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sábado, 18 de outubro de 2014 ataques especulativos, Crise Brasileira, Impostos, Inflação, Investimentos, Juros no Brasil, Politica Economica, Sem categoria, utilidade | 19:14

A urgência das reformas

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Uma das coisas boas de meu trabalho é a quantidade de análises de qualidade que tenho a oportunidade de ler, vinda de diversos bancos, de diversos analistas e economistas, tanto do Brasil como do exterior. Recentemente recebi um texto bastante interessante do Banco Credit Suisse no qual os autores, Alexander Redman e Arun Sai,  analisam a economia brasileira e a mexicana, e fazem recomendações quanto a alocação de recursos nas bolsas destes países. Não pretendo entrar aqui na análise do critério de escolha do Banco, tampouco recomendar alocações de investimentos pois não é o objetivo desta coluna. Porém irei usar algumas informações deste relatório para reforçar a tese de que, ou  fazemos as reformas estruturais necessárias em nossa economia, ou iremos ficar patinando e ficando cada vez mais para trás em termos de produtividade e de competitividade globalmente.

O relatório passa por items estruturais importantes que definem o potencial de crescimento relativo de uma economia. E utiliza alguns gráficos que servem para mostrar o enorme tamanho dos desafios que temos pela nossa frente. O primeiro gráfico abaixo mostra a evolução da bolsa brasileira ( verde) e da mexicana (vermelho)  desde 1988, ambas em relação ao índice combinado de todas as bolsas dos países emergentes:

mexbrasbolsa

Vemos que de 1988 até 2008 as duas bolsas tiveram desempenho similar ( preto)  se eliminarmos os últimos anos do governo FHC e os primeiros do Governo Lula. Contudo de 2009 para cá nossa bolsa ( em US$) afundou enquanto a bolsa mexicana disparou (mostrado em azul), repetindo-se assim o comportamento que se apresentou no início dos anos 2000. Algo fez com que a bolsa mexicana, embora fortemente afetada pela crise de 2009 nos EUA que são seus vizinhos e principais parceiros comerciais, tivesse um desempenho muito melhor do que o nosso. A razão? A agressiva agenda de reformas que o país sustenta desde o início da década passada, que não foi interrompida por agendas ideológicas ultrapassadas.

Do ponto de vista de geração de empregos, o Brasil mostrou uma melhora significativa desde 2004, como mostro em amarelo no gráfico verde abaixo, enquanto que no México o desemprego permaneceu baixo e relativamente inalterado durante todo o período (em cinza no gráfico vermelho):

desempmexibras

OU seja, isto mostra que é possível sim manter o desemprego baixo num ambiente de reformas liberais, como as em curso no México.

Porém vamos olhar onde nos encontramos hoje no que diz respeito às condições econômicas estruturais que impulsionam o crescimento produtivo.

Vamos começar com o volume de investimento produtivo que é feito em diversos países:

invpibpaises

Estes gráficos mostram a evolução anual do volume de investimentos produtivos feitos nestes países desde 2000, como % do volume de bens produzidos em um ano em cada um destes países. Vemos no gráfico verde que o Brasil é o lanterninha da amostra, com o México ( vermelho) apresentando volumes de investimento consistentemente maiores durante este período. Vemos que os países asiáticos apresentam volume de investimento muito, mas muito superior ao nosso, o que propicia a tais países um potencial de crescimento da economia e da renda muito mais acelerado do que o nosso. Tais investimentos fazem com que a economia cresça muito mais rápido do que a população na Ásia, o que permite um forte aumento na renda individual de seus cidadãos. Isto se deve ao fato de que, com mais investimento, a produtividade do trabalho cresce muito mais rápido, como mostram os dois gráficos abaixo:

brasilemprprodu

Vemos que no caso brasileiro a maior parte do crescimento acumulado desde 2002 se deveu ao aumento da quantidade de mão de obra utilizada na produção ( vermelho), crescimento este que só foi viável devido à forte queda do desemprego desde 2002.  Na medida em que o desemprego praticamente acabou, é de se esperar que a parcela de crescimento que virá do aumento do uso de mão de obra na economia se reduzirá daqui para frente. Iremos, portanto,  depender muito mais do crescimento da produtividade (amarelo) que tem sido bem mais lento. Ou seja,  se não aumentarmos o ritmo de crescimento da produtividade do trabalho com mais investimento, iremos crescer bem mais devagar daqui para frente, como tem ocorrido nos últimos três anos!

