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terça-feira, 7 de outubro de 2014 Bicadas, bizarro, Crise Brasileira, Politica Economica | 01:54

Os banqueiros, o déficit fiscal e a dívida pública

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Recentemente foi noticiado que a Presidenta Dilma se nega a fazer um “choque”  fiscal, pois isto significaria impor “sacrifícios ao povo para pagar juros aos ricos banqueiros”:

http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,dilma-afirma-que-pais-nao-precisara-de-ajuste-fiscal-profundo,1565983

“Nós não acreditamos em choque fiscal, isso é uma forma incorreta de tratar a questão fiscal no Brasil”, disse a presidente, pouco antes de participar de uma caminhada em Feira de Santana, segunda maior cidade da Bahia. “O Brasil precisa de uma política fiscal sistemática e robusta. Choque fiscal é um baita ajuste no qual se corta tudo para pagar juros para bancos? Se você vai ampliar alguns mecanismos, tem de explicar: vai cortar o que? Vai cortar programa social? Vai cortar o Bolsa-Família? Vai cortar os subsídios para o Minha Casa, Minha Vida?”

Bom, vamos entender alguns conceitos:

  • Dívida Pública Bruta: O governo brasileiro há décadas gasta mais do que arrecada e portanto precisa se endividar junto a investidores privados para cobrir seus gastos. Este procedimento existe aqui e milhares de outros países do mundo.
  • Superávit Fiscal Primário: é quanto o governo poupa de sua arrecadação para pagar os juros da dívida que ele mesmo contratou junto a seus credores.
  • Déficit Fiscal Nominal: é o total do buraco no orçamento do governo, que representa quanto o governo precisa se endividar adicionalmente para cobrir seus rombos.
  • Dívida Líquida: O governo levanta recursos junto a investidores também para emprestar recursos subsidiados a empresas no BNDES e para comprar dólares aumentando as reservas cambiais, visando deixá-los mais caro para ajudar às empresas exportadoras. A dívida líquida nada mais é do que o total da dívida subtraído destes aportes do governo ao BNDES e outros bancos públicos e das reservas cambiais.

Sobre a política fiscal eu recomendo a leitura deste post recente:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/09/12/saldo-das-contas-publicas-desaba-e-leva-consigo-a-poupanca/

Sobre gastos públicos, leia:

http://mansueto.wordpress.com/2014/09/17/estrutura-do-gasto-publico-em-2013-e-corte-na-despesa/

Sobre a dívida do governo este aqui ajuda:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/09/16/endividamento-elevado-demanda-ajuste-nos-gastos-publicos/

Sobre o BNDES e seus subsídios, eu recomendo ler:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/09/18/robin-hood-e-a-bolsa-empresario/

O ponto que quero destacar aqui é que há uma certa injustiça com relação aos banqueiros, pois eles não são os únicos  a receber os juros da dívida . Há outros que são “beneficiados”  por tais juros.

A dívida pública é representada por títulos públicos emitidos pelo Tesouro Nacional. Quando você compra um título público no Tesouro Direto você está emprestando dinheiro ao governo. Tais títulos são negociados no mercado financeiro. Seu vencimento pode ser bastante curto ( alguns meses)  ou mais longo ( décadas). Para quem se interessa em conhecer mais sobre o assunto, sugiro uma visita ao site:

http://www.tesouro.fazenda.gov.br/o-que-sao-titulos-publicos-

Quem compra estes títulos conta com a garantia do Governo, do Estado e do povo brasileiro que tais papéis serão honrados no seu vencimento e seus juros serão pagos como contratados.

O conceito básico de quem investe em tais papéis ( e em outros ativos financeiros ) é simples:

  • a pessoa recebe uma renda, como seu salário, dividendos ou aluguéis;
  • ela pretende economizar parte desta renda e, portanto, decide abrir mão de consumir tal montante no presente;
  • com o dinheiro poupado ela irá consumir mais no futuro, ou comprar uma casa, um carro, uma viajem ao nordeste, ou simplesmente pagar seu sustento após sua aposentadoria, complementando os benefícios que lhe serão pagos via previdência pública;
  • alguns indivíduos investem estes recursos poupados em negócios próprios, abrindo uma franquia, uma loja, uma pequena fábrica, uma doceria, um posto de gasolina, etc;
  • já a grande maioria dos poupadores que não possuem este espírito empreendedor preferem investir estes recursos em ativos financeiros, como caderneta de poupança, CDB´s, ações, fundos de investimento, VGBL, PGBL e por aí vai;
  • os recursos investidos nestes instrumentos são repassados a terceiros que desejam montar negócios próprios mas não dispõe da poupança acumulada necessária para faze-lo;
  • a taxa de juros ou a rentabilidade esperada em tais investimentos representa quanto vale para o poupador abrir mão do consumo hoje e adiá-lo por algum tempo.;

Este é o  funcionamento do processo de acumulação de poupança por parte das pessoas e do processo de investimento produtivo na economia, que é financiado através da reciclagem desta poupança através dos mercados de capitais e de crédito. A maioria dos políticos ignora disto. Eles fazem uma separação entre “capital produtivo” e “capital financeiro” que em economia não faz muito sentido. Todos os que acumulam poupança estão criando capital financeiro que financia o investimento produtivo. Se ninguém poupasse, ou seja, se todos gastassem 100% de sua renda com consumo, não haveria nenhum investimento produtivo! Ou seja, um país que quer crescer o investimento produtivo tem que fomentar a formação de poupança por parte dos indivíduos, empresas e governos.

O Governo, contudo, interfere neste processo, pois, ao gastar mais do que arrecada  ( tem déficit nominal), ele entra no mercado para tomar dinheiro emprestado e assim financiar seus déficits. O governo compete assim com outros empresários que precisam levantar recursos junto aos poupadores ( pessoas que compram tais ativos financeiros) para investir na economia. Como os investimentos em títulos públicos emitidos pelo governo apresentam baixo risco pelas garantias que oferecem, seus rendimentos são necessariamente inferiores àqueles pagos pelos empreendedores que vão levantar recursos junto aos poupadores. As taxas de juros pagas pelo Tesouro Nacional em seus papéis são guiadas pela taxa de juros fixada pelo BC na sua política monetária, que tem como objetivo combater a inflação.  Quanto maior for a inflação, maiores serão os juros do BC. E quanto maior for a necessidade de recursos por parte do governo, maior será o diferencial entre os juros pagos pelo governo e a taxa de juros fixada pelo BC. E quanto maiores forem os juros pagos pelo governo, maiores serão os juros cobrados dos empresários que desejam investir.

Vamos então descobrir quem hoje empresta o dinheiro ao governo, começando com os grandes bancos brasileiros. Na tabela abaixo  ( valores em R$ mil) vemos que em Junho último os 25 maiores bancos brasileiros possuíam mais R$ 5,5 trilhões em ativos, que incluem títulos e empréstimos:

 

bancosbras

 

Destes R$ 5.5 trilhões, cerca de R$ 2,3 trilhões estão nas mãos de bancos sob controle do próprio governo federal (BB e CEF). O BNDES não foi incluído na lista pois como já disse na prática ele não é um banco.

Deste total de ativos, apenas 7,4% ( vermelho) foram financiados com recursos próprios ( patrimônio ) dos acionistas dos bancos.  Mais de 82% dos recursos usados para financiar tais ativos vieram de depositantes e de outros poupadores que repassaram sua poupança ( ou de terceiros) aos bancos em troca de algum rendimento. Ou seja, na verdade o grosso do dinheiro dos bancos vem daqueles que lá depositam seus recursos e não de seus acionistas banqueiros.

Estes 25 bancos tiveram no primeiro semestre deste ano um retorno sobre este capital próprio dos acionistas de 15% a.a, ou seja, cerca de 4,5% a.a. acima da taxa de juros paga pelo Banco Central. Tais bancos empregam mais de 450 mil funcionários, e o lucro anual gerado por estes bancos equivale a R$ 130 mil / funcionário. O gasto com pessoal e encargos trabalhistas destes mesmos bancos equivale a R$ 170 mil por ano por funcionário, como vemos abaixo:

 

despesafunc

 

Para dados completos veja link abaixo:

http://www4.bcb.gov.br/fis/top50/top50aviso.asp?idpai=INFCONT

Logo, os banqueiros e os bancários são alguns dos beneficiados com os juros enormes que temos no Brasil, além dos depositantes e dos outros poupadores que depositaram recursos junto aos bancos.

