Publicidade

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015 Crise Brasileira, Empresas, Politica Economica | 20:14

Grande demais para quebrar

Compartilhe: Twitter

Durante a crise de 2008 nos EUA vários bancos tiveram sérios problemas decorrentes da queda dos preços dos imóveis que serviam de garantia em seus empréstimos. Em alguns casos tais perdas  levaram alguns bancos à beira da insolvência. De fato, se não fosse a intervenção do FED, que emprestou recursos para tais bancos, poderiam ter ocorrido inúmeras quebras de bancos, a exemplo do que aconteceu no caso da Lehmann. Este comportamento do FED gerou uma série de questionamentos políticos, pois era muito difícil justificar a utilização de recursos públicos no salvamento dos grandes bancos e seus credores. Contudo, a alternativa a tal política seria permitir a quebra de vários grandes bancos, com perdas a seus depositantes e investidores, o que poderia levar a uma crise econômica de proporções ainda mais devastadoras.

Desta forma foi preciso assumir a existência de alguns bancos que eram grandes demais para quebrar. Ou seja, eram tão grandes que, se quebrassem, levariam a economia inteira para o buraco com eles. Logo, na prática, tais bancos seriam “inquebráveis”.  Isto tem feito com que reguladores até hoje questionem a existência de tais mamutes e apertem ainda mais os controles sobre as atividades destas instituições consideradas sistemicamente importantes. Creio que ainda veremos debates sérios nos EUA sobre a necessidade de se impor limites ao tamanho destes bancos.

Aqui na terra da jabuticaba parece que está surgindo uma onda similar, porém topicalizada. Alguns defendem que existem aqui empresas que, no seu conjunto, sejam grandes demais para quebrar, e que, portanto, justificariam o uso de recursos públicos do BNDES ou da CEF no seu salvamento. Se tratam das empresas que estão hoje envolvidas nas investigações do caso do Petrolão. São empresas fornecedoras de produtos ou serviços a Petrobrás que, segundo alega o MP, teriam participado de um cartel que corrompia executivos da estatal com o intuito de ganhar concorrências e aumentar assim suas margens de lucro.

Não cabe aqui avaliar se empresa A ou B é culpada ou inocente, pois para isto existe o sistema judiciário. Contudo, não podemos ignorar que tais notícias estão dificultando a vida de vários destes fornecedores do governo, principalmente aqueles que dependem visceralmente de encomendas do setor público. No caso da Petrobrás a situação fica mais crítica, pois a estatal ainda se encontra sob investigação e não se sabe onde isto tudo vai dar. Para piorar, é bem provável que a Petrobrás reduza o ritmo de seus investimentos, reveja contratos antigos e gerencie seu caixa com maior austeridade, o que deve afetar a saúde de alguns de seus fornecedores, inclusive entre aqueles que não estejam envolvidos com o escândalo. Além disto, num momento de ajuste em nossa economia como o que vivemos, a demanda e o investimento devem se reduzir no curto e médio prazos, criando-se um ambiente menos favorável aos negócios, o que acaba induzindo a retração na oferta de crédito interno.  Isto é natural, pois os financiadores se retraem com receio de terem perdas em seus investimentos em decorrência do cenário econômico adverso.

Se somarmos tudo isto, é razoável se esperar que algumas destas empresas mais expostas ao escândalo passem por dificuldades financeiras até que o horizonte volte a se clarear.  Foi exatamente isto que ocorreu com a construtora OAS nos últimos dias, que preventivamente decidiu não pagar os juros devidos em operação de captação de recursos no exterior e chamar bancos e credores para reestruturar suas obrigações, protegendo-se assim de uma piora no seu quadro financeiro. Não se trata de reconhecimento de culpa, mas sim uma atitude preventiva normal em situações de estresse financeiro. Em situações normais de mercado, isto é algo corriqueiro, pois empresas algumas vezes passam por dificuldades. O que torna este momento especial, é que alguns temem que este caso seja o primeiro caso de uma série que poderá atingir todo o setor de construção pesada, causando a parada total no investimento em infraestrutura no Brasil.