Para comparar, veja o que ocorreu com Coréia no mesmo período:

koreaprodemprecresc

Na medida em que o desemprego na Coréia já é baixo há décadas, vemos que o crescimento acumulado da economia Coreana deveu-se predominantemente ao aumento de produtividade (verde), o que permitiu que aquela economia crescesse mais rápido que a economia brasileira desde 2002. Quando a produtividade cresce mais rápido do que a quantidade de pessoas trabalhando e existe uma flexibilidade maior do mercado de trabalho (tema que abordarei mais abaixo), os salários tendem a subir mais rapidamente de maneira sustentável.

 Caso queiramos manter o rimo de crescimento econômico que tivemos nos últimos 12 anos iremos precisar fazer reformas que  acelerem o crescimento da produtividade, pois não temos mais uma massa de desempregados a ser utilizada no aumento da produção. E parece que o México saiu na nossa frente nesta corrida.

Uma consequência  desta baixa taxa de investimento na  economia pode ser vista na qualidade de nossa infraestrutura quando comparada com outros países, como mostra o gráfico abaixo com dados do World Economic Forum:

infrabrasil

Vemos em amarelo que a nota dada à nossa infra é muito baixa, nos colocando na posição 120 entre os países da amostra.  Países como México, Indonésia e Tailândia apresentam notas muito superiores á nossa. Infra ruim reduz a produtividade.

A mesma coisa pode ser vista no ranking da qualidade da educação:

brasileduc

Vemos em vermelho que estamos também lá nas últimas colocações, desta vez junto aos amigos mexicanos. Educação de baixa qualidade gera mão de obra de baixa qualidade e, portanto, menor produtividade por trabalhador, o que implica em salários crescendo mais devagar.

Nosso mercado de trabalho também é muito pouco flexível, como mostra em amarelo o gráfico abaixo:

flexmerctraba

Um mercado de trabalho mais flexível, onde os salários sejam fixados mais livremente e seja fácil contratar e demitir pessoas, permite uma otimização do uso econômico do Capital Humano de uma economia: a mão de obra pode ser realocada rapidamente, saindo dos setores pouco produtivos e, portanto, menos competitivos,  para os setores e empresas mais produtivas e competitivas, aumentando a eficiência total da economia. Isto impulsiona a produtividade e os salários para cima. Neste item, como vemos acima, estamos muito, mas muito atrasados, pois nossa legislação trabalhista é antiquada e prejudica o trabalhador ao dar uma falsa sensação de segurança: temos um sistema trabalhista que garante que iremos pagar pouco aos nossos trabalhadores,  dando-lhes em troca destes baixos salários uma sensação de segurança irreal. Nossa experiência nos últimos 30 anos mostra que não conseguimos manter o desemprego abaixo de 6% por mais do que por alguns anos seguidos. Ou seja, trabalhismo é um bom discurso para o sindicato, mas de benefícios questionáveis.

Como tenho dito inúmeras vezes, o governo intervem demais na economia, como mostro em amarelo no gráfico da OCDE mostrado abaixo:

intervestado

O governo intervem demais, seja orientando o crédito através do BNDES e CEF, ignorando os critérios de mercado na alocação do capital, fixando preços de bens públicos artificialmente e sem nenhuma previsibilidade, interferindo nas regras, complicando o sistema tributário, tributando demais, enfim, faz tudo para atrapalhar o processo natural de alocação de recursos na economia, o que impede o aumento da renda e da produtividade. O intervencionismo excessivo aumenta a insegurança dos agentes, pois tais intervenções são muitas vezes erráticas e oportunistas, como falei em:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/07/14/intervencionismo-10-x-1-brasil/

O resultado disto tudo é que o nível de confiança em nossa economia tem caído barbaramente nos últimos anos (como mostro em amarelo abaixo), tendo atingido níveis compatíveis àqueles prevalecentes em 2002, no período que antecedeu a eleição do Presidente Lula:

confiancaeconomicpolicy

Além da falta de perspectiva de reformas, os empresários estão encontrando cada vez menos projetos que gerem valor econômico, ou seja, projetos em que o retorno gerado supere o custo do capital empregado, como mostro em preto no gráfico verde abaixo:

criacaovalor

Vemos que o valor criado acima do custo de capital das empresas brasileiras listadas na bolsa ( verde) é inferior àquele gerado no México (vermelho) e na média do mundo (azul) desde 2011. Com retornos menores é natural que o investimento produtivo caia por aqui.

