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sábado, 25 de julho de 2015 Bicadas, Crise Brasileira, Empresas, utilidade | 15:58

Uberprotecionismo e o uberintervencionismo

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Uber, em alemão, é um prefixo equivalente ao nosso super, que indica algo extremo ou em grau excessivo.

Tenho acompanhado o uberdebate e o uberespaço ocupado na mídia por este assunto nas últimas semanas, algo que deve estar agradando bastante aos donos da Uber, que estão se beneficiando muito da propaganda gratuita que a polêmica e as manifestações têm trazido.  Os usuários do sistema de táxis nos grandes centros, que desconheciam o aplicativo que aproxima motoristas particulares dos seus clientes, passaram a conhecer o produto.

Sou um liberal, que acredita que a concorrência sem a intervenção do estado funciona melhor. Não acho que o Estado tenha competência para dizer para mim como devo fazer meu trabalho. Prefiro que meus clientes me digam se o que faço é bom e que meus competidores me mostrem o que estão fazendo melhor. Acho que regras impostas pelo estado para proteger grupos de interesse causam distorções e prejudicam, na maioria das vezes, os consumidores. Mesmo nos casos de oligopólios naturais onde se justifica uma forte regulação do estado, como em telecomunicações, podemos constatar a ineficácia de tais regulações em garantir um bom serviço à população.

Nossa constituição garante alguns direitos individuais que protegem a livre inciativa e tentam limitar a ação restritiva do estado, como podemos ver em seu artigo quinto:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

II – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;

XIII – é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer;

XV – é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens;

XVII – é plena a liberdade de associação para fins lícitos, vedada a de caráter paramilitar;

XVIII – a criação de associações e, na forma da lei, a de cooperativas independem de autorização, sendo vedada a interferência estatal em seu funcionamento;

XXII – é garantido o direito de propriedade;

XXIX – a lei assegurará aos autores de inventos industriais privilégio temporário para sua utilização, bem como proteção às criações industriais, à propriedade das marcas, aos nomes de empresas e a outros signos distintivos, tendo em vista o interesse social e o desenvolvimento tecnológico e econômico do País;

XXXII – o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor;

 XXXIV – são a todos assegurados, independentemente do pagamento de taxas:

a) o direito de petição aos Poderes Públicos em defesa de direitos ou contra ilegalidade ou abuso de poder;

XXXIX – não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal;

LIV – ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal;

 E também há no seu Artigo 170:

Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:

II – propriedade privada;

III – função social da propriedade;

IV – livre concorrência;

V – defesa do consumidor;

Parágrafo único. É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei.

Não sou jurista, mas entendo que nossa constituição protege o direito à livre iniciativa, dentro dos limites da lei. E que toda lei que impeça alguma atividade comercial, tem que ser clara e justificada moral e socialmente, levando-se em conta os direitos dos consumidores. Porém deixo este debate aos juristas.

Quero me ater aos fatos de natureza econômica que me levam a apoiar iniciativas empresariais como o Uber.

  • O Uber representa o atendimento de uma demanda dos consumidores no setor de transportes privados urbanos hoje reprimida . Se não houvesse tal demanda reprimida, Uber não seria uma ameaça aos taxistas. Logo, seria muito importante ouvir, neste debate, os usuários do Uber e assim entender a razão da preferência destes pelos serviços prestados pelo Uber vis a vis os táxis, antes de se reprimir ou regular os seus serviços, pois o Uber pode ser uma boa solução para diminuir o número de carros na rua, sendo complementar aos táxis.
  • Vejo que a grande diferença entre os requisitos legais impostos aos táxis e o Uber é que os taxistas precisam de licenças concedidas pelo poder público para poderem operar. Tais licenças estão sujeitas a cotas fixadas pelo Estado e são sorteadas. Muitas destas licenças se encontram nas mãos de donos de frotas de táxi ou de “investidores” que as alugam para taxistas. Isto acaba reduzindo a margem dos taxistas, tornando-os de fato pouco competitivos. Há, portanto, de se questionar a limitação da emissão de licenças por parte do Estado e os critérios usados na sua distribuição. Sempre que existe este tipo de restrição imposta pelo Estado há um espaço enorme para corrupção, cartelização e corporativismo.
  • Os taxistas gozam de enormes subsídios fiscais nas compras de seus carros, enquanto que os motoristas do Uber não têm este benefício. Há de se perguntar se este subsídio tributário dado aos taxistas e, portanto, a seus usuários, seria justificado em função das limitações orçamentárias atuais, vis a vis outras prioridades de gasto público em transporte público, ou se ele deveria ser estendido aos motoristas do Uber por uma questão de isonomia tributária, como disciplinado na Constituição em seu art. 150, II, in verbis: 

Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

(…)

II – instituir tratamento desigual entre contribuintes que se encontrem em situação equivalente, proibida qualquer distinção em razão de ocupação profissional ou função por eles exercida, independentemente da denominação jurídica dos rendimentos, títulos ou direitos; 

  • Caso o Estado resolva intervir na livre iniciativa e no setor privado nesta questão do transporte privado nas cidades, será preciso regulamentar também as empresas de transfer e translado e aquelas que oferecem serviços de motorista particular free lance que atendem pessoas mais abastadas e executivos de empresas, pois elas nada mais são do que um Uber sem tecnologia. E precisamos rever o conceito de carona ou pool usados por mães que levam filhos de amigos à escola, uma vez que tais transportes não são regulados e competem com os táxis de forma desigual.
  • A questão da proteção do trabalho dos taxistas precisa ser analisada da mesma forma que os empregos dos funcionários das livrarias que foram destruídos por causa da Amazon e de seu poder econômico e tecnológico, que reduziu o preço de vendas dos livros e facilitou sua logística de entrega, aniquilando assim a competitividade de algumas pequenas livrarias. O mesmo se aplica aos empregos dos carteiros, destruídos pelo uso do E-mail. Sem falar no uso da robotização na indústria automobilística, que destruiu milhares de empregos, ao reduzir o custo dos carros.
  • Vamos regular também os serviços dos carroceiros, que atuam sem licença para recolher lixo, e das peruas Kombi que fazem carreto?
  • Diferentemente do serviço de ônibus e metrô, onde os usuários não têm escolha sobre qual provedor usar, por que queremos impor restrições à diferenciação dos serviços prestados no transporte privado?
  • Ao protegermos com regras os serviços de táxis, estaremos ajudando alguns milhares de taxistas. Porém quem vai defender o direito dos usuários do sistema de táxis? O sistema de táxis licenciados atual não seria um monopólio que prejudica o consumidor? Cadê o CADE?
  • Por que táxis podem andar em faixas de ônibus e os motoristas do Uber não podem? Isto não seria um privilégio e uma vantagem competitiva indevidamente dada aos taxistas?
  • Imagine como seriam hoje os serviços bancários se tivéssemos impedido empresas como o Pay Pal nos serviços de pagamentos privados e o Banco 24 horas com seus caixas automáticos de competirem com bancos?
  • Proteger os taxistas da competição não seria equivalente a proteger indústria local e impedir assim a importação de celulares e equipamentos de alta tecnologia que “poderiam ser fabricados aqui”?
  • Se queremos proteger o emprego dos taxistas, que tal criarmos um bolsa taxista, para que assim eles possam concorrer com Uber em nível de igualdade?

Ou seja, toda vez que o estado interfere em atividades que deveriam ser livres e, portanto normatizados somente pela competição e iniciativa privada, surgem distorções. Vide a nossa Petrobrás e seu monopólio, que demanda de seus fornecedores, como as construtoras, o tal do conteúdo nacional mínimo para proteger assim os empreiteiros locais, evitando a competição por parte de empresas estrangeiras. Isto estimulou a formação de carteis e de todos estes esquemas de corrupção. Ou seja, se permitirmos intervenção estatal para proteger os interesses de grupos locais, está se abrindo as portas para a corrupção, ineficiência e atraso tecnológico.

Não seria melhor acabar com tais licenças e liberar os táxis destas amarras regulatórias tolas e ineficazes, permitindo que eles compitam de igual para igual com os Ubers da vida? E que tal os sindicatos de taxistas se organizarem melhor e adotarem a mesma tecnologia oferecida pelo Uber, que é bem mais barata e acessível do que eles pensam? Vamos aderir ao capitalismo e não tentar sabotá-lo. A alternativa a isso é  estatizar o serviço de táxis e todo mundo vira funcionário público.

Uber, Amazon, E-mail, Whatsap, tudo isto é inevitável. Ou nos preparamos para este mundo, ou ficaremos cada vez mais atrasados. Hoje a Apple vale mais que todas as ações da Bolsa Brasileira juntas… Ou seja, queremos ser desenvolvidos ou continuarmos presos a modelos antigos, de outorga de direitos por parte do Estado como o que existia nos tempos coloniais, quando, para se produzir aço aqui, se precisava de autorização do Rei de Portugal. Vamos privatizar os serviços privados e deixar que a livre iniciativa funcione um pouco mais. Chega de estado tutelando a gente. Não somos crianças ou fracotes indefesos.

Vale a pena ler este texto abaixo sobre o fenômeno Uber.

 http://www.brookings.edu/research/opinions/2015/07/23-uber-democracy-dervis?cid=00900015020089101US0001-07241

 

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terça-feira, 7 de outubro de 2014 Bicadas, bizarro, Crise Brasileira, Politica Economica | 01:54

Os banqueiros, o déficit fiscal e a dívida pública

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Recentemente foi noticiado que a Presidenta Dilma se nega a fazer um “choque”  fiscal, pois isto significaria impor “sacrifícios ao povo para pagar juros aos ricos banqueiros”:

http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,dilma-afirma-que-pais-nao-precisara-de-ajuste-fiscal-profundo,1565983

“Nós não acreditamos em choque fiscal, isso é uma forma incorreta de tratar a questão fiscal no Brasil”, disse a presidente, pouco antes de participar de uma caminhada em Feira de Santana, segunda maior cidade da Bahia. “O Brasil precisa de uma política fiscal sistemática e robusta. Choque fiscal é um baita ajuste no qual se corta tudo para pagar juros para bancos? Se você vai ampliar alguns mecanismos, tem de explicar: vai cortar o que? Vai cortar programa social? Vai cortar o Bolsa-Família? Vai cortar os subsídios para o Minha Casa, Minha Vida?”

Bom, vamos entender alguns conceitos:

  • Dívida Pública Bruta: O governo brasileiro há décadas gasta mais do que arrecada e portanto precisa se endividar junto a investidores privados para cobrir seus gastos. Este procedimento existe aqui e milhares de outros países do mundo.
  • Superávit Fiscal Primário: é quanto o governo poupa de sua arrecadação para pagar os juros da dívida que ele mesmo contratou junto a seus credores.
  • Déficit Fiscal Nominal: é o total do buraco no orçamento do governo, que representa quanto o governo precisa se endividar adicionalmente para cobrir seus rombos.
  • Dívida Líquida: O governo levanta recursos junto a investidores também para emprestar recursos subsidiados a empresas no BNDES e para comprar dólares aumentando as reservas cambiais, visando deixá-los mais caro para ajudar às empresas exportadoras. A dívida líquida nada mais é do que o total da dívida subtraído destes aportes do governo ao BNDES e outros bancos públicos e das reservas cambiais.

