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sexta-feira, 10 de abril de 2015 Crise Brasileira, Inflação, Juros no Brasil, Sem categoria | 15:22

O enorme custo de trazer a inflação de volta à meta

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Os números recentes de inflação são de fato preocupantes. Ela bateu mais de 8% nos últimos 12 meses, como mostra o gráfico vermelho abaixo, turbinada mais recentemente pelo reajuste das tarifas públicas (gráfico laranja abaixo) e do câmbio, e por uma inflação persistente de serviços que insiste em ficar acima de 8% já há alguns anos como vemos em verde no gráfico abaixo:

 

recentinlf

 

Para agravar a situação, a inflação continua bem espalhada, como mostra o índice de difusão:

 

dispersao

 

E seu núcleo, excluindo preços monitorados e preços de alimentação em casa, seguem fortes, como vemos no gráfico vermelho abaixo, porém dando alguns sinais de estabilização, porém ainda acima do topo da meta:

 

nucleoexmonitalicasa

 

Os rendimentos das pessoas empregadas nos grandes centros seguem subindo em ritmo acelerado, como mostra gráfico abaixo:

 

RENDIMNOMINALOCUPADO

 

 

 

estando há vários anos rodando ao redor de 9% a.a. e sem sinais de queda significativa que fosse consistente com uma inflação caminhando para o centro da meta.

Um fator que tem ajudado a aliviar a inflação tem sido as commodities apesar da forte alta do dólar. Seus preços em R$ tem se mantido estáveis, como mostra o gráfico abaixo:

 

indicecommbravarano

 

 

O mesmo pode ser visto na inflação dos bens comercializáveis com o exterior, que estão subindo a uma velocidade inferior à inflação média:

 

comercializa

 

Isto é uma boa e uma má notícia pois, como somos exportadores líquidos de commodities e nossa principal aposta em termos de investimentos nos últimos 4 anos foi o petróleo do pré sal cujo preço despencou nos últimos anos, isto não é nada bom para nossas exportações e para o financiamento de nosso déficit externo. Os termos de troca, que mostram a relação dos preços do que exportamos sobre o que importamos, têm caído muito como mostra gráfico abaixo:

 

termtroca

 

Ou seja, vamos precisar manter o dólar elevado para conseguir financiar nosso saldo externo e promover o ajuste de preços relativos necessários neste novo cenário.

Desta forma, a pressão sobre o BC aumenta ainda mais pois, como já comentei no passado ( http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2015/03/21/credibilidade-do-bc-uma-moeda-perdida/  ), os custos em termos de credibilidade incorridos pelo BC nos últimos anos afetam a gestão da política atual.

O BC faz política monetária através da variação dos juros básicos na economia, o SELIC. Tal taxa atua através de dois canais principais: através do crédito, ao variar o custo do dinheiro, afetando assim a demanda interna, tanto no consumo como no investimento. E através das expectativas. Um BC com credibilidade, ao fazer pequenos movimentos com os juros sinaliza aos agentes que não irá tolerar elevação excessiva dos preços ou preços caindo. Assim os agentes se retraem e passam atuar no sentido desejado pelo BC, seja de aumentar os preços ou de reduzi-los. As expectativas com relação à inflação futura ficam assim contidas e estáveis, apesar de eventuais choques que afetem os preços no curto prazo. Isto elimina a necessidade de se fazer grandes flutuações nos juros ou de se impor muita volatilidade na atividade econômica.

Como já coloquei acima, a credibilidade do BC atual foi afetada pelos resultados da condução da política monetárias nos últimos anos que permitiu que inflação abandonasse o centro da meta e se estabilizasse perigosamente acima do topo da banda de metas.  Desta forma, o custo em termos de queda de atividade econômica para trazermos a inflação de volta para o centro da meta em 2016, como já prometido pelo BC, serão bastante grandes, pois, além da questão da perda de credibilidade, existe hoje um componente inercial importante na inflação atual devido a alguns fatores:

  • Os salários dos trabalhadores vêm subindo acima de 8% a.a. já há algum tempo, e com inflação andando a 8%, é muito difícil que os reajustes nos dissídios que teremos no segundo semestre sejam inferiores a este número, o que determinaria um patamar médio a ser perseguido pelos sindicatos.
  • O salário mínimo em 2016 deve subir ao redor de 8%.
  • A persistência da inflação de serviços em níveis bem elevados em função da alta do custo com mão de obra.
  • O aparente abandono por parte do BC de perseguir o centro na meta nos últimos anos (http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2015/03/21/credibilidade-do-bc-uma-moeda-perdida/)
  • Uma elevação maior do dólar ou do preço do petróleo podem levar a Petrobrás a subir os preços dos combustíveis mais uma vez, à luz de sua frágil situação financeira.
  • A incerteza sobre regime hídrico impede uma redução dos preços da eletricidade, o que poderia ajudar bastante a conter a inflação.
  • O processo incompleto de ajuste de preços relativos entre os bens comercializáveis e os não comercializáveis com o exterior, fundamentais para reversão do déficit externo.
  • Expectativas elevadas de inflação para 2016 que ainda estão fortemente ancoradas em 5,6% a.a., ou seja bem acima da meta estabelecida pelo BC.
  • Redução das margens de lucro das empresas em função de aumento dos impostos o que limita sua capacidade de absorver aumentos de custos.

Para quebrar estas potentes forças inerciais, iremos precisar de um aumento no desemprego ainda maior. Os dados recentes mostram uma reversão clara na tendência de queda do desemprego, como vemos abaixo em vermelho:

 

desempregose

 

 

Mantida tendência atual, o quadro deve continuar piorando gradualmente nos próximos 12 meses como indica o gráfico amarelo acima.  O mesmo pode ser visto no comportamento da geração de empregos formais no CAGED, que já tem causado uma queda no consumo que segue desacelerando:

 

conspayroll

 

O problema é que, em função da piora do quadro fiscal, da crise na Petro, nas empreiteiras, juros elevados, dólar caro, a atividade econômica piorou bastante nos últimos meses, e o mercado já aposta numa contração de atividade de mais de 1% a.a. no PIB deste ano. SE mesmo com o PIB levemente positivo dos últimos meses o desemprego já mostrou uma elevação, imagine o que vai acontecer com este se PIB de fato cair como se prevê ? É bem provável que terminemos 2015 com uma taxa de desemprego (dessazonalizada) ao redor de 7%.

Temos abaixo a evolução de nosso PIB desde 1996:

 

pibtend

 

 

O gráfico azul mostra a evolução dos dados trimestrais do PIB desde 1996. O gráfico verde mostra sua tendência central. Vemos que em 2009 (amarelo)  em função da crise internacional nosso PIB andou bem abaixo de sua tendência. Assumindo que a economia se retraia 1,5% este ano, como esperam alguns analistas, nosso PIB deverá seguir o gráfico vermelho, se distanciando bastante de sua tendência central.

O gráfico abaixo mostra a evolução do desvio da tendência desde 2003. As setas amarelas mostram momentos onde PIB se desacelerou em relação a sua tendência. Podemos ver que se de fato o PIB cair 1,5% este ano (gráfico marrom), o desvio da tendência em 2016 será maior do que aquele visto em 2009:

 

desviopibtendencia

 

 

Nos períodos onde desvios são negativos temos  quedas na inflação, uma vez que as pressões de custos não são repassadas aos preços, pois a demanda cai muito nestes momentos. O gráfico abaixo mostra nas setas amarelas o comportamento da inflação dos últimos 12 meses nestes momentos em que no PIB anda abaixo de sua tendência. Podemos notar que há quedas de inflação nestes momentos. Em 2009, a inflação saiu de quase 6,5% a.a. e recuou para quase 4% em 1 ano. Ou seja, uma redução de 2,5% a.a.  Vê-se uma queda maior ainda de 2005 a 2007 (5%):

 

inflacaorecente

 

 

O que explica esta queda mais acentuada da inflação de 2005 a 2007 foi a forte queda do câmbio real (valorização de nossa moeda) ocorrida naquela época, como vemos em vermelho no gráfico abaixo (R$ fica mais forte quando gráfico desce):

 

cambioreal0509

 

Vemos que após 2009 o câmbio se valorizou menos ( verde), o que impediu uma queda maior da inflação. E a tendência de valorização do R$ se reverteu desde 2011. Logo, não é razoável esperar ajuda deste front.

