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segunda-feira, 3 de novembro de 2014 Crise Brasileira, Impostos, Politica Economica | 12:04

Situação fiscal é grave

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Em meu post mais recente listei uma série de questão econômicas que se colocam como desafios importantes para o governo eleito. Contudo, duas frentes trazem enorme preocupação: a situação das contas públicas e dos reservatórios das hidrelétricas na região sudeste. Vou endereçar aqui a questão do quadro fiscal.

Os últimos dados das contas públicas mostram uma piora bastante aguda nos saldos das contas fiscais do governo. Na margem, as contas públicas já estão em déficit e um forte aperto fiscal será necessário, com cortes de gastos públicos e mais impostos, o que, como tenho repetido nesta coluna, já era previsto há algum tempo.

O saldo das contas públicas vem afundando em enorme velocidade, como vemos no gráfico abaixo em vermelho:

 

 

saldoprim14

 

 

O saldo primário ( saldo de receitas – despesas, excluindo encargos com juros) vem despencado desde 2011, e recentemente está afundando e se encontra no pior nível em mais de 10 anos ( amarelo).

O déficit total, que inclui as despesas com juros, está piorando bastante na margem ( vermelho abaixo) e atingiu pior nível dos últimos 12 anos:

 

 

nominal14

 

 

 

O saldo primário nos primeiros 9 meses deste ano, que exclui despesas com juros, está negativo, o que não acontecia há mais de 11 anos, como vemos abaixo:

 

 

prim9mprim

 

Fica claro aí que já estamos em déficit. 

A coisa piora de figura se ajustarmos os saldos reportados, retirando dele as receitas extraordinárias do Tesouro Nacional nos últimos meses que não devem se repetir quando se olha para frente, como mostra ( amarelo) o gráfico tracejado abaixo:

 

 

estrutsaldo

 

 

Vemos que o saldo primário recorrente dos últimos 12 meses já está no negativo. E a tendência é de rápida piora.

Com consequência disto, a dívida pública só aumenta:

 

 

divipub14

 

 

Vemos em marrom que dívida total do governo vem em tendência de alta desde 2012, e piorou bem nos últimos meses. Algo que também fez piorar a dívida líquida em amarelo.

Mas e daí? Bom veja abaixo:

  • Saldo primário negativo significa que o governo gasta mais, mesmo excluindo o que gasta com juros, do que arrecada;
  • Assim o governo não poupa nada para pagar encargos da dívida;
  • Assim a dívida só aumenta;
  • Com mais dívida, aumentam as despesas com juros;
  • Com mais dívida o governo precisa pagar juros maiores no mercado para levantar recursos;
  • Com juros maiores, investimento produtivo cai;
  • Com menos investimento, economia continua estagnada;
  • Com economia estagnada, governo arrecada menos impostos:
  • O que piora ainda mais quadro fiscal.

Com economia estagnada, déficits crescentes, juros em elevação, inflação no topo da meta e dívida pública em alta, fica inevitável o rebaixamento da nota de crédito do Brasil fixada pelas agências de rating. Se este quadro não se alterar nos próximos trimestres, é certo que teremos nossa dívida rebaixada por pelo menos uma das 3 agências principais e muito provavelmente perderemos grau de investimento em 2016, com consequências dramáticas para emprego e economia no curto e longo prazo. Logo, reverter este cenário é imperativo.

Para reverter este quadro, o governo será forçado a fazer um sério aperto fiscal em 2015 e 2016. Seguem algumas medidas possíveis dentro de um pacote de maldades:

  • Volta do CPMF, o que aumenta custo dos produtos e inflação;
  • Com mais inflação, o BC vai precisar subir mais os juros;
  • Aumento do IOF sobre empréstimos, encarece crédito ainda mais;
  • Aumento da TJLP, juros cobrados pelo BNDES, o que encarece custo financeiro dos investimentos;
  • Aumento do preço da gasolina, para aumentar resultado da Petrobrás;
  • Isto traz mais inflação e, portanto, mais juros;
  • Corte de despesas públicas;
  • Mudanças na previdência social, reduzindo ou eliminando alguns benefícios;
  • Fim de algumas desonerações de impostos feitas nos últimos 18 meses;
  • Desvincular alguns benefícios à variação do salário mínimo;
  • Aumento maior das tarifas de eletricidade;
  • Aumento das tarifas de transporte público nos grandes centros urbanos;

Medidas assim irão causar uma maior queda no nível de atividade e portanto do emprego, que já mostra um quadro de piora. Porém são inevitáveis. Caso contrário, teremos uma forte crise, pois caso medidas como estas e uma forte austeridade fiscal não sejam implementadas com rapidez, corremos sério risco de termos nossas notas de crédito externo rebaixadas, o que reduziria o nosso acesso ao capital externo que hoje é responsável pelo financiamento de 20% da poupança total que precisamos para fazer os investimentos que hoje fazemos em nossa economia.  E se perdermos o grau de investimento, não haverá recursos externos para mais investimento em Infra, pois os investidores externos exigem grau de investimento do país para investir em tais projetos.