Sobre a política fiscal eu recomendo a leitura deste post recente:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/09/12/saldo-das-contas-publicas-desaba-e-leva-consigo-a-poupanca/

Sobre gastos públicos, leia:

http://mansueto.wordpress.com/2014/09/17/estrutura-do-gasto-publico-em-2013-e-corte-na-despesa/

Sobre a dívida do governo este aqui ajuda:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/09/16/endividamento-elevado-demanda-ajuste-nos-gastos-publicos/

Sobre o BNDES e seus subsídios, eu recomendo ler:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/09/18/robin-hood-e-a-bolsa-empresario/

O ponto que quero destacar aqui é que há uma certa injustiça com relação aos banqueiros, pois eles não são os únicos  a receber os juros da dívida . Há outros que são “beneficiados”  por tais juros.

A dívida pública é representada por títulos públicos emitidos pelo Tesouro Nacional. Quando você compra um título público no Tesouro Direto você está emprestando dinheiro ao governo. Tais títulos são negociados no mercado financeiro. Seu vencimento pode ser bastante curto ( alguns meses)  ou mais longo ( décadas). Para quem se interessa em conhecer mais sobre o assunto, sugiro uma visita ao site:

http://www.tesouro.fazenda.gov.br/o-que-sao-titulos-publicos-

Quem compra estes títulos conta com a garantia do Governo, do Estado e do povo brasileiro que tais papéis serão honrados no seu vencimento e seus juros serão pagos como contratados.

O conceito básico de quem investe em tais papéis ( e em outros ativos financeiros ) é simples:

  • a pessoa recebe uma renda, como seu salário, dividendos ou aluguéis;
  • ela pretende economizar parte desta renda e, portanto, decide abrir mão de consumir tal montante no presente;
  • com o dinheiro poupado ela irá consumir mais no futuro, ou comprar uma casa, um carro, uma viajem ao nordeste, ou simplesmente pagar seu sustento após sua aposentadoria, complementando os benefícios que lhe serão pagos via previdência pública;
  • alguns indivíduos investem estes recursos poupados em negócios próprios, abrindo uma franquia, uma loja, uma pequena fábrica, uma doceria, um posto de gasolina, etc;
  • já a grande maioria dos poupadores que não possuem este espírito empreendedor preferem investir estes recursos em ativos financeiros, como caderneta de poupança, CDB´s, ações, fundos de investimento, VGBL, PGBL e por aí vai;
  • os recursos investidos nestes instrumentos são repassados a terceiros que desejam montar negócios próprios mas não dispõe da poupança acumulada necessária para faze-lo;
  • a taxa de juros ou a rentabilidade esperada em tais investimentos representa quanto vale para o poupador abrir mão do consumo hoje e adiá-lo por algum tempo.;

Este é o  funcionamento do processo de acumulação de poupança por parte das pessoas e do processo de investimento produtivo na economia, que é financiado através da reciclagem desta poupança através dos mercados de capitais e de crédito. A maioria dos políticos ignora disto. Eles fazem uma separação entre “capital produtivo” e “capital financeiro” que em economia não faz muito sentido. Todos os que acumulam poupança estão criando capital financeiro que financia o investimento produtivo. Se ninguém poupasse, ou seja, se todos gastassem 100% de sua renda com consumo, não haveria nenhum investimento produtivo! Ou seja, um país que quer crescer o investimento produtivo tem que fomentar a formação de poupança por parte dos indivíduos, empresas e governos.

O Governo, contudo, interfere neste processo, pois, ao gastar mais do que arrecada  ( tem déficit nominal), ele entra no mercado para tomar dinheiro emprestado e assim financiar seus déficits. O governo compete assim com outros empresários que precisam levantar recursos junto aos poupadores ( pessoas que compram tais ativos financeiros) para investir na economia. Como os investimentos em títulos públicos emitidos pelo governo apresentam baixo risco pelas garantias que oferecem, seus rendimentos são necessariamente inferiores àqueles pagos pelos empreendedores que vão levantar recursos junto aos poupadores. As taxas de juros pagas pelo Tesouro Nacional em seus papéis são guiadas pela taxa de juros fixada pelo BC na sua política monetária, que tem como objetivo combater a inflação.  Quanto maior for a inflação, maiores serão os juros do BC. E quanto maior for a necessidade de recursos por parte do governo, maior será o diferencial entre os juros pagos pelo governo e a taxa de juros fixada pelo BC. E quanto maiores forem os juros pagos pelo governo, maiores serão os juros cobrados dos empresários que desejam investir.

Vamos então descobrir quem hoje empresta o dinheiro ao governo, começando com os grandes bancos brasileiros. Na tabela abaixo  ( valores em R$ mil) vemos que em Junho último os 25 maiores bancos brasileiros possuíam mais R$ 5,5 trilhões em ativos, que incluem títulos e empréstimos:

 

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Destes R$ 5.5 trilhões, cerca de R$ 2,3 trilhões estão nas mãos de bancos sob controle do próprio governo federal (BB e CEF). O BNDES não foi incluído na lista pois como já disse na prática ele não é um banco.

Deste total de ativos, apenas 7,4% ( vermelho) foram financiados com recursos próprios ( patrimônio ) dos acionistas dos bancos.  Mais de 82% dos recursos usados para financiar tais ativos vieram de depositantes e de outros poupadores que repassaram sua poupança ( ou de terceiros) aos bancos em troca de algum rendimento. Ou seja, na verdade o grosso do dinheiro dos bancos vem daqueles que lá depositam seus recursos e não de seus acionistas banqueiros.

Estes 25 bancos tiveram no primeiro semestre deste ano um retorno sobre este capital próprio dos acionistas de 15% a.a, ou seja, cerca de 4,5% a.a. acima da taxa de juros paga pelo Banco Central. Tais bancos empregam mais de 450 mil funcionários, e o lucro anual gerado por estes bancos equivale a R$ 130 mil / funcionário. O gasto com pessoal e encargos trabalhistas destes mesmos bancos equivale a R$ 170 mil por ano por funcionário, como vemos abaixo:

 

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Para dados completos veja link abaixo:

http://www4.bcb.gov.br/fis/top50/top50aviso.asp?idpai=INFCONT

Logo, os banqueiros e os bancários são alguns dos beneficiados com os juros enormes que temos no Brasil, além dos depositantes e dos outros poupadores que depositaram recursos junto aos bancos.

Porém os bancos  não são os únicos que detêm títulos da dívida pública. O gráfico abaixo mostra a participação de cada tipo de investidor no financiamento da dívida do governo:

 

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Em agosto último todos os bancos e outras instituições financeiras detinham apenas 28,4% do total da dívida pública. E se levarmos em conta que apenas 7,4% dos ativos dos bancos são financiados com recursos dos próprios acionistas dos bancos, podemos estimar que 2% do total da dívida pública está nas mãos dos donos dos bancos, pois os outros 26% da dívida pública que hoje se encontram em poder dos bancos são financiados por seus depositantes, seja via CDB`s, depósitos de poupança, letras financeiras, bônus externos e por aí vai. Se considerarmos apenas os  maiores bancos privados, seus acionistas financiam apenas um pouco mais de 1% do total da dívida pública bruta.

Do total da dívida pública mobiliária, 21% estavam nas mãos de fundos de investimento brasileiros, onde eu, você e um grande número de poupadores investe seus recursos.

17% da dívida pública estavam com os fundos de previdência, que são fundos que investem os recursos contribuídos por seus participantes e que serão devolvidos aos pensionistas na sua aposentadoria.

Mais de 18% da dívida hoje se encontra nas mãos de investidores estrangeiros, recursos da poupança acumulada de japoneses, alemães, chineses , americanos, etc, que está investida aqui no Brasil em títulos do governo.

Outras entidades do próprio governo compram tais papéis e se beneficiam dos juros pagos pelo governo: FGTS/FAT/Fundo Soberano, detendo no conjunto 6% do total.

As seguradoras são praticamente obrigadas a investir em títulos públicos, detendo hoje 4% do total da dívida. Ou seja, o dinheiro que pagamos às seguradoras quando fazemos o seguro de nossos carros é investido em títulos da dívida do governo.

Em 2007 tal distribuição era bem diferente:

 

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Os estrangeiros então representavam em 2007 apenas 2% do total investido em títulos da dívida pública do governo. Ou seja, nosso governo precisou ir lá fora para levantar recursos para cobrir seus déficits, tomando emprestado poupança externa, o que reduziu muito a participação dos bancos no bolo e elevou a parte dos gringos para quase 19% do total!

Resumindo: os banqueiros são sim beneficiados com os juros pagos pelo governo, porém além deles temos todos que depositam recursos nos bancos, em fundos de previdência, em fundos de investimentos, que compram títulos no Tesouro Direto, que fazem seguros, além dos investidores estrangeiros, que nos últimos 7 anos decuplicaram sua participação no financiamento do Estado Brasileiro. Todos estes se “beneficiam” de alguma forma dos juros e da poupança feita pelo governo através do superávit fiscal primário. E todos estes também ajudam o governo a financiar os seus déficits, pois sempre é bom ter em mente que, se não fossem estes investidores, não teríamos como financiar os gastos crescentes do Estado. Não teríamos o BNDES do tamanho que tem, a CEF do tamanho que tem, e provavelmente teríamos que cortar os gastos nos programas sociais. Como o que arrecadamos de impostos não cobre o que o governo gasta e investe, nós dependemos sim desta turma para financiar tal buraco.

Logo, se o governo não pagar os juros da dívida, não serão só os banqueiros que perderão com isto. E falar que estamos economizando para pagar os juros da dívida não é muito preciso, pois hoje o grosso do que pagamos em juros é financiado com mais dívida do governo. Se você não quer depender da poupança alheia, seja de banqueiros, depositantes ou gringos, não tenha dívida.

Evidentemente que as taxas de juros aqui são absurdas e que isto penaliza muito os tomadores de recursos e cria encargos enormes para o governo. Porém colocar a culpa disto na ganancia dos banqueiros me parece um pouco impreciso. Se aqueles que compram títulos públicos são gananciosos, nosso problema vai bem além dos bancos nacionais. Além disto, apesar das taxas de juros elevadas, nossa inflação ainda é muito alta e a taxa de formação poupança não sobe, mesmo com os enormes ganhos dos “capitalistas rentistas neoliberais” que poupam neste Brasil. Será que nossos capitalistas são mais malvados que os capitalistas americanos que aceitam ganhar menos de 1% em juros reais nos títulos da dívida pública americana? Ou será que não temos algum outro problema mais profundo?

