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Arquivo da Categoria Crise Brasileira

quarta-feira, 23 de julho de 2014 Bancos, Crise Brasileira, Juros no Brasil | 20:00

A fotografia monetária da recessão que se aproxima

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Um dos temas que ao longo dos últimos anos tenho trazido com frequência para esta coluna é a questão do balanço do BC do B. O BC apresenta em seu seu ativo basicamente:

a. títulos da dívida pública emitidos pelo Tesouro Nacional;

b. reserva cambiais no exterior.

E ele financia tais ativos basicamente com:

a. depósitos compulsórios dos bancos;

b. operações compromissadas de financiamento de títulos públicos ( bancos emprestam R$ ao BC com garantia em títulos públicos da carteira do BC);

c. depósitos que o próprio Tesouro Nacional mantém junto ao BC para arcar com seus compromissos.

Em termos de avaliação da liquidez disponível para os bancos a variável importante a monitorar é o total do passivo do BC do B, excluindo-se os depósitos que o TN tem junto a ele.

O gráfico abaixo mostra a evolução deste passivo desde 2004 mensalmente, em R$ Milhões:

balbcdob

O gráfico azul mostra o saldo mensal contábil. O laranja mostra o mesmo saldo porém ajustado sazonalmente e o cinza sua tendência central filtrada. Vemos que os saldo oscila ao redor da sua tendência. Temos abaixo a evolução do desvio do saldo de sua tendência central desde 2005 até junho último:

desvtendbcdob

 

Vemos em vermelho que hoje o saldo está abaixo de sua tendência, da mesma forma que ocorreu em outras três ocasiões , marcadas em preto, marrom e roxo acima.

Abaixo temos o gráfico da taxa anual de crescimento da atividade econômica calculada pelo BC do B desde 2004 até maio último :

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Marquei em preto, marrom, roxo e vermelho as quatro ocasiões quando a atividade apresentou forte desaceleração. Notamos que os momentos de desaceleração da atividade coincidem com os momentos em que o balanço do BC do B mais se desviou para baixo de sua tendência central. Isto faz sentido, pois a demanda por moeda cai na medida em que a atividade econômica se retrai. E o passivo do BC reflete a quantidade total de moeda no sistema.

Pela tendência recente dos dados monetários é bastante razoável esperar uma queda  mais forte da atividade nos próximos meses. E a experiência passada mostra que estes períodos de baixa demanda monetária demoram no mínimo alguns meses para serem superados.

Há duas maneiras do BC do B tentar forçar um aumento de seu passivo:

a. comprar dólares do sistema, acumulando reservas, o que depende do fluxo de entrada de capitais internacionais que hoje não está sendo suficiente para isto. Ou seja, se o BC do B entrar comprando dólares à vista no mercado o US$ subirá, aumentando as pressões de custos e inflacionárias na economia;

b.  ou através do resgate líquido de papéis emitidos pelo Tesouro nas mãos do mercado quando de seu vencimento, o que reduziria o caixa do Tesouro em ano de eleição, o que não me parece uma boa idéia.

Além do mais, se não houver demanda por moeda do lado real da economia, tal aumento de passivo ( oferta de moeda) não será absorvido. Ou seja,  tal expansão de balanço não será acompanhada por um aumento real de crédito na economia. Os bancos apenas irão aplicar os recursos assim liberados no próprio BC.

Para que tal expansão tivesse efeito, seria preciso que:

a. a elevação do US$ causada pelas compras do BC do B animasse as exportações, trazendo mais demanda externa;

b. a queda dos juros causada pela redução do prazo médio da carteira de títulos públicos nas mãos do mercado impulsionasse os investimentos privados.

Dadas as restrições inflacionárias do momento e a completa falta de confiança do empresariado na economia, não vejo nenhuma chance que o quadro recessivo seja revertido desta forma. Isto é consistente com o quadro de estagflação ao qual já me referi aqui algumas vezes: http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/07/03/rumoestag/

 

 

 

 

 

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segunda-feira, 21 de julho de 2014 bizarro, Brasil, Crise Brasileira, Inflação | 01:47

Inflação: Brasil vice campeão!

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Se no futebol deixamos a desejar na última copa, em  termos de inflação fazemos parte do primeiro time quando nos comparamos a outros emergentes:

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O gráfico acima preparado pelo Deutsche Bank mostra para diversos países emergentes:

a. o ponto vermelho mostra a inflação média desde 2010 para aquele país;

b. as barras azuis claro mostram a variabilidade da mesma neste período.

c. a reta cinza horizontal mostra o centro de nosso sistema de metas ( 4,5% a.a.)