Porém os bancos  não são os únicos que detêm títulos da dívida pública. O gráfico abaixo mostra a participação de cada tipo de investidor no financiamento da dívida do governo:

 

divpfholders14

 

 

Em agosto último todos os bancos e outras instituições financeiras detinham apenas 28,4% do total da dívida pública. E se levarmos em conta que apenas 7,4% dos ativos dos bancos são financiados com recursos dos próprios acionistas dos bancos, podemos estimar que 2% do total da dívida pública está nas mãos dos donos dos bancos, pois os outros 26% da dívida pública que hoje se encontram em poder dos bancos são financiados por seus depositantes, seja via CDB`s, depósitos de poupança, letras financeiras, bônus externos e por aí vai. Se considerarmos apenas os  maiores bancos privados, seus acionistas financiam apenas um pouco mais de 1% do total da dívida pública bruta.

Do total da dívida pública mobiliária, 21% estavam nas mãos de fundos de investimento brasileiros, onde eu, você e um grande número de poupadores investe seus recursos.

17% da dívida pública estavam com os fundos de previdência, que são fundos que investem os recursos contribuídos por seus participantes e que serão devolvidos aos pensionistas na sua aposentadoria.

Mais de 18% da dívida hoje se encontra nas mãos de investidores estrangeiros, recursos da poupança acumulada de japoneses, alemães, chineses , americanos, etc, que está investida aqui no Brasil em títulos do governo.

Outras entidades do próprio governo compram tais papéis e se beneficiam dos juros pagos pelo governo: FGTS/FAT/Fundo Soberano, detendo no conjunto 6% do total.

As seguradoras são praticamente obrigadas a investir em títulos públicos, detendo hoje 4% do total da dívida. Ou seja, o dinheiro que pagamos às seguradoras quando fazemos o seguro de nossos carros é investido em títulos da dívida do governo.

Em 2007 tal distribuição era bem diferente:

 

dpfed07holders

 

 

Os estrangeiros então representavam em 2007 apenas 2% do total investido em títulos da dívida pública do governo. Ou seja, nosso governo precisou ir lá fora para levantar recursos para cobrir seus déficits, tomando emprestado poupança externa, o que reduziu muito a participação dos bancos no bolo e elevou a parte dos gringos para quase 19% do total!

Resumindo: os banqueiros são sim beneficiados com os juros pagos pelo governo, porém além deles temos todos que depositam recursos nos bancos, em fundos de previdência, em fundos de investimentos, que compram títulos no Tesouro Direto, que fazem seguros, além dos investidores estrangeiros, que nos últimos 7 anos decuplicaram sua participação no financiamento do Estado Brasileiro. Todos estes se “beneficiam” de alguma forma dos juros e da poupança feita pelo governo através do superávit fiscal primário. E todos estes também ajudam o governo a financiar os seus déficits, pois sempre é bom ter em mente que, se não fossem estes investidores, não teríamos como financiar os gastos crescentes do Estado. Não teríamos o BNDES do tamanho que tem, a CEF do tamanho que tem, e provavelmente teríamos que cortar os gastos nos programas sociais. Como o que arrecadamos de impostos não cobre o que o governo gasta e investe, nós dependemos sim desta turma para financiar tal buraco.

Logo, se o governo não pagar os juros da dívida, não serão só os banqueiros que perderão com isto. E falar que estamos economizando para pagar os juros da dívida não é muito preciso, pois hoje o grosso do que pagamos em juros é financiado com mais dívida do governo. Se você não quer depender da poupança alheia, seja de banqueiros, depositantes ou gringos, não tenha dívida.

Evidentemente que as taxas de juros aqui são absurdas e que isto penaliza muito os tomadores de recursos e cria encargos enormes para o governo. Porém colocar a culpa disto na ganancia dos banqueiros me parece um pouco impreciso. Se aqueles que compram títulos públicos são gananciosos, nosso problema vai bem além dos bancos nacionais. Além disto, apesar das taxas de juros elevadas, nossa inflação ainda é muito alta e a taxa de formação poupança não sobe, mesmo com os enormes ganhos dos “capitalistas rentistas neoliberais” que poupam neste Brasil. Será que nossos capitalistas são mais malvados que os capitalistas americanos que aceitam ganhar menos de 1% em juros reais nos títulos da dívida pública americana? Ou será que não temos algum outro problema mais profundo?

Na minha ótica neoliberal financista vejo a realidade assim:

  • o montante que pagamos de juros depende da taxa de juros e do volume da dívida bruta;
  • se cortarmos o volume de dívida bruta, reduzindo alguns gastos do governo ou o montante repassado ao BNDES, o total de encargos sobre a dívida cai;
  • se os juros caírem, os encargos totais caem;
  • para que os juros caiam de forma sustentável precisamos aumentar a formação de poupança no Brasil;
  • se baixarmos os juros do BC sem aumentar a poupança feita pelos brasileiros, a inflação subirá ainda mais;
  • para aumentar a formação de poupança precisamos reduzir o deficit público e o privado ( que somam hoje 3,5% do PIB);
  • o aumento na formação da poupança  provoca uma queda nas taxas de juros de forma não inflacionária;
  • para reduzir o deficit publico precisamos cortar gastos públicos segundo algum critério acordado com sociedade;
  • para reduzir o déficit privado precisamos aumentar a produtividade geral, para que todos nós ganhemos mais dinheiro com o mesmo trabalho e capital, e assim possamos poupar mais e investir mais.

Ou seja, os juros elevados são uma consequência de desequilíbrios econômicos que precisam ser endereçados, e não o resultado de um complô ou cartel entre todos os financiadores do Estado. O poupador é  beneficiado com taxas elevadas de juros elevadas decorrentes da falta de poupança interna e dos déficits persistentes nas contas públicas. Enquanto não endereçarmos estas questões estruturais continuaremos a pagar juros exorbitantes.

Voltando ao debate sobre a necessidade ou não de um choque fiscal, a Presidenta de fato reconheceu que:

” O Brasil precisa de uma política fiscal sistemática e robusta”

que é algo que os dados recentes mostram que não temos tido já há alguns anos.

Os números fiscais dos últimos anos, quando comparados àqueles praticados até 2011, mostram tudo menos robustez. O que houve foi uma queda sistemática em nossos superávits fiscais, como mostram os dois gráficos abaixo:

 

primario

 

 

 

Vemos que a economia que o governo tem feito para cobrir os encargos da dívida vem despencando desde 2011 de forma preocupante, de tal forma que, apesar da criatividade em contabilizar despesas e receitas adotada pelo governo, ela chegou a seu menor nível em mais de dez anos.  E nada indica que esta tendência vá se reverter. E como o governo também não consegue manter a inflação baixa, ele precisa manter os juros altos, o que aumenta as despesas com encargos sobre a dívida pública, elevando o déficit total nominal, como vemos abaixo:

 

 

nopminal

 

 

O buraco nas contas do governo vem piorando ( ficando cada vez mais negativo,  em vermelho) e se aproxima dos piores níveis desde 2005 ( amarelo). Ou seja, o governo vai precisar se endividar cada vez mais para cobrir o buraco anual nas contas públicas que já representa 4% do que produzimos todo ano. E vai ter que convencer a turma que hoje compra títulos públicos a comprar cada vez mais títulos. Para tanto, o governo vai precisar oferecer juros maiores. Ou seja, este processo de piora do quadro fiscal é o verdadeiro vilão, que de fato enche os bolsos dos banqueiros e de todos os outros poupadores que financiam os gastos do governo. Um governo que deve pouco paga pouco juro. Um governo que tem inflação baixa paga pouco juro. Para agravar o quadro, a crise de confiança dos mercados causada pelas incertezas geradas pelo debate eleitoral fizeram como que os juros demandados nos títulos da dívida pública disparassem recentemente. Persistindo este quadro, é certo que o Brasil terá sua nota de crédito rebaixada em 2015. Isto elevará ainda mais o custo de financiamento do Tesouro, agravando nossa situação fiscal.