Na minha ótica neoliberal financista vejo a realidade assim:

  • o montante que pagamos de juros depende da taxa de juros e do volume da dívida bruta;
  • se cortarmos o volume de dívida bruta, reduzindo alguns gastos do governo ou o montante repassado ao BNDES, o total de encargos sobre a dívida cai;
  • se os juros caírem, os encargos totais caem;
  • para que os juros caiam de forma sustentável precisamos aumentar a formação de poupança no Brasil;
  • se baixarmos os juros do BC sem aumentar a poupança feita pelos brasileiros, a inflação subirá ainda mais;
  • para aumentar a formação de poupança precisamos reduzir o deficit público e o privado ( que somam hoje 3,5% do PIB);
  • o aumento na formação da poupança  provoca uma queda nas taxas de juros de forma não inflacionária;
  • para reduzir o deficit publico precisamos cortar gastos públicos segundo algum critério acordado com sociedade;
  • para reduzir o déficit privado precisamos aumentar a produtividade geral, para que todos nós ganhemos mais dinheiro com o mesmo trabalho e capital, e assim possamos poupar mais e investir mais.

Ou seja, os juros elevados são uma consequência de desequilíbrios econômicos que precisam ser endereçados, e não o resultado de um complô ou cartel entre todos os financiadores do Estado. O poupador é  beneficiado com taxas elevadas de juros elevadas decorrentes da falta de poupança interna e dos déficits persistentes nas contas públicas. Enquanto não endereçarmos estas questões estruturais continuaremos a pagar juros exorbitantes.

Voltando ao debate sobre a necessidade ou não de um choque fiscal, a Presidenta de fato reconheceu que:

” O Brasil precisa de uma política fiscal sistemática e robusta”

que é algo que os dados recentes mostram que não temos tido já há alguns anos.

Os números fiscais dos últimos anos, quando comparados àqueles praticados até 2011, mostram tudo menos robustez. O que houve foi uma queda sistemática em nossos superávits fiscais, como mostram os dois gráficos abaixo:

 

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Vemos que a economia que o governo tem feito para cobrir os encargos da dívida vem despencando desde 2011 de forma preocupante, de tal forma que, apesar da criatividade em contabilizar despesas e receitas adotada pelo governo, ela chegou a seu menor nível em mais de dez anos.  E nada indica que esta tendência vá se reverter. E como o governo também não consegue manter a inflação baixa, ele precisa manter os juros altos, o que aumenta as despesas com encargos sobre a dívida pública, elevando o déficit total nominal, como vemos abaixo:

 

 

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O buraco nas contas do governo vem piorando ( ficando cada vez mais negativo,  em vermelho) e se aproxima dos piores níveis desde 2005 ( amarelo). Ou seja, o governo vai precisar se endividar cada vez mais para cobrir o buraco anual nas contas públicas que já representa 4% do que produzimos todo ano. E vai ter que convencer a turma que hoje compra títulos públicos a comprar cada vez mais títulos. Para tanto, o governo vai precisar oferecer juros maiores. Ou seja, este processo de piora do quadro fiscal é o verdadeiro vilão, que de fato enche os bolsos dos banqueiros e de todos os outros poupadores que financiam os gastos do governo. Um governo que deve pouco paga pouco juro. Um governo que tem inflação baixa paga pouco juro. Para agravar o quadro, a crise de confiança dos mercados causada pelas incertezas geradas pelo debate eleitoral fizeram como que os juros demandados nos títulos da dívida pública disparassem recentemente. Persistindo este quadro, é certo que o Brasil terá sua nota de crédito rebaixada em 2015. Isto elevará ainda mais o custo de financiamento do Tesouro, agravando nossa situação fiscal.

Reduzir a inflação rapidamente e equilibrar as contas públicas reverteria esta situação. Desta forma, vamos sim precisar de um choque ou de aperto ou de reforma ou de ajuste ou de consolidação ( chame do que quiser)  nas contas públicas no começo de 2015, através de mais impostos, ( CPMF e CIDE), menos gastos ( corte de despesas e aumento da TJLP no BNDES ) e mais tarifas ( eletricidade, transporte público e gasolina). E para reduzir os juros de forma sustentável, vamos precisar sim acelerar a convergência da inflação para o centro da meta. Nada disto é indolor. Porém será inevitável. Ou faremos isto tudo agora com alguma dor, ou daqui a alguns anos com uma dor enorme. Neste sentido, sugiro uma visita à Argentina e a Venezuela que resistiram a fazer tais ajustes e chegaram ao penhasco.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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segunda-feira, 14 de julho de 2014 Bicadas, Brasil, Crise Brasileira, Politica Economica, Sem categoria | 02:44

Intervencionismo 10 x 1 Brasil

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Não pretendo aqui tentar encontrar uma explicação para o que aconteceu dentro de campo com nossa seleção. Não é minha praia, pois sou das quadras e raquetes, e tampouco é o foco desta coluna. Fico com a resposta do goleiro Julio Cesar, quando disse que era difícil explicar o inexplicável depois dos 7 a 1:

http://www.cidadeverde.com/cvamarela/2014/07/08/julio-cesar-explicar-o-inexplicavel-e-muito-complicado/

Da mesma forma respondeu a  nossa Presidente Dilma quando os jornalistas estrangeiros lhe perguntaram por que o Brasil crescia tão pouco, como vemos abaixo:

http://br.reuters.com/article/topNews/idBRKBN0EF12G20140604

E ainda sob os efeitos do choque traumático causado pelo fracasso de nossa seleção, que tomou uma goleada como nunca antes vista em nossa história, o Governo, nas vozes da Presidenta Dilma e do Ministro dos Esportes, impulsivamente expressou recentemente o desejo de intervir também no futebol, assim como faz na economia, no BC, nos preços administrados, nos juros, no Câmbio, na Petrobrás, etc,  como vemos neste trecho de artigo retirado do Estadão:

http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,dilma-defende-renovacao-na-gestao-do-futebol-aldo-fala-em-intervencao,1526779

E em outros noticiários:

http://www.ecofinancas.com/noticias/rebelo-defende-fiscalizacao-publica-futebol/relacionadas

Logo em seguida ele tratou de desmentir, pois caiu na real que tal intenção seria no mínimo maluquice, uma vez que se o governo não consegue dar conta  da educação tampouco da saúde, imagine o que faria se viesse a se meter no futebol:

http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2014-07/governo-nao-quer-comandar-futebol-mas-modernizar-diz-dilma

E é bom lembrar que esta mesma CBF que está aí, com esta mesma organização pífia, nos levou a cinco campeonatos mundiais, e que o Felipão, campeão em 2002, gozava até há pouco do apoio completo do governo:

http://blogdobrunovoloch.blogosfera.uol.com.br/2012/11/27/marin-consulta-dilma-e-aldo-rebelo-recebe-aprovacao-do-governo-e-escolhe-felipao-para-assumir-selecao/

Tanto que a própria presidenta afirmou que seu Governo tem o padrão Felipão:

http://oglobo.globo.com/brasil/dilma-meu-governo-padrao-felipao-8879264

Diga-se de passagem, o mesmo Felipão que levou meu Verdão para a segunda divisão e abandonou o time poucas rodadas antes do rebaixamento no Brasileirão. E de fato, abusando das analogias futebolísticas usadas com muita precisão pelo presidente Lula, pelo menos no front econômico nós estamos com uma inflação de vigor similar ao do time alemão e um crescimento similar ao desempenho brasileiro na copa.  E a derrota diante da Holanda apenas confirmou o fiasco, assim como os dados mais recentes da inflação e da atividade econômica.

Aproveitando-me assim dos eventos recentes e entrando agora na economia, a reação inicial emblemática de nossas autoridades mostra bem algumas características da ideologia intervencionista do governo:

  • Eventuais resultados positivos levam o governo à euforia (como a conquista da Copa das Confederações) nacionalista ufanista,  sem uma correta análise das razões que nos levaram a vitória e sobre a dimensão relativa do ganho (onde as seleções adversárias que estavam mais interessadas nas praias do que no torneio). O mesmo aconteceu com as “conquistas sociais dos últimos 10 anos”, que são creditadas apenas à competência do Estado, mas que só foram conquistadas devido a um cenário externo extremamente favorável e às políticas econômicas ortodoxas e liberais herdadas do governo FHC e que foram adotadas com rigor no primeiro mandato do governo Lula.  Esta preparação anterior, o  forte treinamento, conquistado através de anos de sacrifícios e de políticas prudentes e consistentes, nos deixaram um legado que permitiu a forte expansão das políticas sociais e a forte queda do desemprego. Além disto, estudos mostram que vários outros países emergentes tiveram ganhos sociais iguais ou superiores aos nossos neste mesmo período. Porém, nos iludimos facilmente com tais sucessos e paramos de treinar e investir no futuro. A húbris patriótica.
  • Há uma incapacidade enorme de identificar os problemas antes que eles materializem gravemente: os problemas com nossa seleção já vinham sendo apontados por vários analistas especializados e a reação Felipão foi como um “toiss”. Os críticos da seleção, nas palavras do excelente José Trajano, eram apontados nas redes sociais como antipatriotas que torciam para o Brasil perder! Tivemos que sucumbir diante da força alemã, que já era conhecida por todos, para reconhecer os nossos problemas e aí então disparar uma resposta impensada e irracional à “crise”.  Foram feitas várias substituições para o jogo contra a Holanda mas os defeitos continuaram lá. O mesmo se aplica a situação econômica atual e ao que estamos vivendo na questão da Petrobrás e da Energia elétrica, da inflação, da falta de poupança interna, dos déficits externos persistentes, da falta de investimentos privados, do aumento de gastos públicos acima do crescimento do PIB. Os críticos são massacrados e isolados da mesma forma.  Parece que vamos precisar sucumbir diante da crise, para aí reagir no desespero, inicialmente de forma errada, como hoje estamos fazendo ao aumentar estímulos ao consumo.
  • O diagnóstico do problema é sempre afoito e enviesado. Uma hora é o problema com os laterais que são fracos, outra é o Fred que fica parado, outra é o Hulk que está querendo resolver tudo sozinho, outra é que o meio de campo não combate, outra é que os árbitros estão querendo prejudicar o Brasil, e por aí vai. Ninguém questiona se a estratégia ou o investimento feito na preparação do time foram bem feitos ou adequados ou se o técnico é o melhor para o momento atual do futebol ou da economia. Só o fazem após a catástrofe. E sempre numa tentativa de afastar de si a responsabilidade pelo fracasso, apontando o dedo para culpados. O mea culpa feito pelo Felipão e o choro dos jogadores depois do fiasco são tentativas melodramáticas de escapar das críticas ao tentar sensibilizar os ouvintes. Assim como o populismo do marketing eleitoral, que coloca os candidatos do lado dos pobres e defendendo a justiça social, os patrocinadores da copa mostram o futebol sendo jogado nas favelas ou nas várzeas.
  • Sempre que há um problema sério na administração pública, o governo tende a desconversar e afirma que tudo está bem, que a economia está ótima.  Quem aponta as falhas na condução da política econômica são oposicionistas mal intencionados que torcem para a derrota, para o fracasso, com agendas políticas escondidas. A imprensa seria enviesada para direita, controlada pela elite capitalista reacionária e conservadora que estaria conspirando contra o sucesso de nossa seleção nacional e de nossa nação. Ou pior ainda, os críticos são agentes dos abutres neoliberais que desejam o aumento do desemprego e a queda nos salários, assim como os jornalistas esportistas estariam a serviço da FIFA visando proteger os interesses dos grandes times da Europa. Nossos intervencionistas nunca reconhecem os problemas ou propõem alguma mudança de rumo. Insistem nos mesmos remédios que não estão funcionando. Exatamente como o Felipão, que começou a apontar para uma possível conspiração da FIFA contra o Brasil, e não quis reconhecer os problemas da equipe que, do ponto de vista tático, mostrava sinais claros de fraqueza na ocupação dos espaços no campo desde o início da copa.
  • Quando há algum problema localizado no setor privado,o governo, a pedidos, corre para intervir, pois acredita que o setor privado não tenha a competência necessária  para resolver os seus problemas e que os “mercados” só agem para defender o grande capital e assim arruinar o povo. Nesta mesma linha, os intervencionistas no poder acreditam que o governo, e só o nosso governo, sabe sim o que é melhor para todos. E isto se aplica a qualquer setor: energia elétrica, petróleo, crédito ao consumo, financiamento a projetos, financiamento imobiliário, saúde, educação, segurança, logística, preservação ambiental, agro negócio e agora futebol! Ou seja, os intervencionistas no governo defendem o famoso “deixa comigo que eu resolvo o jogo”, tão desprezado no futebol. O governo se reconhece como um onipotente e onipresente supercraque com as características combinadas do  Neymar, Messi, Neuer, Hummels, Loew, Maradona e Pelé, coisa que nem as superequipes europeias conseguem replicar em seus times com seus milhões de Euros. E  tampouco o governo da mais rica, da mais avançada e poderosa nação do planeta há décadas, os EUA, consegue fazer em sua economia. Seria isto um sinal da prepotência Felipiana chegando ao Planalto?
  • Toda intervenção estatal passa por uso dos escassos recursos orçamentários do setor público, seja via subsídios, desonerações localizadas ou empréstimos subsidiados em condições muito favoráveis. Com isto não sobra alternativa senão tributar ainda mais  aqueles setores da economia que (ainda) estão indo bem e que, portanto, não “demandam ajuda do governo e podem ajudar o país neste momento”. Porém, aqueles que hoje ainda estão indo bem começam a sucumbir diante da elevada carga de impostos e aí precisam recorrer ao Estado Intervencionista, alimentando o ciclo negativo. No futebol já se fala em refinanciar as dívidas tributárias dos clubes, sempre em condições subsidiadas, ao invés de impor pressões sobre os mesmos para que resgatem sim suas obrigações com o Estado, vendendo o direito de uso de sua marca dos times e  entregando a gestão de seu futebol, tanto nas categorias de base e de topo, para grupos empresariais que visem lucro e o sucesso das equipes e de seus jogadores. Ninguém fala que é preciso privatizar o Futebol, transformar nossos clubes em projetos profissionais e empresariais como as grandes máquinas de futebol da Europa.  O governo prefere manter os times Zombies, endividados, que não conseguem assim reter nem formar grandes jogadores, e que precisam exportar seus craques para pagar as suas contas. Da mesma forma que o governo tenta dar sobrevida a setores da indústria que não conseguem gerar valor e competitividade com subsídios e BNDES,  prejudicando assim setores outros com potencial maior de crescimento: é a política de que não se mexe em time que está jogando mal, a mesma que justificou a presença teimosa de Fred no nosso ataque.
  • A intervenção do estado geralmente passa por controle de fluxo de capital e do comércio externo visando “proteger” a indústria local, o que na verdade é uma forma de violência e de repressão financeira e econômica. No caso do futebol, a reação inicial de nosso governo intervencionista foi a de proibir que jogadores jovens saiam do Brasil e se dirijam para outros países, como se tais jogadores (cidadãos) fossem um patrimônio nacional, promovendo uma espécie de ” lei do sexagenário” . Com isto,  pensa-se  estar protegendo os pobres e fracos times brasileiros que “perdem” seus jogadores ao grande capital financeiro internacional imperialista, e se esquece assim dos milhares de jovens jogadores que sonham em jogar fora do país algum dia. Nesta mesma linha podemos questionar se algum dia iremos proibir que engenheiros ou médicos brasileiros recém formados saiam do Brasil para trabalhar no exterior caso vislumbrem chance de ganhar mais por lá.
  • O protecionismo intervencionista acaba desestimulando a inovação. Ou seja, hoje inúmeros jovens talentosos esportistas decidem entrar nas escolinhas sonhando em algum dia ir para Europa, jogar nos grandes times, treinar com as equipes que adotam técnicas de vanguarda, ter acesso a patrocinadores globais, tornando-se de fato marcas e não apenas jogadores. Nosso maior craque deixou claro isto quando declarou que seu sonho era um dia jogar no Barcelona. E aposto que 9 entre 10 jovens meninos nas categorias de base pensam assim. Com isto eles podem acumular mais patrimônio e uma possibilidade de alongar suas carreiras participando de campanhas de marketing. Jogadores que normalmente estariam aposentados aqui no Brasil, como Beckham, desfrutam ainda de prestígio junto à comunidade desportiva em função deste “merchandising”.  Se encurtarmos os horizontes econômicos dos jogadores, menos talentos irão se dedicar nas escolinhas de futebol ou simplesmente irão migrar ainda bastante jovens para o exterior onde tal repressão não exista, e com isto perderemos de vez os talentos. Negar esta nova realidade do futebol mundial, assim como a globalização, significa nos condenar a outros vexames. O mesmo ocorre com indústrias que dependem da inovação para crescer. Não é de se estranhar que só tenhamos uma Embraer aqui e que a nossa indústria esteja sucumbindo.
  • O intervencionismo com este viés protetor acaba isolando o país. O que torna o nosso futebol famoso hoje em dia não é mais o sucesso da nossa seleção canarinho, mas sim os nossos jogadores de sucesso que jogam na Europa. A Europa é hoje o maior centro consumidor de futebol do mundo. Vejam os preços pagos por jogadores por lá e o público pagante médio na Liga Espanhola ou Alemã vis a vis o nosso Brasileirão. Isto permite que os patrocinadores paguem bem aos clubes que podem ter times mais fortes. Na globalização, o centro produtor e o mercado consumidor estão muitas vezes em diferentes países. Intervencionistas com viés nacionalista odeiam isto.
  • Outra característica do intervencionismo estatal é que ele logo se politiza, o que é natural, pois o Estado tem que ser político. Contudo, algumas práticas normais na política são completamente inadequadas na vida econômica e nos esportes. Por exemplo, a emoção e o medo decorrentes da pressão por vitórias no esporte não podem ser externos ao campo por estarem vinculados a outras agendas maiores, como a salvação nacional ou da economia ou mesmo da eleição. A pressão legítima, que motiva e coloca sangue na boca dos atletas, vem do desafio dos gramados e da quadra, do desafio de superar o adversário. Da vontade absoluta de vencer. O título, o bicho, o reconhecimento popular e o patrocínio, vêm naturalmente depois. Na hora H, este medo saudável se transforma em gana ou raça,  termo que usamos frequentemente no futebol. A euforia, o gozo e o choro de alívio aparecem apenas quando o juiz dá o apito final. Quando a pressão sobre os jogadores é externa ao campo e ao esporte, repete-se o que ocorreu com os próprios atletas arianos alemães na Olimpíada de 1936, que, cegos pelo ufanismo eugênico nazista, sucumbiram diante dos atletas afro descendentes americanos. Teria sido o choro dos nossos jogadores durante o hino nacional cantado a capela um sintoma ou reação inconsciente a esta exacerbada  pressão política extracampo que estava presente na imprensa e na torcida devido a super politização da copa?
  • Outra característica fascinante do intervencionismo do governo é o entendimento de que, se há algo de errado, para arrumar as coisas precisamos fazer uma completa revolução. Um mega plano, uma utopia ou o super PAC, sempre  tentando se reinventar a roda e ignorando outras experiências de sucesso adotadas no resto do mundo. Tal Plano sempre exige uma enorme articulação gerencial e política para ser formulado e que na prática nunca é implantado na forma ou nos custos planejados. Às vezes na vida a solução mais adequada não é a ótima, a “ideal” , mas sim a segunda melhor e mais simples: que tal  pressionar os clubes, cobrando seus impostos devidos, e as federações, cortando as subvenções existentes, exigindo uma melhor governança e profissionalização de seus quadros?  Que tal forçar os clubes a profissionalizar sua gestão do futebol, e, no caso dos times profissionais, exigir que estes negócios sejam apartados dos clubes na forma de empresas privadas, sujeitas a impostos, com a participação do capital privado nacional,  que assumam também a gestão do futebol em suas divisões inferiores?  O governo é credor dos clubes e dos estádios de futebol. Basta usar este poder de pressão para fazer com que a turma pague a dívida e se profissionalize. Isto funciona para o resto da economia no mundo todo, até mesmo no cinema ( Hollywood)  e no entretenimento ( Disney). Com times profissionais, as federações terão que se adaptar e modernizar, o que levaria inevitavelmente à reforma da CBF.
  • Este intervencionismo excessivo leva também o governo a assumir a “propriedade” de eventos e de resultados que são de propriedade e responsabilidade da sociedade civil. Ou seja, o sucesso da Embraer, da Vale e do agronegócio é muitas vezes apropriado pelo governo de forma completamente oportunista, visando justificar o próprio intervencionismo. Isto gera uma reação contrária destes setores, que começam a ser vistos pela sociedade como os “queridinhos do governo” que foram agraciados de benesses estatais.  Esta reação se converte em indiferença ou até mesmo em ódio daqueles que não foram, ou melhor, não se sentem agraciados pelo governo com tais benesses. E o governo, ao tentar se apropriar politicamente da Copa, traz este clima para as arquibancadas. Acredito que isto explique um pouco das vaias e os xingamentos às autoridades durantes os jogos da copa. Ou seja, o intervencionismo, ao evidenciar tratamentos diferenciados, cria rivalidades entre os diversos grupos sociais e isto se reflete dentro do campo, pois os jogadores sentem que há algo, além da copa, em jogo. Isto eleva a pressão sobre os jogadores além do normal, o que acaba tornando um gol sofrido em uma hecatombe paralisante, o tal do “branco de 6 minutos” que vimos no jogo contra a Alemanha. E pior, quando as coisas dão errado no campo, os custos políticos recaem sobre os ombros do governo de maneira totalmente desnecessária.
  • A presidenta Dilma, que pareceu bastante incomodada no momento do gol dos alemães nos hermanos kirchnerianos, tem afirmado que não pretende estatizar o futebol, mas apenas modernizá-lo. E a derrota dos hermanos nos traz uma alívio adicional neste ponto, pois caso eles vencessem,  poderíamos, quem sabe,  ter aqui uma revolução bolivariana no futebol, pois para os intervencionistas, modernizar significa fazer algo impensável, que muitas vezes é somente algo impensado. Sugiro  assim que a Presidenta deixe as forças naturais do mercado e do nosso amor ao futebol tomarem as rédias do processo e foque suas energias em outros assuntos mais urgentes, como saúde e educação.
  • Porém é preciso fazer justiça e dizer que este DNA intervencionista não é exclusividade do PT. Há este mesmo DNA, em maior ou menor escala, no PSDB, no PSB, no PMDB e no PSD, só para listar alguns. E este intervencionismo ideológico se casa com o patrimonialismo estatal e com a corrupção de forma perfeita, o que potencializa seus efeitos nefastos quando tais grupos chegam ao poder. Não creio que uma maior interferência do governo na CBF ou nos clubes possa reduzir o patrimonialismo, a incompetência e a corrupção hoje presentes no futebol. De fato, nossa experiência tem mostrado que a corrupção aumenta nos setores onde o governo mais interfere.

