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Arquivo da Categoria ataques especulativos

quarta-feira, 16 de setembro de 2015 ataques especulativos, Crise Brasileira, Empresas, Investimentos | 14:50

A gigante estatal está virando sucata?

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Veja o que aconteceu com os papéis de renda fixa (??)  emitidos pela nossa Petrobrás no exterior:

http://bicadasdogallo.blogspot.com.br/2015/09/nosso-mega-junk-bond.html

Triste.

Vamos fazer assim então:

  • vende a empresa
  • cobra um royalty enorme sobre cada barril extraído
  • pega esta grana e usa para financiar a previdência

Não gostou?  Então:

  • vamos ter que aumentar impostos & cortar gastos públicos para financiar a previdência, como proposto por Levy.
  • vamos ter que aumentar impostos novamente nos próximos anos para que o Estado possa capitalizar a empresa e ela continue com seus planos de investimento, pois novos empréstimos em dólares para a empresa estão custando mais de 9% a.a.  e ficarão cada vez mais escassos.
  • ou vamos ter entregar toda a produção futura de petróleo da empresa para os Chineses em troca de grana, como os Venezuelanos fizeram na PDVSA

Não gostou? Então:

  • Deixa o rombo do governo aumentar e o país perder acesso ao crédito externo como nos anos 90;
  • Corta os investimentos na Estatal;
  • Imprime moeda para financiar gasto público gerando uma hiperinflação, como nos anos anos 90;
  • E aprende a viver como os Argentinos e Venezuelanos, cheios de riquezas naturais, mas  em eterna crise.

Você decide.

Dureza né??

 

 

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terça-feira, 15 de setembro de 2015 ataques especulativos, Crise Brasileira, Politica Economica | 09:39

Armínio e Delfim: consenso sobre necessidade de ajuste fiscal de longo prazo

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Artigo do ex Presidente do BC Armínio Fraga e entrevista do ex Ministro Delfim Netto mostram um consenso jamais visto sobre a necessidade de uma profunda reforma que garanta a sustentabilidade do gasto público no longo prazo. Ou aproveitamos este consenso, ou vamos todos experimentar nosso momento grego. Só falta o Beluzzo…

Veja o que disse Fraga:

Com frequência se diz por aí que nunca se viu situação econômica tão ruim quanto a atual. Discordo. Entre 1982 e 1993, a “década perdida” do caos da hiperinflação e da moratória externa, o Brasil amargou queda na renda por pessoa de cerca de 1% ao ano!

Mas o Brasil vive hoje sim uma crise grave, que escancara as consequências do modelo político e econômico atual. Este se caracteriza pela captura, agigantamento, incompetência e falência do Estado. Captura por interesses partidários e privados, que sem qualquer escrúpulo montaram não um, mas dois enormes esquemas de corrupção voltados para sua preservação no poder e enriquecimento pessoal. Agigantamento, pois o gasto público se aproxima de 40% do PIB, número elevado, especialmente para um país de renda média. Incompetência por não entregar os serviços de qualidade que a sociedade demanda, apesar dos recursos despendidos. Falência pela perda da disciplina fiscal, fator que pesou na recente perda do grau de investimento, com destaque para a admissão pelo próprio governo de sua incapacidade de manter um superávit primário capaz de evitar a explosão da dívida pública. Estamos em maus lençóis, pois não há na História caso de país que tenha se desenvolvido plenamente sem um Estado decente, eficaz e solvente.

Outras características do atual modelo econômico incluem um elevado grau de dirigismo, um claro desprezo pela eficiência em geral, e pelo mercado em particular, um relativo isolamento do mundo, uma má alocação do capital (em boa parte feita pelos bancos públicos), políticas setoriais mal desenhadas, um sistema tributário complexo, que distorce e encarece a atividade empresarial, e um aparato regulatório desprestigiado e, em alguns casos, mal tripulado. Não surpreendentemente, a produtividade da economia vem sofrendo bastante.

 As consequências disso tudo, em boa parte previsíveis, estão aí, visíveis a olho nu: juros estratosféricos, incerteza elevada, baixo investimento (especialmente em infraestrutura), profunda recessão e, o que é pior, uma economia incapaz de crescer. Os impactos sociais já se fazem sentir e tendem a se agravar. A esta altura, não se pode descartar a hipótese de que o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff seja o início de uma nova década perdida.

 Esta crise requer um tratamento proporcional ao seu tamanho. Isso não tem sido possível em função de barreiras ideológicas e de incompetência, além das naturais dificuldades de um governo corrigir algo feito por si mesmo, e da crise política que deve perdurar.

Não surpreende, portanto, que a atual resposta à crise não venha obtendo bons resultados, limitando-se, na prática, a alguma austeridade fiscal, ao aperto monetário (posto que a inflação está há tempos bem acima da meta), à liberação de preços e ao anúncio de algumas boas reformas, no geral não implantadas. Ao mesmo tempo, medidas irresponsáveis do ponto de vista fiscal vêm sendo aprovadas, como o Plano Nacional de Educação (tema crucial, solução inadequada) e a revogação do fator previdenciário. Ademais, a queda nos preços das exportações e as paralisantes implicações de curto prazo da mais do que bem-vinda Lava-Jato agravam ainda mais o quadro.

Com o intuito de ajudar a mapear os desafios no campo econômico, e sem ilusões quanto à superior importância da política em fazer as opções certas e conduzir o processo, listo abaixo dois conjuntos de respostas à crise. Se posto em prática, o primeiro sinalizaria o entendimento do Executivo e do Legislativo quanto à gravidade da situação. O segundo lista algumas questões mais fundamentais para que o Brasil volte a crescer e se desenvolver. As dificuldades de se efetuar um ajuste fiscal rápido são bem conhecidas: recessão, rigidez do gasto e a já elevada carga tributária. Acredito que uma forma de se ganhar tempo e afetar positivamente as expectativas seria compensar um inevitável gradualismo no ajuste com medidas que afetem positivamente a solvência do país a longo prazo. Outro campo fértil é o lado da produtividade, de natureza mais microeconômica, que merece bem mais espaço do que o que tenho aqui hoje.

Medidas emergenciais:

– Metas de saldo primário de 1%, 2% e 3% do PIB para os próximos três anos, baseadas em premissas realistas e receitas recorrentes (as metas atuais não estão sendo cumpridas e, de qualquer forma, são insuficientes).

– Aprovação da idade mínima de 65 anos para a aposentadoria de homens e mulheres (para gerações futuras) e reaprovação do fator previdenciário.

– Desvinculação do piso da Previdência do salário mínimo (essa vinculação é cara e regressiva).

– Introdução de um limite para a dívida bruta do governo federal como proporção do PIB.

– Reforma do PIS/Cofins e ICMS já proposta, acrescida da unificação e simplificação das regras do ICMS (por muitas razões, inclusive a integração interna do país).

– Mudança das regras trabalhistas também na mesa (onde o negociado se sobrepõe à lei).

– Aumento da integração do Brasil ao mundo (um primeiro passo seria transformar o Mercosul em zona de livre comércio).

Sem algo nesta linha, a crise deve se aprofundar e alongar.

Medidas mais fundamentais relativas ao Estado:

– Discussão sobre o tamanho e as prioridades do Estado (requer limite ao crescimento do gasto, o que, por sua vez, demanda as reformas abaixo).

– Fim de todas as vinculações e adoção de um orçamento base zero (sem prejuízo de espaços plurianuais, nunca permanentes).

– Meritocracia e a boa gestão no setor público.

– Revisão da cobertura da estabilidade do emprego no setor público.

– Revisão do capítulo econômico da Constituição (adotar a economia de mercado. Qualquer interferência do Estado deverá ser justificada e seus resultados, posteriormente avaliados).

Sem algo nesta linha, o Brasil dificilmente se desenvolverá de maneira plena.

Veja o que disse Delfim:

O ex-ministro Delfim Netto acredita que o ajuste fiscal ficou mais difícil após a perda do selo de bom pagador, concedido pela agência Standard & Poor’s. “Os juros e o câmbio vão subir e vai aumentar a volatilidade do mercado, porque a credibilidade interna e externa ficou comprometida”, disse.

O economista também afirma que os programas sociais precisam ser ajustados à disponibilidade de recursos e que o único programa intocável é o Bolsa Família. “Não é possível que seja tudo prioridade.”

Delfim —ex-ministro dos governos militares, conselheiro informal de diversos presidentes na redemocratização e colunista da Folha— considera que a atitude de mandar ao Congresso um orçamento apontado deficit em 2016 foi ingênua: “Uma incompetência política dramática”.

Diz ainda que a relação com o Congresso ficará ainda mais complicada.

*

Folha – O governo deveria ter cortado gastos sociais para fechar o rombo no Orçamento?

Delfim Netto – Só tem um programa realmente importante que funciona: o Bolsa Família. Os outros têm que ser ajustados a disponibilidade de recursos.
Se o governo quer colocar o programa Minha Casa, Minha Vida como prioridade, tem todo o direito, porque foi eleito para isso. Mas tem o dever de cortar algum gasto correspondente. Não é possível que tudo seja prioridade.

A agência S&P se precipitou? Não entendeu as idas e vindas da política brasileira?

Não. A agência tinha dado um voto de confiança e esperou. Ficaram desiludidos.

Quais as consequências da perda do grau de investimento?

É algo grave, sério, mas o Brasil já viveu sem o grau de investimento. Não é o fim do mundo. No entanto, seguramente, indica que o ajuste fiscal vai ser ainda mais custoso.

Os juros e o câmbio vão subir e vai aumentar a volatilidade do mercado, porque a credibilidade interna e externa ficou comprometida. Não adianta fechar os olhos e dizer que as agências de risco não valem nada. De fato, elas têm uma capacidade duvidosa, mas não adianta reclamar.

O ministro Joaquim Levy foi colocado no cargo para evitar o rebaixamento. Sua permanência no posto está comprometida?

O Levy lutou bravamente para que isso não acontecesse. É um sujeito de caráter e, mesmo contrariado, sabe que faz parte de um governo. O Levy está imbuído de um sentido de missão e vai continuar lutando. Para mim, saem todos rebaixados: ministros, governo, o país.

Vamos ter mais turbulência política?

Sem dúvida. O Congresso reproduz a sociedade, mas num microcosmo e se excita muito mais. Temos um problema muito sério dentro da base do governo.

O fato é que o PT não está de acordo com o programa do seu próprio governo. Ponto final. O comportamento do PT é consequência do fato de que o governo perdeu o protagonismo.

A base aliada toda está resistindo simplesmente porque o governo não governa. É algo espantoso. O governo vem dizendo que não vai fazer mais nada e que vai esperar o Congresso mandar. Não há como se demitir da tarefa de assumir o protagonismo do processo.

Vivemos um presidencialismo que se diz de coalizão, mas que é quase imperial. Os instrumentos estão na mão do Executivo e ele exerce um poder imenso.

O ex-presidente Lula tem dado declarações contra o ajuste fiscal. Na sua opinião, qual é o objetivo?