Marquei em verde o Brasil ( vice campeão da amostra), em amarelo Indonésia, em tracejado a Turquia ( campeã da amostra), em rosa a África do Sul e em marrom a Romênia.

Vemos que nossa inflação não pode ser considerada baixa nem mesmo entre os emergentes. E tem estado assim há 4 anos. Creio que nós, Turquia, Indonésia e África do Sul precisaremos olhar esta questão da meta de inflação e de independência do BC com mais  profundidade em breve.

Pelo gráfico, parece que uma banda de 2% a 4% a.a. para meta de inflação seria o mais indicado, certo?

Ou será que os outros emergentes têm alguma vantagem sobre nós neste aspecto?

Seria isto  mais um fruto do nosso suposto complexo de vira-lata ?

De fato precisamos “modernizar” nossa política monetária, da mesma forma que precisamos “modernizar” nosso futebol.  E não adianta culpar o BC não.

 

 

 

 

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sexta-feira, 18 de julho de 2014 Crise Brasileira, utilidade | 01:13

A tal da R está chegando ao mercado de trabalho

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O mercado de trabalho já sente a tal da R ( http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/07/08/a-palavra-r/) que se aproxima, como mostra o gráfico abaixo preparado pela equipe de economistas do Banco Fibra:

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Os dados para junho de contratações líquidas em carteira (CAGED – MTE) mostram que o desaquecimento da economia já chegou ao mercado de trabalho em plena Copa, como vemos acima em vermelho. O gráfico cinza mostra a evolução desde 2002 do número mensal de contratações líquidas com carteira assinada, ajustado sazonalmente. O gráfico preto mostra sua média móvel de 3 meses.

Vemos que:

a. desde 2009 a coisa vem caindo (amarelo), com uma breve interrupção em 2013 (verde);

b. nos últimos meses a coisa se deteriorou numa velocidade impressionante (vermelho);

c. os resultados atuais só se comparam aos piores momentos da crise de 2008 e 2009 (marrom);

d.  se eliminarmos a crise de 2008/2009, os dados atuais são os piores da série desde 2002( azul).

E se compararmos os dados acumulados no primeiro semestre do ano até agora com outros anos, vemos que a coisa está ruim mesmo:

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Vemos (em amarelo) que este ano geramos pouco menos de 500 mil empregos novos com carteira no primeiro semestre, que é o pior dado da série desde 2003, se excluirmos a crise de 2009 (marrom), e muito abaixo da média dos últimos 12 anos (reta vermelha horizontal).

Estes dados são consistentes com o comportamento da taxa de crescimento anual do índice de atividade econômica calculado pelo BC do B ( IBC – br), como vemos no gráfico azul claro abaixo, que mostra a evolução da taxa de crescimento anual da atividade econômica (últimos 3 meses comparados com os mesmos três meses do ano anterior) desde 2004:

ibsaanual

 

DE acordo com  tal índice nossa economia já se encontrava estagnada em Maio último (último dado disponível), ou seja, com crescimento zero (vermelho no gráfico) quando comparamos a atividade dos últimos 3 meses com os mesmos três meses de 2013  E vemos também que, desde 2004, a economia só esteve pior em 2009 durante a grande crise (marrom). E o que mais preocupa é que a tendência do gráfico nos últimos meses é muito feia.

O R está bem próximo. Ruim para consumo e renda. Hora de se precaver e economizar.

Pergunta que não quer calar: isto já justificaria uma queda do Selic no próximo Copom? Mas e a inflação? Vai cair?

 

 

 

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quinta-feira, 17 de julho de 2014 Crise Brasileira, Livros e publicações, Politica Economica, Sem categoria | 01:51

Meirelles critica o intervencionismo do governo

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O Ex Ministro Presidente do BC durante o governo Lula, Henrique C. Meirelles, colocou recentemente em sua coluna  na Folha uma crítica à tentativa do governo de interferir na formação de preços e nos mecanismos de mercado:

O barato que sai caro – HENRIQUE MEIRELLES

 FOLHA DE SP – 06/07A maioria das pessoas prefere inflação e juros os mais baixos possíveis e salários os mais altos possíveis, reajustados acima da inflação e da produtividade. O problema é que a realidade é mais complexa. A elevação dos juros, por exemplo, é o instrumento mais eficaz para o Banco Central baixar a inflação.É natural que existam inúmeros exemplos de interesses incompatíveis de setores da sociedade. O dólar barato é bom para os importadores, mas péssimo para os exportadores e para a cadeia produtiva da exportação. Inflação baixa beneficia a maioria, mas os que podem indexar seus preços (como o governo com os impostos) podem se beneficiar de uma inflação mais alta. A maioria quer os salários reajustados acima da inflação e da produtividade, mas isso pode baixar o poder de compra dos trabalhadores pela alta da inflação. Gasolina mais barata, excelente para os consumidores, é problema para a Petrobras e as necessidades de investimento na produção de petróleo. O mesmo vale para o preço da eletricidade.