Meu amigo Leopold Nosek, extraordinário psicanalista e pensador, apesar de corintiano fanático, colocou com brilhantismo em sua coluna na Folha que o Futebol é a versão moderna da tragédia grega e que representa simbolicamente os acontecimentos e sentimentos reais de nossas vidas individuais e coletivas:

http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/07/1481477-leopold-nosek-sofocles-dionisio-messi-e-neymar.shtml

Talvez a tragédia da Copa das Copas para nossa seleção mostre a todos nós um pouco dos equívocos do coletivo de nossa sociedade no que diz respeito à maneira que queremos resolver nossos problemas econômicos.  Mostrou que, por um lado, conseguimos sim organizar um evento desta proporção com enorme qualidade a despeito do pessimismo inicial dos mais céticos, porém mostrou também que a sede intervencionista e centralizadora, o patrimonialismo que habita a CBF e modelo anacrônico de gestão de nossos clubes precisam ser repensados, assim como várias das instituições econômicas hoje em vigor. Em particular  é preciso acabar de vez com a visão de que o estado grande, o Super Neymar que irá decidir o jogo, disfarçado de Leviatã, pode resolver tudo sozinho. Nosso Neymar não foi suficiente para compensar as fraquezas táticas de nosso time, e a fatalidade do atropelo violento do Zuniga, um golpe cruel do destino como a esperada subida dos juros nos EUA, inutilizou nosso poderoso Leviatã. Transformar a CBF em outro tentáculo deste monstro estatal não nos trará resultados melhores, vide a nossa Petrobrás. Neste cenário, seria razoável prever a criação de mais um imposto sobre o preço dos ingressos ou nas negociações de passes de jogadores, criado com a finalidade de alimentar este monstro. E inúmeros presidentes de clubes de futebol seriam então apontados por partidos políticos que dariam apoio parlamentar ao governo. E quem sabe seria criado o bolsa jogador…

O nosso futebol não é tão diferente da nossa realidade como nação: pentacampeã, apesar de tudo, porém não mais deitada em berço esplêndido. Torço aqui para que até 2018 tenhamos aprendido isto, tanto no front econômico como no futebolístico e que possamos aí repetir o gesto e o sorriso alegre do Cafu em 2002, mesmo que seja com o próprio Felipão, como marcado em vermelho na foto abaixo, abraçado ao corintiano Vampeta, só que daquela vez usando uma camiseta branca e sem o agasalho da “sorte” que usou no jogo contra a Alemanha:

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quarta-feira, 4 de junho de 2014 Bicadas, bizarro, Brasil, Crise Brasileira, Politica Economica, Sem categoria | 01:12

Até tu, Lula?

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A frase, “Até tu, Brutus”, entrou para a história como a última frase dita por Julio Cesar quando foi assassinado no Senado Romano e viu seu filho adotivo, Brutus, entre os seus assassinos. Hoje tal frase é usada em situações de desapontamento. O Ex presidente Lula deu uma importante entrevista à revista Carta Capital, onde deixa claro suas posições políticas, mostrando enorme alinhamento com as idéias de seu partido e com a Presidenta Dilma. Vale a pena leitura:

http://www.cartacapital.com.br/revista/802/lula-em-campanha-3387.html

Não pretendo debater aqui as questões do Presidente com a classe média, ao endossar o pensamento de Marilena Chauí, ou com a liberdade de imprensa e com a reforma da constituição. Estes são assuntos que deixo para as colunas políticas. Eu vou me limitar a um tema: política macroeconômica. E, neste sentido, uma resposta do Presidente me deixou bastante incomodado e perplexo, pois mostra que o Presidente minimiza o impacto dos avanços “macro” conquistados em seu primeiro mandato.

Vejam o trecho abaixo:

CC: Notáveis avanços são inegáveis. Mas como vai ser daqui para a frente?

Lula: Eu fazia debates mundo afora, com o Mantega, o Meirelles, às vezes a Dilma. E eu dizia: esses ministros meus, eles falam de macroeconomia, mas o que eles não dizem é que essa macroeconomia só deu certo por causa da minha microeconomia. O que foi a microeconomia? Foi o aumento de salário, foi a compra de alimentos, a agricultura familiar, foi o financiamento, foi o crédito consignado, foi o Bolsa Família. Foi essa microeconomia que deu sustentabilidade à macroeconomia.

Não quero entrar na discussão mérito da contribuição individual dos Ministros Mantega, Meirelles, Dilma, e até mesmo Palocci que nem sequer foi mencionado, para a estabilidade econômica. Normalmente eu esperaria, abusando de mais uma metáfora futebolística como as utilizadas pelo presidente de forma impecável, do técnico de um time de futebol vencedor que ele dividisse com os seus jogadores o reconhecimento pelas conquistas atingidas. Mas cada técnico tem seu estilo.

O que me incomoda mesmo é a inversão da relação de causalidade entre o que o Presidente chama de “macro e de micro”. Sem entrar aqui na questão filosófica do nexo de causalidade na visão de Aristóteles, Leibniz, Descartes, Spinoza , Hobbes ou Kant, pois certamente esta não é minha praia e tampouco do Presidente, é preciso entender um pouco das condições necessárias para que as políticas “micro” a que o presidente se refere sejam sustentáveis. Esta visão equivocada que o “macro” serve para a elite e o “micro” serve para o pobre é  muito comum na nossa esquerda, equívoco este que pode sim levar a perda de todas as conquistas “micro” referidas pelo Presidente. Boas práticas macroeconômicas são vistas por alguns mais à esquerda como valores burgueses que só atendem a elite e ao grande capital, em detrimento dos menos favorecidos. Na mesma linha que estudar, ler e se preparar para as provas é uma prática burguesa. Ou seja, há neste grupo uma completa dissociação entre a estabilidade econômica e bem estar social.

Todos nós defendemos  políticas “micro” que visem reduzir a desigualdade social e promovam o crescimento setorial. Porém, sem o “macro”, o impacto do “micro”  é bastante menor.

Os elementos “micro” a que o Presidente se refere, “aumento de salário, foi a compra de alimentos, a agricultura familiar, foi o financiamento, foi o crédito consignado, foi o Bolsa Família.“, dependem todos, assim como 100% das políticas sociais, o emprego e o investimento privado,  do ambiente macroeconômico e do crescimento sustentável da economia. Não basta apenas a tal da vontade política para se implantar tais políticas “micro”.  A “vontade política” que algumas políticas micro demandam é uma necessidade, porém não é suficiente . O que permite que tais políticas “micro” tenham sucesso e sejam sustentáveis é a existência de condições macro favoráveis. Abusando mais uma vez a analogia futebolística, não basta ter um bando de jogadores talentosos em campo, se não tivermos preparo físico, treinamento, disciplina tática e determinação.

As  políticas macro implementadas no primeiro mandato do Presidente Lula, embora impostas por uma situação externa desfavorável causada pela desconfiança existente sobre a agenda macro de seu governo, trouxeram enormes benefícios para nossa economia. Com tais políticas voltamos a atrair capitais externos, o que nos permitiu acumular um volume expressivo de reservas externas reduzindo nossa vulnerabilidade externa. A estabilidade de preços e o compromisso com as metas de inflação, aumentou a confiança dos empresários que ampliaram seus investimentos produtivos. A maior disciplina fiscal, com superávits primários sólidos, permitiu a redução da dívida pública e uma queda maior da taxa de juros de longo prazo, propiciando um aumento na oferta de crédito imobiliário e ao consumo. Este ambiente de estabilidade econômica levou a uma forte aceleração da atividade econômica. Um PIB maior quer dizer uma produção maior e uma renda maior. Este é o significado de PIB!!! Uma renda maior ajuda a impulsionar o consumo e a aumentar a arrecadação de impostos. Com mais impostos, foi possível expandir os programas sociais. Um PIB maior significa mais empregos e mais salários, que viabilizam mais crédito e mais consumo.  Ou seja, foram as políticas macro que garantiram a viabilidade das políticas “micro” a que o Presidente se refere, e não o contrário como o Presidente afirma.  Os custos iniciais de tais políticas macro viabilizaram a queda do desemprego e a consequente melhoria da renda e aumento dos gastos sociais. Os custos “impostos” inicialmente pelos “agentes de mercado” em 2003 e 2004, viabilizaram uma agressiva agenda social e econômica que permitiu  a entrada de 60 milhões de pessoas na classe média, como o próprio governo propaga. Tais politicas permitiram a queda do desemprego de 11% para 5% .

Não quero dizer aqui que os méritos das políticas macro adotadas no seu primeiro mandato são mérito exclusivo de seus ministros, pois foi o Presidente quem os escolheu e endossou tais políticas. Apenas quero enfatizar que as políticas macro adequadas viabilizaram as “micros”.  E vejo que a reversão destas políticas macro está nos levando a uma trajetória que ameaça as conquistas sociais “micro” que o Presidente defende. Esta  dissociação entre o macro e o micro ficou mais evidente nos últimos anos,  e o seu resultado pode ser visto no gráfico abaixo que mostra claramente em amarelo a queda do PIB que ocorreu após 2010:

 

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E os dados da FENABRAVE de vendas de veículos  mostram no gráfico vermelho abaixo ( média mensal de vendas últimos 12 meses), que depois de uma forte aceleração até 2011 ( verde) , de lá para cá as vendas estagnaram ( amarelo) e recentemente há sinais de queda ( seta cinza):

 

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Achei importante destacar este aspecto pois é neste debate de causalidade que se encontra a principal diferença entre a minha visão do processo econômico e a defendida pelos economistas mais ligados à esquerda. Não discordo da necessidade de ampliar as políticas sociais, porém acho que precisamos criar mais condições econômicas de fazê-lo, pois, se não o fizermos acabaremos perdendo as conquistas que já foram feitas. E creio que as políticas econômicas atuais, assim como as adotadas nos últimos anos, nos levarão a taxas de crescimento ainda menores, como mostraram os dados recentes do PIB, o que deverá reverter muitos dos ganhos sociais conquistados até agora.

Infelizmente, ainda estamos no estágio de desenvolvimento econômico que precisamos crescer para fora da pobreza, ao mesmo tempo que a combatemos, pois nosso país chegou muito tarde ao capitalismo, em função de inúmeras políticas intervencionistas desastradas de governos passados. E só iremos de fato acabar com a pobreza quando todos todos brasileiros chegarem a classe média ou acima, para horror da Marilena Chauí. Para mim, uma classe média forte e grande é sinal do fim da miséria e da pobreza. Não um problema.

