns esclarecimentos sobre este meu raciocínio aparentemente tortuoso:

  • EU enxergo o dinheiro, o R$, não como um patrimônio do Estado ou do Governo. O R$ é nossa moeda. Pertence a cada brasileiro que recebe um salário todo mês em troca de trabalho, ou o bolsa família, ou a aposentadoria, pensão, ou que tenha poupança em bancos, investimentos em títulos da dívida pública e outros ativos financeiros, pois o poder de compra de tudo isto é determinado em R$, nossa moeda.
  • O R$ também pertence também a cada empresário que recebe  esta moeda quando entrega um produto ou serviço a seus clientes.
  • Em todas as situações acima, os valores do trabalho, da poupança acumulada, dos lucros e dos rendimentos são medidos em R$. Esta moeda serve para dizer quantas horas um trabalhador precisa ralar no trampo para pagar o aluguel, comprar um carro ou pagar os juros devidos ao banco. Esta moeda serve para dizer se as economias que os pais fizeram ao longo da vida serão suficientes para pagar a escola dos filhos ou para garantir a própria aposentadoria.
  • Ou seja, a moeda é um patrimônio de cada um de nós da mesma forma que nossa casa ou carro. 
  • Como estamos num sistema que respeita a propriedade privada, conforme está garantido em nossa constituição, este sistema precisa também assegurar que os direitos adquiridos pelos cidadãos nas situações acima também sejam garantidos por lei.
  • Existe hoje uma delegação do povo ao governo federal para que ele cuide do valor de nossa moeda, e assim do valor de nosso patrimônio e da renda. Desta forma, o Governo Federal tem o mandato e a obrigação de zelar pelo valor de nossa moeda da melhor forma possível. Contudo, acho que este delegação que fizemos não está completa e pode nos prejudicar bastante.

Vamos colocar isto agora no contexto familiar, usando um exemplo do dia a dia para que todos possam entender meu ponto de vista:

  • Por exemplo, se você delega a seu filho a função dele cuidar do seu carro para que assim ele possa usar tal carro no fimdes, você ficará bastante chateado se ele deixar o motor do carro fundir por não ter trocado o óleo. Mesmo que ele afirme que não trocou o óleo por achar que trocar o óleo do carro significa ser “subserviente aos DONOS DOS POSTOS DE GASOLINA e a seus frentistas inescrupulosos”.  Neste cenário, independentemente de sua visão sobre os frentistas inescrupulosos, você fica furiosos e tira o carro das mãos de seu filho pois ele não tem competência ou disciplina para cuidar do SEU patrimônio.
  • Contudo, quando você delegou os cuidados de seu carro a seu filho de 19 anos você provavelmente não deve ter sido específico sobre vários pontos, como por exemplo, com que frequência você deseja que ele troque o óleo do carro ou o que acontecerá com ele caso ele deixe o motor do carro fundir por não ter trocado o óleo. Não sei se é razoável da sua parte assumir que um adolescente que acabou de triar carta tenha o discernimento de fazer estes julgamentos mais técnicos.
  • Seria muito mais prático e eficaz se você, ao delegar ao moleque esta responsabilidade ( trivial a seus olhos), deixasse claro as regras para troca de óleo, a tolerância de intervalo entre as trocas, o tipo de óleo a ser usado, quais postos são autorizados a fazer a troca, qual a verba que ele tem para gastar em trocas de óleo que  compatível com o uso do carro, com qual frequência você quer que ele verifique o nível do óleo e qual o nível mínimo de óleo aceitável, para não deixar o coitado do moleque perdido na mão dos frentistas inescrupulosos.
  • Ajudaria também você deixar claro de antemão que se o motor do carro fundir, ele vai ficar de castigo em casa durante 23 fins de semana, e que se ele deixar o nível do óleo cair abaixo do mínimo que você aceita, você corta a mesada dele.
  • Mas se ele cumprir o mandato de forma precisa, ele poderá usar o carro no fim de semana, porém rodando no máximo 150 km…
  • Você assim delegaria ao seu filho  a gestão de um patrimônio bastante valioso para você, estabelecendo regras claras e incentivos corretos. Dentro destas regras, o moleque teria toda a liberdade ( e autonomia) para usar o carro no fim de semana, com amigos e namorada, obviamente seguindo as normas de trânsito

Creio que dada a nossa história de irresponsabilidade monetária no pós guerra, período onde tivemos inflações elevadíssimas para os parâmetros internacionais, somada ao aparente desconhecimento por parte dos nossos governos sobre qual o real papel do executivo no que diz respeito a gestão da moeda , penso que hoje damos uma autonomia excessiva ao executivo como um todo ( BC, Ministério, Conselho Monetário, Presidência, etc) na gestão deste patrimônio que é seu e meu.