Em primeiro lugar, é muito improvável que todas as grandes empresas venham apresentar dificuldades financeiras, pois são empresas tradicionais e bastante lucrativas. Além disto, várias empresas deste setor investiram em ativos em outras áreas, como logística, transportes e indústria pesada, ativos estes que possuem uma vida econômica totalmente independente da atividade de construção e que podem ser vendidos, caso tais empresas precisem de folego financeiro.

Porém, existe de fato uma grande incerteza sobre as multas e as penalidades que serão impostas àquelas empresas que forem consideradas culpadas nos processos em curso. Dependendo da magnitude das multas e das penalidades administrativas que sejam impostas aos possíveis culpados, há o risco que tais empresas fiquem inviáveis, ficando impossível para elas honrarem suas dívidas. Esta possibilidade gera uma incerteza muito grande, o que pode reduzir a oferta de crédito para o setor, levando a seu estrangulamento. Tal preocupação é legítima, pois não se sabe ainda que tipo de penalidade será imposta a tais empresas. E só saberemos isto com o andamento das investigações e dos processos, e dos acordos que forem firmados, pois este cenário deve forçar algumas empresas a reconhecer seus erros e a negociar com o MP alguma penalidade mais branda, pois quanto mais cedo estas dúvidas se esclarecerem, menor será o estresse financeiro submetido a tais empresas.

Mas, como já vimos em outras situações, surgem algumas vozes que alegam que não é viável impor penalidades a um grupo tão grande de empresas e tão importantes, em particular dentro de um setor que é fundamental para o desenvolvimento da infraestrutura que tanto precisamos. Alega-se que tal situação pode vir a paralisar o investimento no país. Ou seja, tais fornecedores de serviços e produtos seriam, no seu conjunto, too big to fail. E neste caso, seria justificado algum tipo de anistia ou perdão a tais empresas. Ou até mesmo, nos casos mais extremos, o governo, através do BNDES e da CEF, poderia emprestar recursos para que tais empresas possam honrar as obrigações que estejam vencendo enquanto tal situação na justiça não se define.

Ninguém disputa aqui que a crise envolvendo a Petrobrás e alguns de seus fornecedores é séria e bastante grande. E que de fato haverá um custo em termos de PIB decorrente de todo este imbróglio.  Mas tal custo não será nem de perto parecido com o que ocorreu nos EUA após a quebra da Lehman. A maioria destas empresas não tem suas ações negociadas em bolsa e capta recursos direto de grandes bancos e fundos, que evitam concentrações excessivas de seus empréstimos em tomadores ou setores de atividade. OU seja, o investidor médio ou pequeno não está exposto a este problema. Tampouco o Sistema Financeiro Nacional, que está muito bem capitalizado, lucrativo e saudável, estaria ameaçado. O setor de construção pesada representa uma fração muito pequena dos créditos a empresas no Brasil, e vários destes créditos são caucionados por contratos comerciais de tais fornecedores. Logo, é um exagero, pelo menos a esta altura dos acontecimentos, clamar que os riscos de eventuais problemas localizados neste setor possam ser sistemicamente relevantes.

A solução encontrada pela OAS é uma demonstração que o sistema tem mecanismos para lidar com tais situações de forma organizada, sem pânico. Além disto, é sempre bom ter em mente que a grande maioria dos fornecedores da Petrobrás não está envolvida neste escândalo e os envolvidos até agora ainda não foram julgados. Logo, existe sim uma capacidade operacional para dar continuidade aos principais projetos da estatal.