E um dos motivos desta queda de rentabilidade das empresas é a alta do custo da mão de obra quando medido em dólares, como mostro em preto abaixo:

custoproducaounit

De 2007 até hoje o custo em US$ de um homem hora empregado na indústria disparou,  saindo de uma condição de paridade com o México em 2005 para um nível 70% superior atualmente. Ou seja, como os salários subiram acima da produtividade e o R$ ficou mais forte, o custo de se produzir no Brasil aumentou barbaramente. Não é de se estranhar que a participação da indústria manufatureira no PIB esteja em seu menor nível em décadas, como mostro em amarelo abaixo:

indtransfpib

Outro aspecto que reduz a atratividade dos investimentos no Brasil são as elevadas taxas de juros, como vemos no gráfico abaixo que mostra a evolução das taxas reais de juros ( juros descontados da inflação) desde 2002, no Brasil ( verde), México ( vermelho)  e EUA (azul):

realintrates

Tivemos uma redução dos juros de 2005 a 2010 ( preto), em linha com o que aconteceu no México. Mais recentemente a taxa de juros real parou de cair ( rosa), pois nossa inflação bateu no topo da banda e tem ameaçado sair de controle desde 2011. Isto se deve em grande parte à  tentativa frustrada do governo em reduzir as taxas de juros artificialmente em 2012/2013 ( em marrom acima). Vemos em amarelo abaixo que desde 2009 nossa inflação vem em tendência de alta e caminha para superar o topo da meta ( vermelho) :

inflacao12m

Num cenário destes, a taxa de juros real precisa se manter elevada para assegurar ao poupador que ele não terá seus recursos corroídos pela inflação. Pense assim: a taxa de juros real ( juro que é pago acima da inflação) serve como um seguro ou um colchão contra possíveis perdas do poder de compra de nossas economias guardadas no banco, perdas estas decorrentes de uma aceleração imprevista da inflação. Quanto maior a incerteza quanto a trajetória da inflação, maior o prêmio que os poupadores demandam. E tal incerteza hoje está bastante elevada, como explicado em:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/05/12/populismoinflacionario/

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/04/15/goeladadragao/

A experiência fracassada dos últimos anos mostrou que derrubar os juros não é um ato de vontade política, mas uma consequência de políticas econômicas consistentes. E o fato de termos desequilíbrios em nossa economia nos obriga a manter taxas de juros reais bem acima de nossos competidores, o que reduz o retorno marginal das empresas, como mostramos acima, reduzindo assim o investimento produtivo na economia ainda mais. E isto fica claro quando comparamos nossa taxa de inflação nos últimos 4 anos com a inflação em alguns países emergentes, segundo dados do FMI:

Inflaçaolatamok

Temos tido taxas de inflação muito acima do que nossos vizinhos ( amarelo), taxas que hoje se situam acima aos da Bolívia como vemos em cinza abaixo:

evolinflalatam

Parar atingirmos um nível juros reais compatível àqueles praticados na maioria dos países emergentes, precisamos trazer nossa inflação para 3 ou 4% a.a. como indicado em vermelho acima, algo que, como mostra o mesmo gráfico acima, não parece que estejamos perseguido. Isto em si já justifica as elevadas taxas de juros que hoje temos no Brasil.

Como consequência de tudo isto, nossa taxa de crescimento médio nos últimos anos foi a menor da amostra acima, como vemos em vermelho no quadro abaixo  :

pibcresc

Fica evidente que este quadro é bastante preocupante, pois precisamos imediatamente abraçar uma agenda de reformas, na linha da que está sendo tocada pelo Presidente Henrique Pena no México e e pelo Primeiro Ministro Narendra Modi na Índia. Precisamos ter coragem e enfrentar os problemas de frente. E é uma pena que o debate entre os candidatos tenha descambado desde o primeiro turno para uma troca de acusações pessoais e que as questões fundamentais de nossa economia ficaram para um segundo plano. Sei que é difícil para a candidata da situação reconhecer estes problemas, assim como é difícil para o candidato da oposição entrar neste tema dado o elevado grau de politização que envolve  tais reformas, mas se não endereçarmos tais questões com rapidez o futuro será sombrio e as conquistas sociais dos últimos 10 anos serão inequivocamente perdidas com o tempo.

