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segunda-feira, 27 de abril de 2015 Crise Brasileira, Inflação, Juros no Brasil, utilidade | 00:36

Como se perde com a inflação

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Todos já se irritaram com a elevação dos preços, certo? Mas que tal mostrar como isto afeta nosso orçamento e quem ganha com isto?

Uma matemática simples: a cada 2% de elevação de inflação, a renda real do trabalhador cai 0,9%, pois os salários só são reajustados uma vez por ano e com base na inflação que passou. Renda real equivale ao poder de compra dos rendimentos, como os salários. Isto significa que, neste cenário que descrevi, se você podia comprar 100 almoços no quilo com teu salário mensal, depois de uma alta de 2% na inflação anual você só  pagar pode 99. Parece pouco né? Mas não é não. Como nossa inflação está andando a 8.2% a.a. e a meta é de 4.5% a perda real de salário é de 1,7% aproximadamente.

Isto ocorre porque a indexação dos salários é anual. Logo, durante 11 meses seu salário não sobe, mas os gastos, por definição, acompanham a inflação todo dia. A indexação nos protege de forma muito imperfeita da inflação. E acaba nos enganando ao criar uma ilusão monetária, pois os reajustes não conseguem repor o poder de compra dos salários. Isto vale para salários, aposentadorias, pensões, seguro desemprego e programas de transferência, como bolsa família. Como o consumo das famílias chega a uns 60% do PIB, estamos falando de 1% do PIB de perda no mínimo.

Alguns poupadores também perdem quando a inflação sobe e o rendimento de seus papéis não é ajustado na mesma velocidade. Neste caso, todo o estoque de recursos investidos sofre os efeitos da alta da inflação. Isto ocorre principalmente quando:

  • Se investe na Poupança, cujo rendimento na prática flutua muito pouco com a inflação. São hoje mais de R$ 650 bi depositados na Poupança. Uma alta de 3,7% da inflação gera uma perda real para os depositantes da ordem de R$ 24 bi por ano! 
  • O dinheiro fica parado nas contas correntes dos bancos (depósitos à vista = R$ 150 bi), assim como o dinheiro que carregamos na carteira (R$ 160 bi). Só aí a perda adicional em função da elevação da inflação é da ordem R$ 11.5 bi por ano.
  • Até os títulos de renda fixa prefixados, tais como as NTN-F´s compradas antes da alta da inflação (R$ 250 bi) tem seus rendimentos reais corroídos pela elevação da inflação.
  • Rendas de aluguéis de imóveis, que só são ajustados uma vez por ano, também sofrem como os salários.

Mas você deve estar perguntando: para onde vão estes mais de 2.0% do PIB?

Simples: este ganho vai para o capital que estiver mais protegido da inflação, seja através da indexação mensal dos rendimentos de seus investimentos (Títulos indexados à inflação como as NTN – B por exemplo) ou através da remarcação de preços que é feita com frequência maior do que a dos salários.

Outro beneficiário é o orçamento do Estado que, sempre que adia a liberação de recursos para os gastos via contingenciamento, acaba reduzindo o valor real do gasto efetivo que é fixado em R$ no orçamento, enquanto a maioria de suas receitas sobe junto com a inflação, como PIS/COFINS, ICMS, ISS, IPI, IR da PJ, etc. Isto acaba ajudando o ajuste fiscal.

Os que se endividaram tomando empréstimos de longo prazo a taxas fixas e investiram em bens cujo valor acompanha a evolução da inflação podem ter alguns ganhos, como pode ser o caso daqueles que compraram imóveis há alguns anos. Porém num cenário inflacionário é improvável que os preços dos imóveis acompanhem a evolução da inflação em função das elevadas taxas de juros.

Também são beneficiados os que tomaram recursos no BNDES a taxas fixas via PSI ou indexados a TJLP, que subiu menos do que a inflação nos últimos anos.

Mas o Estado e os contribuintes também acabam pagando a conta. Quando a inflação se eleva, os juros pagos pelo Estado em sua dívida acabam subindo na medida em que os títulos vencem e são renovados a novas taxas que já refletem as expectativas elevadas de inflação. Os investidores passam a exigir juros cada vez maiores, pois temem que a inflação futura suba ainda mais e acabe corroendo ainda mais o valor real de seus investimentos. As taxas reais de juros pagas pelo governo, já descontada a inflação, subiram mais de 2% nos últimos anos. Para quem deve mais de 60% do PIB, esta conta pesa, o que acaba demandando um aperto fiscal ainda maior e mais impostos.