Reduzir a inflação rapidamente e equilibrar as contas públicas reverteria esta situação. Desta forma, vamos sim precisar de um choque ou de aperto ou de reforma ou de ajuste ou de consolidação ( chame do que quiser)  nas contas públicas no começo de 2015, através de mais impostos, ( CPMF e CIDE), menos gastos ( corte de despesas e aumento da TJLP no BNDES ) e mais tarifas ( eletricidade, transporte público e gasolina). E para reduzir os juros de forma sustentável, vamos precisar sim acelerar a convergência da inflação para o centro da meta. Nada disto é indolor. Porém será inevitável. Ou faremos isto tudo agora com alguma dor, ou daqui a alguns anos com uma dor enorme. Neste sentido, sugiro uma visita à Argentina e a Venezuela que resistiram a fazer tais ajustes e chegaram ao penhasco.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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sexta-feira, 3 de outubro de 2014 Crise Brasileira, Politica Economica, Sem categoria | 01:57

Preços das commodities, comércio, emprego e indústria caindo

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Como se já não fossem suficientes os problemas internos que nossa economia enfrenta neste momento, os preços dos principais produtos que exportamos está despencando nos últimos meses lá fora, como mostra o gráfico abaixo:

 

commbra2014

 

 

Tomando como base 100 os preços da soja ( gráfico vermelho) e do minério de ferro ( verde) nos mercados internacionais em dezembro de 2013, podemos ver claramente a enorme queda ocorrida este ano. A soja caiu 27% e o minério 43% desde janeiro.  O gráfico abaixo emprestado junto ao Banco Itau mostra um quadro similar, e com fortes indícios que a tendência de queda que se iniciou nos primeiros meses deste ano ainda não acabou:

 

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Tudo indica que o ciclo de alta de preço das commodities terminou.

SE estes preços persistirem nestes níveis, isto irá representar um enorme baque no nosso saldo externo, pois soja, minério e milho representam 30% de nossas exportações, como marquei em preto abaixo:

 

exportprod

 

 

 

Além de aumentar nosso endividamento externo, isto impacta negativamente a renda do setor exportador de commodities que vinha, ao longo destes anos, passando incólume à crise local.  Isto deve piorar ainda mais a demanda interna e esfriar ainda mais nossa economia, pois os investimentos neste setor devem desacelerar bastante nos próximos anos, já que a rentabilidade dos exportadores caiu bastante. Ou seja, os ventos que nos ajudaram até 2012 começam a mudar de lado.

Precisamos urgentemente repensar o modelo de país, pois parece que todas as forças que nos impulsionaram desde 2004 acabaram, pois até o consumo dá sinais claro de enfraquecimento como vemos no gráfico abaixo que mostra a confiança do comércio:

 

confiancacomerciogv

 

 

Vemos no gráfico preto que a confiança do comércio neste ano vem bem abaixo dos anos anteriores, e os dados recentes mostram de fato um aprofundamento na crise, como vemos marcado pela seta vermelha.

E a produção industrial, apesar dos dados de Agosto terem sido positivos, mantem a tendência geral de baixa, como vemos no gráfico abaixo da produção mensal da Indústria de Transformação ( ajustada sazonalmente) em laranja, com sua média móvel de 3 meses em vermelho:

 

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Vemos em roxo que a indústria está estagnada desde 2010 mas com os dados recentes mostrando uma forte desaceleração (preto). Vemos que a tendência de crescimento que tínhamos até 2009 foi abortada. Ou seja, desde a crise nossa indústria só encolheu, como pode ser visto no gráfico azul claro que mostra a tendência central da produção. 

E, como já era esperado, a última peça já está caindo: o emprego. O Gráfico abaixo mostra a evolução do número de pessoas empregadas nas grandes regiões metropolitanas desde 2006 :

 

pessoocup

 

Vemos que o emprego, que crescia a mais de 2% a.a. até 2011, vem se desacelerando desde então ( preto), e mais recentemente mostra contração, de forma mais aguda do que a vivida no pico da crise de 2009 ( marrom).  E a tendência ( gráfico vermelho) não é nada animadora.

O alerta vermelho acendeu. Um amigo de Brasília, veterano na política e conhecedor de economia, me confidenciou recentemente em tom de ironia que, considerando o cenário atual e as perspectivas para os próximos anos, provavelmente os candidatos da oposição já estariam  tirando o pé do acelerador na campanha, pois talvez fosse mais esperto adiar tudo para 2018. Ele até mencionou um ditado bastante triste:

 

pessimismo

 

 

Ironias a parte, de fato os desafios que se colocam para o nosso (a) próximo(a) presidente(a) são enormes, e os remédios até então adotados não me parecem os mais adequados. Ajudaria bastante se todos os candidatos entrassem em detalhes sobre como pretendem endereçar este desafio. 

Portanto, votemos com consciência e sabendo destes desafios que teremos pela frente.

 

 

 

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quarta-feira, 1 de outubro de 2014 Sem categoria | 00:39

Por que é importante controlar a inflação?

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Para reforçar a mensagem do último post:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/09/28/em-favor-da-reducao-da-autonomia-do-governo-na-conducao-da-politica-monetaria/

procurei outras respostas para esta pergunta em várias fontes. Fui encontrar a melhor delas nos últimos Relatórios de Inflação publicados pelo nosso BC, cuja última edição segue no link abaixo:

http://www.bcb.gov.br/htms/relinf/port/2014/09/ri201409P.pdf

Na página 9 se encontra o seguinte texto:

O Copom  ressalta que a evidência internacional, no que é ratificada pela experiência brasileira, indica que taxas de inflação elevadas geram distorções que levam a aumentos dos riscos e deprimem os investimentos. Essas distorções se manifestam, por exemplo, no encurtamento dos horizontes de planejamento das famílias, empresas e governos, bem como na deterioração da confiança de empresários. O Comitê enfatiza, também, que taxas de inflação elevadas subtraem o poder de compra de salários e de transferências, com repercussões negativas sobre a confiança e o consumo das famílias. Por conseguinte, taxas de inflação elevadas reduzem o potencial de crescimento da economia, bem como de geração de empregos e de renda.

Excelente. Nossa sociedade precisa acreditar nisto. Aí nossas lideranças políticas, quem sabe, irão entender a mensagem que a Instituição Banco Central do Brasil nos está mandando. AS vezes parece que só o staff do BC entende isto. Porém não acho que seja suficiente. Uma pena que mais gente do governo não leia os textos preparados pelo BC do B…

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domingo, 28 de setembro de 2014 Crise Brasileira, Inflação, Politica Economica, Sem categoria, utilidade | 19:13

Em favor da redução da autonomia do governo na condução da política monetária

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Todo este debate sobre autonomia do BC, independência, entregar o BC aos bancos privados, tirar comida da mesa dos brasileiros, me fez pensar sobre o tema. Eu acho que na verdade existe hoje, nas mãos do Governo Federal e do BC,  um excesso de autonomia e de discricionariedade na gestão da política monetária. Talvez se precise mesmo reduzir a autonomia do executivo neste front, e digo isto não só em relação ao nosso BC, pois não há hoje uma autonomia do BC, mas sim com relação aos poderes do Executivo nesta área.

Para que não seja apedrejado aqui por Dilmistas, Aecistas e Marinistas simultaneamente, cabe aqui alguns esclarecimentos sobre este meu raciocínio aparentemente tortuoso:

  • EU enxergo o dinheiro, o R$, não como um patrimônio do Estado ou do Governo. O R$ é nossa moeda. Pertence a cada brasileiro que recebe um salário todo mês em troca de trabalho, ou o bolsa família, ou a aposentadoria, pensão, ou que tenha poupança em bancos, investimentos em títulos da dívida pública e outros ativos financeiros, pois o poder de compra de tudo isto é determinado em R$, nossa moeda.
  • O R$ também pertence também a cada empresário que recebe  esta moeda quando entrega um produto ou serviço a seus clientes.
  • Em todas as situações acima, os valores do trabalho, da poupança acumulada, dos lucros e dos rendimentos são medidos em R$. Esta moeda serve para dizer quantas horas um trabalhador precisa ralar no trampo para pagar o aluguel, comprar um carro ou pagar os juros devidos ao banco. Esta moeda serve para dizer se as economias que os pais fizeram ao longo da vida serão suficientes para pagar a escola dos filhos ou para garantir a própria aposentadoria.
  • Ou seja, a moeda é um patrimônio de cada um de nós da mesma forma que nossa casa ou carro. 
  • Como estamos num sistema que respeita a propriedade privada, conforme está garantido em nossa constituição, este sistema precisa também assegurar que os direitos adquiridos pelos cidadãos nas situações acima também sejam garantidos por lei.
  • Existe hoje uma delegação do povo ao governo federal para que ele cuide do valor de nossa moeda, e assim do valor de nosso patrimônio e da renda. Desta forma, o Governo Federal tem o mandato e a obrigação de zelar pelo valor de nossa moeda da melhor forma possível. Contudo, acho que este delegação que fizemos não está completa e pode nos prejudicar bastante.