Lula está expressando o seu ponto de vista, dizendo que está ocorrendo desemprego. É verdade. Mas o desemprego não foi causado pelo ajuste, mas pelos excessos de 2014 e pela política equivocada. O ajuste sequer teve efeito ainda. As despesas do governo continuam crescendo.

O ajuste sequer teve efeito. As despesas do governo continuaram crescendo. Ele está expressando o seu ponto de vista. Ele está dizendo que está havendo um desemprego, e é verdade, mas o desemprego não foi causado pelo ajuste, mas pelos excessos da política errada.

Por que você está fazendo o ajuste? Porque cometeu excessos extraordinários ao longo de 2014.

O senhor tem sugerindo que o governo deveria elevar a Cide para cobrir o rombo. Por quê?

O argumento contra a Cide é que vai subir a inflação. Chega a ser infantil. Teremos uma inflação de 10% com ou sem Cide. A inflação está em 10% por erros cometidos no passado. No ano que vem, a expectativa é de inflação em 5%.

Com o aumento da Cide, vamos resolver um problema gigantesco, não só nas contas públicas, mas no setor sucroalcooleiro. O setor sucroalcooleiro foi destruído junto com a Petrobras.

A Cide é um imposto que vai na direção correta de proteger o meio ambiente, porque incentiva a substituição de gasolina por álcool. Hoje temos cerca de 80 usinas em estado de calamidade. Se recuperarmos 60% ou 70% delas, vamos ampliar emprego e produção.

O que mais deveria ser feito para arrumar as contas públicas?

A única cláusula pétrea na Constituição são os direitos individuais. O resto pode ser alterado se houver disposição.

A desintegração do sistema previdenciário é culpa do governo que nunca assumiu a responsabilidade.

É preciso apresentar uma lei que se resume numa idade mínima para aposentadoria e encontrar as regras de passagem.

Outro ponto é essa proposta da CUT que está presa há anos na Casa Civil que regulariza o entendimento do trabalhador com o empresário, sob a vigilância do sindicato. Vai dar uma enorme flexibilidade para eles decidam o que é do seu interesse sem ouvir a Justiça do trabalho, que é uma das áreas mais retrógradas do país.

Também é necessário resolver a reforma do ICMS. Ou seja, o governo precisa dar uma demonstração clara de que vai mudar as restrições da economia que foram construídas por nós mesmos.

 

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segunda-feira, 14 de setembro de 2015 ataques especulativos, Crise Brasileira | 10:25

Uma ponte fiscal para algum lugar

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O Ministro Levy, em artigo no Estadão de hoje, coloca com clareza a necessidade de reformas estruturais visando estabilizar gasto público. E destaca a necessidade de um esforço fiscal maior em 2016, que sirva como ponte para tal ajuste, para que possamos manter o grau de investimento nas duas agências que ainda não nos rebaixaram.

Concordo 100% com o diagnóstico do Ministro Levy. Porém, para que este processo funcione, é preciso:

a. que sejam feitos cortes de gastos de, no mínimo, 20 bilhões no orçamento para o ano que vem;

b. que sejam criadas contribuições temporárias e não novos impostos, por no máximo 3 anos, para recompor o superavit para 0,7% do PIB em 2016;

c. que se apresente proposta de PEC que crie um limite para gasto público, deixando todas as vinculações de receitas & gastos obrigatórios sujeitos ao cumprimento deste limite;

d. que seja apresentada uma proposta de reforma da previdência com apoio do PMDB e PT;

e. que seja anunciado um plano de redução dos subsídios do BNDES;

Feito isto, podemos de fato dizer que estamos caminhando para a sustentabilidade fiscal. Mas o corte de gastos já é um bom começo, desde que de fato ocorra. Quanto às contribuições temporárias, sugiro espalhá-las bem, para não onerar um setor específico da sociedade apenas. Agora, se não tiver esta agenda mais abrangente, a sociedade tem a obrigação de negar qualquer aumento de impostos. É nossa obrigação combater o Estado grande, ineficiente e corrupto. Patriotismo é isto. Será nossa herança aos nossos filhos. Chega. Basta. 

Veja artigo no link abaixo:

Mais:http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,superando-a

 

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sexta-feira, 11 de setembro de 2015 ataques especulativos, Crise Brasileira, Politica Economica | 20:57

O tamanho do pepino fiscal

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A série de eventos dramáticos envolvendo as contas públicas deste ano requerem uma pequena pausa para reflexão.  Previsões de superávits ultra otimistas e frustradas, orçamento deficitário e o consequente rebaixamento de nossa de crédito foram o pano de fundo de uma economia que entrou em exceção e da confiança de consumidor e empresários  que despenca. Vamos sair um pouco das atrapalhadas na gestão do processo por parte do pessoal de Brasília e tentar focar na figura macro que está por trás de nosso problema.

DE 2005 até 2014 as despesas anuais do governo central subiram uma barbaridade:

despesastesouro

 

 

 

São 2,5% do PIB anual de aumento de despesas quando comparamos 2005 com 2014, ou seja, 138 bilhões de reais por ano a mais em gastos em valores de 2014.  Se somarmos nesta conta as pedaladas fiscais do Guido que protelaram mais ou menos uns 0,5% do PIB em despesas de 2014 para 2015, chegamos a 3% do PIB anual de aumento de gastos, ou seja, a despesa vem crescendo a mais de 0,3% do PIB por ano.  Dado que nosso PIB real cresceu em média 3,5% a.a. neste período, isto quer dizer que os gastos do governo cresceram a mais de 5% a.a. acima da inflação!  Se mantivermos este ritmo alucinante de crescimento de gastos públicos, as despesas reais crescerão mais de R$ 50 bi / ano no governo federal somente, que precisarão ser cobertos com mais impostos todos os anos. Ou seja, é insustentável continuar a gastar nesta velocidade.

Para piorar o quadro, Estados e Municípios seguiram o mesmo ritmo de aumento de gastos, como mostra o gráfico abaixo:

 

 

despesaprimariamunicestados

 

 

 

DE 2005 a 2013 as despesas dos estados e municípios subiram de 11,6% do PIB para 13,5% do PIB, segundo o estudo acima. Ou seja, 0,24% do PIB a.a.

Somando tudo, vemos que o Estado Brasileiro gasta (sem contar juros) cerca de 33% do PIB por ano, que crescem anualmente o equivalente a 0,6% do PIB. Desta forma, vamos ter que a cada 2 anos criar um novo CPMF se desejarmos manter o saldo fiscal onde está hoje!

Sumário: em 2014 o Estado Brasileiro gastou cerca de 5% do PIB a mais do que gastava em 2005, ou seja, R$ 275 bi! Mais de R$ 20 bi por mês.  Muito mesmo.

Para agravar a situação, o nosso Estado precisou pagar juros cada vez maiores para financiar sua dívida em função da elevação da inflação dos últimos anos. Isto fez com que o déficit nominal (resultado fiscal do governo após pagar juros da dívida) subisse bastante depois de 2013:

 

 

deficitnominal

 

 

 

O resultado disto, somado às baixíssimas taxas de crescimento do PIB que tivemos desde 2011, é que  nossa dívida pública consolidada, que já não era tão pequena, inverteu sua trajetória de queda e passou a subir com enorme velocidade:

 

 

dividabruta

 

 

O abuso fiscal do Estadão Gigantão Amigão foi além dos gastos. O governo utilizou seu balanço e do Banco Central para acomodar ativos privados, como empréstimos do BNDES e reservas internacionais, dando um mega impulso de crédito na economia:

 

variacão de ativos

 

 

 

Os saldos ativos do Estado investidos no BNDES (via FAT, PIS/Pasep, repasses do Tesouro) saltaram o equivalente a 6,6% do PIB no período, enquanto os ativos de nosso BC aumentaram o equivalente a 15,1% do PIB em função das reservas cambiais acumuladas. Tais ativos são bastante seguros, porém rendem quase nada quando comparados aos juros que o Tesouro paga para financiá-los. Estes dois eventos geraram uma força impulsionadora do endividamento público equivalente a 21,7% PIB em 9 anos, ou seja, um ritmo anual de cerca de 2,4% do PIB: R$ 133 bi / ano em valores de 2014.

Se somarmos esta expansão de balanço público investido em ativos privados ao crescimento dos gastos anuais do Governo, chegaremos a uma pressão expansionista do endividamento público da ordem de 3% do PIB ao ano. Ou seja, mais de R$ 165 bi / ano.

Tudo isto é completamente insustentável.

É preciso com urgência reduzir o tamanho destes ativos do setor público que oneram as contas públicas e impor um limite para o gasto público primário como % do PIB em nossa Constituição, sujeitando todas as vinculações orçamentárias obrigatórias ao cumprimento deste limite. Ou seja, gastaremos dentro de um limite máximo de orçamento fixado em lei e definido pelo Congresso. Como você faz na sua casa. No seu negócio.

Se não fizermos isto, vamos precisar de um Super Levy a cada 3 anos para nos tirar do buraco, só que cada vez com mais rebaixamentos até um dia chegarmos na condição Grega. Não adianta ficar apenas focado no superávit de 2016, caro Ministro. Precisamos ir a fundo nas enormes distorções criadas pelas políticas públicas desenvolvimentistas dos últimos anos.

Mas fica a pergunta que não quer calar na mente dos desenvolvimentistas: será que o país vai conseguir crescer sem estes 3% do PIB de estímulo anuais? Será que o Lula, aquele mesmo do Palocci e do Meirelles, está certo agora e que ajuste fiscal só traz desemprego? Que bom mesmo é torrar grana?

Minha resposta: talvez sem estes estímulos insustentáveis o BC poderá praticar taxas de juros civilizadas para conter a inflação. Tipo 1 ou 2% reais, como ocorre em outros países. Talvez esteja aí a raiz dos nossos juros elevados. Com 2% de juro real e com gastos públicos estáveis, nossa economia sem dúvida voltará a crescer, agora sozinha, sem a ajuda do bônus das commodities, do capital internacional especulativo para financiar nossos déficits, sem a moleza do BNDES e sem um BC que esteriliza as reservas cambiais com títulos de 60 dias de prazo e redescontáveis a qualquer momento sem penalidade, que são, na verdade, depósitos remunerados de um dia. Mas isto é assunto para outro post.

 

 

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quarta-feira, 9 de setembro de 2015 ataques especulativos, Crise Brasileira | 23:02

A casa caiu e o pessoal da demolição acabou de chegar

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Há algum tempo eu publiquei um post onde afirmava que a casa havia caído. Alguns me acharam pessimistas demais e até se animaram com a tal da agenda Brasil sinalizada pelo Senador Renan e Ministro Levy:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2015/07/27/gritoalerta/

Pois é, a casa não só caiu, como hoje a agência classificadora de risco S&P rebaixou nossa nota de crédito. Perdemos nosso grau de investimento e a perspectiva é negativa. Ou seja, o próximo movimento dela será de mais rebaixamento, caso não estabilizemos as contas públicas. Veja abaixo:

Brazil Foreign Currency Ratings Lowered To ‘BB+/B’; Outlook Is Negative

Overview

The political challenges Brazil faces have continued to mount, weighing on the government’s ability and willingness to submit a 2016 budget to Congress consistent with the significant policy correction signaled during the first part of President Dilma Rousseff’s second term.