Isto sem falar da questão de ética política que se coloca  quando o Estado decide socorrer aqueles que erraram em suas decisões financeiras ou empresariais pois são “grande demais” para quebrar, usando recursos públicos num momento em que o governo impõe um corte em seus gastos, que deve afetar milhares de pessoas. E, de um ponto de vista liberal, deixar o Estado intervir nestas situações, dando escape para gestores, acionistas e credores, cria um sério precedente, pois não se deixa os mecanismos de mercado atuarem como deveriam nestas situações, repartindo as perdas entre todos os envolvidos. Tampouco se permite que os instrumentos de incentivo se alinhem com a boa prática do capitalismo de mercado. Cartel e corrupção, além de abomináveis do ponto de vista ético, são extremamente nocivos para uma economia de mercado precisando ser combatidos exemplarmente. E este caso, caso se comprove na Justiça o que as investigações até agora mostram, pode ser emblemático. Seu encaminhamento de forma vigorosa, dentro dos parâmetros estritos da lei, sem favorecimentos ou casuísmos, pode ser um marco no combate ao patrimonialismo que nos acompanha desde os tempos das capitanias hereditárias. E que esta crise nos ajude a reconhecer que políticas de protecionismo, como esta que privilegia fornecedores de conteúdo nacional, criam distorções e custos elevadíssimos para a sociedade.

Liberalismo é isto. Deixar que aqueles que lucram com seus próprios méritos, dentro de um processo competitivo e justo, de acordo com as regras fixadas pela sociedade, acumulem seus ganhos. E que aqueles que tenham errado em suas decisões de negócio sejam punidos, pela Lei ou pelos mercados, de tal forma que o mecanismo de destruição criativa renove assim os tecidos necrosados em nossa economia.

Vamos deixar a justiça julgar, que os inocentes saiam livres, que os culpados sejam punidos e que os mercados cumpram seu papel. “A luz do sol é o melhor dos desinfetantes”, afirmou, quase um século atrás, o juiz americano Louis Brandeis (1856-1941):

 

desinfe

 

Autor: Tags:

6 comentários | Comentar

  1. 56 joao flavio 07/01/2015 13:20

    Prezado Professor
    Leio todas as suas colunas , invariavelmente .
    Na quase totalidade das vezes , não faço comentarios .
    Mas esse seu artigo merece , a meu ver , um comentario a respeito de um pequeno detalhe que voce deixou de abordar .
    Não só as empresas envolvidas nesse caso do Petrolão , que se encontrarem em dificuldades devem ser deixadas “aos ursos” para quebrar em paz , mas a propria Petrobras deve ser incluida nesse “saco” tambem .
    USA are USA . Brazil is Brazil .
    Estamos numa fase de capitalismo / desenvolvimento mercadologico que EXIGE que assim procedamos
    Seria o nosso legado para as proximas gerações .
    O exemplo que pautaria o nivel da patifaria futura .
    O que aconteceu na Petrobras foi um estelionato orquestrado por um partido politico que precisava ganhar a eleição de 2010 . Ponto final .
    E isso , não pode ser mais tolerado no Brazil

    • joao flavio 08/01/2015 9:57

      eh ai que o modelo em curso nao fecha a conta . nenhuma conta . nem usando uma calcadeira
      o publico ( NOS ) esta abracado a parte podre do negocio. soh pagamos as contas . TODAS.
      a parte boa/saudavel do negocio foi literalmente usurpada por uma matilha , que nao deixa escapar nem as migalhas
      e o negocio como um todo esta sendo usado para fins mais do que escusos , criminosos mesmo
      com a empresa quebrando , ela seria absorvida por algo ou alguem .
      e enfim , quem sabe , sobraria ao publico ( NOS ) , pelo menos as migalhas

    • Ricardo Gallo 08/01/2015 11:28

      pois é… porem imagina a corrida contra o BB caso governo desse para tras na Petro??? E na eletro??

    • Ricardo Gallo 07/01/2015 14:19

      ps: pls continua comentando e bom ano pra voce!

    • Ricardo Gallo 07/01/2015 14:19

      Ai que temos uma discordância: a Petrobras é uma empresa estatal . Controlada pelo Estado. Se algo de mais serio acontecer com ela, isto afetará o credito da republica, elevando taxas de juros para todos nós, reduzindo o influxo de divisas, o que causaria um enorme dano a sociedade. O mesmo se aplica a BB, BNDES e CEF infelizmente. Logo, infelizmente, já estamos abraçados no caso da Petro e das outras estatais. Não ha como escapar. Permitir um evento de credito da empresa nos moldes da OAS seria muito custoso economico e socialmente para sociedade. É o preço que pagamos por não termos privatizado a empresa…. Parimos Mateus, e agora precisamos embalá-lo….