Vamos colocar isto agora no contexto familiar, usando um exemplo do dia a dia para que todos possam entender meu ponto de vista:

  • Por exemplo, se você delega a seu filho a função dele cuidar do seu carro para que assim ele possa usar tal carro no fimdes, você ficará bastante chateado se ele deixar o motor do carro fundir por não ter trocado o óleo. Mesmo que ele afirme que não trocou o óleo por achar que trocar o óleo do carro significa ser “subserviente aos DONOS DOS POSTOS DE GASOLINA e a seus frentistas inescrupulosos”.  Neste cenário, independentemente de sua visão sobre os frentistas inescrupulosos, você fica furiosos e tira o carro das mãos de seu filho pois ele não tem competência ou disciplina para cuidar do SEU patrimônio.
  • Contudo, quando você delegou os cuidados de seu carro a seu filho de 19 anos você provavelmente não deve ter sido específico sobre vários pontos, como por exemplo, com que frequência você deseja que ele troque o óleo do carro ou o que acontecerá com ele caso ele deixe o motor do carro fundir por não ter trocado o óleo. Não sei se é razoável da sua parte assumir que um adolescente que acabou de triar carta tenha o discernimento de fazer estes julgamentos mais técnicos.
  • Seria muito mais prático e eficaz se você, ao delegar ao moleque esta responsabilidade ( trivial a seus olhos), deixasse claro as regras para troca de óleo, a tolerância de intervalo entre as trocas, o tipo de óleo a ser usado, quais postos são autorizados a fazer a troca, qual a verba que ele tem para gastar em trocas de óleo que  compatível com o uso do carro, com qual frequência você quer que ele verifique o nível do óleo e qual o nível mínimo de óleo aceitável, para não deixar o coitado do moleque perdido na mão dos frentistas inescrupulosos.
  • Ajudaria também você deixar claro de antemão que se o motor do carro fundir, ele vai ficar de castigo em casa durante 23 fins de semana, e que se ele deixar o nível do óleo cair abaixo do mínimo que você aceita, você corta a mesada dele.
  • Mas se ele cumprir o mandato de forma precisa, ele poderá usar o carro no fim de semana, porém rodando no máximo 150 km…
  • Você assim delegaria ao seu filho  a gestão de um patrimônio bastante valioso para você, estabelecendo regras claras e incentivos corretos. Dentro destas regras, o moleque teria toda a liberdade ( e autonomia) para usar o carro no fim de semana, com amigos e namorada, obviamente seguindo as normas de trânsito

Creio que dada a nossa história de irresponsabilidade monetária no pós guerra, período onde tivemos inflações elevadíssimas para os parâmetros internacionais, somada ao aparente desconhecimento por parte dos nossos governos sobre qual o real papel do executivo no que diz respeito a gestão da moeda , penso que hoje damos uma autonomia excessiva ao executivo como um todo ( BC, Ministério, Conselho Monetário, Presidência, etc) na gestão deste patrimônio que é seu e meu.

Não está funcionando apenas dizer que é obrigação do BC cuidar do valor de nosso patrimônio, a moeda, e virar as costas. Como vimos no exemplo acima do carro e do adolescente, uma definição vaga como a atual pode ter inúmeras interpretações e estar sujeita a ideologias, sentimentos, angústias, idiossincrasias, que interferem na boa gestão do nosso patrimônio. O que hoje delegamos ao governo quando fixamos a meta de inflação é o seguinte: se eu tiver R$ 100 no começo do ano, quero poder comprar no final do ano o equivalente ao que hoje eu compraria com R$ 93,90, no mínimo, ou com R$ 97,60 no máximo.  E após vários anos, o que desejo mesmo é que eu  consiga comprar no final do ano em média o equivalente ao que compraria por R$ 95,70 do início do ano. Isto é o que significa ter uma meta de inflação de 4,5% a.a, no ano calendário, mas que pode flutuar entre 2,5%a.a e 6,5% a.a.. 

Este é o mandato dado ao nosso zelador patrimonial, o Governo Federal e seu BC. Mais ou menos assim: uma vez por ano eu vou olhar o carro e se ele estiver batendo pino ou vazando óleo tudo bem, mas não pode fundir o motor, senão eu grito!!! Ou seja, isto não vai prestar não…

Pelos resultados da inflação nos últimos anos e pelo sentimento negativo do povo em geral com relação a carestia,  parece que estamos dando muita autonomia, muita independência, ao Estado e suas instituições neste assunto, pois nosso R$ está batendo pino já há alguns anos.

Apesar de nossa meta  de inflação estar centrada em 4,5% a.a., o porcentual do tempo que ela tem ficado acima de 5,5% tem crescido muito nos últimos anos:

 

topoinfbanda

 

 

Nossa inflação se situa entre as maiores do mundo, como vemos em verde no ranking abaixo:

 

rankinfla

 

 

E a sua tendência desde 2007 é muito ruim:

 

 

 

ipcanuctrend

 

 

E é bom lembrar que para cada 2% de inflação a mais, num sistema onde os salários são indexados anualmente à inflação, há uma perda média de renda real de 1%. Isto equivale, em termos de perda de renda agregada dos trabalhadores, a um aumento de 20% no desemprego!!!

Este comportamento de continuada elevação inflação que vem desde 2007 foi acompanhado de uma queda relativa nos preços dos produtos e serviços monitorados pelo governo:

 

ipccontipctodos

 

O gráfico azul, que teve uma elevação expressiva até 2007 ( em verde claro), mostra a evolução dos preços relativos dos bens e serviços monitorados pelo governo ( eletricidade e gasolina entre outros) e os preços gerais usados no cálculo da inflação. DE 2007 para cá vemos que os preços monitorados despencaram ( vermelho) em relação aos preços gerais. Ou seja, mesmo com os preços monitorados andando abaixo da inflação geral desde 2007, a inflação total não caiu.

Enfim, tudo indica que o atual mandato que hoje damos ao pessoal em Brasília no front inflacionário precisa de reforços e regras mais restritivas.

Além disto, o fato do governo ter este mandato vago traz uma enorme insegurança ao se investir em projetos com longo prazo de maturação, pois vai saber quanto meu dinheiro vai estar valendo daqui a 5 ou 10 anos! Para eu deixar minha grana investida por tanto tempo eu preciso ter uma rentabilidade esperada mais elevada, senão é melhor gastar minha grana com consumo rapidinho, pois vai saber se meu dinheiro investido vai me permitir consumir a mesma coisa lá na frente! Como muita gente pensa assim, a poupança privada não aumenta, tampouco o investimento produtivo. Com isto, a economia perde folego.

Logo, eu entendo que os 3 candidatos estejam 100% corretos em suas posições:

  • A Presidente Dilma está correta ao dizer que dar autonomia ao BC nos moldes atuais não seria adequado, pois o excesso de autonomia dá no que deu;
  • O Governador Aécio está correto ao dizer que não adianta por em lei que o BC é autônomo como hoje, sem definir claramente os limites desta autonomia, pois a estabilidade monetária é um direito de cada um e obrigação do Estado;
  • A Senadora Marina está também correta ao afirmar que é preciso criar uma lei definindo isto como uma obrigação do Estado através de uma emenda à Constituição Brasileira, uma vez que se trata de um direito de cada cidadão, assim como o direito à propriedade.

Ao mesmo tempo, eu acho que estão todos errados, pois o que o povo quer não é autonomia, nem dependência, nem banqueiro rico, nem banqueiro pobre.  Eu quero uma moeda estável, bem cuidada, cujo valor seja previsível no curto, médio e longo prazo. E que desta forma o valor dos meus bens e renda sejam protegidos. E espero isto dos zeladores que trabalham para nós em Brasília.

Neste sentido, sugiro a leitura deste texto abaixo:

http://siepr.stanford.edu/?q=/system/files/shared/pubs/papers/pdf/12-009.pdf

feito pelo excelente economista John Taylor, cujo texto termina assim:

For all these reasons Friedman argued that the Fed needed to be guided by rules. And of course his particular monetary framework was centered on a money growth rule. The question for the future is how we get back to a rules-based monetary framework and stay there.

Cabe aos candidatos à presidência apresentarem propostas de como pretendem cumprir esta função por nós delegada. Lembro que a gente pagará o salário dele ou dela a partir do ano que vem. E em R$. Logo, estamos aqui defendendo os interesses dele ou dela também.