Ou seja, apesar do desvio previsto da atividade econômica de sua tendência ser maior do que o vivido em 2009, não é razoável esperar uma queda tão acentuada da inflação como a que vimos em 2005 / 2007 em 2016, em particular se a economia voltar a crescer no ano que vem, como torce o governo. Ou seja, a probabilidade de não atingirmos a meta em 2016 é elevada. A alternativa seria o BC impor juros ainda maiores, de tal forma a aprofundar o desvio ainda mais, o que propagaria a recessão atual para 2016. Contudo, um número crescente de analistas imagina que governo deve reduzir o ritmo da queda dos juros no próximo Copom para 0,25% e sinalizar que encerrará em breve ciclo de alta. Seria isto um equívoco? Bem, isto seria coerente com o cenário político que descrevi em ( http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2015/02/06/o-limite-politico-do-ajuste-necessario/ ).

Resumindo: tudo indica que dificilmente teremos a inflação na meta em 2016. Mais uma vez. O sonho agora fica para 2017. Isto se não cairmos na tentação de tentar acelerar a economia já em 2016.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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4 comentários | Comentar

  1. 54 IRCR 16/04/2015 23:07

    Não gosto dessa dicotomia entre inflação e emprego, isso é desculpa para o governo ficar gastando e emitindo moeda a rodo.

    Se o Brasil quiser voltar aos trilhos, segue os passos:

    1) Sair o PT do governo e trocar toda a equipe economica
    2) Colocar uma equipe ORTODOXA como foi em 2003 com Lula quando chamou o Meirelles
    Apenas seguindo os dois passos acima já traria credibilidade e previsibilidade aos investidores e a propria população.
    3) Basta que o governo e a equipe economica DIGA que querem um moeda FORTE
    E oq fazer para ter uma moeda FORTE ???
    4) O melhor remedio seria um corte ultra profundo de gastos do governo até o talo do osso (algo que nunca será feito) e sem elevar impostos quaisquer.
    Com um corte profundo não seria necessário elevar muito a SELIC (talvez em certa quantidade), justamente como fez o Meirelles em 2003.
    5) Elevar as taxas de juros dos créditos subsidiados dos bancos publicos.

    Apenas com disciplina fiscal e monetária será possivel trazer a inflação para baixo e fazer o pais crescer a médio e longo prazo.

    Logicamente progressistas e desenvolvimentistas argumentariam que isso elevaria o desemprego e jogaria ainda mais para baixo a atividade economica.

    No curto prazo de fato pode acontecer sim, mas é o preço que se paga por equivocos passados, Melhor pagar a fatura agora que deixar virar uma bola de neve lá na frente.

    Ademais, os mais prejudicados no curto prazo, seriam justamente aqueles que mamam nas tetas do governo. (politicos, sindicatos, amigos do rei, funcionarios publicos…) mas até então o povo não tem nada a ver com isso.

    Com disciplina fiscal e monetária e uma valorização no cambio da moeda, faria o real ficar muito FORTE, o que traria grande prosperidade para nação.

  2. 53 ezequiel alves 12/04/2015 12:31

    A questão é como o executivo vai conseguir melhorar a economia sendo que só os parlamentares mandam completa e isoladamente na politica economica pelo jeito podendo ate endividar mais no futuro. Único motivo pra não aceitar o ajuste fiscal é que eles querem preservar seus votos e se aproveitar do governo fragilizado e conquistar mais poder politico.. E como uma guerra se os territórios é mal vigiado ha doenças enfraquecido com outras guerras e o povo é descontente os outros reinos aproveitam e invadem.

  3. 52 Andre 10/04/2015 23:05

    Estes gráficos que você disponibiliza ajudam muito quem quer (tentar) fazer as próprias análises.

    Eu tenho uma pergunta:

    Qual é a vantagem de chegar ao centro da meta em 2016 ao custo de um desemprego na ordem de 7~8%?

    Não seria melhor ficarmos com uma taxa de inflação de 5,5~6% em 2016 e tentar segurar o desemprego por volta de 6%? Pelos gráficos seria um cenário possível e politicamente mais factível para um governo com baixa aprovação. Ou não?

    Abs

    • XG 15/04/2015 0:16

      Não adianta argumentar com teorias e curvas que o público não entende. Objetivo do blog é passar informações a não-economistas, não defender uma tese.

    • Ricardo Gallo 15/04/2015 13:09

      concordo. além do que, gosto de jogo simples… mais eficiente. firula não ganha jogo. outputgap é um conceito meio vago para 99.9% da populacao…

      alem do que falar em nairu no Brasil é muito dificil … e de curva de philips idem com uma inercia como a nossa….

