Publicidade

quarta-feira, 22 de abril de 2015 Crise Brasileira, Inflação | 12:34

Precisamos mesmo subir o juro agora?

Compartilhe: Twitter

Com a forte desaceleração da economia muitos se perguntam se de fato seria necessário o BC continuar subindo juros para reduzir inflação, pois isto geraria mais desemprego e um custo social maior.  Não é melhor então adiar o combate contra a inflação para quando a economia estiver mais forte? Esta é uma daquelas perguntas que fazem todo sentido, legítimas, mas que trazem nas entrelinhas uma outra pergunta, mais malandra: existe jeito indolor de se combater inflação? Resposta: Não.

O que é possível, com o tempo e muita credibilidade por parte da autoridade monetária (BC), é reduzir este custo.

Quando o BC perde credibilidade ao deixar a inflação subir e permanecer elevada por muito tempo, como ocorreu nos últimos 4 anos, o custo econômico para reduzir a dita fica elevadíssimo. Cria-se inércia e indexação informal. Hoje é normal ter preços de serviços subindo 8 ou 10%. Este pensamento já contaminou a cabeça de todos brasileiros. Se um preço sobe 5% a.a. já achamos pouco. Essa é a razão porque não podemos tolerar que a inflação fique tanto tempo acima do centro da meta.

O BC tentou ao longo destes ano evitar um pequeno custo para trazê-la de volta ao centro, mas acabou alimentando um monstro que vai demandar um enorme custo para ser abatido. Ou seja, quanto mais estável e próxima do centro da meta a inflação permanecer, menor será o custo de se mantê-la estável. As pessoas e empresas não tem, em tal cenário, tempo para se acostumarem com reajustes de 6 ou 7 %. Os 4,5% ficam na cabeça de todos como algo razoável para a inflação. As expectativas com relação à inflação futura permanecem desta forma ao redor do centro da meta, mesmo quando ocorrem desvios esporádicos na inflação realizada. Assim os juros necessários para se manter inflação no centro da meta caem, pois ela fica ancorada, como dizem os economistas. Bastam pequenos movimentos dos juros para que as pessoas se lembrem que BC não vai permitir que inflação se desvie do centro da meta. Funciona quase como um reflexo condicionado. É assim que funciona sistema de metas. Quanto mais pessoas acreditarem que BC não irá permitir que a inflação se desvie do centro da meta, menor será o custo de se corrigir os eventuais desvios que ocorrerem em função de choques temporários.

Contudo, as pessoas só irão acreditar que BC irá se comportar assim se, após um período suficientemente longo, ele se comportar de maneira consistente, evitando desvios excessivos e duradouros da inflação com relação ao centro da meta. Ou seja, a inflação média após vários anos precisa ficar próxima a 4,5% a.a. e a frequência dos desvios para cima e para baixo do centro da meta precisam ser da mesma magnitude, mostrando assim que BC não tem viés em suas intervenções e, portanto, se comporta com o mesmo empenho, seja quando a inflação está acima ou abaixo do centro da meta. As pessoas precisam acreditar que meta é de fato 4,5%, e que os 2% de margem de flutuação servem apenas para acomodar choques temporários de preços causados por quebras de safra, elevação de preços administrados, variação da taxa de câmbio, mudanças de preços relativos em geral, etc. Sem credibilidade, as taxas de juros precisam variar mais quando inflação se desvia da meta. Isto acaba causando flutuações maiores na atividade econômica, o que aumenta a incerteza com relação aos resultados futuros dos negócios, retraindo ainda mais o investimento produtivo. Incerteza é mais danosa para os negócios do que juro alto.

Como já comentei em outro post recente, o BC não se comportou desta maneira nos últimos anos, o que acabou erodindo sua credibilidade e elevou o custo de se reverter a inflação para o centro da meta:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2015/03/21/credibilidade-do-bc-uma-moeda-perdida/

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2015/04/10/o-enorme-custo-de-trazer-a-inflacao-de-volta-a-meta/

Quanto à questão de se devemos ou não perseguir o centro da meta neste momento, eu irei responder com algumas perguntas:

  • Com a atividade tão fraca que tivemos nos últimos dois anos, não teria sido razoável esperar que a inflação e seus núcleos estivessem próximos do centro da meta em 2014?
  • Vamos supor que PIB ano que vem ande a 1,5% a.a. e inflação seja 5.5%. Se em 2017 PIB crescer 3,5%, qual probabilidade de termos os núcleos da inflação andando acima de 6% em 2017? 70%?
  • Se não conseguirmos trazer os núcleos da inflação para 4,5% no ano que vem depois de uma baita recessão, quando conseguiremos?
  • Podemos então abandonar o sonho de termos uma meta de 3,5% para inflação com vários outros países emergentes nos próximos 5 anos?
  • Uma alta de 1% na inflação de longo prazo significa um corte de renda de o,5% nos salários e pensões de forma definitiva. Neste cenário, quem ganha é o capital, cujos rendimentos são muitas vezes protegidos da alta de inflação. Seria isto justo?