Peço assim aos leitores que se unam a mim nesta batalha e empunhem a bandeira:

#abaixoautonomiadogovernonapolíticamonetaria

ou:

#bccuidedomeudindim

E se os banqueiros ou frentistas atrapalharem, o governo fica autorizado a mudar de banqueiros ou de posto de gasolina:

 

dia-do-frentista (3)

 

 

 

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quinta-feira, 25 de setembro de 2014 Crise Brasileira, Crise global, Inflação, Sem categoria | 02:49

A inflação no mundo caiu, mas aqui…

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Num mundo  globalizado é de se esperar que as inflações entre os diversos países caminhem com alguma sincronia no longo prazo. Através do comércio exterior, os preços de produtos similares nos diversos mercados tendem a flutuar juntos, uma vez que é possível em alguma extensão importar ou exportar tais bens, o que acaba equilibrando a variação dos preços no globo.

Pois é. Parece que esta regra não se aplica ao Brasil.

Elaborei, com dados da Bloomberg, um ranking de alguns países com base na inflação acumulada em doze meses em Julho último:

 

rankinfla

 

 

Vemos que dentre estes mais de 50 países temos uma das dez maiores taxas de inflação ( verde) . Isto é bem acima da média da amostra de 4,5% a.a. ( vermelho) e da sua mediana de 2,9% (amarelo) , que de fato é a medida mais significativa pois ela reduz o efeito dos países de altíssima inflação ( marcados em marrom no topo da tabela) e com baixa inflação e deflação ( em vermelho no inferior da tabela) no cálculo de uma valor representativo da amostra.

Conclusão: nossa inflação em termos relativos está elevada. Mas isto é novo?

Para responder esta questão, o gráfico abaixo mostra a evolução da mediana da inflação da amostra acima, da inflação na Zona do Euro e nos EUA desde a crise de 2009 vis a vis a nossa inflação:

 

nossainfmundo

 

O gráfico verde mostra a evolução de nossa de taxa de inflação de 12 meses. O laranja mostra a evolução da inflação na Zona do Euro, em vermelho nos EUA e em azul da mediana da amostra. Vemos que de 2011 para cá a inflação global vem caindo gradativamente, tendo se estabilizado contudo ao redor de 2,5% a.a. Contudo vemos que nossa inflação se descolou da inflação global desde 2010. Em cinza podemos notar que naquela época nossa inflação era cerca de 1,5 pontos percentuais superior a média global.  Hoje tal diferença chega a mais de 3,5% a.a ( marcado em preto). Ou seja, nossa inflação se distanciou da inflação global. E isto  aconteceu num cenário de desaquecimento da nossa economia vis a vis a dos outros países, como vimos em:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/09/23/sra-presidenta-que-crise-externa-e-essa/

Seria de se esperar que nossa inflação caísse mais rápido do que no restante do mundo, na medida em que a nossa economia se desaqueceu mais nos últimos anos.

É muito importante entender os motivos deste comportamento tão disparatado de nossa inflação e de nossa economia. Acho importante que os candidatos tragam  ao debate eleitoral seus diagnósticos sobre esta questão  e tragam propostas em seus planos de governo para alterar este dinâmica atual tão perniciosa, quando convivemos com uma inflação elevado e um crescimento baixo. 

 

 

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terça-feira, 23 de setembro de 2014 bizarro, Crise Brasileira, Crise global, Sem categoria, utilidade | 14:11

Sra. Presidenta: que crise externa é essa que tanto nos atrapalha?

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Um dos principais argumentos usados pelo governo para justificar a performance pífia de nossa economia nos últimos meses é que ela seria uma consequência da crise de 2008 e 2010 que estaria afetando a todos os países, como vemos neste trecho abaixo retirado de entrevista recente:

http://g1.globo.com/politica/eleicoes/2014/noticia/2014/09/dilma-diz-que-mudanca-na-economia-brasileira-depende-dos-eua.html

A presidente Dilma Rousseff, candidata do PT à reeleição, afirmou, em entrevista gravada no domingo e transmitida nesta segunda-feira (22) pelo “Bom dia Brasil”, que a política econômica atual está na “defensiva” por causa da crise financeira internacional e que qualquer mudança dependerá de uma melhora na economia dos Estados Unidos.

(Veja a íntegra da entrevista e leia a transcrição da entrevista em Bom Dia Brasil entrevista Dilma Rousseff.)

“A gente tem de ver como que evolui a crise […] Os Estados Unidos evoluindo bem, eu acho que o Brasil pode entrar numa outra fase, que precise de menos estímulos. Pode ficar entregue à dinâmica natural da economia e pode, perfeitamente, passar por uma retomada”, afirmou aos jornalistas Miriam Leitão, Chico Pinheiro e Ana Paula Araújo.

Segundo a presidente, apenas com a recuperação econômica de outros países será possível adotar, no Brasil, uma política econômica “ofensiva”. “Estamos numa situação em que o Brasil está na defensiva em relação à crise internacional. Protegendo emprego, salário e investimento. Essas três variáveis. Por quê? Porque vamos apostar numa retomada. Na retomada você muda a política econômica de defensiva para ofensiva.”

Levantei uma amostra de alguns países (com dados da Bloomberg ) eu calculei a média da taxa trimestral anualizada de crescimento econômico nos últimos quatro trimestres para cada país da amostra do segundo trimestre deste ano:

 

pib4t

 

 

Vemos nesta lista de países de diversos continentes, inclusive entre aqueles que estiveram no epicentro das últimas crises, que nossa economia (verde)  de fato tem performado muito mal em termos relativos: -0,81 % vs. 2 % na média ( amarelo).

O gráfico abaixo mostra a performance deste indicador para algumas regiões do mundo, contra a média e mediana da amostra e o Brasil, desde 2004 :

 

 

grafpibregiglobal

 

Em roxo, temos a região do Euro. Os EUA estão em vermelho. A média da amostra está em preto. A mediana em amarelo. E em verde o Brasil.

Uma análise do gráfico preto mostra que a economia mundial de fato se desacelerou depois de 2009.  Até 2008 a média dos países da amostra crescia a mais de 4% a.a. Hoje tal crescimento está ao redor de 2%.a.a.

Porém nossa performance foi bem pior do que a média. Vemos no gráfico verde que a nossa economia vinha performando acima da média da amostra (preto) até 2011. De lá para cá a coisa piorou, e mais recentemente nossa performance ficou bem abaixo da média da amostra, dos EUA, da Europa e da mediana da amostra. Nos últimos trimestres a coisa ficou mais dramática, pois nossa performance relativa afundou de vez ( cinza?).

Logo, se há alguma crise, ela não me parece que seja tão externa não. Eu entendo que em campanhas políticas o que importa são as versões e não os fatos, mas neste caso eu não pude resistir e apontar isto. Sra. Presidenta:  sabemos que existem coisas positivas em seu governo. Portanto, não precisamos ficar procurando desculpas como esta para ganhar votos…

E o que quer dizer medidas defensivas? Preservar investimento?? Mas nossa taxa de investimento está despencando!!!

E quais são as medidas ofensivas preparadas para 2015?

O que de fato importa mesmo é o que a senhora pretende fazer para mudar este quadro num segundo mandato.  E negar a realidade dos fatos não nos ajuda em nada neste sentido.

 

 

 

 

 

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quinta-feira, 18 de setembro de 2014 Bancos, bizarro, Brasil, Empresas, Impostos, Inflação, Juros no Brasil, Livros e publicações, Politica Economica | 21:48

Robin Hood e o Bolsa Empresário

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Como já falei aqui algumas vezes, a carteira de empréstimos do BNDES tem subido bastante desde 2008. Ela dobrou de tamanho ( como % do PIB ) nos últimos 6 anos, como mostra o gráfico azul abaixo da evolução da carteira total de empréstimos do BNDES como % do PIB dos últimos 12 meses desde 2007:

 

 

bndespibserie

 

 

 

Uma das críticas mais contundentes feitas pelos candidatos da oposição ao governo atual está centrada nos critérios adotados pelo BNDES em seus empréstimos. De fato é muito difícil saber para quem o BNDES empresta, a que taxas,  em quais condições e com qual finalidade. Não há nenhuma transparência uma vez que o BNDES é considerado um banco e, portanto, estaria protegido pelo siglo bancário, da mesma forma que os clientes do BB estariam. Contudo, há uma falha enorme neste argumento, pois na prática o BNDES de fato é uma agência de fomento e um mero repassador de recursos do Tesouro Nacional para seus clientes em condições favorecidas vis a vis as existentes no mercado de crédito.  O BNDES toma recursos junto ao Tesouro Nacional e junto aos Fundos Públicos sob administração do Governo e os repassa a seus “clientes” a taxas inferiores às taxas de mercado.

