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sábado, 21 de março de 2015 Crise Brasileira, Inflação, Juros no Brasil, Politica Economica, Sem categoria | 17:11

Credibilidade do BC: uma moeda perdida

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Acompanhei pela imprensa o debate entre o Professor Afonso C. Pastore e o BC do B sobre a credibilidade deste último:

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,bc-se-incomoda-com-criticas-e-ataca-economista,1655082

Ao longo dos últimos anos tenho colocado aqui a questão do risco que se colocava para a credibilidade do BC quando este deixou de tentar buscar o centro da meta desde 2011. Vejam alguns links abaixo:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/09/28/em-favor-da-reducao-da-autonomia-do-governo-na-conducao-da-politica-monetaria

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2012/08/13/inflacao-e-atividade-daqui-para-frente-tudo-vai-ser-diferente/

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2013/02/06/o-regime-de-metas-de-juros/

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/04/15/goeladadragao/

Respeito muito o Sr Tombini e o Professor Pastore. Portanto, não quero fulanizar a questão tampouco tentar desqualificar o interlocutor, da forma que o BC tentou. Pretendo me centrar nos fatos.   E, á luz destes fatos, é preciso reconhecer que desde 2011 a gestão da política monetária tem tido resultados muito pobres. Se o BC fosse gerenciado como uma padaria, uma escola, um banco, um posto de gasolina, etc, os seus controladores ( O Estado = Povo) certamente já teriam tomado alguma providência no sentido de reverter este quadro.

De 2010 para cá, a inflação assim como seus núcleos (  QUE VISAM ELIMINAR OS RUÍDOS CAUSADOS PELOS CHOQUES DE PREÇOS) têm subido de forma preocupante. E isto não é um fenômeno recente:

 

tombininuc

 

O gráfico vermelho mostra a evolução da inflação acumulada em 12 meses medida através do IPCA. Os outros gráficos mostram o comportamento das diversas medidas de núcleo calculadas pelo BC do B. A linha tracejada roxa mostra o centro da meta. E  a preta seu topo. Ou seja, fica claro que abandonou-se a procura pelo centro da meta desde 2011.  [ E a azul claro mostra o piso da meta, que já esquecemos que existe por completo desuso].

Isto pode ser visto com maior clareza quando vemos o número de ocorrências mensais desde 201o que a inflação ficou acima do centro, nos diversos índices:

 

acimadocentrotombini

 

Vemos que na maioria dos índices ela ficou quase a totalidade to tempo acima do centro.

O mais preocupante é quando vemos, no mesmo período, o percentual do tempo que ela ficou acima do topo da meta:

 

ocorracimatopotombini

 

Vemos que, com a exceção de apenas uma medida de núcleo publicada pelo BC do B, a frequência de eventos em que a inflação de 12 meses ficou acima da meta passou de 20%, e que, em alguns casos passou de 50%. Fica claro que o compromisso com o sistema de metas foi seriamente abalado nestes últimos anos.

Uma das consequências nefastas deste abandono aparece no índice de difusão da inflação, que mede quanto a inflação está espalhada pela economia. O gráfico abaixo mostra a clara piora ocorrida neste índice:

 

 

difusaotmobini

 

 

Em vermelho mostro a média deste índice de 2004 a 2010. E em preto mostro a mesma média de 2011 até hoje. Fica evidente sua elevação, indicando que a inflação se generalizou, como já indica o comportamento dos diversos núcleos da inflação que mostrei acima.