Enfim, depois de mais de 20 anos do Plano Real e do fim de nossa hiperinflação, é incrível que ainda precisemos retornar a este assunto. Vamos começar logo a reconstruir nossa credibilidade nesta luta contra a inflação e aprender de uma vez por todas que um tapinha do Dragão dói muito sim senhor! E já brincamos muito com o Dragão.

 

combateainflcao

 

Autor: Tags:

5 comentários | Comentar

  1. 55 ezequiel alves 26/04/2015 9:42

    voltei, devo admitir que sem uma pessoa ou um especialista que entenda bem de economia eu seria muito mais vulnerável a qualquer propaganda enganosa ou maluca de qualquer outra linha grupo ou autoridade politica. Talvez por isso o Brasil seja assim . A nossa ignorância é muito grande, mas isso não é o problema comparado a nossa teimosia de persistir em idéias absurdas chegando a conclusão que rever a validade do que acreditamos seja mais importante que começar a aprender como as coisas realmente funcionam.

  2. 54 Andre 24/04/2015 15:03

    Ricardo, obrigado pelo tempo dedicado e pela paciência na resposta. Esclareceu diversas dúvidas.

    Quando digo não fazer nada, quero dizer manter os juros mais ou menos na base atual este ano, o que coincide com o que o pessoal está estimando para o final do ano (13,25%) no boletim Focus. Aliás, obrigado por indicar o caminho (não sabia que o BC disponibilizava os boletins para download).

    Realmente o capitalista normalmente não se contenta com IPCA + 5 – 6 % a.a. mas a classe média (média ALTA) faz bastante barulho. Há uma interessante guinada na aprovação do governo federal quando os juros reais caíram abaixo de 4% pela primeira vez (Maio de 2013). Voltou a subir para níveis mais normais em Novembro quando a taxa de juros real voltou a superar 4%, se mantendo nesta base até o começo deste ano, onde voltou a despencar, agora provavelmente relacionada com a correção dos preços administrados e o impacto na inflação. Dê uma olhada nos gráficos, é bem interessante este movimento. É difícil dissociar a economia da política.

    Eu concordo que um dos principais motivos da gente estar nesta situação é a política econômica esquizofrênica adotada nos últimos anos (com o BC puxando pra um lado e a Fazenda e o Planejamento para o outro).

    Aliás, de forma geral, concordo com a sua visão de correção de rota, mas como já disse em outros comentários, tenho dúvidas sobre o tempo de implementação e os efeitos colaterais, como o efeito no crescimento e no desemprego e o efeito destes na capacidade do governo em bancar o ajuste fiscal em um cenário de recessão, desemprego em alta, inflação e baixos índices de aprovação. De novo a política.

    Mas aí vem o CAGED de Março com criação de vagas (eu pensei que iria vir um fechamento forte tomando por base o meu mundo que é a indústria) com o setor de serviços compensando as perdas na indústria e construção civil. Como é difícil entender estes movimentos…Tô começando a achar que fazer cálculo estrutural é moleza…

    Abs e Bom final de semana.

    • Ricardo Gallo 24/04/2015 22:50

      sobe juro. e ai com inflação caindo derruba o juro.

      não podemos brincar com nossa moeda.

      ela é um patrimônio público. Como a Petrobras.

      não há crise política que justifique destruir o trabalho de estabilização monetária que conquistamos nestes 20 anos.

      temos que pensar nao soh nestes 3 anos. mas nos próximos 20.

      presidentes se trocam a cada 4 anos. moeda não.

  3. 53 Jeca Tatu 24/04/2015 13:34

    Excelente post, como sempre.
    Duas perguntas:
    a) fosse você senhor de todos os votos do COPOM, fixaria a SELIC em quantos % na próxima reunião, para combater eficientemtne o dragão?

    b) a queda recente do dólar ante o real, em quase 10%, indicaria que o BC voltou a flertar com a contenção da inflação via câmbio, de novo, ou é só fluxo “normal” do mercado (carry trade, petro, etc)?

    • Ricardo Gallo 25/04/2015 19:20

      ps: valeu!

    • Ricardo Gallo 25/04/2015 19:20

      a) desculpe, mas eu não votaria se fosse o único a votar…hehehe… mas seu estivesse lá votaria 50 bp. nao tem jeito….

      b) só mercado. não creio que governo queira brincar com isto naõ. nao com defict externo em 4.7% do pib…

  4. 52 Andre 23/04/2015 16:15

    Ricardo, vamos por partes.
    Os funcionários estavam recebendo reajustes dentro da inflação por ação da falta de mão de obra, o dito pleno emprego. Não temos esta situação mais. Conheço várias pessoas que perderam o emprego e certamente prefeririam receber um reajuste abaixo da inflação do que ficar desempregadas em um cenário bem complicado para a realocação.