Os dados que mostrarei abaixo foram retirados das demonstrações financeiras do BNDES:

http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/export/sites/default/bndes_pt/Galerias/Arquivos/empresa/download/0614pt.pdf

Também coletei alguns dados nos demonstrativos financeiros individuais de empresas que têm suas ações listadas na bolsa. Estas são grandes empresas, com acionistas privados, que gozam de pleno acesso aos mercados bancário e de capitais, doméstico e internacional. Além disto levantei dados  de algumas grandes empresas que não possuem ações listadas na bolsa, mas que têm amplo acesso ao mercado de capitais e, portanto, divulgam informações sobre seu endividamento.

Vamos começar olhando os dados recentes do BNDES. Embora ele seja considerado um banco, 90% de seus recursos vêm de apenas um depositante: o G0verno Federal ( “nóis”), seja através do Tesouro Nacional ou dos Fundos Públicos sob administração do Governo ( PIS/ PASEP e FAT), os quais listo abaixo:

Repasses do Tesouro Nacional: 430 bi

Repasses do FAT : 192 bi

Repasses do PIS/PASEP: 33 bi

Capital Aportado pelo Tesouro: 74 bi

Total aportado pelo Governo: 729 bi

Total do Ativo do BNDES: 803 bi

Ou seja, o BNDES na verdade não é um banco que capta recursos no mercado junto a investidores e depositantes, competindo com outros bancos por recursos, como é o caso da CEF e do BB. Quando o BNDES precisa de dinheiro ele liga para o Tesouro e pega emprestado por 50 anos de prazo. Estes repasses do governo e dos recursos dos fundos dos trabalhadores ao BNDES ( e aos tomadores de recursos) são na sua maioria indexados a TJLP . Como a TJLP hoje custa 5% a.a. e a taxa de juros paga pelo governo em sua dívida é de 11% a.a., há um subsídio real implícito de 5,4% a.a. que é repassado por nós contribuintes, através do Tesouro ou do nosso FGTS, ao BNDES.  O BNDES capta assim recursos 5% a.a. mais barato do que o BB precisa pagar para levantar novos recursos no mercado. 

Levantei alguns dados do BB em seu site para poder comparar os dois “bancos”:

file:///C:/Users/ricardo.gallo.GALLO/Dropbox/2T14DemoContBR.pdf

Na medida em que o BNDES capta recursos bem mais baratos do que o BB, seria razoável presumir que o BNDES fosse um banco extremamente rentável.  Porém o quadro não é assim. O BNDES lucrou R$ 5,5 bi no primeiro semestre de 2014, o que representou um retorno sobre o patrimônio líquido de 7,4% no semestre. O BB lucrou os mesmos 5,5 bi, o que representou um retorno de 7,7% no semestre. Ou seja, apesar do nossos subsídios ao BNDES,  os lucros e os retornos das duas instituições são bastante similares. Ou as despesas do BNDES são muito maiores que as do BB ou os subsídios que damos ao BNDES estão indo parar nas mãos de seus clientes tomadores de recursos.

As despesas administrativas e de pessoal do BB somaram R$ 17.9 bi nos primeiros 6 meses deste ano. Já no caso do BNDES as mesmas despesas somaram menos de R$ 1 bi.

Fica assim demonstrado que, na medida em que os dois bancos têm lucros similares e patrimônios similares e que o BNDES tem despesas menores, o benefício do  subsídio recebido pelo BNDES está sendo portanto repassado para seus clientes tomadores de recursos.

Assumindo que este subsídio de 5% a.a. se mantenha ao longo do tempo, como esperam os tomadores de recursos junto ao banco,  e que pelo menos 80% dos repasses do Tesouro e dos Fundos ao BNDES são indexados a TJLP ( aprox. R$ 600 bi), podemos estimar que o montante total de subsídios anual dado aos clientes do BNDES ultrapassa R$ 30 bi, o que equivale a o,6% do PIB,  ou  50% do total de economia feita pelo governo nos últimos doze meses, como mostrei em :

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/09/12/saldo-das-contas-publicas-desaba-e-leva-consigo-a-poupanca/

Mas quem paga este subsídio?

A conta é mais ou menos dividida assim:

a. 70% é pago pelos contribuintes que pagam impostos ( ou pelos usuários do sistema público de saúde que recebem um serviço de péssima qualidade do governo), pois o governo recebe apenas 5% A.A. DE JUROS nos repasses ao BNDES e paga mais de 11% a.a. para levantar os mesmos recursos no mercado;

b. 30% é pago pelos trabalhadores, pois o saldo do FAT, que poderia ser emprestado ao governo a 11% a.a. sem nenhum risco, é emprestado ao BNDES a 5% a.a.;

Mas quem recebe este subsídio?

Aí a coisa fica mais difícil, pois o BNDES se esconde atrás do sigilo bancário e não divulga o nome das empresas que tomaram recursos junto ao banco ou junto aos bancos privados para os quais ele repassa recursos subsidiados. Para levantar estes dados precisei colocar uma turma de “detetives financeiros” atrás de dados das empresas, uma a uma, que publicam seus demonstrativos de acordo com as regras da CVM. Lá podemos identificar o montante de recursos que cada uma delas levantou junto ao banco. Porém, para limitar o trabalho, eu fiz algumas amostras:

a. levantei os dados das 60 empresas que têm ações listadas na bolsa e compõem o Índice Bovespa. São empresas que possuem acesso a mercados de capitais e recursos internacionais.Das 60 empresas, 44 devem algum para o BNDES ( 73%). O total da dívida junto ao BNDES ( diretamente ou via repasses de bancos privados) destas empresas chega a 126 bi em Dezembro de 2013, ou seja, 22% do total de empréstimos do “banco” naquela data. Os empréstimos do BNDES representam na média 17% da dívida total destas empresas. Catorze destas empresas possuem dívidas junto ao BNDES que representam mais de 20% de seu endividamento total.

b. verifiquei se havia outros casos entre as empresas listadas na bolsa e que possuíam montante relevante de dívidas junto ao BNDES. Identifiquei mais 3 empresas listadas na bolsa que deviam no total R$ 6 bi ao BNDES.

c. Identifiquei mais 7 grandes empresas, que não possuem ações listadas na bolsa, mas que devem ao todo R$ 9 bi ao BNDES.

Ou seja, no total identifiquei, com muito esforço, 54 grandes empresas que têm acionistas privados, que devem no total 141 bi ao BNDES ou cerca de 25% do total de empréstimos deste em Dezembro último.

Entre as 44 empresas que devem ao BNDES e fazem parte do IBOVESPA pude identificar que pelo menos 80% do montante devido tinha algum tipo de subsídio nos juros cobrados.  Ou seja, podemos estimar que estas 54 grandes empresas levantaram R$ 112 bi em empréstimos subsidiados, absorvendo anualmente mais de R$ 5 bi em subsídios que saíram de nossos bolsos e foram para o colo dos acionistas destas empresas. 

Consultando os demonstrativos disponibilizados pelo BNDES podemos ver que 50% da carteira de empréstimos vencem de 2018 em diante. Ou seja, as empresas que tomaram este dinheiro “social” do governo irão usufruir por um bom tempo destes subsídios. E para minha surpresa, além dos R$ 59o bilhões em empréstimos já desembolsados e que estavam carteira do BNDES em junho último, existe o compromisso assinado para liberar mais R$ 170 bi, como vemos em vermelho abaixo:

 

 

compromissocredito

 

 

Isto que dizer que se o BNDES continuar apenas a rolar os empréstimos hoje em carteira, parando totalmente de fazer novas concessões, só com os compromissos já assumidos a carteira total de empréstimos irá para R$ 760 bi ou 15 % do PIB! O BNDES terá assim  quase 25% de todos os empréstimos feitos por todos os bancos no Brasil. Neste sentido vale a pena ler:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/09/04/a-estatizacao-do-credito/

E o subsídio anual, que hoje passa de R$ 30 bi, saltaria neste cenário para R$ 38 bi, ou seja, 50% a mais do que gastamos anualmente com o Bolsa Família!