    • Andre 13/04/2015 23:29

      Ricardo,

      Talvez eu não tenha me expressado bem. Não penso que a inflação deva ser tolerada sempre nesta ordem (5,5~6%) ano após ano. Concordo que a principal causa da situação atual é o governo ter mudado o alvo de 4,5% para algo em torno de 6,0% em troca da queda no desemprego. Acho que ela deve ser trazida para o centro o mais rápido POSSÍVEL.

      A minha questão é: Não seria mais viável dizer que a meta será atingida em 2017 tendo mais tempo pra fazer a transição? Não é melhor que prometer para 2016 e não entregar?

      Eu acho que o governo deveria esclarecer a situação de forma simples, para a população entender: “Partindo da situação atual não há como atingir a meta de 4,5% em 2016 sem gerar fortes efeitos colaterais. Nosso alvo em 2016 será 5,5% e em 2017 4,5%. É isso”. Fica previsível e bem mais fácil de cumprir.

      Eu sinceramente acho muito difícil o governo, frágil do jeito que está, bancar os ajustes se o desemprego bater nos 8%. É muita munição para o adversário…

      Abs

      JGould,

      Independentemente da minha dúvida não estar relacionada a uma tolerância maior à inflação e sim a um prazo maior para viabilizar politicamente o ajuste eu gostaria ver a sua argumentação. Quem sabe eu entenda…(provavelmente não…kkk)

      Abs

    • Ricardo Gallo 13/04/2015 23:50

      se a unica alternativa é prometer e não cumprir eu concordo com você que teria sido melhor prometer para 17. porem da para cumprir. custoso mais da pra cumprir. e foi prometido.

      e o bc prometeu os 4,5 para 16 pois sabe do custo de se deixar mais uma vez para daqui a dois anos chegarmos ao centro da meta. o dano colateral de se deixar renascer a indexação informal eh grotesco.

      enfim eu acho que a esta altura deveriamos morder a bala e perseguir meta de 4,5 pro ano que vem ja que nao iremos cumprir a meta de 6,5 fixada para este ano….

      duas promessas feitas e nao cumpridas é demsis

      precisamos recuperar credibilidade com risco de nunca mais trazermos a dita pro centro .

      se nem com pib de zero conseguimos trazer a dita pro centro imagina crescendo 2.5 pct?

    • Ricardo Gallo 13/04/2015 16:03

      Obrigado, Andre. Esta é a razão do blog. Tornar acessíveis conceitos mais abstratos usados pelos monetaristas…

      qual a vantagem? cada 2 % de queda na inflação equivale a um ganho de renda médio de 1% nos salários… e este aumento de desemprego é temporário…. o ganho nos salários é perene. e se não trouxermos de volta pro centro, sistema de metas acaba de vez e ai vamos colher inflações bem maiores no futuro, com volta da indexação … lembra como era? algum dia vamos ter que trazer para o centro da meta. quanto mais demorarmos mais custa….

      e em 2017 faremos isto de novo, adiaremos ajuste, com fizemos em 2012, 2013, 2014, 2015, 2016…. deste jeito nunca traremos inflação de volta para meta. e acada ano que passa assim custo soh aumenta…

      esta troca entre desemprego e inflacao é falciosos no longo prazo….tem pais no mundo em pleno emprego com inflacao ha varios anos abaixo de 4% aa..

    • JGould 12/04/2015 18:34

      Cara, na boa… poderia argumentar com uma curva de Phillips aliada a uma Taylor rule, mas isso deixo para o dono do blog se assim ele quiser, mas é devido a esse só um pouquinho mais de inflação que nos levou a atual situação.

    • Ricardo Gallo 13/04/2015 15:57

      fique a vontade….

      porem admita que nem 3% dos leitores conhecem tais curvas, pois publico aqui quer uma linguagem mais simples.

      um dos problemas de todos os economistas que assumem o poder é que nao conseguem falar numa linguagem em que as pessoas entendam. ligar conceito a instinto pratico. tento fazer isto aqui.

      como sou empresario e apenas um engenheiro da gloriosa poli, uso da linguagem mais prosaica e menos tecnica. desculpe se ofendo aos economistas de plantao.

  4. 51 Joao 10/04/2015 19:15

    Gallo,

    2 perguntas:

    – Que taxa selic você acredita que seria necessário o BC fechar este ano ?
    – Que taxa selic você acredita que o BC fechará este ano ?

    Parabéns pelo´post ímpar, como sempre !

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