O problema da intervenção de governo na formação de preços da economia, que incluem câmbio e juros, é que cada ação cria ganhadores e perdedores. O governo torna-se, assim, árbitro da disputa intensa de interesses dos diversos setores. Isso gera distorções na economia e eventualmente menos crescimento, menos emprego e menos riqueza.

A história mostra que a administração pública é mais eficiente quando deixa os preços se ajustarem segundo a oferta e a procura e, ao mesmo tempo, garante uma segurança regulatória que dê conforto e previsibilidade a todos. Assim, quando um produto se torna escasso, seu preço sobe e eleva a remuneração de quem o produz, estimulando os investimentos e o aumento da produção, do emprego e da renda. O aumento da produção, por sua vez, tende a controlar preços elevados pela escassez.

Outro problema das intervenções é que, por definição, são decisões individuais e erráticas, que geram incertezas nos agentes econômicos e reduzem investimento, consumo, crescimento e emprego. Cabe ao governo intervir em alguns momentos para regular excessos. Uma crise de liquidez, por exemplo, pede intervenção estatal para normalizar os mercados. A questão é saber quando parar, para o governo não passar de solução a problema.

A tentação do governante de fixar preços é enorme, pois estará atendendo a queixas de setores importantes. Mas a realidade é mais complexa. O que funciona, em última análise, é um sistema de definição de preços que atenda à realidade econômica de cada momento e traga mais investimento, crescimento, produtividade e riqueza e um melhor padrão de vida à população.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/henriquemeirelles/2014/07/1481729-o-barato-que-sai-caro.shtml

MINHA BICADA: Concordo 100% com a colocação do Ex Ministro e BC. A interferência do governo nos mercados, nos juros e no câmbio acaba criando distorções enormes no processo de alocação de capital na economia.   Mas, como Meirelles diz, infelizmente a tentação que cai sobre os governantes no sentido de interferir na economia é enorme.  E quando aqueles que estão no comando não acreditam no sistema de mercado, livre e com concorrência forte, aí um Leviathan, como aquele de Hobbes só que super Anabolizado e com uma cabeça gigante cheia de ideias equivocadas, domina a cena:

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segunda-feira, 14 de julho de 2014 Bicadas, Brasil, Crise Brasileira, Politica Economica, Sem categoria | 02:44

Intervencionismo 10 x 1 Brasil

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Não pretendo aqui tentar encontrar uma explicação para o que aconteceu dentro de campo com nossa seleção. Não é minha praia, pois sou das quadras e raquetes, e tampouco é o foco desta coluna. Fico com a resposta do goleiro Julio Cesar, quando disse que era difícil explicar o inexplicável depois dos 7 a 1:

http://www.cidadeverde.com/cvamarela/2014/07/08/julio-cesar-explicar-o-inexplicavel-e-muito-complicado/

Da mesma forma respondeu a  nossa Presidente Dilma quando os jornalistas estrangeiros lhe perguntaram por que o Brasil crescia tão pouco, como vemos abaixo:

http://br.reuters.com/article/topNews/idBRKBN0EF12G20140604

E ainda sob os efeitos do choque traumático causado pelo fracasso de nossa seleção, que tomou uma goleada como nunca antes vista em nossa história, o Governo, nas vozes da Presidenta Dilma e do Ministro dos Esportes, impulsivamente expressou recentemente o desejo de intervir também no futebol, assim como faz na economia, no BC, nos preços administrados, nos juros, no Câmbio, na Petrobrás, etc,  como vemos neste trecho de artigo retirado do Estadão:

http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,dilma-defende-renovacao-na-gestao-do-futebol-aldo-fala-em-intervencao,1526779

E em outros noticiários:

http://www.ecofinancas.com/noticias/rebelo-defende-fiscalizacao-publica-futebol/relacionadas

