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domingo, 30 de agosto de 2015 Crise Brasileira, Investimentos | 16:27

O micro pibinho e o impeachment econômico

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Os dados recentes publicados pelo IBGE sobre a atividade econômica do segundo trimestre são horrorosos. E nada indica que isto vai melhorar.

A taxa de crescimento da economia no segundo trimestre foi negativa em 2,1% quando comparamos com o mesmo trimestre do ano passado, como mostro em preto no gráfico retirado do site do IBGE:

 

pibanoano

 

 

 

É o pior resultado dos últimos 20 anos, só comparável  com o pior momento da crise de 2009 ( vermelho). A desaceleração que já vinha desde 2010 ( seta roxa) ficou dramática desde 2013. O mesmo pode ser visto no gráfico azul abaixo que mostra a tendência central do volume da produção nacional de bens e serviços ( PIB) desde 1996, calculada pelo IBGE:

 

pibtrend

 

 

Fica evidente aí a inflexão que ocorreu na atividade econômica em 2013 (seta amarela), que vem em tendência de queda desde então ( cinza). Ou seja, não dá para culpar o coitado do Levy.

A queda na atividade atingiu principalmente os setores ligados à atividade interna, como o mostra gráfico abaixo:

 

pibsetor

 

 

 

Quando comparamos com o mesmo trimestre do ano passado, vemos em marrom que setores ligados ao lado externo da economia, como Mineração e Agropecuária, cresceram. Mas que comércio, construção e indústria de transformação afundaram (amarelo). Ou seja, há algo de podre em nossa economia, que não pode ser justificado por fatores externos. Né?

E isto fica mais claro ainda quando vemos o que está acontecendo com o investimento produtivo aqui dentro:

 

demandapib

 

 

Vemos em amarelo que o consumo privado, que já vinha de desacelerando desde 2014 ( amarelo), reduziu-se em 2,7% quando comparado com o mesmo trimestre em 2014. Porém vemos que o Investimento produtivo (em vermelho), que já vinha caindo em 2014, acelerou sua queda e se reduziu em 11,9% quando comparado com mesmo trimestre em 2014.  E vemos que do lado da demanda, o consumo do governo é o item que cai menos. Ou seja, fica claro que quem está liderando o processo de recessão é o investimento e não o setor público. A queda dos investimentos já vem acontecendo há anos, enquanto que o consumo privado está apenas acompanhando a sua queda. Desta forma, não me parece que nosso problema tenha sido de falta de demanda interna por queda do consumo, mas de falta de investimento! Logo, para recuperarmos a economia, precisaremos acelerar os Investimentos: precisaremos estimular o Capital, em particular o Grande Capital, a se mover e a procurar novos investimentos que tenham retornos atraentes. Retornos estes que precisam ser justificados assumindo taxas mais sustentáveis para o crescimento do consumo ( 3 ou 4%  a.a.) no futuro, pois o modelo de crescimento com base no consumo elevado e  no aumento do endividamento das famílias foi para o saco! Isto deve doer muito nos ouvidos dos socialistas desenvolvimentistas distributivos que têm influenciado o governo desde 2010, com resultados, digamos, grotescos.  A Turma que achava que dava para financiar consumo crescente com despoupança para sempre dançou e nos afundou!

Para que novos investimentos sejam viáveis em cenários onde a demanda cresce 3 ou  4% a.a., é preciso reduzir as nossas taxas de juros de longo prazo para tais níveis, ou provocar uma enorme deflação nos preços relativos dos bens de capital ( bens usados nos investimentos), algo que é impossível neste ambiente de R$ fraco. E para reduzir as taxas de juros de longo prazo, é preciso reduzir o endividamento do estado brasileiro que não para de subir desde 2014 como vemos abaixo:

 

dividabrutasubind

 

 

 

 

O aumento de endividamento do Estado brasileiro foi gerado pela piora dos resultados fiscais do governo central ao longo dos últimos anos, como mostra o gráfico abaixo à esquerda, algo que ocorreu em escala bem menor nos governos estaduais e municipais, como mostra gráfico à direita:

 

 

defgovcentral

 

 

Esta necessária redução do endividamento do Estado só virá com o aumento de impostos ou com a forte redução dos gastos públicos com a máquina pública, com programas sociais, com aposentadorias e com subsídios ao setor privado em setores pouco competitivos. Os problemas dos impostos são simples:

a. mais impostos sobre o Estoque de Capital e sobre o lucro só servem para reduzir retorno dos investimentos e, portanto, o investimento privado.

b. impostos como a CMPF impactam menos o investimento, mas criam pressões inflacionárias de curto prazo e mais juros por parte do BC do B.

c. nossa carga tributária já é uma das mais elevadas entre os países emergentes e sufoca nossa economia.

A boa notícia do gráfico mais acima vem do lado externo, pois a quantidade de bens exportados tem subido e a de bens e serviços importados tem caído. Ou seja, o real desvalorizado começa a ter efeito e passa a contribuir para amenizar a recessão violenta que estamos passando.