Não está funcionando apenas dizer que é obrigação do BC cuidar do valor de nosso patrimônio, a moeda, e virar as costas. Como vimos no exemplo acima do carro e do adolescente, uma definição vaga como a atual pode ter inúmeras interpretações e estar sujeita a ideologias, sentimentos, angústias, idiossincrasias, que interferem na boa gestão do nosso patrimônio. O que hoje delegamos ao governo quando fixamos a meta de inflação é o seguinte: se eu tiver R$ 100 no começo do ano, quero poder comprar no final do ano o equivalente ao que hoje eu compraria com R$ 93,90, no mínimo, ou com R$ 97,60 no máximo.  E após vários anos, o que desejo mesmo é que eu  consiga comprar no final do ano em média o equivalente ao que compraria por R$ 95,70 do início do ano. Isto é o que significa ter uma meta de inflação de 4,5% a.a, no ano calendário, mas que pode flutuar entre 2,5%a.a e 6,5% a.a.. 

Este é o mandato dado ao nosso zelador patrimonial, o Governo Federal e seu BC. Mais ou menos assim: uma vez por ano eu vou olhar o carro e se ele estiver batendo pino ou vazando óleo tudo bem, mas não pode fundir o motor, senão eu grito!!! Ou seja, isto não vai prestar não…

Pelos resultados da inflação nos últimos anos e pelo sentimento negativo do povo em geral com relação a carestia,  parece que estamos dando muita autonomia, muita independência, ao Estado e suas instituições neste assunto, pois nosso R$ está batendo pino já há alguns anos.

Apesar de nossa meta  de inflação estar centrada em 4,5% a.a., o porcentual do tempo que ela tem ficado acima de 5,5% tem crescido muito nos últimos anos:

 

topoinfbanda

 

 

Nossa inflação se situa entre as maiores do mundo, como vemos em verde no ranking abaixo:

 

rankinfla

 

 

E a sua tendência desde 2007 é muito ruim:

 

 

 

ipcanuctrend

 

 

E é bom lembrar que para cada 2% de inflação a mais, num sistema onde os salários são indexados anualmente à inflação, há uma perda média de renda real de 1%. Isto equivale, em termos de perda de renda agregada dos trabalhadores, a um aumento de 20% no desemprego!!!

Este comportamento de continuada elevação inflação que vem desde 2007 foi acompanhado de uma queda relativa nos preços dos produtos e serviços monitorados pelo governo:

 

ipccontipctodos

 

O gráfico azul, que teve uma elevação expressiva até 2007 ( em verde claro), mostra a evolução dos preços relativos dos bens e serviços monitorados pelo governo ( eletricidade e gasolina entre outros) e os preços gerais usados no cálculo da inflação. DE 2007 para cá vemos que os preços monitorados despencaram ( vermelho) em relação aos preços gerais. Ou seja, mesmo com os preços monitorados andando abaixo da inflação geral desde 2007, a inflação total não caiu.

Enfim, tudo indica que o atual mandato que hoje damos ao pessoal em Brasília no front inflacionário precisa de reforços e regras mais restritivas.

Além disto, o fato do governo ter este mandato vago traz uma enorme insegurança ao se investir em projetos com longo prazo de maturação, pois vai saber quanto meu dinheiro vai estar valendo daqui a 5 ou 10 anos! Para eu deixar minha grana investida por tanto tempo eu preciso ter uma rentabilidade esperada mais elevada, senão é melhor gastar minha grana com consumo rapidinho, pois vai saber se meu dinheiro investido vai me permitir consumir a mesma coisa lá na frente! Como muita gente pensa assim, a poupança privada não aumenta, tampouco o investimento produtivo. Com isto, a economia perde folego.

Logo, eu entendo que os 3 candidatos estejam 100% corretos em suas posições:

  • A Presidente Dilma está correta ao dizer que dar autonomia ao BC nos moldes atuais não seria adequado, pois o excesso de autonomia dá no que deu;
  • O Governador Aécio está correto ao dizer que não adianta por em lei que o BC é autônomo como hoje, sem definir claramente os limites desta autonomia, pois a estabilidade monetária é um direito de cada um e obrigação do Estado;
  • A Senadora Marina está também correta ao afirmar que é preciso criar uma lei definindo isto como uma obrigação do Estado através de uma emenda à Constituição Brasileira, uma vez que se trata de um direito de cada cidadão, assim como o direito à propriedade.

Ao mesmo tempo, eu acho que estão todos errados, pois o que o povo quer não é autonomia, nem dependência, nem banqueiro rico, nem banqueiro pobre.  Eu quero uma moeda estável, bem cuidada, cujo valor seja previsível no curto, médio e longo prazo. E que desta forma o valor dos meus bens e renda sejam protegidos. E espero isto dos zeladores que trabalham para nós em Brasília.