Espero que o Presidente não pense de fato que dá para ter o “micro” sem o “macro”, pois isto seria uma grande apunhalada no coração do seu governo, que tanto trouxe para este país.

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quinta-feira, 29 de maio de 2014 Bicadas, Crise Brasileira, Politica Economica, Sem categoria | 02:16

A visão de um importante economista

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Os leitores desta coluna conhecem minha opinião sobre impostos e a tese do Estado Grande. Contudo, eu acho importante dar espaço aqui para aqueles que pensam de outra forma. O Economista Márcio Pochman , entrevistado recentemente pelo Estadão, traz algumas idéias neste sentido.

 O economista ” desde dezembro de 2012, preside a Fundação Perseu Abramo, instituição do PT dedicada à reflexão e à formulação de propostas para o partido. Uma de suas tarefas é acompanhar um grupo de 30 economistas, cientistas políticos, acadêmicos e sindicalistas que se dedicam a observar a conjuntura e a formular propostas que podem ou não ser apresentadas – e talvez adotadas – pelo governo. Pochmann também participa de encontros no Instituto Lula. “.

A entrevista, bastante interessante, está no link abaixo:

http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-geral,donos-de-propriedade-pagam-pouco-imposto-diz-marcio-pochmann,180170,0.htm

Eu tomei a liberdade de destacar alguns trechos com minhas bicadas:

Só para esclarecer. Muita gente fala que o governo estabeleceu uma nova matriz econômica e que depois, quando viu as dificuldades ao longo desse caminho, voltou atrás. Na sua opinião, estamos em um período de transição e devemos dobrar a aposta nessa matriz. É isso?

MP:  Sim. Mas veja bem: uma coisa é o horizonte, a linha estrutural que se tem pela frente, a outra coisa é a conjuntura. Dependendo da situação é preciso fazer concessões. Nós estávamos reduzindo o juros desde o presidente Lula. A Dilma acelerou esse processo em 2012 porque havia espaço. Depois, viu que foi em certa demasia e retraiu-se. Voltamos a aumentar os juros. Em parte, isso ocorreu por causa da inflação, mas muito mais porque houve o reconhecimento que não há autonomia para fazer política monetária. Depois do que ocorreu com o Fed (Federal Reserve, banco central americano) nos Estados Unidos em 1978, 1979, nenhum país no mundo faz política monetária de forma autônoma – talvez a China. Os sinais dados pelo Federal Reserve desde o ano passado fez com que praticamente todos os países elevassem a taxa de juros – e nós tivemos que elevar também.

  • BICADA do GALLO: Aqui é preciso reconhecer que o Márcio concorda que o governo exagerou na dose de redução dos juros, o que acabou resultando na elevação da inflação. Espero que o governo e seu partido o ouçam. Por outro lado, ele fala que  praticamente todos os países tiveram que subir juros depois do sinal que o FED deu em 2013 que um dia irá subir os juros que hoje são zero. Não é bem assim: só subiu o juro quem tinha déficit externo elevado ( por ex.: Brasil, Turquia e Argentina) e/ou inflação subindo, como no nosso caso.  Europa não subiu, EUA ainda não subiu juro, Japão não subiu, Austrália derrubou, México derrubou, Coréia derrubou, Colômbia não subiu, Polônia não subiu, e por aí vai. O BC do B em suas atas tem afirmado que os juros têm subido aqui pois a inflação está alta e precisa convergir para a meta. Inflação elevada é um problema hoje bem nosso….

O senhor poderia pontuar alguns setores?

MP: De maneira geral, os proprietários, que têm propriedade e pagam pouco tributo no Brasil, seja qual for a tributação que se olhe. Em relação aos setores, há um problema. Nós ainda não temos muita clareza em como apresentar o setor em si porque viemos do método Colin-Clark (economista australiano Colin Grant Clark), lá dos anos 30, que dividiu a economia em setores primário, secundário e terciário. O primário é a agricultura e a pecuária. É fácil de medir. O secundário e a indústria e a construção civil. O terciário é tudo que não couber nesses dois. É uma coisa pouco conhecida e pouco trabalhada. E até vou te adiantar: acredito que o nosso PIB está subdimensionado. O crescimento deve ser muito maior. Há vários sinais. Basta olhar o emprego, a arrecadação, os valores agregados, a dinâmica econômica das contas nacionais. Toda vez que há uma inovação nas contas nacionais, que você tenta medir o peso dos serviços, você vê que a economia e a riqueza são maiores. Qual é o peso, por exemplo, da cultura? Então, tenho dificuldades de dar como exemplo esse ou aquele setor.

  • BICADA do GALLO: de fato não temos a prática de tributar a propriedade. Porém aqui há uma questão que precisa ser clarificada. A propriedade, que não é recebida  como herança, é resultado da acumulação de renda que não é consumida, mas sim poupada ao longo de nossas vidas.  A Propriedade representa o estoque de capital acumulado. Representa o estoque de poupança. Como aqui no Brasil se tributa muito o consumo e a produção ( como ele mesmo reconhece), e também a renda, podemos supor que a taxa de poupança aqui é baixa ( como mostram os dados). Assim, com uma taxa de poupança baixa ( em virtude destas fatores), demora-se muito para acumular capital ( também chamado de propriedade). Nesta linha, podemos concluir que o capital ( propriedade) já foi tributado na sua origem, no seu nascedouro, pois a poupança acumulada teve que ser menor pois há uma enorme tributação na renda, no produto e no consumo ( 37% por an0 ). Logo, tributar a propriedade é tributar duas vezes o mesmo indivíduo. E eu acredito que isto seria equivalente a um confisco. Além disto, tributar o estoque de capital e a propriedade provocaria uma baita queda na taxa de formação de poupança, que já é minúscula. Quanto ao PIB estar subestimado, ouvi a mesma história na Argentina, e terminou em crise.  E não acho bom ficar debatendo se o IBGE sabe ou não sabe fazer trabalho, em função do fiasco do  “experimento Argentino de Cristina K.” e dos ruídos recentes envolvendo IBGE.

Mas carga tributária só aumentou…

MP: A carga bruta aumentou, mas a carga líquida está praticamente congelada. A carga tributária líquida é praticamente a mesma desde 1980. Uma coisa é a carga tributária, em que você pega tudo quanto foi arrecadado e compara com o PIB. É uma maneira de ver. A outra coisa é a carga tributária líquida em que você olha tudo que entra e que sai imediatamente – como os subsídios, as subvenções. Os que declaram imposto de renda, por exemplo, deixam de pagar de R$ 12 bilhões a R$ 14 bilhões descontando as prestações da saúde privada. O Brasil é um dos poucos países do mundo que financia a saúde pública e a saúde privada. Que financia a educação pública e a educação privada. Sim. Nós fazemos isso. Ninguém gosta de pagar imposto. Estou dando um exemplo concreto. Uma coisa é você calcular a carga tributária bruta – que está em 35% ou 37% dependendo da contabilidade. Ela não é baixa. Mas quando você tira o que sai – o que paga de juros, a previdência – vê que o Estado tem efetivamente para gastar algo em torno de 18% a 19% do PIB.

  • BICADA DO GALLO: o economista coloca aqui um conceito de carga bruta ou líquida. O problema é que, para quem paga o imposto, ele é bruto demais. Pagamos 37% do PIB em impostos, tarifas e contribuições. Não 18%. Dentro da lógica que temos somente considerar apenas  a carga tributária líquida, bruta menos tudo que é devolvido para sociedade, a nossa carga tributária é de -3%, pois temos déficit nominal: o governo paga mais do que recebe. Dentro desta lógica, a carga tributária bruta poderia ser 150% do PIB, se gastarmos 110% do PIB com aposentadorias financiadas por impostos. Porém, eu entendo que uma parcela da carga tributária é usada para financiar gastos com previdência, subsídios, isenções de impostos e programas sociais. Mas estas são opções de gasto público feitas pela sociedade e são financiadas com impostos : 37% do PIB e não 19%. Dinheiro não ter cor. O imposto que pagamos ( 37% do PIB que, como ele diz, não é baixa) pode ser usado para pagar professores, investir em estradas, pagar programas sociais, professores, médicos, pagar juros ou aposentadorias. O dinheiro é o mesmo. Logo a carga é 37% e, como ele diz, não é baixa.  Mas ele tem um ponto quando afirma governo de fato financia saúde e a educação privada ao permitir que se abata do imposto gastos com saúde e educação. Porém, por hipótese, se as pessoas que hoje pagam a saúde privada e a educação privada, procurarem o serviço público, o Estado teria como arcar com esta demanda?  Temos capacidade ociosa na saúde e educação pública? O Estado não teria que ampliar seus gastos com saúde e educação neste caso? Quanto custaria isto aos cofres públicos? O estado consegue prover serviços médicos e de educação com mesma relação custo/ benefício que o setor privado? Acho que não…

Qual o objetivo de aumentar a carga tributária bruta? Para que o Estado tenha mais margem para gastar? Para distribuir renda?

MP: O Brasil ainda é brutalmente desigual. Nos anos 80, éramos o terceiro em desigualdade. Hoje estamos entre os 15 e ainda temos que reduzir mais. A gente fala hoje com uma certa normalidade sobre o tema, mas não é fácil reduzir desigualdade numa sociedade que se construiu sobre a desigualdade. As tensões estão ai. Há um certo desconformo no ar. Muita gente não aceita compartilhar determinados espaços com outras pessoas – seja no ensino superior, dentro de um avião, num restaurante. É uma mudança cultural que estamos fazemos com tensões. À medida que formos quebrando preconceitos de um herança vamos ter espaço para crescer. O fundo público é importante neste sentido. Mas não acredito que vamos aumentar a carga tributária. É desnecessária na medida em que seja possível trabalhar melhor com as isenções, as desonerações e os gastos inapropriados – como mostrou a questão financeira. Não é preciso gastar com juros. Mas é preciso criar as condições para isso ocorra. Aqui dentro do PT tinha muita gente que discutia: “ahhhh, mas tem que reduzir a taxa de juros”. O PT amadureceu muito. Aprendeu com as derrotas nos movimentos de reforma. Vamos lembrar que a há 50 anos havia o plano das reformas de base – e ele foi derrotado. Há 30 anos houve o movimento Esperança e Mudança do antigo MDB, hoje PMDB, um dos melhores documentos já escritos sobre o Brasil, com uma série de reformas, como a reforma política e a reforma tributária – e ele foi derrotado. As reformas vão saindo, com o diálogo natural da democracia. As vezes são mal entendidas, as vezes bem entendidas. É da natureza da discussão. O fato é que o Brasil está maduro para fazer mudanças do ponto de vista democrático. Não é simples fazer isso, mas o País está maduro. O PT tem demonstrado isso. Nem sempre somos bem entendidos. Mas estamos aprendendo – o que é um sinal de dinamismo partidário.