Ou seja, a questão não é mais se ou não teremos um aperto fiscal. Mas sim quando.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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10 comentários | Comentar

  1. 60 Ronaldo 05/11/2014 14:47

    Ricardo Gallo, você acha que a situação política-economica brasileira da foram que vem se encaminhando é motivo para começar a mandar dinheiro para fora do país?

    • Ronaldo 06/11/2014 0:36

      Bem, me sinto inseguro de deixar dinheiro investido no brasil apesar dessa linda Selic a 11,25%, segundo a margem de erro do IBOPE de 5% apenas para mais kkkkk. Mas vou pensar…queria ter em meu portifolio investimentos em ativos estrangeiros.

    • Ricardo Gallo 06/11/2014 10:11

      a situação fiscal é grave mas pode ser revertida . logo, irá ser revertida.

    • Ricardo Gallo 05/11/2014 14:51

      se de fato for esta a sua motivação para se comprar dólares, não acho recomendável se mover.

      porém a compra de dólares para diversificar numa economia com desequilíbrios externos pode fazer sentido. MAS lembro que juros reais aqui são de 6% a.a. e lá fora sao negativos…ou seja o custo de oportunidade de se comprar dólares é enorme, pois vais abrir mão de uma enorme rentabilidade…..

      de qualquer forma, dar conselhos sem analisar a carteira de investimentos das pessoas, suas expectativas, sua tolerância a risco nunca dá certo…

      sugiro que procure um profissional de aconselhamento financeiro e avalie o que é melhor para voce.

  2. 59 Marcos 04/11/2014 23:21

    Parabéns!. Blog com excelente qualidade técnica. Acredito que dê muito trabalho preparar todo esse material que divulga, mas está de parabéns !

    • Ricardo Gallo 05/11/2014 0:09

      gracias. mas uso tudo isto no meu dia a dia…hehehe

      abcs

  3. 58 Marcos 03/11/2014 22:48

    Hoje o petróleo fechou a 78.19. E parece que o viés é de baixa.
    Será uma boa ajuda para a Petrobras e para as termoelétricas.
    Qual seria o impacto positivo nas contas públicas e na inflação?

    • Dedé 04/11/2014 16:18

      É péssimo para Petrobrás no médio longo prazo. O preço do Petróleo caindo e se mantendo baixo por um longo período pode comprometer a viabilidade do pré-sal.
      O pré-sal é uma aposta muito alta que a Petrobrás, como empresa, e o Brasil, como nação, está fazendo.
      Outro dia li num blog sobre finanças que com petrélo abaixo de 85 dólares a extração de petróleo no Golfo do México deixa de ser lucrativa. Sendo a operação no Golfo do México tecnicamente menos complicada que o pré-sal. (rgellery.blogspot.com.br/2014/10/cometarios-respeito-do-preco-do.html)

    • Ricardo Gallo 04/11/2014 11:07

      a. sera ótimo para as termelétricas, SE DÓLAR NAO SUBIR MAIS…
      b sera péssimo para petro NO LONGO PRAZO, que deve em dólar e O PRECO DE seu produto está despencando : se você produz carros e o preço do carro cai em dólares, e você se endividou em dólares para construir a fabrica de carro, voce tem um problema. imagine o que aconteceria com produtores de soja se preço da soja caísse la fora 40%.
      C. SERAH BOM PARA CONSUMIDOREs DE GASOLINA, se governo não aumentar cide de novo…
      D. NEUTRO NAS CONTAS PUBLICAS, POIS DIVIDENDO DA PETRO DEPENDE DE SEU LUCRO….QUE NAO DEVE MUDAR MUITO…

  4. 57 Ricardo R 03/11/2014 21:37

    Vi muito analista esse ano alertando que tava perigosa a trajetória das contas públicas, inclusive alertando que podia passar dos 3,5% de DN. Eu tava apostando em 5% já fazia uns seis meses. Agora pelo visto vai fechar mesmo é nos 6%, e ano que vem ngm segura, é de 7 pra mais.