Logo em seguida ele tratou de desmentir, pois caiu na real que tal intenção seria no mínimo maluquice, uma vez que se o governo não consegue dar conta  da educação tampouco da saúde, imagine o que faria se viesse a se meter no futebol:

http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2014-07/governo-nao-quer-comandar-futebol-mas-modernizar-diz-dilma

E é bom lembrar que esta mesma CBF que está aí, com esta mesma organização pífia, nos levou a cinco campeonatos mundiais, e que o Felipão, campeão em 2002, gozava até há pouco do apoio completo do governo:

http://blogdobrunovoloch.blogosfera.uol.com.br/2012/11/27/marin-consulta-dilma-e-aldo-rebelo-recebe-aprovacao-do-governo-e-escolhe-felipao-para-assumir-selecao/

Tanto que a própria presidenta afirmou que seu Governo tem o padrão Felipão:

http://oglobo.globo.com/brasil/dilma-meu-governo-padrao-felipao-8879264

Diga-se de passagem, o mesmo Felipão que levou meu Verdão para a segunda divisão e abandonou o time poucas rodadas antes do rebaixamento no Brasileirão. E de fato, abusando das analogias futebolísticas usadas com muita precisão pelo presidente Lula, pelo menos no front econômico nós estamos com uma inflação de vigor similar ao do time alemão e um crescimento similar ao desempenho brasileiro na copa.  E a derrota diante da Holanda apenas confirmou o fiasco, assim como os dados mais recentes da inflação e da atividade econômica.

Aproveitando-me assim dos eventos recentes e entrando agora na economia, a reação inicial emblemática de nossas autoridades mostra bem algumas características da ideologia intervencionista do governo:

  • Eventuais resultados positivos levam o governo à euforia (como a conquista da Copa das Confederações) nacionalista ufanista,  sem uma correta análise das razões que nos levaram a vitória e sobre a dimensão relativa do ganho (onde as seleções adversárias que estavam mais interessadas nas praias do que no torneio). O mesmo aconteceu com as “conquistas sociais dos últimos 10 anos”, que são creditadas apenas à competência do Estado, mas que só foram conquistadas devido a um cenário externo extremamente favorável e às políticas econômicas ortodoxas e liberais herdadas do governo FHC e que foram adotadas com rigor no primeiro mandato do governo Lula.  Esta preparação anterior, o  forte treinamento, conquistado através de anos de sacrifícios e de políticas prudentes e consistentes, nos deixaram um legado que permitiu a forte expansão das políticas sociais e a forte queda do desemprego. Além disto, estudos mostram que vários outros países emergentes tiveram ganhos sociais iguais ou superiores aos nossos neste mesmo período. Porém, nos iludimos facilmente com tais sucessos e paramos de treinar e investir no futuro. A húbris patriótica.
  • Há uma incapacidade enorme de identificar os problemas antes que eles materializem gravemente: os problemas com nossa seleção já vinham sendo apontados por vários analistas especializados e a reação Felipão foi como um “toiss”. Os críticos da seleção, nas palavras do excelente José Trajano, eram apontados nas redes sociais como antipatriotas que torciam para o Brasil perder! Tivemos que sucumbir diante da força alemã, que já era conhecida por todos, para reconhecer os nossos problemas e aí então disparar uma resposta impensada e irracional à “crise”.  Foram feitas várias substituições para o jogo contra a Holanda mas os defeitos continuaram lá. O mesmo se aplica a situação econômica atual e ao que estamos vivendo na questão da Petrobrás e da Energia elétrica, da inflação, da falta de poupança interna, dos déficits externos persistentes, da falta de investimentos privados, do aumento de gastos públicos acima do crescimento do PIB. Os críticos são massacrados e isolados da mesma forma.  Parece que vamos precisar sucumbir diante da crise, para aí reagir no desespero, inicialmente de forma errada, como hoje estamos fazendo ao aumentar estímulos ao consumo.
  • O diagnóstico do problema é sempre afoito e enviesado. Uma hora é o problema com os laterais que são fracos, outra é o Fred que fica parado, outra é o Hulk que está querendo resolver tudo sozinho, outra é que o meio de campo não combate, outra é que os árbitros estão querendo prejudicar o Brasil, e por aí vai. Ninguém questiona se a estratégia ou o investimento feito na preparação do time foram bem feitos ou adequados ou se o técnico é o melhor para o momento atual do futebol ou da economia. Só o fazem após a catástrofe. E sempre numa tentativa de afastar de si a responsabilidade pelo fracasso, apontando o dedo para culpados. O mea culpa feito pelo Felipão e o choro dos jogadores depois do fiasco são tentativas melodramáticas de escapar das críticas ao tentar sensibilizar os ouvintes. Assim como o populismo do marketing eleitoral, que coloca os candidatos do lado dos pobres e defendendo a justiça social, os patrocinadores da copa mostram o futebol sendo jogado nas favelas ou nas várzeas.
  • Sempre que há um problema sério na administração pública, o governo tende a desconversar e afirma que tudo está bem, que a economia está ótima.  Quem aponta as falhas na condução da política econômica são oposicionistas mal intencionados que torcem para a derrota, para o fracasso, com agendas políticas escondidas. A imprensa seria enviesada para direita, controlada pela elite capitalista reacionária e conservadora que estaria conspirando contra o sucesso de nossa seleção nacional e de nossa nação. Ou pior ainda, os críticos são agentes dos abutres neoliberais que desejam o aumento do desemprego e a queda nos salários, assim como os jornalistas esportistas estariam a serviço da FIFA visando proteger os interesses dos grandes times da Europa. Nossos intervencionistas nunca reconhecem os problemas ou propõem alguma mudança de rumo. Insistem nos mesmos remédios que não estão funcionando. Exatamente como o Felipão, que começou a apontar para uma possível conspiração da FIFA contra o Brasil, e não quis reconhecer os problemas da equipe que, do ponto de vista tático, mostrava sinais claros de fraqueza na ocupação dos espaços no campo desde o início da copa.
  • Quando há algum problema localizado no setor privado,o governo, a pedidos, corre para intervir, pois acredita que o setor privado não tenha a competência necessária  para resolver os seus problemas e que os “mercados” só agem para defender o grande capital e assim arruinar o povo. Nesta mesma linha, os intervencionistas no poder acreditam que o governo, e só o nosso governo, sabe sim o que é melhor para todos. E isto se aplica a qualquer setor: energia elétrica, petróleo, crédito ao consumo, financiamento a projetos, financiamento imobiliário, saúde, educação, segurança, logística, preservação ambiental, agro negócio e agora futebol! Ou seja, os intervencionistas no governo defendem o famoso “deixa comigo que eu resolvo o jogo”, tão desprezado no futebol. O governo se reconhece como um onipotente e onipresente supercraque com as características combinadas do  Neymar, Messi, Neuer, Hummels, Loew, Maradona e Pelé, coisa que nem as superequipes europeias conseguem replicar em seus times com seus milhões de Euros. E  tampouco o governo da mais rica, da mais avançada e poderosa nação do planeta há décadas, os EUA, consegue fazer em sua economia. Seria isto um sinal da prepotência Felipiana chegando ao Planalto?
