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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014 Crise Brasileira, Politica Economica | 17:50

Uma recessão inevitável, com ou sem ajuste

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Uma das principais preocupações dos analistas econômicos diz respeito a capacidade da Presidenta Dilma de tolerar os efeitos econômicos e sociais de curto prazo dos ajustes fiscais, tarifários, creditícios e monetários em andamento. Tais analistas temem que, na medida em que os impactos de tais medidas na atividade econômica começarem a aparecer, a Presidenta queira voltar atrás em várias dessas medidas, o que provocaria uma reação bastante negativa dos mercados e o provável rebaixamento de nossa nota de crédito.

De fato é razoável um certo grau de ceticismo, na medida em que a Presidenta em seu primeiro mandato e durante a campanha eleitoral atacou estes tipos de ajustes. Porém é bom sempre ter em mente que as escolhas das pessoas para a equipe econômica sinalizam na direção de se fazer tais ajustes imprescindíveis neste momento. Mas podemos ficar aqui debatendo horas sobre quão justificado é tal ceticismo e não chegaremos a nenhuma resposta consensual. Contudo, podemos sim tentar avaliar o tamanho do impacto de tais ajustes em nossa economia em 2015.

Vamos começar com o ajuste fiscal desejado pelo governo, que deve elevar o superávit do governo para cerca de 1% do PIB em 2015 e 2% em 2016, saindo de praticamente zero este ano. Este freio fiscal de 1% do PIB, dependendo de sua formatação (via corte de gastos ou aumento de impostos), deve gerar uma perda da mesma magnitude na demanda interna. Ou seja, é um forte tranco na demanda interna que vai resultar em queda da atividade.

A elevação da taxa Selic dos últimos meses ainda não teve seu efeito refletido na atividade na sua totalidade. Logo é razoável esperar que ocorram uma perda de demanda adicional em função de tal aperto ainda em curso.

A provável elevação das tarifas de eletricidade em 2015, que deve superar 10% reais, pode gerar um aumento de custo da ordem de 0,2% do PIB adicional para consumidores e produtores, montante que provavelmente será financiado através da redução de consumo por parte das pessoas físicas e do investimento por parte das empresas. Muito provavelmente o grosso destes recursos decorrentes da elevação das tarifas de energia será poupado pelas empresas geradores, que precisam pagar seus empréstimos tomados junto aos bancos para financiar seus buracos causados pela elevação do custo da energia por elas comprada. Desta forma, este choque tarifário funcionará como um aumento de impostos e terá forte impacto na atividade.

Uma redução do ritmo de crescimento dos empréstimos do BNDES causará um aperto na oferta de crédito para investimento. O balanço do banco cresceu a um ritmo de 1% do PIB por ano. Se houver uma redução na oferta de crédito novo de 50%, teremos um corte de 0,5% na oferta de recursos para investimentos. E, em função da elevação dos juros internos e da volatilidade do câmbio, não será viável para as empresas acessarem os mercados de crédito bancário e de capitais internacionais para financiar tais investimentos. Ou seja, se apenas 50% das empresas conseguirem se alavancar de outras formas, podemos dizer que esta queda da oferta de crédito do BNDES pode reduzir em 0,2% do PIB o volume de investimentos. Isto sem falar dos impactos de uma política mais conservadora na concessão de empréstimos por parte do BB e CEF, o que é razoável esperar em função da deterioração do quadro econômico.

Além disto, uma elevação de 1% na TJLP gera um aumento de custo financeiro de 0,1% do PIB para empresas, que precisarão cortar despesas para acomodar este aumento de custos financeiros e amplifica o impacto da elevação Selic.

A queda dramática do preço do petróleo e a crise de governança sem precedente que abala a Petrobrás afetou seriamente a capacidade da companhia levantar recursos lá fora. Ou seja, é bem provável que os mais de R$ 100 bi (10% do investimento produtivo do país) que hoje são feitos anualmente pela empresa sejam cortados ou pelo menos adiados. Uma redução de 20% em tais investimentos reduziria o investimento total feito anualmente em nossa economia em 0,4% PIB no ano. Isto sem falar nos efeitos nos investimentos feitos pelos seus fornecedores que irão sofrer muito nos próximos anos.