    Quero ver o governo cavocar o superávit primário. É 3 p.p. do PIB pra recuperar. 150 bilhões de reais num orçamento que o governo tem dificuldade de acha 1 bilhão pra cortar. É perda de invetiment grade na certa, e a volta dos juros de 20% a.a. logo logo.

    • Denivaldo Lopes Cruz 03/11/2014 23:22

      Este esforço fiscal, de 150 bilhões, seria 6 vezes maior que o esforço realizado pelo Lula nos seus primeiros anos de governo. Será que um ajuste gradual como alguns têm pregado seria suficiente?

    • Ricardo Gallo 04/11/2014 11:02

      sim. mas precisa ter muita credibilidade pois as agencias e o mercado terão que acreditar. e o problema é que seria um ajuste feito pelos mesmos que criaram o desajuste…

      teu filho chega com um 2 no primeiro boletim do ano. ele diz que vai estudar mais. e promete chegar a 8 no ultimo boletim do ano. porem no proximo promete que vai tirar 4 apenas… voce acredita nele?

  5. 56 João 03/11/2014 19:44

    “Pacote de maldades”…gostei (eheheheh).

  6. 55 Dedé 03/11/2014 19:13

    Um calote na dívida pública é quase que impossível. Causaria paralisia do mercado interbancário e poderia causar um colapso do sistema financeiro nacional. O governo teria que estatiza todo os sistema financeiro. Haveria uma queda imediata na qualidade de vida, no poder de compra e também na popularidade do governo.
    Nenhum governo dará calote na dívida interna. O calote será dados sobre os grupos mais fracos e manipuláveis, como vem sendo dado a anos nos aposentados que a cada ano veem sua renda real ser mais baixa. Isso é uma forma de calote, que tende a se aprofunda nos próximos anos. Quando a situação apertar o governo cortará na carne, reduzirá pensões de servidores, cargos em comissão, gastos com material, etc.

    • Ricardo Gallo 03/11/2014 20:46

      Concordo. Nem na Espanha , onde situacao fiscal é muito muito muito pior que a nossa, se ousou a pensar nisto.

  7. 54 Vânia Luz 03/11/2014 16:49

    E por quê o governo não toma as medidas cabíveis?
    Difícil de entender a cabeça desse povo, né? Para mim não é outra coisa a não ser incompetência. A incompetência que deixou a situação econômica brasileira chegar a situação grave, é a mesma que demora para agir frente ao problema que o mesmo criou.

    • Ricardo Gallo 03/11/2014 18:05

      pq o governo não acredita que esteja errado e que disciplina fiscal e monetária fazem parte da agenda neoliberal ortodoxa que eles tanto combateram durante décadas. Eles acreditam que manter tal disciplina prejudicaria os menos favorecidos em favor do grande capital financeiro. ele acredita que se adotarem disciplina fiscal e inflacionaria o emprego cai, a renda cai, e que será preciso cortar os programas sociais. o governo acredita que dá para controlar a economia. e por ai vai.

  8. 53 Doug_SP 03/11/2014 15:26

    É por essas e por outras quem ninguém quer sentar na cadeira do Mantega…

    Alguns passarinhos andam dizendo que ao menos 4 já recusaram, entre eles o Trabuco e até mesmo o Meirelles…

    Quem será que se habilita a segurar essa bomba relógio? O Steinbruch ???

    Tem de ter MUITO amor á pátria para se queimar desse jeito; vai acabar entrando para história como um péssimo Ministro – e o pior: sem ter NENHUMA “culpa no cartório”. Difícil vai ser explicar isso para o povão!

  9. 52 anon 03/11/2014 14:47

    Uma dúvida: supondo que um governo hipotético que assumisse o país agora, seria uma boa ideia reduzir (1) o gasto da máquina pública e (2) a arrecadação com impostos? Acho que essa combinação é pouco explorada, geralmente se fala em reduzir a gasto público E o incremento da arrecadação.

  10. 51 Hudson 03/11/2014 12:45

    Podemos investir tranquilamente em renda fixa ou os defensores dos pobres declararão moratória na dívida, diante deste cenário tenebroso?

    • Ricardo Gallo 03/11/2014 12:51

      acho muito, muito, muito, difícil que haja um calote na divida!!! estamos muito muito longe disto.

      porem se o ajuste fiscal não vier e o pais for rebaixado, o valor dos papeis do tesouro irá cair.

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