Além disto, os repasses do Tesouro Nacional ao BNDES aumentam a dívida pública do Governo Federal, pois obrigam o Tesouro a emitir mais títulos de longo prazo para financiar tais aportes. Hoje já são mais de R$ 430 bi em aportes do tesouro junto ao BNDES ( 8,4% do PIB), que  já representam 13% da dívida total do governo. Para entender os problemas que isto causa vale a pena ler:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/09/16/endividamento-elevado-demanda-ajuste-nos-gastos-publicos/

Finalizando, existem também as participações acionárias do BNDES. O BNDES investe direto em empresas, comprando ações das mesmas, tornando-se assim sócio minoritário.  São 66 bi em ações de empresas, na sua grande maioria listadas nas bolsas. Deste total 37 bi estão investidos em ações da Petrobrás e 7 bi em ações da Vale. Além disto, ele tem mais 16 bi em investimentos em ações de 6 empresas privadas onde o BNDES participa do bloco do controle. Deste montante  6 bi estão investidos na JBS somente.

Enfim é preciso questionar os candidatos, situação e oposição, sobre como eles irão lidar com estas questões:

  • Até quando irá crescer a carteira de crédito do BNDES?
  • Como será feita a redução da carteira?
  • Quando iremos conhecer quem recebeu estes subsídios do BNDES até hoje? Iremos manter o sigilo bancário no BNDES, mesmo sendo ele uma agência de fomento e que distribui subsídios a brasileiros e brasileiras escolhidos a dedo?
  • Quais os critérios que serão usados daqui para frente na seleção dos clientes e projetos que merecem ser subsidiados através do BNDES?
  • Quem vai fixar e aprovar quanto do orçamento público será gasto anualmente com subsídios ao BNDES nos próximos 5 anos?
  • O que irá ocorrer com a TJLP? Ela vai continuar 5% a.a. abaixo do custo de financiamento do Governo ou vai subir?
  • O que ocorrerá com o custo dos empréstimos do BNDES que hoje estão indexados a TJLP se o governo decidir aproximá-la da taxa Selic, como proposto por alguns economistas mais ligados ao governo?
  • Caso se decida colocar um limite no crescimento dos ativos do BNDES, quem irá entrar no lugar do BNDES e financiar às empresas que precisam de recursos de longo prazo?
  • O que será feito para ampliar o mercado de capitais doméstico?
  • Iremos finalmente liberar os controles de capitais e ampliar a convertibilidade de nossa moeda e assim permitir que bancos e investidores estrangeiros atuem mais livremente no financiamento de nossas empresas aqui, competindo de forma saudável com bancos e fundos locais? 
  • Não teria o governo criado a bolsa empresário na forma de subsídios dados através do BNDES?
  • Não estaria o governo sendo um Robin Hood às avessas, tirando dos pobres e dando aos ricos?

 

 

Robin Hood  Net7Art

 

 

 

E quem seriam os Leões no nosso caso?

Para aqueles que gostam do assunto intervenção do Estado na economia, recomendo a leitura de:

9780674729681

 

 http://www.hup.harvard.edu/catalog.php?isbn=9780674729681

Há um capítulo especial dedicado ao nosso BNDES.

 

 

 

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terça-feira, 16 de setembro de 2014 Crise Brasileira, Juros no Brasil, Politica Economica, Sem categoria | 02:51

Endividamento elevado demanda ajuste nos gastos públicos

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Qualquer família entende isto: se você deve ao banco e sua renda não sobe, é preciso controlar as despesas. Certo? Alguém discorda?

E o mesmo vale para empresas ou governos.

Em post recente mencionei a questão da queda do nosso superávit primário, que é a economia que o governo faz para poder arcar com os juros que incidem sobre a dívida:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/09/12/saldo-das-contas-publicas-desaba-e-leva-consigo-a-poupanca/

O governo arrecada recursos via impostos, contribuições, taxas, royalties e o lucro das estatais que é distribuído na forma de dividendos. Ou seja, o governo nos taxa de forma direta ou indireta e com esta receita paga a folha de pagamento e toda a despesa para manter a máquina pública funcionando. O que sobra dos recursos arrecadados depois de pagar estas despesas é o chamado superávit fiscal primário.

O Resultado Nominal do Governo é um conceito mais amplo: é o resultado das contas públicas que sobra depois do governo receber os juros sobre seus investimentos (juros recebidos nos empréstimos ao BNDES e nos investimentos das Reservas Internacionais) e pagar os juros sobre a dívida pública ( interna e externa). SE o resultado for positivo significa que sobrou dinheiro para o governo amortizar o principal de sua dívida. Se o resultado for negativo significa que o governo precisará se endividar ainda mais para cobrir seus encargos correntes com juros.

A evolução do endividamento bruto do governo pode ser visto no gráfico azul abaixo:

 

divbruta

 

Ele mostra o total da dívida do governo como % do PIB desde 2001. O gráfico laranja mostra sua tendência central filtrada. Vemos que de 2002 até 2008 havia uma tendência forte de queda em nosso endividamento que foi interrompida na crise. O forte crescimento da economia e os elevados superávits daquela época nos permitiram reduzir o montante de nossa dívida como % do PIB rapidamente. Porém de 2008 para cá a dívida mostra uma tendência de elevação. Parece que não conseguimos vir abaixo dos 60% do PIB. Mas isto é muito? Sim , como podemos ver no gráfico abaixo:

 

 

divpubpaises

 

As barras azuis verticais mostram a dívida total de alguns países emergentes, como % de seu PIB, valores médios de 2010 a 2013. Vemos o Brasil, em vermelho, e a Índia como destaques negativos. Em amarelo notamos que a média da amostra está ao redor de 40% do PIB, ou seja, bem abaixo dos nossos mais de 60% do PIB.

Mas quando comparamos nossa dívida com a dos países Europeus periféricos como Espanha, Portugal e Itália, ou até mesmo com Estados Unidos, nossa situação não é tão ruim:

 

 

divbrutadevbras

 

 

Vemos que vários países desenvolvidos apresentam endividamento bastante superior ao nosso. Contudo, é importante lembrar que as taxas de juros reais ( juros básicos do BC local subtraídos da inflação)  destes países desenvolvidos é bem menor do que a nossa, como vemos em amarelo no gráfico abaixo:

 

jurorealpaises

 

 

A razão é simples: quanto maior a autonomia dos BC´s, mais rígido seja o sistema de metas de inflação adotado,  mais credibilidade tem o BC. Assim são necessárias taxas de juros cada vez menores para se manter a inflação na meta. No caso brasileiro, apesar dos juros elevados não temos conseguido trazer a inflação para centro da meta, o que mostra que houve uma certa erosão da credibilidade do nosso BC nos últimos anos.

Mas e daí? Bom, se você deve R$ 60 mil e paga 4% de juros, seus encargos com juros somam R$ 2400,00. Se você deve R$ 120 mil, mas paga 1% de juros, seus encargos serão de R$ 1200,00, ou seja, a metade. Logo, comparar o tamanho das dívidas sem levar em conta os juros pagos é uma enorme tolice. Ou seja, a combinação de juros elevados e o estoque elevado de nossa dívida aumentam o montante de encargos que o governo precisa pagar, o que demanda uma economia maior por parte do governo ( superávit primário) para saldar os juros da dívida..

Mas infelizmente a poupança que o governo vem fazendo é insuficiente para pagar os juros da dívida, o que tem impedido que a dívida bruta caia como vimos no primeiro gráfico acima. O gráfico azul abaixo mostra a evolução do resultado nominal do governo ( necessidade de financiamento do setor público – série 5727 do site do BC)  como % do PIB dos últimos 12 meses desde 2002 :

 

resnom

 

 

O gráfico vermelho mostra sua tendência central filtrada. Faz muit0 tempo que não apresentamos um superávit nominal. Vemos que de 2002 até 2008 ( seta verde) o nosso déficit nominal caiu  de 5,5% do PIB para menos de 3%. Porém a partir de 2012, o déficit voltou a aumentar ( seta negra) e está em tendência bastante preocupante, como mostra a projeção que fiz seguindo a tendência dos últimos 2 anos. No final de 2015, mantida esta tendência dos últimos 2 anos, nosso déficit chegará a 4% do PIB: ou seja, recuamos 10 anos no tempo…

O que isto quer dizer?

Nosso estoque de dívida cresce em função do tamanho do déficit nominal. Numa economia onde o PIB não cresce (estagnada) um déficit nominal de 4% do PIB eleva a dívida bruta na mesma magnitude no período de um ano. Ou seja, no final de 2015 nossa dívida bruta deve atingir 70% do PIB se continuarmos nesta trajetória e se nosso PIB não reagir.