Este é o tal do imposto inflacionário. Transfere-se renda dos menos favorecidos, com menores recursos e com baixo acesso a produtos financeiros mais sofisticados, para o topo da pirâmide econômica. Não existe nada mais perverso do que isto. Ele é regressivo, pois os mais pobres sofrem mais, e antidemocrático, pois não é discutido no Congresso e tampouco debatido com a sociedade. E tem como subproduto a destruição de um patrimônio nacional,  a nossa moeda, que, num cenário de inflação elevada e persistente, perde suas funções de unidade conta e de reserva de valor. Gera-se assim o risco de se ampliar o processo de indexação informal que já existe na economia aumentando-se a frequência dos reajustes de preços e salários, o que colocaria a inflação numa espiral ascendente e descontrolada trazendo o total colapso do consumo e do investimento.

Logo, antes de criticarem o BC na sua disposição de trazer a inflação para meta em 2016, pensem nisto e avaliem se o custo de subir o juro não vale mesmo a pena.

 

realcorroido

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9 comentários | Comentar

  1. 59 Clovis 05/05/2015 9:54

    Olá Gallo.
    A inflação alta é sempre perniciosa (pelo menos no médio/longo prazo) porque, no minimo, desestrutura todo o sistema produtivo e deturpa a relação de preços da economia, etc e tal…
    Outra coisa que é muito perniciosa a médio/longo prazo é manter juros negativos por prazos prolongados mas isso não parece chamar a atenção dos analistas econômicos brasileiros que ao contrario tendem a considerar juros excessivamente baixos/negativos como sinal de saúde!!!??? da economia de um país ( desde, claro, que seja país do primeiro mundo, haha)
    Porém nem sempre a inflação e a concentração de renda são diretamente proporcionais. As vezes são inversamente proporcionais.
    Esta ultima é uma constatação empírica/estatística mas é fascinante embora, até onde eu sei, não exista ainda uma explicação do porque isso ocorre, há algumas hipóteses mas pouco se tem estudado esses casos (em que a inflação promove um DESconcentração da riqueza).
    Eu procurei bastante por literatura a respeito e o melhor que eu encontrei foi isto (em inglês) – http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2444710.
    Infelizmente é um estudo que não inclui países em desenvolvimento…
    Eu acho que a demora em elevar os juros foi mais uma questão política/eleitoral que, digamos assim, ideológica do governo petista.
    Quem (me refiro a partidos políticos) nunca fez o mesmo que atire a primeira pedra…
    E para aqueles que acham que todo empresário e peessedebista é neoliberal e que “nunca se roubou tanto” quanto no governo do PT eu recomendo a leitura da entrevista do Ricardo Semler (lembram dele?) à BBC:
    http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/05/150423_semler_entrevista_ru

  2. 58 Clovis 04/05/2015 18:12

    Olá Gallo.
    Boa tarde a todos.
    A inflação é sempre perniciosa (pelo menos no médio/longo prazo) porque, no mínimo, desestrutura todo o sistema produtivo e deturpa a relação de preços da economia, etc e tal…
    Outra coisa que é muito perniciosa a médio/longo prazo é manter juros negativos por prazos prolongados mas isso não parece chamar a atenção dos analistas econômicos brasileiros que ao contrario tendem a considerar juros excessivamente baixos/negativos como sinal de saúde!!!??? da economia de um país ( desde, claro, que seja país do primeiro mundo, haha)
    Porém nem sempre a inflação e a concentração de renda são diretamente proporcionais. As vezes são inversamente proporcionais.
    Esta ultima é uma constatação empírica/estatística mas é fascinante embora, até onde eu sei, não exista ainda um consenso do porque isso ocorre
    Há algumas hipóteses mas pouco se tem estudado esses casos (em que a inflação promove um DESconcentração da riqueza).
    Eu procurei bastante por literatura a respeito e o melhor que eu encontrei foi isto (em inglês) – http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2444710.
    Infelizmente é um estudo que não inclui países em desenvolvimento…
    Eu acho que a demora em elevar os juros foi mais uma decisão político-eleitoral que, digamos assim, ideológica do governo petista.
    Quem (me refiro a partidos políticos) nunca fez o mesmo que atire a primeira pedra…
    E para aqueles que acham que todo empresário e peessedebista é neoliberal e que “nunca se roubou tanto” quanto no governo do PT eu recomendo a leitura da entrevista do Ricardo Semler (lembram dele?) à BBC:
    http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/05/150423_semler_entrevista_ru

  3. 57 Walistton 01/05/2015 0:18

    Gallo, a inflação é acima de tudo uma concentradora de renda miserável.

    • Ricardo Gallo 04/05/2015 13:29

      perfeito!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  4. 56 Andre 28/04/2015 20:43

    Ricardo, excelente post, com argumentação em defesa do controle da inflação difícil de refutar.

    Fiquei na dúvida em apenas um ponto. Você diz que os juros reais pagos pelo Governo aumentaram 2% nos últimos anos como efeito do risco da inflação futura. Mas ao aumentar a selic não não temos o mesmo efeito (aumento do custo de rolagem da dívida)?