A consequência disto tudo é que houve uma desancoragem crescente das expectativas quanto a inflação futura. Os agentes usam tais expectativas para formular suas estratégias de negócios e políticas de formação de preços. Esta é base da teoria moderna do sistemas de metas. Na medida em que a inflação corrente se comporte de forma consistente com o sistema de metas, ou seja, na medida em que:

  • ao longo do tempo a inflação permaneça ao redor do centro da meta
  • e desvios do centro da meta sejam combatidos pelo BC através do uso das taxas de juros de forma eficaz;

os agentes incorporam o centro da meta em suas projeções o que acaba ancorando a inflação ao redor da meta. Assim, quando ocorre algum choque de preços, esta ancoragem impede grandes desvios da inflação do centro da meta, o que acaba demandando taxas reais de juros menores e flutuações menores das mesmas. O gráfico abaixo mostra o desvio das expectativas de inflação para os próximos 12 meses, segundo a pesquisa FOCUS do BC, vis a vis o centro da meta desde 2009:

 

expectinflacaodesancorada

 

 

 

 

 

Vemos que as expectativas foram se distanciando cada vez mais do centro da meta desde 2010, chegando hoje a perturbantes 2%. Ou seja, perdeu-se a ancoragem. E a tendência é de perdermos ainda mais.

Analisando o comportamento de nosso BC do B desde 2010, vemos que ele não impôs grandes oscilações nas taxas de juros definidas pelo COPOM, como mostra o gráfico abaixo da evolução das taxas de juros fixadas pelo BC do B:

 

 

tombinireaç

 

 

Vemos que o BC manteve em média os juros ao redor de 10% a.a.. Contudo, como mostra a linha vermelha tracejada, a tendência das taxas de juros do BC foi  de estável para leve queda. E em amarelo mostro o experimento agressivo de queda de juros ocorrido em 2012. De fato naquele período a inflação se desacelerou, como vemos em amarelo abaixo:

 

infltombinimedtend

 

Contudo, apesar da queda da inflação de curto prazo mostra acima, as expectativas de inflação para os próximos 12 meses permaneceram elevadas, como mostro em amarelo abaixo:

 

expectinflacaodesancorada

 

 

Ou seja, os agentes não estavam convencidos que a queda da inflação corrente seria suficiente para traze-la de volta ao centro da meta. Resultado disto foi a forte alta das expectativas já no início de 2013 ( em marrom acima). Ou seja, o BC errou ao condicionar as taxas de juros ao comportamento da inflação atual ao invés de fixar seus olhos nas expectativas quanto a inflação futura.

E a situação do mercado de trabalho no final de 2011 não justificava, tampouco, uma queda tão abrupta da taxa de juros como mostra o gráfico abaixo:

 

desemprego2012

 

 

O desemprego continuava em forte queda e não havia nenhum indício de reversão neste quadro, pois os salários continuavam a subir acima da inflação. Com relação a geração de novos empregos formais, embora o ritmo de geração viesse caindo desde seu pico em 2009, a velocidade de geração de novos empregos formais se encontrava no final de 2011 em nível superior ao existente até 2007, ou seja ainda bastante forte, como mostro em rosa abaixo:

 

geracaodeempregos12

Ou seja, é muito difícil justificar a forte queda de juros promovida pelo BC em 2012, tanto na ótica das expectativas de inflação como na ótica do mercado de trabalho.

Apesar dos 3,8% a.a. de juros reais ( 10% de selic e 6% de inflação médios), nossa inflação não foi controlada. OU seja, os juros praticados não foram suficientes para controlar a inflação. 

 

licaomonetaria

 

 

Mas o que é preciso fazer para termos uma inflação mais controlada sem precisarmos de juros astronômicos? São basicamente seis coisas:

  • recuperar a credibilidade perdida pelo nosso BC no combate a inflação;
  • persistir no caminho de uma política fiscal equilibrada e com a dívida pública cadente;
  • eliminar os empréstimos dirigidos e subsidiados na economia ( BNDES e CEF);
  • manter um câmbio realmente flutuante;
  • deixar de intervir nos preços administrados de forma irrealista;
  • fazer reformas que aumentem a  taxa de formação de poupança ( previdência) e aumentem a eficiência da economia ( concessões, trabalhista e tributária).

SE tivermos sucesso nisto tudo, os juros reais de equilíbrio ( não inflacionários)  serão bem mais baixos que estes 3,8%a.a. Porém qualquer tentativa de reduzir os juros de forma artificial, como a que foi tentada em 2012,  pode nos levar a mais uma disparada da inflação.