  • Toda intervenção estatal passa por uso dos escassos recursos orçamentários do setor público, seja via subsídios, desonerações localizadas ou empréstimos subsidiados em condições muito favoráveis. Com isto não sobra alternativa senão tributar ainda mais  aqueles setores da economia que (ainda) estão indo bem e que, portanto, não “demandam ajuda do governo e podem ajudar o país neste momento”. Porém, aqueles que hoje ainda estão indo bem começam a sucumbir diante da elevada carga de impostos e aí precisam recorrer ao Estado Intervencionista, alimentando o ciclo negativo. No futebol já se fala em refinanciar as dívidas tributárias dos clubes, sempre em condições subsidiadas, ao invés de impor pressões sobre os mesmos para que resgatem sim suas obrigações com o Estado, vendendo o direito de uso de sua marca dos times e  entregando a gestão de seu futebol, tanto nas categorias de base e de topo, para grupos empresariais que visem lucro e o sucesso das equipes e de seus jogadores. Ninguém fala que é preciso privatizar o Futebol, transformar nossos clubes em projetos profissionais e empresariais como as grandes máquinas de futebol da Europa.  O governo prefere manter os times Zombies, endividados, que não conseguem assim reter nem formar grandes jogadores, e que precisam exportar seus craques para pagar as suas contas. Da mesma forma que o governo tenta dar sobrevida a setores da indústria que não conseguem gerar valor e competitividade com subsídios e BNDES,  prejudicando assim setores outros com potencial maior de crescimento: é a política de que não se mexe em time que está jogando mal, a mesma que justificou a presença teimosa de Fred no nosso ataque.
  • A intervenção do estado geralmente passa por controle de fluxo de capital e do comércio externo visando “proteger” a indústria local, o que na verdade é uma forma de violência e de repressão financeira e econômica. No caso do futebol, a reação inicial de nosso governo intervencionista foi a de proibir que jogadores jovens saiam do Brasil e se dirijam para outros países, como se tais jogadores (cidadãos) fossem um patrimônio nacional, promovendo uma espécie de ” lei do sexagenário” . Com isto,  pensa-se  estar protegendo os pobres e fracos times brasileiros que “perdem” seus jogadores ao grande capital financeiro internacional imperialista, e se esquece assim dos milhares de jovens jogadores que sonham em jogar fora do país algum dia. Nesta mesma linha podemos questionar se algum dia iremos proibir que engenheiros ou médicos brasileiros recém formados saiam do Brasil para trabalhar no exterior caso vislumbrem chance de ganhar mais por lá.
  • O protecionismo intervencionista acaba desestimulando a inovação. Ou seja, hoje inúmeros jovens talentosos esportistas decidem entrar nas escolinhas sonhando em algum dia ir para Europa, jogar nos grandes times, treinar com as equipes que adotam técnicas de vanguarda, ter acesso a patrocinadores globais, tornando-se de fato marcas e não apenas jogadores. Nosso maior craque deixou claro isto quando declarou que seu sonho era um dia jogar no Barcelona. E aposto que 9 entre 10 jovens meninos nas categorias de base pensam assim. Com isto eles podem acumular mais patrimônio e uma possibilidade de alongar suas carreiras participando de campanhas de marketing. Jogadores que normalmente estariam aposentados aqui no Brasil, como Beckham, desfrutam ainda de prestígio junto à comunidade desportiva em função deste “merchandising”.  Se encurtarmos os horizontes econômicos dos jogadores, menos talentos irão se dedicar nas escolinhas de futebol ou simplesmente irão migrar ainda bastante jovens para o exterior onde tal repressão não exista, e com isto perderemos de vez os talentos. Negar esta nova realidade do futebol mundial, assim como a globalização, significa nos condenar a outros vexames. O mesmo ocorre com indústrias que dependem da inovação para crescer. Não é de se estranhar que só tenhamos uma Embraer aqui e que a nossa indústria esteja sucumbindo.
  • O intervencionismo com este viés protetor acaba isolando o país. O que torna o nosso futebol famoso hoje em dia não é mais o sucesso da nossa seleção canarinho, mas sim os nossos jogadores de sucesso que jogam na Europa. A Europa é hoje o maior centro consumidor de futebol do mundo. Vejam os preços pagos por jogadores por lá e o público pagante médio na Liga Espanhola ou Alemã vis a vis o nosso Brasileirão. Isto permite que os patrocinadores paguem bem aos clubes que podem ter times mais fortes. Na globalização, o centro produtor e o mercado consumidor estão muitas vezes em diferentes países. Intervencionistas com viés nacionalista odeiam isto.