BICADA: A AGENCIA SE SENTIU ENROLADA QUANDO ACREDITOU NAS INTENSÕES DE DILMA E CIA DE EQUILIBRAR AS CONTAS PÚBLICAS.

The government’s 2016 budget proposal envisions yet another change to the primary fiscal target less than six weeks after the previous downward revision, which would mean three consecutive years of a primary deficit and net general debt continuing to rise if subsequent revenue or expenditure measures are not taken.

BICADA: AGENCIA APONTA QUE O ORÇAMENTO PARA 2016 SAIU DE UM SUPERAVIT DE 0,7% DO PIB PARA UM DÉFICIT DE 0,5% EM APENAS 6 SEMANAS.

We are lowering the long-term foreign and local currency sovereign ratings on Brazil to ‘BB+’ and ‘BBB-‘, respectively.

The negative outlook reflects what we believe is a greater than one–in–three likelihood of a further downgrade due to a further deterioration of Brazil’s fiscal position, potential key policy reversals given the fluid political dynamics, including a further lack of cohesion within the president’s cabinet, or due to greater economic turmoil than we currently expect.

Rating Action

On Sept. 9, 2015, Standard & Poor’s Ratings Services lowered its long-term foreign currency sovereign credit rating on the Federative Republic of Brazil to ‘BB+’ from ‘BBB-‘, and the long-term local currency sovereign credit rating to ‘BBB-‘ from ‘BBB+’. The outlook is negative. We also lowered the short-term foreign currency rating to ‘B’ from ‘A-3’ and the short-term local currency rating to ‘A-3’ from ‘A-2’. We also lowered the transfer and convertibility assessment to ‘BBB’ from ‘BBB+’. We affirmed the ‘brAAA’ national-scale rating and revised the outlook on this rating to negative.

Rationale

We believe Brazil’s credit profile has weakened further since July 28, when we revised the outlook on Brazil to negative. At that time, we signaled increased execution risks to the corrective policy changes already underway, mainly stemming from fluid political dynamics in Congress associated with spillover effects from investigations of corruption at state-owned energy company Petrobras. We now perceive less conviction within the president’s cabinet on fiscal policy.

Quem perde?

  • Setores que necessitam de financiamento de longo prazo: Infraestrutura, Petróleo, Mineração, por exemplo.
  • Empresas que se financiam no mercado externo: exportadores, importadores e agro negócio;
  • Bancos que captam recursos no exterior, pois terão suas notas rebaixadas.

O PT entrou na história como o partido que nos fez conseguir o sonhado grau de investimento, nos tempos de Superavit Primário e de meta de inflação para valer. Isto tudo, diga-se passagem,  em grande parte pelo esforço do meu amigo Meirelles, que completou 70 anos recentemente, e que na época apanhou do PT como um cachorro sem dono. E,  poucos anos depois, o PT de Dilma ou Dilma do PT joga tudo isto no esgoto.  De fato nunca foi agenda do PT defender a estabilidade econômica. Só a defendem quando a pressão externa aumenta.  Adotaram a linha desenvolvimentista por mera conveniência política e assim queimaram o filme da turma da Unicamp ao associá-los a irresponsabilidade fiscal.  O que o PT defende é o modelo populista patrimonialista clientelista.  Retiro, a partir de hoje, o desenvolvimentismo do rótulo.

A casa caiu, e a turma da demolição já chegou. Vamos ver o que sobra, separar o entulho, e quem sabe reconstruir nossa economia agora em bases reais. Sem maquiagem das contas públicas, sem populismo no gasto, sem patrimonialismo nem clientelismo. Com políticas públicas racionais, sem devaneios desenvolvimentistas idiotas, com disciplina fiscal e monetária.  Vamos ter que colocar um limite rudimentar ( tá lembrado Presidenta) nos gastos do governo que seja fixado na constituição e submeter todas as vinculações de receita hoje existentes a seus cumprimento. Meu número: 20% do PIB. Bateu lá, corta gasto automaticamente. Para todo mundo. Inclusive pensionista. E bolsista. Na minha casa funciona assim. E na sua? Tem limite para gastos???

Presidente Dilma, Agora a coisa é para valer. Incompetência política, tudo bem. Mas econômica, não dá não. E não vem chorar que precisa de mais imposto não. Saco da classe média já estourou. Corta gasto aí. Chega de populismo. Chega de justiça social financiada com emprego de trabalhador. No final, quem paga é o trabalhador. Verás o que vai acontecer com economia e o desemprego ano no que vem em função deste rebaixamento. Mais um ano de recessão.

Chega!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Ou sou eu fico indignado aqui??

 

demoliçao

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quarta-feira, 2 de setembro de 2015 ataques especulativos, Brasil, Crise Brasileira, Impostos, Investimentos, Politica Economica, utilidade | 16:33

Chega de Estado grande, ineficiente e corrupto. Acabou a festa.

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Eu acho que Brasília está com alguma dificuldade cognitiva e não está entendendo a mensagem da classe média, tanto da velha como da nova: chega de gastos!

A mensagem da população é clara: chega de impostos para financiar uma máquina estatal ineficiente, corrupta em função do seu próprio gigantismo, paternalista, populista e patrimonialista. Chega de BNDES, de empréstimo subsidiado, de programa social mal estruturado, de distribuição de renda sem fim e sem meta, de aposentadoria aos 52 anos, de dezenas de milhares de cargos de confiança no Estado, de dezenas de impostos e contribuições e de estatais ineficientes e corruptas.

Chega. Acabou a generosidade dos contribuintes, sejam eles pobres, ricos, classe média, empresários, banqueiros, trabalhadores, consumidores ou aposentados. Não vamos mais subsidiar esta farra. 36% DE NOSSO TRABALHO VAI PARA FINANCIAR ESTA MÁQUINA PODRE E INEFICIENTE.  CHEGA. TEM LIMITE E O LIMITE CHEGOU. 

O ódio político que vemos nas manifestações de rua, as vaias aos líderes Petistas e o apoio ao impeachment da Presidente são mensagens cifradas, imperfeitas, de uma população que sofre com as mazelas deste gigantismo estatal, mas que não consegue traduzir sua indignação politicamente, pois a representatividade das massas foi rompida pelo clientelismo existente hoje no Congresso. Esta raiva é dirigida então à Presidente Dilma, Lula e a outros ministros.  Outros lidam com tal ódio através da depressão, que é refletida na baixa confiança dos consumidores e dos empresários quanto ao futuro da economia e na indiferença de grande parte dos jovens, que sonham em mudar de país ou em serem jogadores de futebol na Europa ou astros do Funk ostentação, pois a meritocracia perde valor quando o modelo dominante é o clientelista. Se você não tem amigos no poder, não tem chance de competir. E, se tem amigos no poder, competir não é preciso, pois seus amigos no poder o ajudarão a vencer nossos competidores. Logo, competir se torna inútil.

Não se trata de debater impeachment ou partidos, mas sim de se constatar a falência TOTAL do modelo desenvolvimentista, populista, estatizante, nacionalista, protecionista, intervencionista distributivo que montamos, ora mais devagar ora mais rápido, desde a década de 80, e que chegou a seu ápice com Dilma, Guido e Cia. Acabou.  Olhem os números da economia, do emprego, das contas públicas, dos juros, do dólar, da inflação, da lava-jato, etc.

OU CORTA GASTO e REDUZ TAMANHO DO ESTADO OU VAMOS PARA O RALO. MIREM-SE NO “EXEMPLO DA ARGENTINA OU DA GRÉCIA”.

O Brasil patrimonialista populista chegou ao limite. Hora da verdade.

https://www.linkedin.com/pulse/est%C3%A1-na-hora-de-cortar-gastos-p%C3%BAblicos-diminuir-tamanho-ricardo-gallo?trk=prof-post

 

 

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sábado, 18 de outubro de 2014 ataques especulativos, Crise Brasileira, Impostos, Inflação, Investimentos, Juros no Brasil, Politica Economica, Sem categoria, utilidade | 19:14

A urgência das reformas

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Uma das coisas boas de meu trabalho é a quantidade de análises de qualidade que tenho a oportunidade de ler, vinda de diversos bancos, de diversos analistas e economistas, tanto do Brasil como do exterior. Recentemente recebi um texto bastante interessante do Banco Credit Suisse no qual os autores, Alexander Redman e Arun Sai,  analisam a economia brasileira e a mexicana, e fazem recomendações quanto a alocação de recursos nas bolsas destes países. Não pretendo entrar aqui na análise do critério de escolha do Banco, tampouco recomendar alocações de investimentos pois não é o objetivo desta coluna. Porém irei usar algumas informações deste relatório para reforçar a tese de que, ou  fazemos as reformas estruturais necessárias em nossa economia, ou iremos ficar patinando e ficando cada vez mais para trás em termos de produtividade e de competitividade globalmente.

O relatório passa por items estruturais importantes que definem o potencial de crescimento relativo de uma economia. E utiliza alguns gráficos que servem para mostrar o enorme tamanho dos desafios que temos pela nossa frente. O primeiro gráfico abaixo mostra a evolução da bolsa brasileira ( verde) e da mexicana (vermelho)  desde 1988, ambas em relação ao índice combinado de todas as bolsas dos países emergentes:

mexbrasbolsa

Vemos que de 1988 até 2008 as duas bolsas tiveram desempenho similar ( preto)  se eliminarmos os últimos anos do governo FHC e os primeiros do Governo Lula. Contudo de 2009 para cá nossa bolsa ( em US$) afundou enquanto a bolsa mexicana disparou (mostrado em azul), repetindo-se assim o comportamento que se apresentou no início dos anos 2000. Algo fez com que a bolsa mexicana, embora fortemente afetada pela crise de 2009 nos EUA que são seus vizinhos e principais parceiros comerciais, tivesse um desempenho muito melhor do que o nosso. A razão? A agressiva agenda de reformas que o país sustenta desde o início da década passada, que não foi interrompida por agendas ideológicas ultrapassadas.

Do ponto de vista de geração de empregos, o Brasil mostrou uma melhora significativa desde 2004, como mostro em amarelo no gráfico verde abaixo, enquanto que no México o desemprego permaneceu baixo e relativamente inalterado durante todo o período (em cinza no gráfico vermelho):

desempmexibras

OU seja, isto mostra que é possível sim manter o desemprego baixo num ambiente de reformas liberais, como as em curso no México.

Porém vamos olhar onde nos encontramos hoje no que diz respeito às condições econômicas estruturais que impulsionam o crescimento produtivo.