    Abs

    • Ricardo Gallo 29/04/2015 17:53

      sim. mas ele é transitorio, pois quando inflaçao cai selic cai. juro é alto pq inflação é alta. esta é a causalidade. e quando inflação sobe de forma descontrolada, como a nossa, o juro que sobe é o selic (curto prazo) e o do longo prazo…om um bc que ancora expectativa juro selic sobe mais do que juro longo qdo inflação sobe.

  5. 55 Joao 28/04/2015 10:45

    Ricardo,
    se possível, gostaria que expusesse seu ponto de vista para a retração de crédito para o financiamento imobiliário que foi divulgado.

    Eu, que acredito na bolha imobiliária, endossada pela idéia de que não temos renda e poupança, creio que esta ação terá serias consequências na formação de preço, visto que já temos inercia quase que total neste mercado “bolhudo”.

    Abraços e parabéns pelos detlahes em seus posts.

    • hudson 28/04/2015 16:13

      Ricardo,

      Talvez você não esteja acompanhando, mas o ritmo de lançamentos está sendo constantemente reduzido desde o meio de 2013, mais ou menos. Contudo, apesar desta desaceleração de construções, os estoques na carteira das construtoras continuam em ritmo de alta.

      Não vejo uma catástrofe, mas vejo possibilidadede alguma construtora destas com ações em bolsa quebrar.

    • Ricardo Gallo 28/04/2015 17:09

      sim . tenho visto e concordo com sua colocação. feio mesmo .

    • Ricardo Gallo 28/04/2015 14:07

      a retração era esperada. ja havia colocado isto aqui este ponto, pois:

      a. ritmo de crescimento da carteira de credito da caixa é insustentável, pois demandará cada vez mais aportes do governo. cef estava se tornando o bndes do credito imobiliário.
      b. poupança esta perdendo volume. mais de 30 bi no ano até agora. ou seja, fica CADA VEZ mais caro para caixa financiar estes empréstimos
      c. com inflação subindo e instável, fica muito arriscado bancos emprestarem a taxa fica por 20 ou 30 anos…

      Isto deve ter impacto sim no preço dos imoveis. pois, com desemprego subindo e renda real em queda e financiamento mais difícil, demanda por imoveis deve cair bastante. vide o que esta acontecendo com avalanche no cancelamentos de compras feitas na planta

      por outro lado, as construtoras estão sentindo aperto de credito e estao reduzindo ritmo de lançamentos o que vai reduzir oferta de imoveis no futuro E assim evitar um colapso geral. alem do que, a alavancagem do sistema é baixa ( menos de 10% do PIb em credito imobiliário é muito pouco).

      OBRIGADO;.

  6. 54 ricardo r 27/04/2015 18:40

    Só que não adianta apenas o BC subir juro. O tesouro tem que fechar esse deficit absurdo de 8% a.a., e tampouco adianta aumentar impostos. Tem que cortar gastos. Diz o ditado que quando a água bate na bunda o cidadão aprende a nadar. Pois já estamos com água no peito e nada do governo promover cortes de gastos condizentes com a situação. Esse ajuste fiscal até agora é insuficinete sequer pra garantir um superavit primario mediocre ao fim do ano. Ajuste fiscal tem que ser feito em cima de quem mama no governo e não de qm sustenta ele. Do contrário a situação só piorará. Tem que baixar urgentemente o déficit dos 8 pros 3% e isso envolve um corte/aumento de receita astronomico de 250 bilhoes de reais, coisa que passa do que tão fazendo no momento.

  7. 53 Michel 27/04/2015 12:12

    Ótimo post. Você diz o óbvio ululante, mas, como dizia meu professor, nem tudo aquilo que é óbvio ululante ulula!

    A maldita da ilusão monetária faz a inflação ser até aceitável: as pessoas aceitam perda real, contanto que tenham aumento nominal. É só ver aqueles malditos pôsteres de sindicatos reclamando que os juros altos acabam com o trabalhador.

  8. 52 fernando bender 27/04/2015 11:19

    excelente defesa do controle da inflação.

    argumento pró ajuste que nenhum esquerdista com alguma faculdade lógica há de refutar.
    ao mesmo tempo, um capitalista convicto sempre há de preferir um ambiente mais seguro para seus investimentos.
    este post tem potencial de agradar a todos.
    muito obrigado, mais uma vez por suas publicações.
    abraços,
    fernando a. bender

    • Ricardo Gallo 27/04/2015 17:18

      obrigado a voce por dedicar tempo a elas e comentar.

  9. 51 Hudson 27/04/2015 11:14

    O maior embuste do mundo dos investimentos é a ideia de que “o valor do imóvel acompanha a inflação” rs

    Quanto ao aluguel, o que temos visto são quedas e mais quedas, é ilusão achar que um investidor estará protegido da inflação apenas reajustando seus aluguéis. O locador se muda e deixa o investidor na mão.

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