    Já vivi os dois lados da moeda. Logo que saí da faculdade peguei o mercado em uma situação muito complicada que coincidiu com o período que eu fui CLT (1997~2004). Neste período NUNCA tive o salário corrigido pela inflação. Os acordos coletivos previam a correção da inflação apenas até um teto para preservar os salários menores em troca da preservação de um nível maior de emprego. Ninguém achava bom mas era melhor que ir pra rua…Eu tenho certeza que os acordos coletivos firmados este ano vão seguir esta toada.

    Sobre os juros, olhando os gráficos que eu encontrei, NO BRASIL não consigo visualizar esta relação tão direta entre a taxa de juros (Selic) e a inflação (IPCA). A modificação dos juros parece mais um movimento para garantir a rentabilidade (juros reais) do que afetar diretamente a inflação. Se bem que os gráficos que eu vi relacionam a taxa de juros e a inflação nos últimos 12 meses para a mesma data. Talvez fosse melhor analisar um gráfico com um delay de uns 6 meses na inflação para termos (ou não) uma relação de causa e efeito direta. Não achei gráfico assim.

    Hoje a taxa está em 12,75% – 8% de inflação temos uma taxa real de 4,75% que já é superior ao praticado de 2009 pra cá. Nessa base, considerando que a Selic mensal tem forma de “V”, acho (chute) o IPCA que fecha o ano em uns 7% devido à recessão. E se subir os juros reais pra 7% ainda sim vai estourar a meta de inflação em 2015 (>6,5%) com um efeito muito forte sobre os empregos. Se fechar o ano com 7% de IPCA e 13% de Selic teremos uma taxa real na ordem de 6% que é bem razoável. Se subir o juro real para 7% agora vamos ter no fim do ano uns 8,5% de juros real (considerando IPCA de 6,5%), equivalente a níveis de 2007.

    Qual é a alternativa a subir (significativamente) os juros? Não tenho a menor ideia. Mas às vezes a melhor coisa e se fazer é não fazer nada…Se a situação ficou assim em 2 ou 3 anos acho que um prazo coerente pra trazer de volta é o mesmo…

    Abs

    • Ricardo Gallo 23/04/2015 22:17

      ps: demora 9 meses pra mudança nos juros afetar produto

    • Ricardo Gallo 23/04/2015 21:55

      Vamos por partes nas suas partes:

      a. os salários sobem por fatores inerciais, alem de fatores de demanda por mao de obra ( pleno emprego). Veja dissídios do ano passado: a atividade ja estava fraca e dissídios deram ganhos reais. Vale a pena voce ler os trabalhos de Gustavo Franco sobre inflação inercial. Ele, Arida e cia. E voce só quebra inflação inercial com ancora cambial ou pancada nas expectativas.

      b. o salario minimo subirá 8% ano que vem = inflaçao deste ano. Isto estabelece uma referencia para outros ajustes. E há varios outros contratos indexados na economia. Ou seja, com *% de minimo vai ser duro segurar dissídios,,,,

      c. Há vários anos salários sobem ao redor de 8% a.a. para baixar para 6% não será fácil nao. isto cria sim inercia.

      d. Eu sugiro que você olhe os gráficos abaixo para ver efeito do output gap na inflação:

      http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2015/04/10/o-enorme-custo-de-trazer-a-inflacao-de-volta-a-meta/

      e. nos períodos que você menciona: (1997 ate 1999) havia uma ancora cambial in place: ou seja, usava-se o cambio fixo para ancorar salários. Voce ameaçava o produtor local e o trabalhador local com importações: lembra do Ciro Gomes ministro em 1994, ameaçando as montadoras? E a mega valorizada do dolar no começo do governo Lula? Em 2003 havia um mega desemprego (dobro que tem hoje) e em 2003/ 2004 juros dispararam…. Hoje não temos nada disto. Logo….