Vamos começar com o volume de investimento produtivo que é feito em diversos países:

invpibpaises

Estes gráficos mostram a evolução anual do volume de investimentos produtivos feitos nestes países desde 2000, como % do volume de bens produzidos em um ano em cada um destes países. Vemos no gráfico verde que o Brasil é o lanterninha da amostra, com o México ( vermelho) apresentando volumes de investimento consistentemente maiores durante este período. Vemos que os países asiáticos apresentam volume de investimento muito, mas muito superior ao nosso, o que propicia a tais países um potencial de crescimento da economia e da renda muito mais acelerado do que o nosso. Tais investimentos fazem com que a economia cresça muito mais rápido do que a população na Ásia, o que permite um forte aumento na renda individual de seus cidadãos. Isto se deve ao fato de que, com mais investimento, a produtividade do trabalho cresce muito mais rápido, como mostram os dois gráficos abaixo:

brasilemprprodu

Vemos que no caso brasileiro a maior parte do crescimento acumulado desde 2002 se deveu ao aumento da quantidade de mão de obra utilizada na produção ( vermelho), crescimento este que só foi viável devido à forte queda do desemprego desde 2002.  Na medida em que o desemprego praticamente acabou, é de se esperar que a parcela de crescimento que virá do aumento do uso de mão de obra na economia se reduzirá daqui para frente. Iremos, portanto,  depender muito mais do crescimento da produtividade (amarelo) que tem sido bem mais lento. Ou seja,  se não aumentarmos o ritmo de crescimento da produtividade do trabalho com mais investimento, iremos crescer bem mais devagar daqui para frente, como tem ocorrido nos últimos três anos!

Para comparar, veja o que ocorreu com Coréia no mesmo período:

koreaprodemprecresc

Na medida em que o desemprego na Coréia já é baixo há décadas, vemos que o crescimento acumulado da economia Coreana deveu-se predominantemente ao aumento de produtividade (verde), o que permitiu que aquela economia crescesse mais rápido que a economia brasileira desde 2002. Quando a produtividade cresce mais rápido do que a quantidade de pessoas trabalhando e existe uma flexibilidade maior do mercado de trabalho (tema que abordarei mais abaixo), os salários tendem a subir mais rapidamente de maneira sustentável.

 Caso queiramos manter o rimo de crescimento econômico que tivemos nos últimos 12 anos iremos precisar fazer reformas que  acelerem o crescimento da produtividade, pois não temos mais uma massa de desempregados a ser utilizada no aumento da produção. E parece que o México saiu na nossa frente nesta corrida.

Uma consequência  desta baixa taxa de investimento na  economia pode ser vista na qualidade de nossa infraestrutura quando comparada com outros países, como mostra o gráfico abaixo com dados do World Economic Forum:

infrabrasil

Vemos em amarelo que a nota dada à nossa infra é muito baixa, nos colocando na posição 120 entre os países da amostra.  Países como México, Indonésia e Tailândia apresentam notas muito superiores á nossa. Infra ruim reduz a produtividade.

A mesma coisa pode ser vista no ranking da qualidade da educação:

brasileduc

Vemos em vermelho que estamos também lá nas últimas colocações, desta vez junto aos amigos mexicanos. Educação de baixa qualidade gera mão de obra de baixa qualidade e, portanto, menor produtividade por trabalhador, o que implica em salários crescendo mais devagar.

Nosso mercado de trabalho também é muito pouco flexível, como mostra em amarelo o gráfico abaixo:

flexmerctraba

Um mercado de trabalho mais flexível, onde os salários sejam fixados mais livremente e seja fácil contratar e demitir pessoas, permite uma otimização do uso econômico do Capital Humano de uma economia: a mão de obra pode ser realocada rapidamente, saindo dos setores pouco produtivos e, portanto, menos competitivos,  para os setores e empresas mais produtivas e competitivas, aumentando a eficiência total da economia. Isto impulsiona a produtividade e os salários para cima. Neste item, como vemos acima, estamos muito, mas muito atrasados, pois nossa legislação trabalhista é antiquada e prejudica o trabalhador ao dar uma falsa sensação de segurança: temos um sistema trabalhista que garante que iremos pagar pouco aos nossos trabalhadores,  dando-lhes em troca destes baixos salários uma sensação de segurança irreal. Nossa experiência nos últimos 30 anos mostra que não conseguimos manter o desemprego abaixo de 6% por mais do que por alguns anos seguidos. Ou seja, trabalhismo é um bom discurso para o sindicato, mas de benefícios questionáveis.

Como tenho dito inúmeras vezes, o governo intervem demais na economia, como mostro em amarelo no gráfico da OCDE mostrado abaixo:

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O governo intervem demais, seja orientando o crédito através do BNDES e CEF, ignorando os critérios de mercado na alocação do capital, fixando preços de bens públicos artificialmente e sem nenhuma previsibilidade, interferindo nas regras, complicando o sistema tributário, tributando demais, enfim, faz tudo para atrapalhar o processo natural de alocação de recursos na economia, o que impede o aumento da renda e da produtividade. O intervencionismo excessivo aumenta a insegurança dos agentes, pois tais intervenções são muitas vezes erráticas e oportunistas, como falei em:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/07/14/intervencionismo-10-x-1-brasil/

O resultado disto tudo é que o nível de confiança em nossa economia tem caído barbaramente nos últimos anos (como mostro em amarelo abaixo), tendo atingido níveis compatíveis àqueles prevalecentes em 2002, no período que antecedeu a eleição do Presidente Lula:

confiancaeconomicpolicy

Além da falta de perspectiva de reformas, os empresários estão encontrando cada vez menos projetos que gerem valor econômico, ou seja, projetos em que o retorno gerado supere o custo do capital empregado, como mostro em preto no gráfico verde abaixo:

criacaovalor

Vemos que o valor criado acima do custo de capital das empresas brasileiras listadas na bolsa ( verde) é inferior àquele gerado no México (vermelho) e na média do mundo (azul) desde 2011. Com retornos menores é natural que o investimento produtivo caia por aqui.

E um dos motivos desta queda de rentabilidade das empresas é a alta do custo da mão de obra quando medido em dólares, como mostro em preto abaixo:

custoproducaounit

De 2007 até hoje o custo em US$ de um homem hora empregado na indústria disparou,  saindo de uma condição de paridade com o México em 2005 para um nível 70% superior atualmente. Ou seja, como os salários subiram acima da produtividade e o R$ ficou mais forte, o custo de se produzir no Brasil aumentou barbaramente. Não é de se estranhar que a participação da indústria manufatureira no PIB esteja em seu menor nível em décadas, como mostro em amarelo abaixo:

indtransfpib

Outro aspecto que reduz a atratividade dos investimentos no Brasil são as elevadas taxas de juros, como vemos no gráfico abaixo que mostra a evolução das taxas reais de juros ( juros descontados da inflação) desde 2002, no Brasil ( verde), México ( vermelho)  e EUA (azul):

realintrates

Tivemos uma redução dos juros de 2005 a 2010 ( preto), em linha com o que aconteceu no México. Mais recentemente a taxa de juros real parou de cair ( rosa), pois nossa inflação bateu no topo da banda e tem ameaçado sair de controle desde 2011. Isto se deve em grande parte à  tentativa frustrada do governo em reduzir as taxas de juros artificialmente em 2012/2013 ( em marrom acima). Vemos em amarelo abaixo que desde 2009 nossa inflação vem em tendência de alta e caminha para superar o topo da meta ( vermelho) :

inflacao12m

Num cenário destes, a taxa de juros real precisa se manter elevada para assegurar ao poupador que ele não terá seus recursos corroídos pela inflação. Pense assim: a taxa de juros real ( juro que é pago acima da inflação) serve como um seguro ou um colchão contra possíveis perdas do poder de compra de nossas economias guardadas no banco, perdas estas decorrentes de uma aceleração imprevista da inflação. Quanto maior a incerteza quanto a trajetória da inflação, maior o prêmio que os poupadores demandam. E tal incerteza hoje está bastante elevada, como explicado em:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/05/12/populismoinflacionario/

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/04/15/goeladadragao/

A experiência fracassada dos últimos anos mostrou que derrubar os juros não é um ato de vontade política, mas uma consequência de políticas econômicas consistentes. E o fato de termos desequilíbrios em nossa economia nos obriga a manter taxas de juros reais bem acima de nossos competidores, o que reduz o retorno marginal das empresas, como mostramos acima, reduzindo assim o investimento produtivo na economia ainda mais. E isto fica claro quando comparamos nossa taxa de inflação nos últimos 4 anos com a inflação em alguns países emergentes, segundo dados do FMI:

Inflaçaolatamok

Temos tido taxas de inflação muito acima do que nossos vizinhos ( amarelo), taxas que hoje se situam acima aos da Bolívia como vemos em cinza abaixo:

evolinflalatam

Parar atingirmos um nível juros reais compatível àqueles praticados na maioria dos países emergentes, precisamos trazer nossa inflação para 3 ou 4% a.a. como indicado em vermelho acima, algo que, como mostra o mesmo gráfico acima, não parece que estejamos perseguido. Isto em si já justifica as elevadas taxas de juros que hoje temos no Brasil.

Como consequência de tudo isto, nossa taxa de crescimento médio nos últimos anos foi a menor da amostra acima, como vemos em vermelho no quadro abaixo  :

pibcresc

Fica evidente que este quadro é bastante preocupante, pois precisamos imediatamente abraçar uma agenda de reformas, na linha da que está sendo tocada pelo Presidente Henrique Pena no México e e pelo Primeiro Ministro Narendra Modi na Índia. Precisamos ter coragem e enfrentar os problemas de frente. E é uma pena que o debate entre os candidatos tenha descambado desde o primeiro turno para uma troca de acusações pessoais e que as questões fundamentais de nossa economia ficaram para um segundo plano. Sei que é difícil para a candidata da situação reconhecer estes problemas, assim como é difícil para o candidato da oposição entrar neste tema dado o elevado grau de politização que envolve  tais reformas, mas se não endereçarmos tais questões com rapidez o futuro será sombrio e as conquistas sociais dos últimos 10 anos serão inequivocamente perdidas com o tempo.

 Temos mais uma semana de campanha e os candidatos poderiam usar este tempo na TV e listar quais reformas estruturais seriam necessárias para corrigir o quadro atual e nos colocar assim na mesma trilha do México e Índia. Aí quem sabe um dia chegaremos onde a Coréia já chegou há anos. Se não fizermos isto, corremos o risco de seguir o caminho de alguns vizinhos de menos sucesso, como coloquei em:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/10/14/uma-experiencia-bastante-custosa/

Às reformas companheiros!! Senão a casa vai cair:

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quinta-feira, 3 de abril de 2014 ataques especulativos, Investimentos, Politica Economica | 18:01

Bolhas, espumas e coisas afins

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Depois de meu último post sobre os dilemas da Sra. Yellen no comando do FED recebi vários comentários sobre a questão das “bolhas”, o que mostra que o vocábulo usado e a metáfora aplicada pelos mercados pode levar a confusões semânticas importantes e problemas enormes de comunicação. Assim sendo, eu achei recomendável elaborar um pouco sobre como eu vejo o tema “bolha”.