Os impactos da crise do Petrolão nas empreiteiras podem ser devastadores. Há notícias que bancos já estejam reduzindo os empréstimos para o setor, o que sufoca a capacidade destas empresas investirem e limitam as chances delas serem contratadas para novas obras de infra do setor público. E é importante destacar que várias destas empresas também atuam em outros setores ligados a infra, como estradas e aeroportos, o que deve ter um impacto bem negativo no investimento.

A confiança dos empresários e dos consumidores que já se encontra há algum tempo em níveis bastante baixos, algo que não deverá se modificar substancialmente nos próximos meses, o que impedirá uma retomada mais rápida do consumo e do investimento.

A provável elevação dos juros nos EUA que deve acontecer ainda 2015 deverá, além de elevar o custo das captações externas das empresas e manter os preços das commodities que exportamos sob pressão, o que deve gerar uma redução os investimentos nos setores do agronegócio e mineração.

Isto tudo sem falar no baixo apetite dos bancos comerciais para aumentar suas carteiras de crédito neste momento.

Ou seja, temos um cenário que conspira para um aprofundamento da recessão, com a qual apenas flertamos há alguns meses, mas que deverá ter proporções bem maiores nos próximos dois ou três trimestres. São poucas ou inexistentes as forças que nos ajudariam a evitar tal recessão. As dificuldades políticas do governo alimentam o ceticismo dos empresários e investidores com relação ao ajuste em andamento. O cenário externo para os países emergentes tende a piorar na medida em que os juros americanos comecem a subir. E vai demorar um bom tempo para que nossas exportações reajam à alta recente do dólar, dada a  enorme fragilidade do setor e a escassez de crédito que deveremos enfrentar. E, para agravar a situação, a margem de manobra que tínhamos até 2010 foi queimada nestes últimos 3 anos.

Portanto é muito provável que tenhamos uma elevação mais rápida do desemprego nos próximos trimestres e que a renda real do trabalhador comece a desacelerar, levando à queda do consumo.

Este cenário, como subproduto, deverá provocar uma queda dos núcleos da inflação na segunda metade de 2015, tornando mais realista a possibilidade do BC aproximar a inflação do centro da meta em 2016. Tal cenário deve também provocar uma queda gradual de nosso déficit externo e a consequente recuperação da taxa de formação de poupança interna, que hoje se encontra no menor nível em décadas.

Eu sei que é uma péssima época do ano para tratar deste assunto, porém esta é uma realidade que se aproxima rapidamente e é muito importante que nos preparemos para o período que temos pela frente que deve ser, a meu ver, bastante difícil, como não vemos há muitos anos.

De qualquer forma, eu desejo a vocês um Feliz Natal e um ano de 2015 com muita paz e saúde. E muito obrigado pelos comentários feitos aqui em 2014. Espero tê-los em dobro em 2015.

E para aqueles que sentem falta dos meus gráficos, basta agora acompanhar-me no twitter em:

@ricardogalloIG

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6 comentários | Comentar

  1. 56 João 22/12/2014 22:22

    Prezado Gallo,
    a Presidente Dilma declarou hoje pela manhã que “é possível conciliar uma agenda de recuperação do crescimento econômico com o funcionamento das políticas de transferência de renda e subsídios”.
    Você concorda?

    • Ricardo Gallo 23/12/2014 23:54

      sim. porem depois de se completar ajuste fiscal, para fiscal e monetário necessários. ai com algumas reformas micro, previdência, trabalhista e nas estatais é possivel ampliar políticas sociais.