  • Outra característica do intervencionismo estatal é que ele logo se politiza, o que é natural, pois o Estado tem que ser político. Contudo, algumas práticas normais na política são completamente inadequadas na vida econômica e nos esportes. Por exemplo, a emoção e o medo decorrentes da pressão por vitórias no esporte não podem ser externos ao campo por estarem vinculados a outras agendas maiores, como a salvação nacional ou da economia ou mesmo da eleição. A pressão legítima, que motiva e coloca sangue na boca dos atletas, vem do desafio dos gramados e da quadra, do desafio de superar o adversário. Da vontade absoluta de vencer. O título, o bicho, o reconhecimento popular e o patrocínio, vêm naturalmente depois. Na hora H, este medo saudável se transforma em gana ou raça,  termo que usamos frequentemente no futebol. A euforia, o gozo e o choro de alívio aparecem apenas quando o juiz dá o apito final. Quando a pressão sobre os jogadores é externa ao campo e ao esporte, repete-se o que ocorreu com os próprios atletas arianos alemães na Olimpíada de 1936, que, cegos pelo ufanismo eugênico nazista, sucumbiram diante dos atletas afro descendentes americanos. Teria sido o choro dos nossos jogadores durante o hino nacional cantado a capela um sintoma ou reação inconsciente a esta exacerbada  pressão política extracampo que estava presente na imprensa e na torcida devido a super politização da copa?
  • Outra característica fascinante do intervencionismo do governo é o entendimento de que, se há algo de errado, para arrumar as coisas precisamos fazer uma completa revolução. Um mega plano, uma utopia ou o super PAC, sempre  tentando se reinventar a roda e ignorando outras experiências de sucesso adotadas no resto do mundo. Tal Plano sempre exige uma enorme articulação gerencial e política para ser formulado e que na prática nunca é implantado na forma ou nos custos planejados. Às vezes na vida a solução mais adequada não é a ótima, a “ideal” , mas sim a segunda melhor e mais simples: que tal  pressionar os clubes, cobrando seus impostos devidos, e as federações, cortando as subvenções existentes, exigindo uma melhor governança e profissionalização de seus quadros?  Que tal forçar os clubes a profissionalizar sua gestão do futebol, e, no caso dos times profissionais, exigir que estes negócios sejam apartados dos clubes na forma de empresas privadas, sujeitas a impostos, com a participação do capital privado nacional,  que assumam também a gestão do futebol em suas divisões inferiores?  O governo é credor dos clubes e dos estádios de futebol. Basta usar este poder de pressão para fazer com que a turma pague a dívida e se profissionalize. Isto funciona para o resto da economia no mundo todo, até mesmo no cinema ( Hollywood)  e no entretenimento ( Disney). Com times profissionais, as federações terão que se adaptar e modernizar, o que levaria inevitavelmente à reforma da CBF.
  • Este intervencionismo excessivo leva também o governo a assumir a “propriedade” de eventos e de resultados que são de propriedade e responsabilidade da sociedade civil. Ou seja, o sucesso da Embraer, da Vale e do agronegócio é muitas vezes apropriado pelo governo de forma completamente oportunista, visando justificar o próprio intervencionismo. Isto gera uma reação contrária destes setores, que começam a ser vistos pela sociedade como os “queridinhos do governo” que foram agraciados de benesses estatais.  Esta reação se converte em indiferença ou até mesmo em ódio daqueles que não foram, ou melhor, não se sentem agraciados pelo governo com tais benesses. E o governo, ao tentar se apropriar politicamente da Copa, traz este clima para as arquibancadas. Acredito que isto explique um pouco das vaias e os xingamentos às autoridades durantes os jogos da copa. Ou seja, o intervencionismo, ao evidenciar tratamentos diferenciados, cria rivalidades entre os diversos grupos sociais e isto se reflete dentro do campo, pois os jogadores sentem que há algo, além da copa, em jogo. Isto eleva a pressão sobre os jogadores além do normal, o que acaba tornando um gol sofrido em uma hecatombe paralisante, o tal do “branco de 6 minutos” que vimos no jogo contra a Alemanha. E pior, quando as coisas dão errado no campo, os custos políticos recaem sobre os ombros do governo de maneira totalmente desnecessária.
  • A presidenta Dilma, que pareceu bastante incomodada no momento do gol dos alemães nos hermanos kirchnerianos, tem afirmado que não pretende estatizar o futebol, mas apenas modernizá-lo. E a derrota dos hermanos nos traz uma alívio adicional neste ponto, pois caso eles vencessem,  poderíamos, quem sabe,  ter aqui uma revolução bolivariana no futebol, pois para os intervencionistas, modernizar significa fazer algo impensável, que muitas vezes é somente algo impensado. Sugiro  assim que a Presidenta deixe as forças naturais do mercado e do nosso amor ao futebol tomarem as rédias do processo e foque suas energias em outros assuntos mais urgentes, como saúde e educação.
  • Porém é preciso fazer justiça e dizer que este DNA intervencionista não é exclusividade do PT. Há este mesmo DNA, em maior ou menor escala, no PSDB, no PSB, no PMDB e no PSD, só para listar alguns. E este intervencionismo ideológico se casa com o patrimonialismo estatal e com a corrupção de forma perfeita, o que potencializa seus efeitos nefastos quando tais grupos chegam ao poder. Não creio que uma maior interferência do governo na CBF ou nos clubes possa reduzir o patrimonialismo, a incompetência e a corrupção hoje presentes no futebol. De fato, nossa experiência tem mostrado que a corrupção aumenta nos setores onde o governo mais interfere.