Da forma que eu vejo, um mercado, ou certo ativo, caracteriza uma bolha quando, em virtude de algum aspecto técnico (desequilíbrio entre oferta e procura por alguma razão temporária), um ativo é negociado muito acima do preço que pode ser justificado pelo seu valor econômico esperado.

O valor econômico esperado é determinado pelo valor presente dos benefícios econômicos esperados a serem obtidos ao se manter um investimento em determinado ativo. Tais benefícios são decorrentes de receitas com juros, alugueis, dividendos, royalties, economias geradas e outros ganhos que sejam específicos para determinados grupos de investidores, como isenções fiscais ou outros ganhos estratégicos ou de utilidade / conforto. Estes benefícios são estimados com base em expectativas econômicas de longo prazo razoáveis que estejam dentro de um padrão histórico normal. Tais benefícios esperados para o futuro são avaliadas na data da negociação do ativo, e são descontados por uma taxa de desconto definida em função da taxa de juros livre de risco para o longo prazo acrescida de uma taxa de risco que leva em conta a incerteza com relação aos benefícios de longo prazo de tal ativo. Quanto maior esta taxa de desconto, menor o valor econômico de tal ativo.

Este valor econômico é bastante subjetivo, porém na maioria dos ativos com mercados mais líquidos, onde há um histórico mais longo sobre sua performance passada, as variações entre as diversas avaliações tende a ser pequena, e justificável a luz das variâncias normais das expectativas de benefícios futuros entre diferentes investidores, em função das imperfeições naturais do processo de disseminação de informações entre os agentes do mercado.

Existe também o valor de reposição de ativo. Por exemplo, podemos comprar uma ação de uma rede de supermercados, ou montar uma nova rede de supermercados do zero, investindo em lojas, marketing, construção, marca, distribuição, logística, tecnologia, patentes, know-how, estoques, e etc. O valor estimado para se montar ou recriar um ativo do zero é chamado valor de reposição. Se não for possível replicar o ativo, muitas vezes é possível encontrar substitutos que desempenhem um papel similar, como no caso de milho e da soja, ambos podendo, em algumas circunstancias, serem substitutos na função de ração animal.

Quando, por alguma questão técnica, há uma demanda por ativos que é superior a sua oferta, o preço de mercado sobe. Se tal alta estiver dentro da volatilidade normal do preço vis a vis suas incertezas inerentes justificadas por eventuais flutuações normais das percepções quanto a seu retorno futuro, o mercado vai se ajustando normalmente e o preço de mercado flutua ao redor do seu valor econômico.  Contudo, quando os desequilíbrios técnicos entre oferta e demanda por tal ativo persistem por muito tempo, as distorções de preço podem ficar exageradas. Quando isto acontece, o valor de um ativo pode ficar muito acima do seu valor de reposição (ou de substituição por algo similar). Neste caso, alguns investidores e empresários percebem esta diferença e alocam recursos em ativos substitutos, que são mais baratos que o valor de mercado do ativo em questão. Isto aumenta a oferta do ativo e de seus substitutos, o que acaba reduzindo o seu valor de mercado. Isto traz seu valor de mercado de volta para níveis mais próximos do seu valor econômico, que, no longo prazo, converge para o valor de reposição, na medida em que mais e mais competidores entrem no mercado. Este é o mecanismo que os mercados de ativos apresentam para ajustar as distorções estruturais entre a oferta e a demanda, mecanismo este que tem suas limitações, por mais indignados que fiquem os ultra liberais.

Algumas vezes as distorções técnicas são tão intensas, que os preços sobem muito rapidamente, não permitindo que o ajuste de oferta promovido pelo processo que descrevi acima ocorra eficazmente. Isto pode causar uma elevação anormal dos preços por um tempo exagerado, que ficam muito acima do valor econômico justificável  mesmo quando este é avaliado tomando como base expectativas bastante otimistas quanto ao desempenho futuro. Neste caso, estamos assistindo a formação de uma bolha.

Quando os preços dos ativos sobem rapidamente por períodos prolongados, alguns investidores ficam atraídos pelo seu desempenho recente, e investem mais recursos em tais ativos atraídos por seus retornos de curto prazo. Isto gera mais demanda por tal ativo, que acaba elevando os preços ainda mais. Tal processo, além de elevar os preços de forma injustificável, acaba levando tais investidores a alocações e concentrações irresponsáveis em seus investimentos, desequilibrando suas carteiras. Quando isto ocorre em larga escala, gera-se uma distorção de preços relativos entre os diversos ativos no mercado. O preço dos ativos em bolha sobe muito e os outros ativos sobem menos do que deviam, ficando excessivamente baratos.

Se tal bolha fica limitada a um ativo ou a um pequeno grupo de ativos, ela normalmente dura pouco, e é ajustada pela oferta de bens similares ou substitutos. Mas bolhas podem sim se espalhar e contaminar o preço de outros ativos similares ou substitutos, quando os tais fatores técnicos são muito fortes e permanentes. Ou seja, se a demanda por tais ativos for muito grande, seu preço sobe, levando consigo o preço de outros ativos similares ou substitutos, o que pode colocar seus preços acima de seus valores econômicos. Este processo vai assim se espalhando pela economia como um todo, aumentando a distorção de preços relativos entre os ativos em bolha e o restante dos ativos na economia. Isto pode distorcer o processo de alocação de capital aos diversos investimentos produtivos na economia, pois os capitais que ficam atraídos pelos setores em bolha e ignoram outros setores, que ficam assim sem os investimentos necessários para repor sua depreciação. Aumenta-se desta forma o risco de excesso de investimentos em setores em “bolha”, que geram um excesso de capacidade produtiva muito acima da demanda projetada por bens ou serviços nestes setores.

O processo de crédito viabiliza tal contágio e intensifica a formação de bolhas. Ativos em “bolha” apresentam retornos excessivos no curto prazo, uma vez que seus preços sobem muito rapidamente. Logo, é aparentemente vantajoso tomar empréstimos junto ao sistema financeiro e investir em tais ativos, uma vez que seus retornos de curto prazo têm sido muito superiores aos juros cobrados nestes empréstimos.  Desta forma, o capital investido nos ativos em bolha não fica mais limitado ao capital próprio de investidores, mas é alavancado por recursos tomados junto a terceiros.

Quando chega-se a tal situação, a velocidade de formação da bolha é acelerada, o que acaba acelerando a oferta de ativos substitutos ou similares, oferta esta que em algum momento começa a atender a demanda criada. Quando isto ocorre, os preços de mercado dos ativos em bolha começam a cair. Aqueles que se endividaram para investir em tais ativos começam a perceber que o valor investido não será suficiente para cobrir os encargos do empréstimo, e começam a liquidar seus investimentos, o que acelera a queda dos preços. Os investidores que não se alavancaram mas sobre investiram no ativo em bolha, começam a reduzir sua exposição, uma vez que avaliam que o ativo de fato está sendo negociado acima do seu valor econômico. Os compradores se retraem, o que fazem com que o preço desabe. E assim a bolha estoura. Se a tal bolha estiver espalhada pela economia, este mesmo fenômeno se manifestará em outros ativos que tiveram seus preços inflados, o que levará à queda generalizada de preços de ativos e à sensação de empobrecimento que isto causa. Isto consequentemente causa uma forte queda nas expectativas e no otimismo por parte de empresários e consumidores, com impacto negativo sobre o consumo e o investimento. Para agravar a situação, se a alavancagem sobre os canais de crédito usada para financiar tais investimentos for excessiva, os financiadores sofrerão perdas de crédito, o que pode levar a uma contração na oferta geral de crédito na economia, como a que vimos nos EUA e na Europa recentemente.

Fica assim pavimentado o caminho para uma recessão ou estagnação, dependendo do tamanho da bolha formada. Tais bolhas levam muito tempo para serem digeridas, com custos sociais elevadíssimos.

Mas quais são os tais dos “fatores técnicos” que podem levar à formação de bolhas em alguns mercados?

Bom, aqui a imaginação e a ambição humana mostram seus infinitos limites:

  • Novas tecnologias podem aumentar a atratividade de certos ativos, como ocorreu na bolha da internet, atraindo assim recursos em excesso que reduzem o retorno dos investimentos;
  • Novos mercados consumidores que surgem em função de mudanças sociais e políticas imprevistas, como a queda do União Soviética nos anos 90 e as reformas capitalistas na China no início deste século, que trouxeram uma forte demanda adicional para produtores despreparados para atende-la;
  • Expectativa de escassez futura de algum produto, devido a limitações ambientais, geopolíticas, naturais ou tecnológicas, que leva a estocagem excessiva de bens, como no caso do Petróleo nos anos 90 e minérios recentemente;
  • Juros livres de risco de longo prazo muito abaixo do normal, em função de políticas cambiais, fiscais ou monetárias excepcionais e, portanto, insustentáveis no longo prazo;
  • Tendência de queda da volatilidade macroeconômica em virtude de períodos de crescimento estável excepcionalmente longos, que levam a redução do spread de risco demandado pelo mercado e usado na estimativa do valor econômico dos ativos. Isto ocorreu no período que se seguiu a unificação monetária na Europa e durante a “grande moderação nos EUA” depois dos anos 90;
  • Mudanças regulatórias ou inovações financeiras que permitem o acesso a investimentos em novos mercados até então desconhecidos pela maioria dos investidores, como foi o caso dos papéis com lastro em hipotecas sub prime nos EUA;
  • Repressão financeira patrocinada pelo governo, que dirige artificialmente recursos privados para investimentos em certos setores em detrimento de outros que tenham melhor relação risco / retorno mas que não atendam as agendas políticas sociais, como ocorreu na bolha de investimentos públicos patrocinada pelo governo Chinês nos últimos anos;
  • Modismos que, através da mídia e da propagação de análises otimistas, criam expectativas irreais de crescimento e de ganhos em alguns setores da economia ou mercados (como na bolha recente dos mercados emergentes);

E por aí vai.

E como evitar bolhas?

Bem, eu acho que não há como evitar espuma, as pequenas bolhas localizadas, pelas razões que listei acima. Nossa ambição e imaginação não tem limites. Somos humanos. E foi esta ambição e imaginação que nos tirou das cavernas e nos trouxe até a era da tecnologia da informação. Contudo, há maneiras de se evitar que a espuma se transforme em bolhas generalizadas na economia.

O que de fato viabiliza a transformação de espuma em bolha é a oferta excessiva de crédito. O canal de crédito (através dos mercados de capitais e de bancário) pode ampliar o tamanho da bolha dramaticamente ao alavancar o capital disponível para fomentar tais bolhas. Além disto, quando as bolhas fomentadas por crédito estouram, os danos não ficam apenas limitados àqueles investidores que alocaram sua própria poupança aos investimentos irresponsáveis.  Os danos também atingem os intermediários financeiros que financiaram a bolha. Dependendo do tamanho de tal alavancagem, as perdas de crédito geradas pelo estouro da bolha podem ser insustentáveis para tais intermediários, o que pode levar ao colapso de parte relevante do sistema de crédito, com impactos nefastos para a economia como um todo ao reprimir a oferta geral de credito.