Da lista acima, o ponto que Professor Pastore atacou é o primeiro. DE fato não podemos fingir que não houve uma enorme perda da credibilidade  do BC no combate à inflação. O Professor Pastore teve a coragem e honestidade de colocar abertamente esta questão que já vem sendo abordada de forma sútil por inúmeros economistas nas entrelinhas de seus relatórios e em conversas privadas, por respeito à autoridade monetária. Contudo,  tentando desfulanizar, não podemos nos calar a esta altura dos acontecimentos. A situação econômica é muito séria. Se não endereçarmos esta questão, os custos econômicos do ajuste monetário em curso serão enormes, pois um BC sem credibilidade precisa subir juros com maior intensidade do que um BC que goze de plena credibilidade.  E endereçar a questão não se trata de apenas apontar culpados, mas de reformar as instituições  (Sistema de Metas e Mandato do BC do B), de tal forma que os desvios que ocorreram nestes últimos anos não voltem a acontecer.  A autonomia do BC é um caminho, porém podemos atingir os mesmos objetivos com uma reforma que coloque mais responsabilidade nos dirigentes do BC com relação ao cumprimento da meta de inflação, dando, ao mesmo tempo, estabilidade aos diretores que cumpram seu mandato. Como disse em:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/09/28/em-favor-da-reducao-da-autonomia-do-governo-na-conducao-da-politica-monetaria

nós, a sociedade civil, demos muita autonomia e liberdade ao BC nestes últimos anos. Deixamos ele se submeter a outras agendas e não a que definimos por lei. Está na hora de reduzir esta autonomia e deixar claro de uma vez por todas que eles foram postos lá para cumprir a meta de inflação. E que se alguém atrapalhá-los nesta missão, por favor nos avisem para que possamos tomar as providencias devidas.  E que aqueles diretores que não concordarem com estas metas e obrigações se manifestem logo.

Simples. Né? Se você estivesse lá faria a mesma coisa, né?

Economistas, ouçam este engenheiro aqui: está na hora de indicar caminhos, pois temos que interromper a tendência indicada pela reta vermelha abaixo:

 

tendinflação

 

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9 comentários | Comentar

  1. 59 ezequiel alves 25/03/2015 23:19

    E vá na fé, abastecer seu carro com essa gasolina brasileira batizada! Já que nos EUA a gasolina que é mais barata só tem 10% de álcool. Morra de inveja.

  2. 58 ezequiel alves 25/03/2015 23:15

    Pelo jeito é muito apreciado falar de más notícias, então tenho uma bomba. Alem do salario minimo que ira aumentar por ano até 2019 e pressionar a inflação e aumentar o desemprego num cenário de estação economica ainda vou falar da Petrobras. Se por um lado a Petrobras cobra ate 4,50 dos brasileiros no Paraguai a gasolina da petrobras é vendida a 2,80. E no paraguai a gasolina só abaixou de preço porque acompanha a cotação de preços do petróleo do mundo inteiro que abaixou, menos no Brasil. E como se isso não fosse pior o ministro de minas e energia aumentou a quantidade maxima de álcool (que é o etanol anilitro) de 25 a 27% na gasolina. Isso poderá ter como consequência o carro passar a ter problemas de corrosão, falha na bomba de combustível e o carro ira consumir muito mais gasolina que antes. Pela mor de deus privatize logo essa Petrobras de uma vez por todas e voltando o assunto do Paraguai a Petrobras alegou o preço menor no país vizinho por causa que o comercio da gasolina la é livre e não é regulamentada pelo governo de la. E o brasileiro trouxa pagando as contas de tudo que é pior no Brasil.

  3. 57 Ronaldo 25/03/2015 17:04

    Qual interesse do BC em um dolar alto? ou não há esse interesse?