  2. 55 Magos 06/01/2015 23:51

    Antes de mais nada Feliz Ano Novo! Sensacional, sem palavras…apenas uma frase, do grande sábio de Baltimore para juntar nas anteriores:

    É relativamente fácil suportar a injustiça. O mais difícil é suportar a justiça.”

    Abs

  3. 54 Hudson 06/01/2015 13:32

    Gallo,

    Em minha opinião, sendo comprovados os ilícitos e havendo culpabilidade das (des)construtoras, todas as culpadas, se exceção, deveriam ser declaradas inidôneas para contratar com a administração pública. É a única punição aceitável para este escândalo.

    A argumentação de que haveria um grande desemprego e quebra da economia é uma falácia. Primeiro porque o desemprego já chegou, segundo porque a economia já está em processo de quebra. Basta que se permita a chegada de construtoras estrangeiras e estas, ao contratar no Brasil, absorverão a mão de obra disponível decorrente da quebra destas empresas corruptas. Haverá um impacto de curto prazo no emprego, porém nada catastrófico. O mercado se ajeita.

    Observação: este é um belo momento para o país discutir a privatização da Petrobras e abertura do mercado de petróleo no Brasil. Também é um ótimo momento para de discutir o retorno ao modelo de concessão para a licitação de campos de petróleo, que o governo erroneamente extinguiu e o substituiu pelo modelo de partilha, só adotado em países de histórico democrático terrível. E outro excelente ponto a ser discutido neste momento é a política de conteúdo nacional que o PT implementou no país, que custa caro e aumenta a ineficiência nos processos produtivos.

    Por que não tem um deputado sequer com colhão pra demonstrar que é um grande erro o povo brasileiro achar que o quase monopólio da Petrobras faz bem ao país?

  4. 53 Roberto Carvalho 06/01/2015 9:03

    Bom dia Gallo,

    Desde formado, trabalho com construção pesada, uma delas foi Belo Monte que permaneci por 3 anos e meio. Já passei por duas das maiores construtoras do país e hoje estou na terceira. Todas envolvidas na operação Lava Jato.
    Como brasileiro, torço para que os culpados sejam julgados e penalizados de forma justa (e que as penas não se restrinjam aos empresários, é claro).

    Mas independente do desfecho, é sempre bom lembrar que as empresas são formadas por pessoas e o conhecimento técnico de nossos engenheiros, técnicos, mestres, encarregados etc não caem junto com as empresas, portanto, acredito que se a empresa A não puder mais fazer uma obra, a empresa B irá assumir esse lugar, contratando os profissionais capacitados para isso. (grandes possibilidades da empresa B não ter raízes brasileiras)

    O conhecimento técnico no Brasil para a maioria dos tipos das grandes obras existe, e esse eu acredito ser inabalável.

    Grande abraço!

    • Ricardo Gallo 06/01/2015 10:35

      Concordo em gênero, numero e grau.

  5. 52 Vânia Luz 06/01/2015 0:59

    Se duvidas, excelente post!!
    Um bom ano de 2015 a todos, com saúde que é o mais importante e paz de espírito!!!!

  6. 51 Joe Zeibars 05/01/2015 22:40

    mto bem qto mais gente seria falando disso melhor para o pais.

    alias o Levy tem 4 paragrafos no discurso de posse dele ocntra o patrimonialismo sendo o primeiro: Como salientou, quando diplomada Presidente da República, é compromisso da Chefe do Executivo e, portanto de todo o governo, dar um basta ao sistema patrimonialista, e, em suas palavras, à sua “herança nefasta”.

  1. ver todos os comentários

Os comentários do texto estão encerrados.