Desta forma, os BC’s têm a responsabilidade de evitar que isto ocorra, através de políticas cambiais, monetárias, prudenciais e regulatórias que impeçam tais bolhas. Muitas vezes é preciso que haja um aperto preventivo na oferta monetária, mesmo que a inflação esteja dentro das metas estabelecidas, através da elevação dos juros básicos ou de outras medidas quantitativas e regulatórias, visando encarecer o crédito e desestimular a expansão do processo de formação de bolhas. Há, porém, um custo de curto prazo ao se fazer isto. Tal elevação dos juros acaba tendo impactos na economia como um todo, o que reduz emprego e o crescimento no curto prazo. No entanto, cabe ao BC avaliar se o custo de curto prazo é justificável à luz do potencial custo futuro esperado na eventualidade do estouro de uma bolha.

Existem alguns aspectos que tornam a vida dos BC’s mais difíceis neste front:

  • Os mandatos institucionais dos BC’s normalmente não incorporam a missão de combater bolhas explicitamente ou quais os instrumentos autorizados nesta batalha. Isto acaba inibindo as ações das autoridades monetárias, que são orientadas primordialmente para cumprir seus mandatos de combate à inflação e ao desemprego, quando for o caso.
  • É muito difícil avaliar ex ante se de fato há uma bolha em formação. Aqueles que se beneficiam durante o processo de formação da bolha (intermediários financeiros, investidores mais agressivos, governos coniventes e empresas do setor beneficiado) combatem ativamente a ideia de que haja uma bolha em formação. Durante a bolha da internet no início deste século, as empresas e analistas chegaram ao ponto de afirmar que estávamos diante de uma quebra de paradigma econômico e que o lucro não seria mais tão relevante na avaliação de investimentos. Durante o boom imobiliário dos EUA os governos locais exigiam que emprestassem mais para famílias de baixa renda, apesar da baixa qualidade daqueles créditos.
  • Os BC’s menos independentes temem os custos políticos de combater bolhas em formação, uma vez que elas muitas vezes geram ganhos para governos, com mais impostos e com o aumento da popularidade causado pela mídia positiva que elas criam em sua fase inicial.
  • Os governos, com medo de prejudicar sua popularidade, muitas vezes fomentam a formação de outras bolhas para combater os efeitos do estouro de uma bolha, como o ocorrido no primeiro mandato do Governo Bush após o estouro da bolha da internet, quando este apoiou políticas que levaram a formação da bolha imobiliária de 2008.

Passados 6 anos do estouro das maiores bolhas da história econômica (imobiliária nos EUA e dos títulos soberanos na periferia europeia), ainda se sentem seus impactos negativos pelo mundo afora. Vamos avaliar se desta vez aprendemos, ou se estamos iniciando uma nova fase de formação de bolhas que nos levará, em alguns anos, a outra crise.

Onde será a próxima bolha? Difícil dizer agora.

Quando ela vai estourar? Ainda falta  tempo.

Mas prometo responder assim que alguma bolha estourar daqui a alguns anos.

Prever o estouro de bolhas é muito fácil, pois elas sempre estão correndo. Tem até economista especialista em prever estouro de bolha, pois todas um dia estouram. Porém nunca ninguém consegue prever quando e como isto acontecerá. E quando elas começam a esvaziar, alguns tardam para reconhecer. Aí já é tarde demais…

housing-bubble

 

 

Ps: e a turma lá fora já começa a debater se há ou não bolha na bolsa nos EUA: http://online.barrons.com/article/SB50001424053111903698104579477321971635790.html?mod=djemb_dr_h

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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014 ataques especulativos, Câmbio, Crise Brasileira, Empresas, Impostos, Inflação, Investimentos, Juros no Brasil, Politica Economica, Sem categoria | 02:08

Um ajuste inevitável

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Ao longo dos últimos 3 anos convivemos com uma economia que cresceu pouco, como mostra o gráfico azul abaixo da taxa anual de crescimento da economia estimada pelo BC ( IBC ajustado sazonalmente , variação anualizada dos últimos 6 meses sobre 6 meses anteriores ):

ibcsemtaxa

 

Vemos que a taxa de crescimento da economia caiu dos 5% ( laranja) que tínhamos até 2008, para menos de 2,5% ( cinza) de 2011 até 2013, com forte desaceleração nos últimos meses.

A produção industrial também vem se desacelerando desde 2010, estando praticamente estagnada, como vemos no gráfico abaixo que mostra a evolução da taxa anual de crescimento da produção industrial desde 2008:

prodind

Ao mesmo tempo vínhamos tendo taxas aceleradas de crescimento do consumo ( demanda interna), como vemos nos gráficos abaixo das vendas no varejo, que só recentemente desaceleraram:

 

vendavarejobrasTambém tivemos quedas contínuas no desemprego, como vemos ( em verde ) no gráfico violeta abaixo que mostra a evolução da taxa média de desemprego nos últimos 12 meses desde 2004, que está no nível mais baixo dos últimos 10 anos:

desemprego

Como consequência deste vigor do mercado de trabalho, a renda do trabalhador tem apresentado crescimento real elevado, como mostra o gráfico laranja abaixo, preparado pelo Itaú:

rendareal

 

Vemos em vermelho que, na média, o rendimento das pessoas tem subido a mais de 3% a.a. em termos reais, ou seja, acima do crescimento da produtividade, que tem crescido ao redor de de 1% a.a., como está mostrado em verde na tabela abaixo:

prodpais

 

Não foi um cenário excepcional de crescimento, porém a luz do que ocorria lá fora estávamos numa situação bem satisfatória. Entretanto, vocês precisam concordar que há algo de estranho acontecendo numa economia onde:

  • o nível de desemprego é o mais baixo em vários anos e decrescente;
  • o consumo cresce a taxas elevadas;
  • mas a produtividade cresce abaixo do aumento da renda do trabalho;
  • e a produção industrial estagnou.

Alguma coisa parece estar errada. Os sinais de desequilíbrio podem ser facilmente vistos através da análise de duas variáveis macroeconômicas: a inflação e os saldos das contas externas, que deterioraram bastante desde 2009.

A inflação persiste em ficar bem acima do centro da meta ( reta verde abaixo), como mostra o gráfico branco abaixo ( vermelho):

infla2004cpi

 

Nos últimos 5 anos, só ficamos abaixo do centro da meta por alguns pouco meses em 2009. E de 2011 para cá, a inflação ultrapassou o topo da meta já algumas vezes, tanto em 2011 como em 2013.

Nosso saldo externo, que era positivo até 2008 como vemos no gráfico abaixo, vem caindo consistentemente desde então ( vermelho), e hoje nosso déficit chega a 3,7% do PIB:

ccdefi

 

Fica evidente que nos últimos 5 anos:

  • a demanda e o consumo foram sustentados por um mercado de trabalho aquecido;
  • mesmo com esta demanda aquecida, a produção não reagiu na mesma intensidade, o que demonstra que não temos um problema de falta de demanda, mas sim de falta de crescimento da oferta;
  • a produção não acompanhou a demanda interna, ou seja, os investimentos produtivos não foram suficientes para aumentar a produção em ritmo condizente ao aumento da demanda;
  • o mercado de trabalho aquecido gerou pressão de custos, que não foram compensados com um aumento de produtividade;
  • nossos gastos com consumo e investimento cresceram mais do que a nossa renda, gerando um déficit externo.

Tudo isto pode ser constatado nos gráficos acima, pois:

  • como se explica uma inflação tão elevada e persistente com uma atividade  tão fraca? Isto só se explica se os salários estiverem subindo acima da produtividade ( produto criado por trabalhador na margem é menor do que salário pago) e , por consequência, a demanda gerada por estes salários crescentes esteja subindo mais rápido do que oferta de bens e serviços;
  • como se explica um déficit externo crescente com uma economia andando tão devagar? Ora, isto só se explica se a demanda estiver andando acima da capacidade de produzir das empresas, e que estejamos portanto poupando menos e gastando mais.

Como isto aconteceu? Vamos partir inicialmente da “premissa” que os conceitos que seguem abaixo, extraídos de contabilidade nacional, do  planejamento do orçamento das famílias e da aritmética, sejam válidos:

  • produto é aproximadamente igual a renda. Ou seja, só ganhamos mais se produzimos mais;
  • Renda é igual a soma de consumo + poupança, ou seja , o que não consumimos nós poupamos
  • Investimento = Poupança interna + Déficit Externo
  • Renda total = renda das famílias + dos capitalistas + dos empresários +  do governo + dos estrangeiros com negócios aqui
  • Assumindo um governo em equilíbrio fiscal, aumentos de gastos sociais são financiados por mais impostos, cobrados sobre famílias e empresas.

Se vocês concordam com estas aproximações e definições, podemos dizer que:

  • Se a renda dos trabalhadores sobe mais rápido do que renda nacional ( produto), pois produtividade da mão de obra sobe menos, e a carga tributaria e os gastos do governo sobem na mesma proporção,podemos afirmar a margem de lucro dos empresários deve estar caindo, pois  a conta precisa fechar. Margem menores levam a investimentos menores por parte das empresas;
  • SE você tributa quem poupa, sejam empresas ou pessoas físicas, e transfere esta renda para quem tem demanda reprimida, a poupança total do país cai e o consumo das famílias aumenta.
  • Se você reduz poupança, ao manter o consumo e investimento elevados, você inexoravelmente ( da aritmética) gera déficits externos crescentes.

Estes fatos se baseiam em contabilidade básica e são válidos para qualquer economista, seja ele neo liberal ou desenvolvimentista ou monetarista ou comunista. Um modelo que funciona desta forma gera desequilíbrios entre a oferta e a demanda de poupança, assim como de bens e produtos, pois são dois lados da mesma moeda. Os desequilíbrios externos não são problemáticos na medida em que os mercados internacionais de capitais, ou seja, aquela turma neo liberal de Davos que acredita em vários conceitos defendidos pelo Consenso de Washington, estejam dispostos a nos financiar. Se tal turma mudar de ideia por que nossos fundamentos pioraram ou por que outros cantos do planeta  apresentam retornos melhores para seus investimentos, esta turma foge. Capital é um bicho selvagem: vai sempre atrás de retorno alto e de risco reduzido. Parece cruel, mas quem guarda dinheiro quer sempre investir com altos retornos e risco baixo. Parece “maldade”, mas é assim que pensa quem tem grana para investir, e se não pensa assim, sugiro que consulte um psiquiatra. Tais capitais estão de olho no gráfico abaixo feito pelo Banco CS, que mostra a evolução da taxa de crescimento do PIB global ( azul ), do PIB dos países emergentes ( tracejado em preto) e do PIB dos países desenvolvidos ( vermelho ) desde 2002 :

pibglobo

Em 2007, o PIB dos emergentes crescia 6,4% a.a. acima do PIB dos países desenvolvidos ( verde). Esta diferença de crescimento caiu bastante e deve se reduzir para cerca de 3% a.a. no ano que vem, segundo as projeções do Banco CS. Desta forma, um diferencial de crescimento menor significa uma atratividade menor dos investimentos em países emergentes quando comparados com investimentos em países desenvolvidos.  Do ponto de vista de risco, os mesmos capitais estão olhando estes gráficos preparados pelo banco HSBC:

 

fischsbc

 

O Brasil, marcado em preto no quadrante vermelho inferior esquerdo, está entre os países emergentes que apresentam maiores déficits fiscais e ritmo de crescimento do mesmo.  O mesmo pode ser dito sobre o comportamento dos déficit externos de nosso país, como mostra a tabela abaixo feita também pelo banco HSBC:

defhsbc

Fica claro que nossos fundamentos mostram que há desequilíbrios crescentes e preocupantes em nossa economia. Portanto, do lado do crescimento nossa atratividade caiu enquanto nosso risco macro econômico subiu. Isto nos torna menos atraentes ao capital externo. Não quer dizer que vamos quebrar. Só quer dizer que somos menos atraentes hoje do que éramos há alguns anos atrás. Portanto ficará mais caro levantar recursos nos mercados internacionais.