 Temos mais uma semana de campanha e os candidatos poderiam usar este tempo na TV e listar quais reformas estruturais seriam necessárias para corrigir o quadro atual e nos colocar assim na mesma trilha do México e Índia. Aí quem sabe um dia chegaremos onde a Coréia já chegou há anos. Se não fizermos isto, corremos o risco de seguir o caminho de alguns vizinhos de menos sucesso, como coloquei em:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/10/14/uma-experiencia-bastante-custosa/

Às reformas companheiros!! Senão a casa vai cair:

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4 comentários | Comentar

  1. 54 JpQ 21/10/2014 18:43

    1)
    “Tanto a presidenta como Aecio vao precisar explicitar em algum momento o que pretendem fazer em termos de reforma. De fato nao sou expert em marketing politico.”

    O momento de se fazer isto, infelizmente, é pós eleição …. é ingenuidade pensar que um deles possa fazer isto agora sem perder votos. Ele estão certíssimos em não tocar no assunto, pq o juiz no final é o povo e se o povo não é capaz de entender isto como positivo paciencia …. o Aécio até perdeu votos por ter anunciado um ministro ortodoxo, diria ate que pode ter perdido eleição por isso …..pela oportunidade que deu de ser atacado ….

    2)
    Na fotografia atual a tendencia é que a presidenta seja reeleita, se isto ocorrer, é claro que ela e o Lula estarão pressionados a mudança pela alta votação da oposição …. com certeza a coisa não fica como esta …. não por ideologia mas sim por pragmatismo, não me surpreenderia com nas proximas semanas, POS ELEICAO: – o Palocci ser anunciado como ministro da fazenda, – aumentar a gasolina e o diesel (+/- 5%) e energia (+/- 5%) como aceno imediato ao mercado de fim de represamento de tarifas ….e medidas para redução gradual da inflação, além de plano de para investimentos / concessões em infraestrutura …

    3)
    Eu não apostaria de jeito nenhum em reforma trabalhista no próximo governo se o PT ganhar, pq qualquer coisa que PT fizer neste sentido ele será massacrado em futuras eleições como “traidor do trabalhador”, não importa que a acusação seja justa ou não o que importa é que é politicamente inviável

    • Ricardo Gallo 21/10/2014 20:14

      Eu pretendo comentar sobre isto no próximo post.

  2. 53 Thiago 21/10/2014 14:28

    Gallo, pegando carona na pergunta do Guilherme, quais seriam suas ideias para a reforma trabalhista?
    Abs

  3. 52 Guilherme 20/10/2014 9:43

    Gallo,
    uma das coisas que mais me preocupa é que é difícil olhar para a frente e ver um governo e congresso que consigam tocar essas reformas. Particularmente a trabalhista, é um assunto tão espinhoso que o candidato que citá-la, perde a eleição no dia seguinte. E para piorar, eu sinto que o brasileiro no fundo não quer essas mudanças, nossa cultura é paternalista, nossa constituição é assistencialista e o país escolheu e quer isso. O trabalhador adora o FGTS, as mulheres acham o máximo poder engravidar e ficar 5 meses fora recebendo integral, etc….

    Não vou nem entrar na tributária e previdência, que também tem suas peculiaridades políticas, acho até que nessas últimas duas é possível caminhar mais rapidamente com mini reformas mas no fundo no fundo é difícil vislumbrar muita mudança nesses pontos. O país está claramente perdendo a corrida da competitividade com nossos peers e talvez quando acordarmos para os problemas, a coisa seja tarde demais para recuperar.

    • Ricardo Gallo 20/10/2014 11:08

      Concordo. Vai ser dureza, seja quem for o Presidente.

  4. 51 Bruno Aguiar 19/10/2014 21:51

    Eu vejo por outro lado, o Aécio fala até demais em coisas como política fiscal, PIB, centro da meta, etc. Só quem estudou economia ou tem ampla leitura de jornais sabe o que é isso, e os votos destes o Aécio já tem.

    • Ricardo Gallo 20/10/2014 11:08

      Tanto a presidenta como Aecio vao precisar explicitar em algum momento o que pretendem fazer em termos de reforma. De fato nao sou expert em marketing politico.

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