Neste sentido, sugiro a leitura deste texto abaixo:

http://siepr.stanford.edu/?q=/system/files/shared/pubs/papers/pdf/12-009.pdf

feito pelo excelente economista John Taylor, cujo texto termina assim:

For all these reasons Friedman argued that the Fed needed to be guided by rules. And of course his particular monetary framework was centered on a money growth rule. The question for the future is how we get back to a rules-based monetary framework and stay there.

Cabe aos candidatos à presidência apresentarem propostas de como pretendem cumprir esta função por nós delegada. Lembro que a gente pagará o salário dele ou dela a partir do ano que vem. E em R$. Logo, estamos aqui defendendo os interesses dele ou dela também.

Peço assim aos leitores que se unam a mim nesta batalha e empunhem a bandeira:

#abaixoautonomiadogovernonapolíticamonetaria

ou:

#bccuidedomeudindim

E se os banqueiros ou frentistas atrapalharem, o governo fica autorizado a mudar de banqueiros ou de posto de gasolina:

 

dia-do-frentista (3)

 

 

 

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5 comentários | Comentar

  1. 55 IRCR 03/10/2014 7:38

    Gallo,

    Importar a ordotoxia neoliberal do antigo deutsche bundesbank para o Brasil ? Quem nem operações open market ele operava, ou seja, não financiava nem indiretamente o governo.
    Deve ser por isso que a Alemanha é um pais palperrimo que o povo não tem comida na mesa e nem casa para morar.

    Eu acho que o Brasil deveria importar o modelo desenvolvimentista do BC argentino ou venezuelano, que financia diretamente os gastos publicos, para atender as demandas sociais das vozes do povo.

    • Ricardo Gallo 03/10/2014 13:46

      eu já estou a procura de alguns papers sobre os modelos econômicos bolivarianos. se vocês souberem de algum, por favor me indiquem. obrigado.

      ps: eu sou um otimista. turma pode demorar, mas no final aprende com os próprios erros.

  2. 54 JGould 30/09/2014 22:39

    Mestre! venho buscar luz no oráculo…dado que as verdinhas estão “viagradas” e supondo que esse ente perigoso, comedor de criancinhas…chamado mercado queria transformar seus US$Ptax em US$ verdadeiras….tá sabemos das reservas mas, até onde o BC pode ir com os swaps?

    abs

    p.s. um amigo me disse que o melhor espelho do pais é um time lá da rua Turiassu. tem uma casa linda…mas é tão mal administrada

    • Ricardo Gallo 01/10/2014 10:20

      viji

      fica de olho no mercado de coupn cambial na bolsa

      se começar a subir.,,,viji

      eu acredito que a bastilha precisa cair la no verdao….

      e depois com robespierre a coisa muda

    • Ricardo Gallo 02/10/2014 22:21

      coupon cambial de jan 2016 subiu 0,50%…..onti.

  3. 53 Hudson 30/09/2014 16:10

    Acho que já é tarde pra remover estes idiotas do poder
    http://mansueto.wordpress.com/2014/09/30/resultado-do-tesouro-nacional-desastre/

  4. 52 IRCR 30/09/2014 5:44

    Pq algum governo teria motivo de entregar uma moeda boa ?
    Se ele tem o monopolio da emissão e uma lei de curso forçado isso já dá motivos suficientes para governos não entregarem um moeda boa.

    É a mesma coisa de pedir ao gato para tomar conta do pires de leite.

    Unico caminho no futuro que vejo é uma moeda descentralizada, apolitica e fora do sistema bancario.

    • Ricardo Gallo 30/09/2014 13:21

      hehehe…. na europa é assim e nao funciona tampouco….

      coloca na consitituicao como na alemanha… deu certo la.

  5. 51 Fabrício 29/09/2014 16:29

    Mandou bem, meu amigo! Meu voto vai para você para ser o novo ministro da Fazenda! E acho que eu iria até mais longe ainda. Reduziria ainda mais a autonomia do governo, não só na área monetária, como também na fiscal. Tornaria obrigatório a execução de superávits fiscais até que a dívida fosse reduzida até determinada porcentagem específica do PIB. Criaria um intervalo em porcentagem do PIB dentro do qual o governo deveria manter a dívida pública.

    Infelizmente a chance de ver essas coisas implementadas são muito baixas, independente de quem seja o presidente…

    • Ricardo Gallo 29/09/2014 16:48

      a. obrigado!
      b. ministro da fazenda? Eu? eu vou ser mesmo é ministro do sítio, lá em águas de sao pedro onde passo meus fins de semana…hehehe
      c. acho que as coisas precisam piorar antes das lideranças se mexerem. foi assim na espanha, portugal, italia e grecia. aqui não deveria ser tão diferente. alem disto o fiasco bolivariano/portenho mostra que não há caminhos fáceis não….

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