Logo, chegou a hora do ajuste. Creio que a Presidenta Dilma já percebeu isto quando decidiu ir a Davos, o que resultou nas medidas fiscais anunciadas recentemente. A chamada vulnerabilidade do país está centrada nestes três aspectos: crescemos pouco, temos um déficits fiscais e externos crescentes. Precisamos endereçar esta situação, e o governo já está se movendo nesta direção.

Para estancar este déficit externo no curto prazo e reduzir a nossa dependência  externa, precisamos reduzir o ritmo de aumento do consumo para que este seja compatível com o ritmo de crescimento da produção. Há algumas formas de se fazer isto:

  • elevar os juros, como o BC vem fazendo, aumentando o custo dos empréstimos e reduzindo a oferta de crédito, induzindo desta forma as pessoas a reduzirem seu consumo e seu endividamento, o que eleva a poupança interna;
  • reduzir oferta de crédito interno limitando o ritmo de crescimento dos empréstimos do BNDES e da Caixa Econômica, como o Ministro Mantega prometeu que pretende fazer;
  • reduzir gastos e consumo do governo, elevando o superávit primário, porém fixado pelo Ministro Mantega em 1.9% para este ano, o mesmo nível de 2013;
  • uma outra alternativa seria aumentar os impostos ainda mais, alternativa que, embora o Ministro tenha afirmado que pode ocorrer, creio que o governo não ousaria isto, dada já elevada carga tributária e seu efeito deletério sobre a poupança interna e o investimento privado;

O governo está adotando gradualmente os remédios acima, concentrado o foco nos juros e  reduzindo a oferta de crédito público, embora não esteja claro ainda a intensidade deste ajuste. O fato é que se nenhuma destas medidas fosse tomada os déficits externos continuariam a subir, e com isto nossa dependência dos “capitais neo liberais” só aumentaria. E os mercados sabem disto e reagiram bem às medidas fiscais anunciadas na semana passada.

Mas qual a dosagem certa de cada um destes tratamentos para os desequilíbrios que apresentamos? As medidas tomadas até agora serão suficientes?

Bom, como em qualquer tratamento, a dose de cada remédio depende das condições de saúde do paciente e da gravidade da doença:

  • se exagerarmos a dose nos juros, podemos criar uma crise de crédito no sistema que causaria uma depressão nos investimentos privados, que já estão perdendo ânimo;
  • se cortarmos demais os empréstimos do BNDES e CEF, o investimento privado pode cair, o que prejudicaria o desempenho futuro da economia;
  • é possível voltar atras com algumas desonerações de impostos sobre alguns produtos e serviços ( bens duráveis, gasolina e energia , por exemplo), porém tais medidas poderiam levar a aumentos de preços, que resultariam em mais inflação, o que demandaria um aumento maior dos juros internos;
  • é sempre possível reduzir gastos do governo, aumentando o superávit primário desta forma. Como nosso Estado gasta mais de 37% do PIB com despesas e transferências por ano, um corte de 3% nas despesas representaria um corte de 1% do PIB na demanda e no déficit externo.
  • mas se formos  tímidos demais nas doses dos remédios, a pressão sobre o câmbio aumentará,o que forçará o BC a levar os  juros para níveis bem elevados.

Porém, é bom ter em mente que todas estas medidas de ajustes tendem a  reduzir o ritmo de crescimento de nossa economia, que provavelmente crescerá este ano menos do que os 2,5% a.a. previstos pelo Ministro Mantega.  Já há alguns economistas prevendo crescimento inferior a 1,5%  para este ano pois não é possível no curto prazo reduzir a dependência do capital externo sem contudo reduzir o ritmo de crescimento da economia. E é isto exatamente o que está acontecendo, como os dados recentes de atividade mostram. Não há como o governo evitar tal cenário.  E com a economia mais fraca, a arrecadação de impostos cairá, o que irá piorar a situação das contas públicas. Logo, os desafios envolvidos no cumprimento da meta de superavit fiscal de 1, 9% do PIB fixada pelo governo para 2014 são enormes. 

Iremos precisar de ajuda da demanda externa neste cenário, ou seja, da balança comercial e de serviços. Como o Presidente do BC tem colocado, é necessário que ocorra um ajuste nos preços relativos internos  vis a vis os externos: precisamos de um R$ bem mais fraco, que torne as importações mais caras e viabilize uma expansão das exportações:

http://g1.globo.com/economia/noticia/2014/02/nao-ha-reparos-a-fazer-na-politica-de-ajustes-diz-tombini.html

“Se temos déficit em conta corrente e o real desvalorizou ao longo dos últimos meses, essa desvalorização faz com que nossos produtos fiquem mais baratos no exterior e as importações um pouco mais caras. Isso ajuda no ajuste da conta corrente, milita no sentido de diminuir os desbalanços e não aumentar”, afirmou.

Os mercados e seus agentes, aqueles que segundo alguns estariam conspirando contra o governo, estão de fato ajudando o processo de ajuste, como normalmente acontece. 

Porém, uma desvalorização cambial muito rápida traz problemas:

  • gera pressões na inflação, pois elevam-se os preços dos bens e insumos importados;
  • gera uma desequilíbrio maior nas contas da Petrobrás e de outros importadores.

Logo, é preciso suavizar este movimento de desvalorização, vendendo dólares de nossas reservas internacionais através de derivativos cambiais, da forma que o BC está fazendo. Com estas vendas o BC está provendo proteção cambial  ao sistema. Se o US$ subir muito o governo perde dinheiro nestes derivativos, ou seja, socializa parte do prejuízo que as empresas endividadas em dólar teriam. Além disto, ao elevar os juros para evitar que tal desvalorização do R$ contamine a inflação, o BC aumenta o custo de financiamento do Tesouro. OU seja, não há almoço grátis: o custo inicial do ajuste cambial precisa ser pago por alguém, seja  pelo Estado, ou por aqueles que se endividaram em US$ ou pelo trabalhador através da perda de valor real de seus salários caso a inflação suba. 

Para que este processo de desvalorização cambial surta efeito, é preciso que haja uma desvalorização real do câmbio, ou seja, que a desvalorização cambial nominal não seja repassada aos preços ou salários internos. Só assim ocorreria uma mudança de preços relativos. Os produtos e salários locais precisam cair em dólares, ou seja, é preciso que fiquem mais baratos em dólares. Tem que haver uma perda de poder aquisitivo dos salários no Brasil vis a vis àqueles pagos em outras economias. Esta é a única forma de recuperarmos alguma competitividade em nossa indústria e termos algum impulso externo em nossa economia. A política monetária precisa ser mais apertada para garantir que este processo de mudança de preços relativos ocorra de forma eficiente.

Por exemplo, na medida em que fique mais caro viajar ao exterior vis a vis o turismo doméstico, o deficit externo com viagens ao exterior, que tem aumentado em ritmo bastante acelerado desde 2007 ( em amarelo abaixo)  estando hoje acima de  US$ 1.7 bi por mês como vemos no gráfico abaixo ( preto),  deve se reduzir nos próximos anos:

defiviag

Contudo, se  todo este fluxo de gastos no exterior for canalizado para o mercado de turismo doméstico haverá uma forte expansão da demanda por serviços neste setor ( 0,8% do PIB) que não teria capacidade de absorver esta avalanche de novos turistas. Portanto é preciso que esta renda que hoje é consumida no exterior seja parcialmente poupada  e não consumida internamente num primeiro momento, pois, caso contrário, isto geraria mais pressões de demanda e inflação. Com esta poupança seria possível financiar investimentos em aeroportos e em hotéis que poderiam absorver esta demanda no futuro, sem agravar o déficit. Os juros elevados serviriam a este propósito, ao induzir que tal renda que não foi gasta no exterior seja poupada e não sendo gasta em consumo interno. Por exemplo, imagine que durante 3 anos sejam poupados 2,4 % do PIB, que não mais seriam gastos em viagens no exterior, mas sim aplicados em fundos de investimento que investem em hotéis e em infra dedicada ao Turismo. Vamos assumir que tais investimentos apresentem uma taxa de retorno real de 6% a.a..  Depois de 3 anos, com os investimentos maturando, os gastos com turismo local poderiam aumentar 0,8% do PIB a.a., e aqueles que pouparam e financiaram tais projetos teriam ganho 0,4% do PIB! É assim que a  economia funciona. Ao poupar, adiando o consumo, você está financiando investimentos que irão permitir mais consumo no futuro,  ao mesmo tempo que você ganha algum no processo! É exatamente isto que precisamos fazer agora. Contudo, este é um conceito que encontra enorme dificuldade em ser absorvido por alguns, como já postei aqui inúmeras vezes ao longos dos últimos anos.  Há hoje a noção completamente equivocada e absurda de que poupar, deixando o dinheiro depositado no banco ou em fundos de investimento,  seja  ” rentismo”  e ” especulação financeira”,  a tal da ” ciranda financeira”. As pessoas esquecem é que este dinheiro  financia investimentos produtivos e a dívida pública através dos mercados bancário e de capitaisHoje poupamos cerca de 15% do PIB ( vs. + de 20% na maioria dos emergentes) e temos um déficit de 3,7% do PIB. Um aumento de 20%  geração anual de poupança acima do PIB já nos colocaria em situação de equilíbrio.  E a maneira de se aumentar a poupança interna é:

  • reduzir gastos públicos e carga tributária, deixando mais dinheiro na mão de quem poupa;
  • reduzir impostos sobre capital e produção e aumentar sobre consumo, para incentivar investimentos;
  • aumentar produtividade geral da economia, através das famosas “supply side reforms”;
  • reformar sistema previdenciário, incentivando modelos de cumulação ao invés de ” pay as you go” como o nosso, onde os trabalhadores guardem uma parcela de sua renda para formar a poupança necessária para financiar sua própria aposentadoria;

Vamos ver agora o que está ocorrendo com nossa taxa de câmbio real. O gráfico abaixo mostra que o nosso câmbio real, calculado pelo BC, já se desvalorizou, como mostra a seta amarela:

cambioreal

 

 

Embora seja impossível saber de antemão qual será a  taxa real de câmbio necessária para o equilíbrio, vemos que no ajuste ocorrido em 1999 (seta roxa), quando partimos para o regime de câmbio flutuante, o câmbio real ficou abaixo do nível atual. Todo este ajuste de câmbio real foi revertido de 2003 até 2011 ( seta verde). Mas de 2012 para cá o câmbio real voltou a cair (amarelo). Até onde vai tal desvalorização? Muito difícil prever. Dependerá do conjunto de medidas de curto e médio prazo a serem adotadas pelo governo para trazer a economia de volta a uma trajetória de crescimento sustentável.