Tal situação preocupa e pode nos levar ao rebaixamento de nossa nota de crédito externo, o que pode encarecer ainda mais o custo de capital e afetar negativamente os investimentos no país. Sem uma consolidação fiscal, que aumente a poupança do setor público rapidamente, e sem reformas estruturais, que permitam a redução sustentável de nossa taxa de juros, nossa situação fiscal só tende a piorar. Parece que os candidatos da oposição está cientes disto e apresentam algumas propostas neste sentido, porém seria importante a Presidenta Dilma também prestar atenção nestes fatos gravíssimos. 

 

 

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sexta-feira, 12 de setembro de 2014 Crise Brasileira, Politica Economica, Sem categoria | 01:35

Saldo das contas públicas desaba e leva consigo a poupança

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Gráfico abaixo mostra o que está acontecendo com o saldo das contas do governo nos últimos 12 meses:

 

superavitprima

 

 

Em verde marquei o comportamento do saldo primário ( poupança feita pelo governo ) de 2002 até 2009, que andava acima de 3% do PIB por ano. DE 2011 para cá a coisa afundou ( vermelho), e sua tendência central ( gráfico laranja) é muito preocupante, pois indica que o pior ainda está por vir. O gráfico abaixo, preparado pelos economistas do Banco Fibra, ajuda a ver a gravidade da situação:

 

 

prim7m

 

 

As barras azuis verticais mostram ano a ano o montante de saldo fiscal acumulado nos primeiros sete meses de cada ano desde 2003, como % do PIB. Vemos que até 2008 este saldo acumulado nos primeiros sete meses do ano ficava acima de 4,0% do PIB ( verde), pois a maior parte do superavit é atingido no começo do ano. Vemos em amarelo que de 2011 para cá o saldo fiscal acumulado nos primeiros 7 meses do ano tem desabado, chegando a apenas 0,8% do PIB este ano (preto), ou seja, menos de 1/5 do que tínhamos até 2008. Isto é muito preocupante pois mostra que dificilmente atingiremos a meta fiscal este ano. Além disto, este saldo pífio e cadente tem sido inflado por estratégias de engenharia contábil que ferem alguns princípios da contabilidade:

  • receita decorrente de dividendos dos bancos públicos recebidos pelo Tesouro Nacional é tratada como receita primária do governo, embora os bancos públicos apresentem níveis já elevados de endividamento e demandam muitas vezes mais capitalizações: ou seja, governo injeta capital nos bancos e retira este mesmo capital na forma de dividendos para aumentar a receita contábil;
  • o Tesouro Nacional está atrasando o repasses aos bancos dos benefícios a serem pagos aos cidadãos. Tais bancos então adiantam tais recursos aos beneficiários antes de recebê-los do governo, gerando assim uma pendência de despesas do governo não contabilizadas no cálculo do superávit primário;
  • o TN está atrasando o pagamento de recursos a empresas estatais que são devidos em função de subsídios concedidos por estas em suas atividades, adiando assim o reconhecimento de tais despesas fiscais;
  • e por aí vai…

OU seja, a situação fiscal piorou muito . Economistas de diversas linhas acreditam que o saldo primário real ( sem estes truques) do governo este ano deve atingir 0,3% do PIB apenas e ficar negativo em 2016!

A principal vítima deste comportamento do governo é a formação de poupança, cujo gráfico segue abaixo:

 

formpoup

 

 

A poupança nacional é a parte da renda nacional que não é gasta em consumo. Vemos que o gráfico da poupança formada é bastante similar ao do superávit fiscal do governo. Em verde vemos que o período onde mais aumentamos nossa poupança foi aquele até 2009 (verde) e que de 2011 para cá nossa taxa de formação de poupança desabou (vermelho). Ou seja, não precisa ser economista para concluir que o aumento dos gastos do Estado levou à queda do superávit primário do governo, que levou à queda da poupança formada.

E aqui eu volto, pela enésima vez,  para as minhas igualdades favoritas da contabilidade nacional, que funciona tanto para os desenvolvimentistas  como para os neo liberais:

Poupança Interna + Poupança Externa = Investimento Produtivo Total

Poupança externa = Déficit Externo

Lembrando que o crescimento aumenta com o aumento de estoque de capital que é obtido através de mais investimentos. Os investimentos, para que aumentem o estoque de capital, precisam superar a taxa de depreciação do mesmo, que hoje pode ser estimada em cerca de 12% do PIB ao ano. OU seja, se não fosse nosso déficit externo e a poupança importada de fora para financiá-lo, nosso estoque de capital estaria praticamente estagnado. Desta forma,  se quisermos aumentar o volume de investimentos produtivos sem aumentarmos a taxa de formação de poupança, estaremos gerando déficits externos cada vez maiores, o que vai demandar uma apreciação real de nossa moeda ainda maior, algo que prejudicaria ainda mais a nossa indústria. A alternativa, como tenho dito há tempos, é aumentar a nossa formação de poupança, e a maneira mais fácil de fazer isto é reduzindo os gastos do governo.

Além disto, a piora das contas públicas e os artifícios usados pelo governo para inflar tais números podem nos levar ao rebaixamento de nossa nota de crédito externo, como foi sinalizado recentemente pela agência classificadora de risco Moody’s:

http://g1.globo.com/economia/noticia/2014/09/agencia-de-classificacao-de-risco-altera-perspectiva-de-rating-do-brasil-para-negativa.html

Se o cenário atual persistir, é bem provável que tenhamos nossa nota de crédito rebaixada ainda no primeiro trimestre de 2015. Isto levará ao encarecimento da poupança externa que hoje importamos para financiar nossos investimentos tão necessários aqui, além de pressionar ainda mais as taxas de juros de longo prazo. É fundamental que os candidatos(as) à Presidência da República se posicionem a respeito disto e tragam propostas reais para o equacionamento dos desequilíbrios fiscais gerados nos últimos anos. Ficar dizendo que ajuste fiscal gera desemprego e por isso não pode ser feito não nos ajuda em nada neste debate. O desemprego virá se formos de fato rebaixados.

 

 

 

 

 

 

 

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quarta-feira, 10 de setembro de 2014 Crise Brasileira | 19:41

Consumo de energia caindo. É bom?

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O consumo de energia está caindo, como mostra o gráfico vermelho abaixo:

 

 

consumoenergia

 

 

Do começo do ano para cá a queda é forte e a tendência é bastante feia (amarelo). Isto mostra que a nossa economia de fato está bem fraca.

Por outro lado, isto é uma boa notícia para o nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas, que está bem baixo, o que  pode trazer problemas para a oferta de eletricidade em 2015 caso a demanda por energia volte a subir. Veja a situação do  nível dos reservatórios no gráfico abaixo:

 

 

nivel reservat

 

 

O gráfico em verde mostra evolução do níveis dos reservatórios mês a mês este ano. O gráfico preto mostra o nível médio para cada mês do ano entre 2000 e 2012. A área do gráfico em cinza mostra o nível máximo e mínimo dos reservatórios mês a mês desde 2000, período que inclui o racionamento. Vemos que os níveis atuais estão pouco acima dos níveis mais baixos dos últimos 14 anos. É bem provável que, se o consumo de energia estivesse seguindo a sua tendência histórica vista em preto no gráfico anterior, o nível atual dos reservatórios estaria abaixo dos níveis mínimos dos últimos 10 anos, nos colocando em situação de racionamento. Para piorar a situação, mesmo com a economia rodando bem devagar, as nossas  usinas termoelétricas estão rodando a pleno vapor, como mostra gráfico abaixo:

 

termenergia

 

 

Ou seja, estamos queimando óleo combustível, carvão e gás para gerar eletricidade com o objetivo de evitar que os reservatórias das hidrelétricas se esvaziem mais rapidamente. Este é um setor onde o desaquecimento da atividade econômica nos ajuda a evitar um problema ainda maior no ano que vem: o racionamento de energia. A má notícia é que  esta situação pode impedir que a nossa economia cresça mais rápido nos próximos anos.

Por falar nisto, esta é uma outra pergunta para os candidatos(as) a Presidência da República: como vamos equacionar o quadro de suprimento de energia em 2015 e 2016, uma vez que mesmo com o crescimento econômico pífio atual,  os reservatórios das hidroelétricas não melhoram de nível? Vamos ter que consumir mais energia termoelétrica suja e cara por quanto tempo?

 

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