  4. 56 ezequiel alves 24/03/2015 12:28

    Alguma boa noticia tinha que sair da economia brasileira. A classificadora de risco S&P manteve a nota de credito no Brasil além dos americanos dar sinais de que ira demorar pra aumentar os juros isso teve como consequência uma valorização do real de mais de 2,6%, a maior desde 2013 mais ainda assim o Brasil está a um passo de perder a nota de crédito. No nivel seguro onde está o brasil ha um mercado estrangeiro de aplicações e credito de 65 trilhões de dolares e no nivel especulativo ha um mercado de somente 2 trilhões praticado a juros bem mais altos.

    • Ricardo Gallo 24/03/2015 15:33

      mas a mensagem da s&p foi clara: ou fazemos ajuste fiscal proposto pelo levy ou seremos rebaixados. simples assim. está nas mãos do PT a responsabilidade. o Pt vai ou não vai apoiar o ajuste de Dilma/ Levy???????? ou vao todos abandonar o navio???

  5. 55 JGould 23/03/2015 23:15

    Quando vejo o que ocorreu neste fim de semana e alguns meses atrás, quando chegou-se ao descalabro de partir para queixa crime contra outro economista. Só posso pensar que o cara tá se sentindo ameaçado!!!

  6. 54 hudson 23/03/2015 16:29

    “Debate”? kkkk

    O episódio supra é mais uma prova do que eu digo há tempos: estamos sendo governados por idiotas. Responder via nota oficial usando do argumento ad hominem que o BACEN usou é outro comprovante de que o Estado brasileiro foi tomado de assalto por estes senhores.

    PS: A nota não está errada. A gestão Pastore também foi tenebrosa, embora em outros tempos o Brasil tenha sido também tenebroso. O erro está em usar um instrumento do estado para um ataque pessoal tão ridículo.

    • Ricardo Gallo 23/03/2015 17:47

      eu não quis fulanizar debate tampouco entrar na briga, pois como coloquei, o problema é institucional. nao é um problema de a, b ou c. Pastore e Tombini foram vitimas da falta de instituiçoes que os ajudassem a cumprir suas missões em épocas diferentes..

      instituições que, como ezequiel abaixo colocou, não tínhamos e e pelo visto nao temos…

      temos que voltar ao debate de autonomia, mandato e missao do BC…..

  7. 53 ezequiel alves 23/03/2015 14:14

    Ė o que vi no outro post o porque o BC perdeu tanto valor por uma nota de imprensa desqualificando um ex diretor do banco central, sendo que na época não existia os mecanismos de controle de inflação que hoje tem, como a paridade do real com o cambio, taxa de juros que é a SELIC e os cálculos da inflação média do Brasil e uma meta de inflação a ser cumprida. Se bem que ouvi falar numa reportagem que os bancos privados estão tendo crescimento de até 20% (apesar dos bancos serem importantes pra economia) ou mais comparado com a economia brasileira que terá recessão de -0,85% de acordo com as previsões. Pelo que parece nunca houve uma boa notícia quando se trata de economia brasileira

  8. 52 ezequiel alves 21/03/2015 20:42

    Bem é difícil elogiar os gráficos de alguem quando não se entende muito do assunto, ainda mais dizer que foi muito bom, legal, bacana ou gostei não explica muito do que gostei desse assunto no entanto esse assunto diz um pouco a respeito do comentário anterior e na importância de não abandonar o centro da meta da inflação e a consequências dos juros baixos, e a comparação do dados e gráficos mostrando de cada ação e consequência durante o tempo que se passa. Putz, sou horrível em elogiar! Mas entendi muito bem o seu post, não se preocupe, apesar de não consegui elaborar um elogio mais detalhado. Se bem que pra criticar sou um especialista no assunto e elaborou textos inteiros.

  9. 51 Gil Faiwichow 21/03/2015 17:43

    Excelente Dr. Gallo. Temos que defender os economistas que dão sua opinião sobre essa gestão temeraria e incompetente do BC. A substituição do presidente do BC é uma necessidade inadiável. Patética a crítica impessoal feita pelo BC ao Dr Pastore.

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