    • Ronaldo 29/12/2014 17:17

      CIA no sentido de companhia

    • Ronaldo 29/12/2014 17:16

      Tambem concordo 101% com você. O que me irrita de verdade é a “ideologia” que PT/Dilma e CIA diz e disse defender na campanha, faz isso e os eleitores dela…ah você já sabe…

    • Ricardo Gallo 23/12/2014 23:57

      é a única saida

      senao crédito imobiliário nao cresce.

      ou privatiza capital ou nao da pra crescer mais seus emprestimos.

  2. 54 João 22/12/2014 15:12

    Prezado Gallo,
    hoje pela manhã nossa Presidenta declarou que “é possível conciliar uma agenda de recuperação do crescimento econômico com o funcionamento das políticas de transferência de renda e subsídios”.
    Você concorda?

  3. 53 Dedé 22/12/2014 12:48

    Pra mim está sendo ótimo. Invisto em FII´s, os rendimentos estão chegando a 1% a.m. As cotas tem se desvalorizado, mas como meu objetivo é gerar renda, não tenho do que reclamar. Os rendimentos recebidos já cobrem 20% do meu salário, minha meta é chegar a 100%, quando passarei a buscar investimentos mais arriscados. Quanto mais os juros subirem e a cotas se desvalorizarem, mais rápido atingirei minha meta.
    O que o povo precisa aprender é a poupar, para nesses momentos aproveitar as oportunidades.

    • Dedé 22/12/2014 16:51

      Os FII´s preferidos são os de imóveis comerciais/logística, com contratos longos e multas altas. Dividos meus investimentos em FII´s de imóveis comerciais/logística, agências da Caixa e BB, faculdades e escritórios.
      Destes os que considero mais arriscado no momento são os de escritório, por causa do aumento exponencial da oferta nos últimos anos.
      Mas um aumento na vacância tende a reduzir os valores das cotas, o que abre oportunidade para adquirir mais m2 e ter um rendimento maior no longo prazo.

    • Ricardo Gallo 22/12/2014 13:13

      muito destes fii’s investem em propriedades que são alugadas. A renda deste aluguel é o que gera o rendimento.. Na medida em que estes contratos vencem, os aluguéis podem ser revistos para baixo, como está ocorrendo em vários escritórios em sao paulo. Na renovação dos alugueis, muitas vezes os inquilinos conseguem redução nominal dos aluguéis, pois há muita oferta de propriedade nova em algumas regiões. Ou no caso de uma recessão maior pode ser que aumente a vacância em alguns prédios, pois empresas fecham ou reduzem área locada, o que também diminuiria o rendimento. O mesmo se aplica a shopping centers e em menor escala a buildtosuit ou armazéns.

      Não dá para generalizar estas preocupações pois cada caso é um caso, porém é bom dar uma olhada, só por precaução….

      Logo, sugiro que voce de uma olhada nos seus FIIs e analise o lastro destes fundos e o risco dos alugueis nestes lastros imobiliários

  4. 52 Ricardo R 22/12/2014 2:27

    Só de commodities já dá 1% do PIB a menos pro ano que vem. Minério de ferro de 110/120 esse ano para uns 70 ano que vem, representando uma queda de uns 10 bilhoes de dolares nesse item, e a soja que caiu tb de 14 pra 10 (bushel) tb mais uns 10 bilhoes ai.

    • Ricardo Gallo 22/12/2014 11:06

      pois é…. desgraça pouca é bobagem…

  5. 51 carlos rocha 21/12/2014 9:08

    Meu Caro

    Retribuo os votos de Excelente Natal e próspero? ano novo…

    Seus comentários como sempre bastante lógicos e esclarecedores; na minha área como já estou experimentando uma queda de 10%, SÓ ME RESTA, corroborar com suas afirmações…

    Temos entretanto um pais com capacidade de recuperação… vamos aguardar…

    Aliás, acho que esse “aguardar” acaba agravando o problema… enfim…

    • Ricardo Gallo 21/12/2014 18:35

      Obrigado e boas festas.

      E bola pra frente

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