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terça-feira, 14 de abril de 2015 Crise Brasileira, Inflação | 18:23

Efeito da desvalorização do R$ na inflação

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Tenho dito aqui que a desvalorização cambial é um componente fundamental no processo de ajuste de nossa econ0mia:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2015/01/15/a-mecanica-do-ajuste-economico-em-curso/

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2015/01/27/por-que-o-dolar-nao-sobe-mais/

Contudo, quanto mais o dólar sobe mais pressão inflacionária se cria, uma vez que produtos importados ou comercializáveis com o exterior têm seus preços afetados pela alta do dólar. Os economistas se preocupam, portanto, em saber em que medida um aumento de 10% na cotação do dólar afeta a inflação. Este é o chamado pass-through. O BC tratou sobre este assunto em seu último relatório de inflação:

http://www.bcb.gov.br/htms/relinf/port/2015/03/ri201503b8p.p

Porém outros economistas têm uma visão diferente sobre o assunto. Neste sentido vale a pena ler o texto abaixo, preparado recentemente pela competente equipe de economistas do Banco J Safra, sob o comando de Carlos Kawall.

 

Política Monetária – Pass-through do câmbio para os preços domésticos e a resposta da política monetária

O 1T15 foi marcado por uma substancial depreciação do real, com a moeda tendo se desvalorizado cerca de 16,4% frente ao dólar no período. Apenas em março, a depreciação foi de 10,3%. Para o ano, esperamos a continuação desta tendência, com o real chegando em R$3,50/US$ ao final de 2015, o que representaria uma desvalorização média de 27% do real em relação a 2014.

Dada a magnitude da desvalorização esperada, os impactos na inflação deverão ser relevantes. O nível de repasse da depreciação cambial para a inflação (pass-through) é um parâmetro não observável. Assim, estimá-lo se faz tarefa importante para projetar a variação do nível de preços no ano.

O Banco Central (BC) disponibilizou um anexo no Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de março com algumas considerações a respeito. No trabalho apresentado, o BC argumenta que o movimento da nossa moeda contra a cesta de moedas que compõem nosso comércio externo é o mais relevante para a inflação, em detrimento do movimento do real diretamente contra o dólar. No caso, o BC utilizou a taxa de câmbio efetiva para o Brasil calculada pelo Bank for International Settlements (BIS), que é uma medida ponderada pela corrente de comércio.

 

realcestamoedasafra

 

Para contribuir com a discussão sobre o tema, apresentamos uma medida de câmbio nominal efetiva para o real construída com os pesos dos nossos parceiros comerciais2, porém só considerando as importações, o que, em nossa visão, deve refletir de maneira mais realista a taxa de câmbio relevante para o repasse a preços internos. Optamos por utilizar esta métrica para o câmbio efetivo, pois, em momentos em que o real tenha se desvalorizado contra o dólar, se esta desvalorização também acontece para as moedas dos nossos demais parceiros comerciais, o repasse para os preços domésticos deveria ser menor.

Esta discrepância entre a taxa de câmbio efetiva e o movimento do real contra o dólar de fato ocorreu em 2014. Ao considerarmos esta medida de câmbio efetiva, temos que a depreciação observada naquele ano foi de apenas 5,2%, enquanto o real se desvalorizou 11,2% contra o dólar no período.

Porém, em 2015, o real também se depreciou contra os seus demais parceiros comerciais. Em comparação com a depreciação de 16,4% observada contra o dólar no 1T15, o real se desvalorizou 14,1% contra a cesta de moedas. Assim, o efeito que poderia mitigar o pass-through por conta do dólar se apreciando também contra nossos demais parceiros comerciais ficou bem menos intenso este ano, mantendo-se a visão de que o efeito na inflação deverá ser elevado. 

Utilizando esta série de câmbio efetivo, estimamos o pass-through, em condições normais, em 6%, com impacto máximo entre o terceiro e quarto trimestre subsequentes à desvalorização. Em outras palavras, uma depreciação de 10% do câmbio efetivo elevaria a inflação em 0,60 ponto percentual (p.p.). Já quando o nível de atividade está deprimido – quando o hiato do produto é negativo, como no momento atual -, nossos modelos indicam que o repasse cai para 4%.

Porém, agindo na direção contrária do baixo nível da atividade, existe a possibilidade de efeitos não lineares no repasse da variação cambial à inflação. A ideia aqui é que uma depreciação cambial modesta, por exemplo de 5%, pode ser absorvida por uma redução de margem de lucro em alguns casos. Porém, quando esta depreciação é mais elevada – como em nossa projeção de acima de 25% para este ano – haveria menos espaço para esta absorção via redução de margem, sendo então maior o repasse aos preços.

Para analisarmos este ponto, estimamos um modelo de mudança de regime. Para o nosso caso em particular, esta classe de modelos tenta apontar se, primeiro, existe um nível de depreciação a partir do qual o repasse cambial à inflação muda. Após apontar o nível em que esta quebra de comportamento acontece, estima-se qual é o comportamento do pass-through em cada um dos dois regimes encontrados. Os resultados encontrados apontam que, quando a depreciação cambial trimestral ultrapassa 2,6%, o repasse cambial pode se elevar dos 4% para 5,5% por conta do efeito não-linear do nível da depreciação no repasse aos preços.

 

passth

 

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1 comentário | Comentar

  1. 51 Jeca Tatu 24/04/2015 13:13

    A recente queda do dólar, contra o real, muda de alguma forma as expectativas acima?

    • Ricardo Gallo 24/04/2015 13:14

      no curto prazo alivia bem. porem a questào é: como fica pro futuro?

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