Conclusões:

a. a crise é muito séria e começou lá atrás;

b. a crise não foi causada por nenhum choque externo, pois bolsa Chinesa estava no seu pico no segundo trimestre deste ano, e as economias americana e européia se recuperam bem.

c. não podemos culpar o ajuste fiscal do Levy, pois contas públicas têm apresentado déficits crescentes. Logo, de fato não há ajuste fiscal ocorrendo que justifique tal queda da demanda.

d. queda no investimento é enorme.

Este é o cenário. Uma Crise que já era prevista e esperada por qualquer um que fizesse contas e soubesse conceitos básicos de economia, como este que vos fala. Mas infelizmente, como vimos em vários comentários nesta coluna ao longo dos últimos anos, o bom senso econômico básico, taxado de neoliberal, foi abandonado no Brasil desde 2010.

Ou aprendemos algo com a crise, ou perderemos 20 anos de conquistas econômicas e sociais. Ou abandonamos o populismo desenvolvimentista distributivo defendido pelo governo Petista ao longo destes anos, ou iremos cada vez mais para o buraco. Ou apoiamos um ajuste fiscal sério, focado em corte das despesas do governo, ou vamos quebrar.  Não conseguiremos pagar os custos sociais que este Estado nos impõe. Não é realista. Só o crescimento econômico nos tirará da pobreza. A falência dos modelos Argentino e Venezuelano mostra o que nos espera se não revertermos rapidamente nosso curso. Ou pior, a Grécia, sim senhor. Caminhamos a passos largos nesta direção

Hora de por pressão no Congresso e no que sobrou do Executivo, para que sejam inciados os debates neste sentido. Não temos mais tempo a perder. Chega. Congresso e executivo precisam entender isto com urgência ou correm o risco da crise econômica atual atropelar a crise política atual e se transformar em crise institucional com consequências gravíssimas. Não vai dar para ficar sentado esperando 2018 chegar não senhor…

 

 

 

 

 

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4 comentários | Comentar

  1. 54 Mateus Bernardino 09/09/2015 10:53

    Bom dia sr. Ricardo, sou leitor relativamente assíduo de tua coluna e gostaria de perguntar se seria possível retornar ao antigo modo de gestão de compartilhamentos em redes sociais, atualmente os leitores têm apenas a possibilidade de compartilhar, sem a possibilidade Like (Facebook), e no meu caso, isso impossibilita que eu tenha um controle sobre quais artigos já li ou deixei de ler da tua coluna, gerando certa confusão pois dado um intervalo de ausência, não saberia onde retomar ou mesmo a título exclusivo de consulta e pesquisa. Imagino que seja uma decisão da plataforma do servidor ou do próprio site do IG, em todo caso fica a observação. Parabéns pelos artigos e obrigado. Mateus.

  2. 53 João 31/08/2015 17:00

    Prezado Gallo,
    até a data da postagem deste artigo, o governo ainda não havia encaminhado ao Congresso a “pérola” da proposta orçamentária de 2016.
    Diante disso o texto requer algum update?
    Obrigado e parabéns pelo artigo.

    • Ricardo Gallo 31/08/2015 22:03

      isto só reforça a urgência da situação

  3. 52 Marco Gluckstern 31/08/2015 11:35

    Gallo, no seu post de 20/08 no Facebook você comentou “….?? Ou vão confiscar dos que pouparam ou guardaram dinheiro ao longo da vida e já pagaram imposto sobre a renda??””. Você acha que num momento de desespero combinado com uma atitude populista de “tirar dos ricos para pagar as contas do país” o governo poderia mesmo tentar um confisco? Se sim, como ele poderia ser feito? Há instrumentos jurídicos para isso ?

    • Ricardo Gallo 31/08/2015 22:02

      nao há instrumento jurídico nenhum. nada na constituição que permita isto. precisaria mudar lei

      nao voa

      unica formas de confisco viaveis:

      a. impostos sobre patrimônio
      b inflação acelerando

      fora isto chance zero de qqer forma de confisco

      antes de tentarem isto deixam inflação explodir

  4. 51 Thales 30/08/2015 21:50

    Muito bom o texto, como sempre Ricardo. Uma pergunta: invisto em tesouro direto, mais especificamente nas ntnb 35 principal. As taxas estão bastante atrativas, ~7% + IPCA. Muito gente que fala que o risco de calote e pequeno, já que o governo pode emitir real para pagar os títulos. Entretanto, se a trajetória da divida não se estabilizar nos próximos anos, não poderíamos ter um cenário no qual o governo não sera capaz de pagar sua divida crescente e impor um “haircut” aos detentores dos títulos públicos. Qual a sua opinião?

    P.S: No longo prazo acho mais fácil a gente virar uma Argentina ou Venezuela do que a Grécia. Os gregos estão em uma melhor situação no ponho de vista, já que eles tem acesso aos fundos quase ilimitado e a custo muito baixo da União Europeia. A gente não vai ter ajuda de ninguém para rolar a nossa divida…

    • Ricardo Gallo 31/08/2015 0:21

      é improvável pois nos financiamos na nossa própria moeda. diferentemente dos gregos.

      mas as taxas de juros podem subir ainda mais se a situação fiscal não melhorar e assim gerar queda no valor de mercado destes papéis

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