      f. os juros não afetam inflação: eles afetam o outputgap e expectativas. porem se politica fiscal e cambial forem na contra mão, o efeito do juro no produto e na expectativa eh pequeno. isto foi o que ocorreu aqui desde 2010. ai destruímos a credibilidade do BC…

      g. esta ideia que politica monetária NO BRASIL NAO FUNCIONA [ ENQUANTO FUNCIONA NO MUNDO TODO}, é uma das razões que temos esta inflação alta e persistente mesmo com pib fraquinho. O dia que voce acreditar e todos brasileiros acreditarem que funciona inflação cai!!!! É exatamente isto que falei no texto. Existem vários textos no site do BC que podem te mostrar que funciona sim. NO FED, no ECB, no BC canadense, BC ingles, BC mexicano, BC Chileno, etc…. E se ” nao funciona mais aqui” não é porque selic nao funciona, mas porque BC perdeu credibilidade por nao usar os juros quando precisava! E em 2004 os juros trouxeram sim inflação de 8 para 4%, pois naquela época politica cambial e fiscal não jogaram contra o BC!!! Ou seja, se governo nao atrapalhar, juro funciona sim…. [ ps : ninguem ate hoje descobriu outro jeito de controlar inflação com mais eficacia}

      h o que você sugere ( deixar 3 anos assim) é, na prática, que abandonemos sistema de metas de inflação. pergunto: coloca o que no lugar? cambio fixo?? Ou temos meta, ou não temos meta. Não dá para ter meta só quando nos convém. Quando você não tira 5 ou mais na prova não passa de ano. Isto é que gera credibilidade no sistema de ensino…. infelizmente a vida é assim. Empresa que não dá lucro, quebra… e por ai vai.

      i. nao fazer nada é sempre fazer algo: manter juros onde está. Então, por que não abaixar? Abaixa de 2% real!! Ai emprego aumenta mesmo!!! /strong>? Nao dá para pilotar o BC sem ter alguma regra, meta, objetivo. Se você fizer isto desancora as expectativas para sempre. Vide Argentina, Venezuela , que numa baita recessão, tem inflação de 60% a.a.

      j. IPCA em 2015: para fechar em 7 este ano precisa cair bem na margem pois ja deu quase 4% soh no primeiro trimestre…. logo, tem que dar três no acumulado de 9 meses do ano….. e veja o relatório focus preparado pelo BC que consulta um monte de analista que faz conta e ganha grana com isto falando em mais de 8%:

      http://www.bcb.gov.br/pec/GCI/PORT/readout/R20150417.pdf

      k. acho 6% real um juro absurdo. e se nao trouxermos inflaçao para baixo rapidamente iremos ter estes juros por 3 ou 4 anos…. logo, prefiro um ano com juro real de 8% e 5 anos de 4% ou 3% (compativel com pib de 2.5%) do que 6% para sempre.

      l. recessão não é suficiente para trazer infla para baixo: veja experiencias com estagflação dos EUA e UK nas decadas de 70 e 80: vale a pena ler sobre paul volcker tambem.

      m. por que outros emergentes conseguem ter inflação menor que a nossa?? Por que aqui achamos que politica monetária não funciona…pais das jabuticabas…..

      n. este papo de rendimento, que juro alto ajuda capitalista é uma bobagem enorme: capitalista é capitalista por que arrisca. Poe grana para rodar. Investe em negócios. Quem coloca dinheiro em renda fixa é classe media e fundo de pensão. Ou seja, ninguem ganha em recessão…

      o. estamos no final discutindo um valor cultural: americano, alemão, japonês valoriza suas moedas como um bem do povo…. aqui não vemos assim. Aqui esquecemos que salarios reais caem quando inflaçao sobe… que poder de compra da grana guardada na poupança cai… e que as pensões dos aposentados caem em termos reais.

      p. quando inflação acelera, e fica alta, gera-se uma perda para salários e pensões, que só sao ajustados anualmente.… com uma inflação de 4% a.a. seu salario medio mensal perde 2% de valor ao longo do ano. com 8%, ele perde 4%…. para sempre.

      q. com inflação a 8 , saldo da poupança vai continuar caindo ate acabar dinheiro para credito imobiliário…. veja o que esta acontecendo com saldo da dita este ano….

  5. 51 Andre 23/04/2015 12:11

    Ricardo, desculpe a minha ignorância, se for o caso mas…

    Se não temos uma inflação por excesso de demanda (estamos em recessão) qual é o efeito real (além do psicológico coletivo descrito no seu texto) de subirmos os juros?

    Abs

    • Ricardo Gallo 23/04/2015 13:58

      tentar evitar que os reajustes de 8% se perpetuem. simples. combater a reindexação que já começou forte. você conhece alguém que esta recebendo um aumento de salario abaixo de 8%? ou algum preço de serviços que não subiu 8% nos últimos doze meses? se voce aumentar o preco de um funcionario em 6.5% ele vai ficar feliz? ou muito chateado? lembro que 6.5 eh o topo da banda…

      no sistema de metas o efeito nas expectativas é muito mais poderoso do que o efeito na atividade…

      hoje temos um processo claro de estagflacao….

      e a alternativa a subir o juro é nao subir o juro. o que voce acha que acontece com inflação este ano e ano que vem???

      qual alternativa a nao subir juro?

  1. ver todos os comentários

Os comentários do texto estão encerrados.