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quinta-feira, 12 de março de 2015 Brasil, Câmbio, Inflação, Juros no Brasil, Politica Economica | 16:58

BC caindo na real

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A ata da última reunião do COPOM dá sinais que  o BC do B possa estar revendo suas ambições, pois de fato não é realista tentar manter a inflação abaixo do topo da meta este ano e muito dificilmente será possível colocar inflação no centro da meta em 2016 sem ter que impor um custo elevado em termos de produto na economia, ou seja, sem causar uma baita recessão. Persistir neste caminho, como já coloquei aqui nesta coluna recentemente seria politicamente desastroso ( http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2015/02/06/o-limite-politico-do-ajuste-necessario/ ),  pois o arroxo monetário necessário seria tal que poderia inviabilizar a sustentação política necessária junto a sociedade para se fazer o enorme esforço fiscal que precisamos ( como Ilan coloca no link acima). Vide a reação da Fiesp há alguns dias. Na medida em que nosso BC de fato não é independente politicamente, tal ajuste nas suas ambições é, pelo menos do ponto de vista racional, a melhor alternativa entre as alternativas reais.

Este raciocínio segue a mesma na linha defendida pelo Ex Diretor do BC Luiz Fernando Figueiredo em entrevista concedida ao jornal Valor Econômico:

http://www.valor.com.br/brasil/3949484/bc-deveria-adotar-meta-de-inflacao-ajustada-sugere-figueiredo

Vejam agora alguns sinais codificados nas mudanças ocorridas na Ata do BC vis a vis sua penúltima reunião que induziram meu raciocínio nesta direção:

  • No parágrafo 18 o BC afirma que as projeções de inflação de seus modelos para 2015 e 2016 caíram, embora tenham ficado acima do centro da meta. Ou seja, a atividade mais fraca vai  trazer inflação para baixo mais rapidamente. De fato atividade está afundando muito rapidamente.
  • No 23 ele sinaliza que a demanda agregada ( Investimento + Consumo) vai crescer em ritmo menor no futuro, mais consistente com PIB potencial. Ou seja, déficit externo vai para de subir. Menor pressão cambial em 2016?
  • No 25 eles dão uma mensagem forte ao BB, CEF e BNDES : por favor não atrapalhem o ajuste monetário em curso e por favor nem pensem em acelerar a oferta de crédito subsidiado!
  • No 26 ele reconhece que o mercado de trabalho tem esfriado na margem, porém ainda há risco de indexação dos salários, o que ele não quer que aconteça. Desemprego de fato avai disparar.
  • No 27 ele afirma que grande parte da aceleração se deve à alta do câmbio e dos preços administrados. Isto faz com que a inflação este ano fique mais elevada, impedindo uma queda mais acelerada da dista este ano. Ou seja, esqueça os 6,5% de meta para este ano.
  • No 30 ele enfatiza que a demanda vai ficar moderada. E afirma que a tendência de inflação futura depende muito do comportamento do câmbio ( que subiu  10% desde a última reunião do CUPOM até hoje) e da dinâmica os preços administrados, ou seja, da gasolina/ combustíveis. E afirma que a convergência da inflação para a meta de 4,5% não se dará mais no ano de 2016, mas sim ao longo daquele ano. Ou seja, devemos fechar 2016 acima do centro da meta.

 

Segue no link abaixo os trechos da ata do Copom, com as comparações com a ata anterior acima, fornecidas pelo Cristiano do Banco Fibra:

Microsoft Word – ata comparada

Do ponto de vista prático, o BC talvez esteja indicando que será mais frouxo no Selic, contando com a redução da oferta de crédito nos Bancos Públicos ( já contratada por restrições de funding do  governo, alta dos juros, de apetite de risco e capital) e que o ajuste fiscal será executado, como os números de janeiro já indicaram um bom começo. Se estas duas coisas não acontecerem como o BC espera, o US$ sobe mais, o que exigirá um aperto ainda muito maior nos juros, aprofundando a recessão que estamos vivendo. Isto causaria uma elevação ainda maior no desemprego, que já começou efetivamente a subir há alguns meses pelo menos no que diz respeito a geração de empregos formais como mostram os dado do Caged. E eu acho que os dados do segundo trimestre deverão ser ainda piores.

E aqui entra um pouco de maldade: numa economia rígida como a nossa, com “direitos adquiridos” irreversíveis e inegociáveis, com gastos públicos engessados e quando a base do governo se nega a apoiar o próprio governo nas medidas de ajuste (vide o PT), a história nos mostra que a única maneira de se reduzir os gastos do Estado é através da elevação da inflação. Fizemos isto inúmeras vezes desde os anos 60. A incapacidade dos governantes de fazer escolhas nestas horas de ajuste acaba nos colocando numa situação em que delegamos ao Dragão a tarefa do ajuste.  Ajuste que ocorre assim de forma socialmente injusta, pois não há processo de indexação que proteja os rendimentos dos trabalhadores, aposentados e funcionários públicos da inflação que acelera. Os poupadores também perdem pois os rendimentos das aplicações financeiras mal acompanham a elevação da inflação. Veja por exemplo o que houve com o CDI, que, apesar das elevações dos juros por parte do BC, deverá render 2,8% no primeiro trimestre do ano vs. uma inflação de 3,5% np período, de acordo com as expectativas do mercado.  Assim o valor da poupança acaba caindo em termos reais. E já não descarto uma volta do BC ao mercado de derivativos de câmbio de forma mais agressiva, pois já alguns sinais de iliquidez na oferta de dividas.

Espero que, pelo menos desta vez, aqueles desenvolvimentistas que apoiaram as políticas expansionistas e contra cíclicas dos últimos três anos aprendam com esta lição. E por favor não vamos colocar a culpa na lava jato...

Enfim, não é o ideal, mas, como disse o garçom do boteco, isto é o que temos para hoje:

 

cezar

 

 

 

 

 

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2 comentários | Comentar

  1. 52 hudson 13/03/2015 13:14

    A política de gradualismo é um erro crasso do BC. Se tivessem dado uma pancada de 14% lá em dezembro, hoje não estaria ocorrendo este fuzuê com as expectativas de inflação.

    Gradualismo é um erro porque o agente econômico interessado em contrair crédito, ao ver que a taxa sobe de meio em meio, antecipa suas tomadas de crédito porque sabe que no mês seguinte vai ficar mais caro.

    Foi um enorme tiro no pé subir a selic de meio em meio. Pode subir mais 3 pontos de 0,5 em 0,5 que vai continuar havendo pressão inflacionária.

    • Ricardo Gallo 13/03/2015 13:23

      era muito difícil prever os reajustes de energia e cambio que ocorreram nos ultimos 60 dias….

  2. 51 Nosduh 13/03/2015 8:24

    Correto Gallo, e só para constar,as vendas do mês de março estão horrorosas ,de assustar.

    • Ricardo Gallo 13/03/2015 13:26

      tenho ouvido o mesmo : dá uma sensação de paralisia total. tipo um choque. nenhum modelo consegue explicar a intensidade do que ocorreu este mes

      nao imaginava um ajuste tão rapido.

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