  • BICADA DO GALLO: Aplausos para o Economista. De fato ele reconhece que não há mais espaço para aumentar a carga tributária!!!  De fato dentro do orçamentário público e fora dele há muito espaço para cortar gasto público e alocar melhor o dinheiro pago nos impostos. E  não é preciso gastar dinheiro com juros, se e somente se criarmos as condições para que eles caiam! Concordo 150%! Onde divergimos muito está no como fazer isto: imposto elevado, poupança nacional baixa, inflação alta levam a juros maiores…  e temos tudo isto.

Mas o investimento está por volta de 18% (em relação ao PIB)?

MP: Sim e é muito baixo. Mas há quanto tempo é assim? Tem uns 30 anos. Para melhor isso, não vou falar de nada de novo. Tem a questão da infraestrutura. Ela é muito ruim. Nós tivemos a ideia das concessões de aeroportos, portos, usinas hidrelétricas. Elas demandam investimentos pesados, que demoram para dar resultado. A outra infraestrutura que demanda investimentos é a infraestrutura das cidades. As cidades têm problemas seríssimos de mobilidade, de convivência, de falta de espaços públicos. As cidades vão demandar recursos públicos, mas um volume muito maior de recursos privados. O outro eixo está vinculado ao petróleo e ao gás. É gigantesco. A Petrobras é quarta ou quinta empresa do mundo. Se concretizarem todos os investimentos previstos, o petróleo, que hoje representa algo entre 10% e 11% do PIB, vai para 21%, 22% do PIB, gerando um efeito de arrasto enorme. Temos ainda o investimento que criado pelo combate à desigualdade. Quantas casas devem ser construídas para garantir a comodidade social e familiar? Quantas novas cidades são necessárias para atender a demanda do País, uma vez que centros urbanos estão saturados e estamos vivendo uma transição demográfica da maior importância? O processo de envelhecimento, o aumento da longevidade, a mudança na estrutura das famílias – tudo isso influencia.

  • BICADA DO GALLO: De fato é um problema que vem de longo prazo… 30 anos…. E de fato esta é a razão de nosso crescimento econômico ser tão baixo. Uma pena não conseguimos melhorar isto em nada nos últimos anos.  Agora, a idéia que fazer concessão é bom para economia não foi do grupo dele não. Ela é dos liberais ingleses desde os anos 60 e depois nos 80. Mas fico feliz que ele aprova estes conceitos liberais. Mas da onde viria a poupança para financiar uma ampliação do Investimento? Quem iria nos emprestar esta grana? Se o Economista pretende tributar o capital, não ficaria assim mais difícil estimular alguém a poupar mais do que hoje se poupa? E se não tivermos poupança interna, iremos portanto aumentar a dependência externa e  continuar vendendo nossas empresas, ativos, propriedades e mercados para investidores lá fora, pois é isto que fazemos quando recebemos o tal do Investimento Estrangeiro Direto? Ou seja, vamos tratar os capitalistas estrangeiros melhor do que os nossos.

Qual será o papel do BNDES? Quando se fala em investimento privado, o que se espera é que o dinheiro também seja privado. No entanto, o grande financiador hoje no Brasil é o BNDES. Vocês imaginam uma diversificação das fontes de financiamento ou a preservação o papel do BNDES?

MP: A atual gestão do BNDES é mais um elemento que comprava a mudança substancial em relação ao que vinha sendo feito. O BNDES era o grande banco de financiamento da privatização. Tornou-se o grande banco de financiamento da produção e da estrutura empresarial brasileira. É um sucesso em determinados setores e vem fazendo um esforço grande para envolver pequenas empresas. Eu entendo que o BNDES não pode abandonar o movimento que fez. No entanto, particularmente, eu acho que seria importante o Brasil ter um banco voltado às pequenas empresas, como há no Japão. É preciso considerar a pequena e a média empresa de maneira mais estratégica. Mas tenho minhas dúvidas se o BNDES, uma grande instituição, consegue assumir esse papel, uma vez que a concessão de crédito para micro e pequenas empresas segue outra dinâmica de funcionamento. Também vejo a necessidade de se estruturar um banco para as exportações. É uma lacuna que não foi preenchida. O país também deveria ter um banco para a agricultura.

  • BICADA DO GALLO: Aqui a veia intervencionista aparece. Ao mesmo tempo que o Economista critica alguns subsídios dados pelo governo e fala que precisamos tributar a propriedade ( tais como investimentos privados em empresas), ele defende a prática de empréstimos subsidiados do BNDES para grandes empresas privadas. Ele também recomenda a criação de mais três bancos estatais, um para média empresas, outro para agricultura e outro para exportações. Ou seja, o subsídio dado pelo Estado só vai aumentar.  Se não aumentarmos os impostos como o Economista propõe, como financiaremos tais subsídios nos juros dos empréstimos destes novos bancos? Nesta linha, ele está sugerindo que o crédito a empresas no Brasil seja na prática estatizado, e que os bancos fiquem focados nas pessoas físicas no financiamento ao consumo, pois a CEF já está monopolizando o financiamento imobiliário. 

 

impostos-humorgovocde

 

 

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quinta-feira, 27 de março de 2014 Bicadas, bizarro, Inflação, Politica Economica | 07:59

Argentina: inflação pega fogo, até mesmo na medida oficial

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Gráficos abaixo mostram o descontrole inflacionário de nossos vizinhos, que se meteram a reinventar a teoria econômica, e adotaram uma matriz econômica heterodoxo populista socializante distributiva:

arginfla

 

No gráfico da esquerda temos as medidas mensais de inflação:

  • nas barras azul claro a medida estimada pelo Congresso
  • nas barras azul escuro as medidas oficiais publicadas pelo governo de Cristina K.;

Vemos em amarelo, que até há alguns meses a medida oficial subestimava bastante a inflação estimada, marcada em cinza. Recentemente o governo argentino resolveu adotar uma metodologia recomendada pelo FMI para ajustar sua medida de inflação, e o resultado é mostrado em verde. Ambas estão andando acima de 3% a.m.

No gráfico à direita temos a expectativa de inflação ( azul claro) e a medida de inflação dos últimos 12 meses: ambas andando acima de 30% a.a e se acelerando.

OU seja, ou eles mudam a matriz econômica trazendo-a de volta à ortodoxia, ou a coisa vai degringolar.

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sábado, 4 de janeiro de 2014 Bicadas, bizarro, Brasil, Crise Brasileira, Livros e publicações, Politica Economica | 12:43

André Lara Resende fala sobre o capitalismo patrimonialista e a crise do liberalismo

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De fato o SR Raymundo Faoro voltou com força total.

Nesta linha, leia o excelente artigo do economista André Lara Resende:

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,capitalismo-de-estado-patrimonialista-,1111446,0.htm

Veja alguns trechos que selecionei do texto:

” …O papel do Estado sempre foi um tema polêmico. Durante o século 20, tomou contornos ideológicos tão demarcados que praticamente inviabilizou o debate sereno e reacional. Parece inevitável que sociedades maiores e mais complexas sejam mais difíceis de ser administradas, exijam mais das empresas, das instituições e também do Estado. Há uma inexorável correlação entre tamanho e complexidades em toda empreitada humana. O mundo está superpovoado e definitivamente interligado pelo avanço das comunicações e da informática. A questão da escala e da complexidade está em toda parte, mas é ainda mais grave onde é menos reconhecido: na esfera da vida pública. As sociedades modernas se sofisticaram, tornaram-se mais complexas. O Estado foi obrigado a crescer para atender às suas novas funções…

…Quando se exige mais do Estado, é razoável que o seu custo suba, mas espera-se que haja alguma correlação entre o custo e o serviço prestado, entre o custo e a qualidade do Estado. Não foi o que ocorreu no Brasil. Ao contrário, a rápida elevação recente da fatia da renda extraída da sociedade não foi acompanhada pelo investimento em infraestrutura. Houve séria deterioração da segurança pública e um dramático aumento da criminalidade. Não houve melhora digna de nota nem na educação, nem na saúde. O saneamento e o transporte público continuam abaixo da crítica…

…Diante da polarização do debate, a crítica ao patrimonialismo do Estado tende a ser desqualificada como uma reação conservadora aos avanços da cidadania. Cada uma das dimensões do progresso da cidadania – a civil, a política e a social – enfrentou, a seu tempo, fortes reações ideológicas. O século 18 foi palco da luta pela cidadania civil, pelos direitos de opinião, de expressão e à justiça. No século 19, avançaram os aspectos políticos da cidadania, o direito ao voto e de participação política. Finalmente, no século 20, sobretudo a partir da década de 30, houve o avanço da dimensão social, com a criação dos sistemas de assistência e previdência, de educação e de saúde pública, capazes de garantir um padrão de vida mínimo para o exercício das demais dimensões da cidadania…

…A herança patrimonialista, misturada aos desafios de um país grande e desigual, a meio caminho para o mundo desenvolvido, criou um Estado caro, ineficiente e, sobretudo, disfuncional. Um Estado cujo único objetivo é viabilizar a expansão de seu poder e de suas áreas de influência. Um Estado que cria uma regulamentação kafkiana, com exigências burocráticas cartoriais absurdas, cujo resultado é aumentar custos, reduzir a produtividade e complicar todas as esferas da vida. O patrimonialismo do Estado brasileiro, sua incapacidade de respeitar os limites e os deveres em relação à sociedade, tem longa tradição, mas toma novos contornos com a sofisticação da economia, com a chegada do País à sociedade do espetáculo e à democracia de massas. O uso e o abuso das técnicas publicitárias, a criação de dificuldades de toda ordem para a venda de facilidades, a simbiose com cultura dos direitos especiais adquiridos e a aliança com grupos econômicos selecionados são a nova face do velho patrimonialismo…

…Com a vitória incontestável dos direitos sociais, a teoria econômica paga até hoje o preço político de ser percebida como intrinsecamente conservadora. Toda crítica à falta de critérios e à ineficiência do gasto público, sobretudo se embalado como gasto social, é tachada de reacionária e desconsiderada. No Brasil de hoje, o velho patrimonialismo do Estado se esconde por trás do assistencialismo. O patrimonialismo indefensável reveste-se de assistencialismo inatacável. Desde que sob o guarda-chuva de gasto social, toda sorte de abuso patrimonialista não admite questionamento…” 

Minha bicada: Faz muito sentido….

E segue aqui minha homenagem ao grande Sr, Faoro, pois, quem  quer entender porque as coisas são como são deveria ler:

 

Os donos do poder

 

 

 

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domingo, 8 de dezembro de 2013 Bicadas, bizarro, Brasil, Politica Economica, Sem categoria | 19:10

Ministro Delfim, o capitalismo e o governo espiritista

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Veja abaixo o interessante comentário do ex ministro:

“As pessoas dizem que o governo é socialista, trotskista, mas não. Acho que este é um governo que tinha tendência ‘espiritista’”, afirmou nesta terça-feira o ex-ministro da Fazenda e do Planejamento Antonio Delfim Netto.

O governo não pode ver nada funcionando que põe um encosto”, ironizou, durante apresentação em seminário promovido pelo Internews sobre perspectivas para 2014.