Outra variável importante neste ajuste de preços relativos é a nossa balança comercial de petróleo, gás e derivados, que depende de como e quando se dará o aumento de nossa produção de petróleo e LGN. Hoje produzimos cerca de 2,2 milhões de barris dia, como vemos no gráfico azul abaixo:

prodoilbras

 

 

Entre 2000 e 2010 nossa produção crescia a 5% a.a. ( verde), mas de 2010 para cá estagnou ( preto). Se aumentarmos em 50% este volume nos próximos anos quando da maturação dos investimentos feitos no pre sal, podemos gerar US$ 30 bi por ano de renda externa decorrente deste choque de oferta produzido pelo aumento de produtividade que, se não for totalmente consumida,  tem o potencial de reduzir deficit externo em 30%. Quanto mais cedo a produção de petróleo começar a subir, menor será o ajuste necessário em nossas contas externas.  Contudo, para que isto ocorra o gráfico acima precisa mudar de figura dramaticamente  e que os recursos que sejam gerados desta forma não sejam gastos com consumo, seja do Estado ou seja privado.

De qualquer forma, para que este ajuste de câmbio real ocorra é necessário que a política monetária permaneça apertada durante o processo de ajuste, pois com a desvalorização cambial há uma elevação no custo dos insumos importados usados na produção, o que pode levar os empresários a aumentar seus preços pressionando a inflação. Além disto, vai levar alguns anos até que a produção local e o turismo local atraia os investimentos necessários para atender os mercados exportadores ou para que algumas das importações sejam substituídas por produção doméstica. Para agravar a situação, na medida em que temos um mercado de trabalho apertado, com pouca oferta de mão de obra e forte alocação de pessoal nos setores de serviços, não há excedente de mão de obra que possa ser absorvido para aumentar a produção de bens comercializáveis com o exterior ( exportados e importados). Logo, será preciso efetuar uma migração da mão de obra hoje alocada ao setor de serviços e ao comércio para os setores que serão beneficiados pelo R$ mais fraco, como turismo interno e manufaturas. O mesmo se aplica ao capital que hoje é investido nas atividades de serviços e voltadas ao consumo que vai passar a ser investido em indústrias e outros setores de bens e serviços comercializáveis com o exterior. Todo este processo de ajuste leva tempo, o que faz com que os  juros precisem ser mantidos elevados por mais tempo, ou que o câmbio tenha que se desvalorizar um pouco além do necessário ou que a demanda seja mais reprimida. 

Não seremos os únicos a passar por este ajuste, pois como vimos nos gráficos acima vários outros países emergentes possuem vulnerabilidades. E é bom lembrar que’ o mesmo ajuste ocorreu, em intensidade muito maior, em alguns países da periferia européia, como Espanha e Portugal, que tiveram que reduzir seus déficits externos drasticamente.

E isto não é um fenômeno novo para o Brasil, pois já aconteceu algumas vezes em nossa história:

defccbraz1980

 

 

O Gráfico vermelho acima mostra a evolução de nosso saldo externo desde os anos 70.  As setas azul, cinza e preta mostram momentos de nossa história quando tais ajustes ocorreram. E em vermelho, temos nosso déficit atual. Ou seja, nosso déficit entrou na região em que normalmente ocorrem os ajustes. E, como disse acima, em todos estes momentos de ajuste nossa economia reduziu o ritmo de crescimento, como vemos no gráfico abaixo que mostra a variação anual de nosso PIB desde os anos 70:

pib1975bras

 

Mas o que  vai mesmo nos diferenciar neste processo será a maneira que conduzirmos tal ajuste, de tal forma que consigamos sair deste processo com um crescimento econômico mais equilibrado e sustentável, bastante diferente da situação onde hoje nos encontramos. Medidas como juros mais elevados, aperto fiscal por contingenciamento de gastos e desvalorização cambial não são suficientes para nos colocar numa trajetória de crescimento compatível com as nossas aspirações sociais. São apenas medidas  temporárias que servem para nos dar tempo para nos prepararmos para um novo período de reformas que propiciem um crescimento sustentado.

Precisamos fazer reformas estruturais para que a economia retome  mais cedo possível um ritmo mais acelerado de crescimento, reformas que enderecem várias questões que restringem o crescimento de nossa produtividade, que é o grande limitador para maiores aumentos da renda dos trabalhadores, pois não há como manter contínuos aumentos reais de salário acima do aumento da produtividade,  sem aumentar os déficits externos ainda mais. O diagnóstico de que precisamos de mais demanda interna para gerar mais investimento, defendido por alguns Keynesianos Tropicais, está equivocado, na medida em que enfrentamos gargalos na infra, no mercado de trabalho e temos déficit externo crescente. Só com a aceleração da produtividade do trabalho é viável ter um aumento da renda dos trabalhadores em ritmo mais acelerado, mantendo a economia em pleno emprego, sem gerar desequilíbrios externos ou inflação. Políticas sociais são financiadas com impostos, que dependem da renda nacional, e portanto dependem do PIB. Logo, precisamos crescer mais para termos mais espaço de ação em nossas políticas sociais. Distribuir renda sem aumentar o produto acaba reduzindo a poupança nacional e aumentando déficit externos ou gerando inflação. Experiências populistas, como as que vimos na Argentina e na Venezuela nos últimos anos, que pretendiam escapar desta realidade, terminaram em fiasco e crise.

Tais reformas precisam passar por :

  • reduzir impostos e despesas do governo;
  • limitar intervenção do Estado no sistema de preços e de credito;
  • aumentar a produtividade e a eficiência dos serviços públicos oferecidos pelo Estado;
  • investir na capacitação da mão de obra;
  • políticas de incentivo à acumulação de poupança interna;
  • melhoria da infra focada no escoamento e logística da produção;
  • facilitar a mobilidade do trabalho na economia;
  • abertura comercial gradual que aumente a competitividade de setores de nossa indústria;
  • simplificação dos controles cambiais, com aumento da convertibilidade de nossa moeda e da liberdade no movimento de capitais;
  • desenvolver um mercado de capitais doméstico, com sua efetiva integração aos mercados de capitais globais.

SE não endereçarmos estas questões nosso crescimento futuro ficará limitado, uma vez que as condições de financiamento externo serão piores nos próximos anos. Neste cenário, o câmbio teria que se desvalorizar ainda mais para compensar a baixa produtividade, o que causaria uma queda  real dos salários e dos benefícios sociais, jogando fora as conquistas dos últimos anos.

As escolhas de política econômica que forem feitas agora definirão nosso futuro nos próximos 5 ou 10 anos. E desta vez, os ventos que nos ajudaram  nos últimos anos, como:

  • oferta abundante de mão de obra no mercado de trabalho;
  • alta do preço das commodities que exportamos;
  • elevada liquidez nos mercados de capitais internacionais,

não estarão mais aqui. Logo, vamos depender de nós mesmos nesta travessia. Quanto mais cedo começarmos, mais rápido sairemos do marasmo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014 ataques especulativos, BRICS, Crise Brasileira | 14:27

Fed fala das vulnerabilidades dos BIITA’s

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Em relatório recente encaminhado ao Congresso americano, o BC americano menciona a situação de alguns países emergentes dentre os quais o Brasil. Ele destaca a fraqueza  moedas destes países nos últimos meses, e ele relaciona isto às suas vulnerabilidades.

Com base em alguns indicadores econômicos :

(1) deficit em conta corrente
(2) divida bruta do governo
(3) inflação dos últimos anos
(4 ) crescimento dos empréstimos feitos ao setor privado nos últimos anos
(5) relação da dívida externa sobre volume mensal de exportações
(6) tamanho das reservas internacionais

foi criado um índice que tenta medir a vulnerabilidade relativa de cada país. Quanto pior os itens 1, 2,3,4,5 maior a vulnerabilidade medida pelo índice. Já o item 6 ajuda a reduzir a vulnerabilidade. Ou seja,  a vulnerabilidade aumenta quanto menor a capacidade de gerar POUPANÇA Interna, como tenho repetido, insistido, frisado , um bilhão de vezes nos meus posts!! Quando os juros lá fora começam a se normalizar, a poupança externa fica mais cara  e escassa e aqueles países que geram menos poupança interna, dependendo da poupança externa como é o nosso caso, sofrem mais! 

O gráfico abaixo preparado pelo FED mostra, no eixo horizontal, o índice de vulnerabilidade calculado desta forma e no eixo vertical a desvalorização cambial ocorrida nos últimos  meses para cada país:

fedvuln

 

Marcado em vermelho temos o Brasil (BZ) e Turquia ( TK), que apresentam os maiores índices de vulnerabilidade de acordo com esta medida e portanto sofreram as maiores desvalorizações cambiais nos últimos meses. Pouco mais à esquerda temos os outros 3 f’rágeis ( INdia, InDonésia, África do Sul), completando  o time do BIITAS ou BITSI. Ou seja, vê-se aí que os mercados estão reagindo em função dos fundamentos de endividamento ( falta de poupança interna ) dos países. A elevada dívida pública, o crescente déficit externo e o rápido crescimento do endividamento das empresas e das famílias  são sintomas de falta de geração de poupança interna. Nossa produtividade cresce mais devagar do que nosso consumo… ou seja, não guardamos nosso aumento real de renda para os dias chuvosos. Não investimos para o futuro. Queremos resgatar toda nossa dívida social muito rapidamente. É um desejo louvável, porém não é realista. E tributar as elites econômicas, como defende o Prefeito Haddad, só agrava esta situação. Tudo isto gera endividamento e aumenta vulnerabilidade.

Quem quiser ler o relatório segue link abaixo:

http://www.federalreserve.gov/monetarypolicy/files/20140211_mprfullreport.pdf

PS: sempre podemos desqualificar a opinião do FED, pois:

  • estariam a serviço do grande capital financeiro
  • foram influenciados pelos analistas pessimistas conspiradores do mercado financeiro
  • fazem parte da conspiração dos imperialistas americanos para nos dominar
  • estão usando dados errados fornecidos pelos neo liberais do FMI
  • são um bando de neoliberal, pois vivem em Washington
  • estão a serviço da oposição aqui no Brasil
  • são uns burros pois não sabem nem pilotar as coisas por lá e ficam dando palpite aqui.

Porém tem muita gente lá fora que lê e acredita no que eles falam. Não quer dizer que eles estejam certos, mas que a opinião deles pesa, pesa. E esta senhora não me parece tola ou  irresponsável:

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