Como exemplo, Delfim Netto mencionou a estatal Infraero, que vai ficar com 49% da administração dos aeroportos de Galeão (RJ) e Confins (MG) e, também, o papel da Valec como responsável pelo pagamento às futuras concessionárias de ferrovias, que ainda não foram leiloadas. “A Valec não é um encosto, é um caso de polícia. Isso não pode funcionar”, afirmou.

Minha Bicada:

O governo tem uma agenda capitalista, mas um espírito socialista e estatizante na gestão da dita agenda de crescimento.O que causa os problemas não é o socialismo ou o capitalismo, pois ambos são opções legítimas que a sociedade faz quando escolhe democraticamente este ou aquele grupo político para governar o país. E, no Brasil,  95% do campo político tem um certo viés socialista em sua alma, resultado de 20 anos de ditadura militar, espírito este manifesto parcialmente na Constituição Cidadã de 1988. O problema surge na ambiguidade, na dicotomia entre a ação e o desejo.

O governo privatiza, vende concessões, faz parcerias com setor privado, empresta barato para grandes empresas privadas via BNDES, patrocina a expansão internacional das mesmas, adota câmbio livre, metas fiscais de inflação, sobe juros, e por aí vai. Uma agenda bem liberal e capitalista. Ao mesmo tempo ele interfere, regula, muda regras, direciona, expande gastos públicos, aumenta a arrecadação de impostos e adota um viés mais socializante.

Dá uma sensação que o governo adota, a contragosto, uma agenda mais liberal, pois reconhece, pragmaticamente, que não tem escolha, já que depende do capital privado para implementar seus planos. Porém, como de fato ele não acredita em tal agenda,  acaba falhando na hora de sua implementação e na comunicação da mesma, colocando o tal do encosto. O que acaba confirmando, para ele, que o tal do ” capital privado não presta”, que é apenas um mal necessário. E muitas vezes a resistência ( apelando aqui à psicanálise)  se manifesta levando a comportamentos quase neuróticos:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2013/11/06/a-relacao-de-amor-e-odio-com-os-mercados/

O que o governo esquece é que, como ele não poupa,  ele não acumula capital público,e , portanto, cria uma enorme dependência da poupança privada e internacional para realizar os investimentos em infra, que, no passado militar, ficaram a cargo dos governos e levaram o Brasil a ruína, nos anos 80,  fiscal, monetária e cambial.

O governo racionaliza esta dicotomia ao avaliar, erroneamente, que, agindo assim, ele agrada tanto o campo mais liberal como o campo mais socialista de nossas elites dominantes. Porém ele, muitas vezes, desagrada a ambos, pelo que percebo no comentário espirituoso do Ministro Delfim.

http://agenciat1.com.br/governo-tem-tendencia-espiritista-afirma-delfim-netto/

Veja abaixo outro “gordo”  ( com todo respeito e carinho)  famoso e muito competente no que faz falando sobre as diversas formas de capitalismo:

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Se a coisa continuar assim, será preciso várias horas de psicanálise para resolver este conflito interno…

 

freud

divisao

freuddor

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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011 ataques especulativos, Bancos, Bicadas, bizarro, bolsa, Brasil, BRICS, Câmbio, CHINA, Crise global, Crise na Europa, Empresas, EUA, Heróis do Mercado, Imoveis, Investimentos, Juros no Brasil, Livros e publicações, Politica Economica, Sem categoria, utilidade | 19:41

Pedidos ao Papai Noel

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Aos leitores amigos que me acompanharam em 2011 eu desejo Boas Festas a seus familiares, a seus amigos, a seus colegas de trabalho e a seus sócios e funcionários.

Obrigado por seus comentários e conto com vocês em 2012!!!

Aos amigos do IG  muito obrigado por nos ceder este espaço e nos apoiar ao longo de 2011!

Que 2012 traga muita alegria e prosperidade.

E, como não poderia faltar, segue  aqui a nossa lista de pedidos ao Papai Noel:

  • que nossa inflação continue caindo e assim permita que BC continue reduzindo nossa taxa de juros
  • que o Brasil continue crescendo de forma sustentada e equilibrada, sem exageros nos gastos públicos, sem excesso de endividamento das famílias e com  aumento do investimento produtivo, gerando bem estar ao povo
  • que nossa produtividade suba mais rápido e que a carga tributária se reduza
  • que as disparidades sociais e econômicas continuem a se reduzir, permitindo ao nosso povo acesso à educação, à saúde e à segurança, e assim caminhemos para uma verdadeira justiça social
  • que o dólar não se valorize demais, permitindo que nossa indústria tenha mais espaço, gerando assim mais empregos
  • que os investimentos de capital estrangeiros tão necessários continuem a fluir para cá
  • que as empresas continuem a prosperar e a gerar mais e mais empregos
  • que os nossos governantes continuem a implementar políticas econômicas e sociais sensatas
  • que os países desenvolvidos encontrem seu equilíbrio econômico, reduzindo seus déficits
  • que os bancos internacionais tenham aprendido a lição e que pratiquem políticas de crédito adequadas e sem abusos
  • que os líderes europeus e americanos tenham consciência da importância do momento e que as mudanças estruturais sejam de fato implementadas
  • que a China continue a crescer e a importar nossas commodities
  • que a paz chegue a todos cantos do planeta, com liberdade e democracia
  • que o meio ambiente seja protegido e respeitado
  • e que Bolsa volte a subir…
  • e que meus erros de português e de digitação diminuam

Esqueci de  mais alguma coisa???

Um grande abraço a todos e nos vemos em 2012, pois ninguém é de ferro…

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domingo, 26 de dezembro de 2010 Bicadas, Brasil, CHINA, Crise na Europa, EUA, Investimentos, Juros no Brasil | 14:05

Meus chutes para 2011

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Uma das coisas mais pitorescas da cultura nacional é a proliferação de previsões para o próximo ano que acontece nesta época do ano. Isto pode denotar uma característica controladora e obsessiva de nosso povo ou simplesmente uma maneira de torcer para que o futuro nos traga coisas boas na esperança de que, mesmo sem muito esforço ou trabalho, seja possível se livrar das precariedades da vida de vários brasileiros ou brasileiras.

Assim sendo, para não fugir a regra, eu lancei os búzios e tive a visão de várias  previsões, ou chutes,  para 2011:

1. Bc´s do Brasil e da China irão subir juros e apertar oferta de crédito para conter pressão inflacionaria. Este é um chute fácil, sem goleiro praticamente. Importamos uma bolha de gastos  e como temos gargalos, precisaremos esfriar demanda para conter alta de preços. China enfrenta problema similar. Em ambos os casos a política fiscal frouxa adotada em 2009,utilizada para evitar os efeitos da crise externa e promover investimentos necessários, cria uma demanda difícil de conter, alavancada por oferta de crédito abundante. Não tem saída : vão ter que apertar. E inadimplência vai subir. Logo, apertem os cintos….

2. Crise nos países periféricos na Europa continuará e vai atingir Italia e Bélgica. O problema estrutural europeu e a fragilidade dos seus bancos impedem uma solução mais rápida da crise. E com crise finalmente tendo chegado a Espanha, abre-se uma porta para que crise fiscal chegar a Itália e a Bélgica, o que pode finalmente exigir uma ação mais deterrminada por parte dos Alemães no sentido de equacionar as questoes estruturais por lá. Vamos euro bater 1,25…ou menos.

3. Economia dos EUA finalemente sai da crise, de forma lenta mas sustentável no curto prazo. Porém os fantasmas fiscais começam a aparecer começando pelos municípios em profunda crise fiscal e com a elevação dos juros de dez anos para mais de 4,5 % aa, dadas as incertezas com relação inflação e sustentabilidade da dívida no longo prazo. O dólar deve segurar seu valor na primeira  metade do ano devido a retomada do crescimento por lá, porém  o reconhecimento dos problemas fiscais dos estados,  municípios e da própria federação somado aos  juros baixos fixados pelo fed em função do elevado desemprego e pela  baixa inflação farão com que dólar volte a cair no final de 2011.

4. Remimbi, a moeda chinesa, deve se apreciar acima de 6 % ano que vem, pois chineses vão perceber que isto será necessário como uma alternativa para se evitar uma elevação maior dos juros, que poderia afetar a carteira de credito dos bancos, que passa de 120% do PIB, causando uma forte aumento da inadimplência. As outras moedas vizinhas tambem se valorizarão pelas mesmas razões.

5. Commodities continuarão a subir de preço. Há um problema na oferta de tais produtos  e demanda parece que não vai arrefecer. Metais, energia e grãos para cima. Péssimo para inflação chinesa e brasileira.

6. Deficit externo brasileiro não vai parar de subir, apesar da queda da demanda interna que deve ocorrer em 2011. Atingimos um ponto onde os canais de importação foram definitivamente abertos, e a exportação de manufaturas deve cair pois produção domestica continuará a andar mais lentamente que o consumo. Apesar desta piora nas contas externas, fluxo de capitais continuará forte, atraído pelos juros elevados. Sem ajuste fiscal não há como impedir a piora das contas externas e  a necessidade de se manter juros básicos elevados. Quem sabe se aperto monetário for forte e se governo adotar uma política fiscal mais restritiva poderemos ter, já no final de 2011, um juro real mais baixo.

7. Bolsa americana vai fechar o ano próxima do pico anterior a crise, com alta motivada pelos juros baixos e lucros crescentes das empresas, além de uma onda de recompra de ações e de dividendos por parte das empresas  lotadas de caixa. A Bolsa dos EUA deverá ser a melhor bolsa global em termos de risco / retorno, devido aos bons retornos e a volatilidade baixa. Isto deve evitar uma desvalorização maior de dólar na primeira metade do ano, pois capital externo deve voltar a fluir para EUA assim que ficar claro que a retomada começou por lá e que Emergentes terão que esfriar suas economias. Ações de grandes bancos deverão liderar alta nos EUA. Por aqui, sugiro evitar ações de Bancos….

8. Bolsa aqui deve ficar meio de lado em virtude de uma certa incerteza com relação a condução da política Economica. Imóveis irão parar de subir na alta renda  e alugueis vão cair em alguns casos onde oferta de novos empreendimentos tenha sido exagerada. Aperto de crédito vai chegar ao financiamento imobiliário na classe média.

9. Conflito armado entre Coreias vai se intensificar, chegando a vias de fato, contudo sem uso de armamento nuclear, vom troca de tiros entre as forças navais e aéreas dos dois países, o que vai forçar eua e china a intervirem. Isto não vai ser bom para bolsas da região.

10. Palmeiras mudará de comando, Beluzzo vai sair e se juntará a governo Dilma, e time será campeão brasileiro mais uma vez com uma nova super revelação de craque...

Agora basta esperar dezembro do ano que vem e verificar quantos gols eu farei. Se estatística de fato funcionar, eu chuto que acertarei 50% dos meus chutes… Então escolham 5  dentre estes 10 chutes que sejam os seus favorito e comentem neste post…

Aos leitores desta coluna  desejo um 2011 cheio de saúde e de alegria, e espero contar com vocês na volta de minhas férias que pretendo passar nos EUA, aproveitando os preços baixos …. Aqui está muito caro….

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