Meu amigo Leopold Nosek, extraordinário psicanalista e pensador, apesar de corintiano fanático, colocou com brilhantismo em sua coluna na Folha que o Futebol é a versão moderna da tragédia grega e que representa simbolicamente os acontecimentos e sentimentos reais de nossas vidas individuais e coletivas:

http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/07/1481477-leopold-nosek-sofocles-dionisio-messi-e-neymar.shtml

Talvez a tragédia da Copa das Copas para nossa seleção mostre a todos nós um pouco dos equívocos do coletivo de nossa sociedade no que diz respeito à maneira que queremos resolver nossos problemas econômicos.  Mostrou que, por um lado, conseguimos sim organizar um evento desta proporção com enorme qualidade a despeito do pessimismo inicial dos mais céticos, porém mostrou também que a sede intervencionista e centralizadora, o patrimonialismo que habita a CBF e modelo anacrônico de gestão de nossos clubes precisam ser repensados, assim como várias das instituições econômicas hoje em vigor. Em particular  é preciso acabar de vez com a visão de que o estado grande, o Super Neymar que irá decidir o jogo, disfarçado de Leviatã, pode resolver tudo sozinho. Nosso Neymar não foi suficiente para compensar as fraquezas táticas de nosso time, e a fatalidade do atropelo violento do Zuniga, um golpe cruel do destino como a esperada subida dos juros nos EUA, inutilizou nosso poderoso Leviatã. Transformar a CBF em outro tentáculo deste monstro estatal não nos trará resultados melhores, vide a nossa Petrobrás. Neste cenário, seria razoável prever a criação de mais um imposto sobre o preço dos ingressos ou nas negociações de passes de jogadores, criado com a finalidade de alimentar este monstro. E inúmeros presidentes de clubes de futebol seriam então apontados por partidos políticos que dariam apoio parlamentar ao governo. E quem sabe seria criado o bolsa jogador…

O nosso futebol não é tão diferente da nossa realidade como nação: pentacampeã, apesar de tudo, porém não mais deitada em berço esplêndido. Torço aqui para que até 2018 tenhamos aprendido isto, tanto no front econômico como no futebolístico e que possamos aí repetir o gesto e o sorriso alegre do Cafu em 2002, mesmo que seja com o próprio Felipão, como marcado em vermelho na foto abaixo, abraçado ao corintiano Vampeta, só que daquela vez usando uma camiseta branca e sem o agasalho da “sorte” que usou no jogo contra a Alemanha:

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quinta-feira, 10 de julho de 2014 Câmbio, Crise Brasileira, Inflação, Sem categoria | 02:15

Apesar do PIBINHO inflação segue firme

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Os dados recentes da inflação mostram um quadro muito, mas muito ruim. Apesar do ensaio de “congelamento cambial e tarifário” dos últimos anos, a inflação superou novamente o topo da banda de metas:

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Em cinza acima vemos que desde 2010 a inflação tem estado constantemente acima do centro da meta. E em amarelo vemos que a inflação e a média dos seus núcleos ( que excluem variações excepcionais de preço) superaram pela terceira vez o topo da meta desde 2011. Ou seja, de fato o compromisso com o centro da meta ficou apenas no discurso.

A inflação mensal corrente, dessazonalizada, disparou nos últimos meses ( vermelho), como mostra gráfico abaixo:

inflmes

 

tanto nos seus núcleos ( gráfico verde) como na sua tendência filtrada ( laranja), e se encontra hoje ( vermelho) no maior nível desde 2006 ( seta amarela) andando a 8,5% a.a!!!!!!! 

E ela está se espalhando cada vez mais, como mostra o índice de difusão ( mesmo excluindo os preços de alimentos)  no gráfico abaixo:

difexalim

 

O grau de “espalhamento”  de nossa inflação ( vermelho)  é similar àquele que tínhamos em 2002 e 2003 ( amarelo), quando o câmbio disparou, como mostro em amarelo no gráfico abaixo do câmbio do real ( nossa taxa de câmbio vs. principais parceiros comerciais descontada a diferença de inflação) :

 

fxreal

 

Vemos que o câmbio está hoje ( preto) em nível muito próximo a sua normalidade desde 1990 ( reta verde), muito diferente do que ocorreu em 2002 até 2004 ( amarelo), quando o dólar disparou em função das incertezas decorrentes do processo sucessório naquela ocasião, trazendo consigo enormes pressões inflacionárias. SE o governo parasse de intervir no câmbio através dos derivativos ( os mesmos usados por FHC e cia. em 1998) é certo que o dólar subiria o que aumentaria ainda mais as pressões inflacionárias,  nos colocando assim de forma definitiva acima do topo da meta. Contudo, a manutenção do câmbio artificialmente valorizado prejudica a indústria ao reduzir o custo dos bens importados.

Apesar deste ” bom comportamento”  do câmbio e dos preços administrados ( controlados pelo  governo ou fixados em contratos) que sobem abaixo de 4% a.a., como vemos marcado em verde abaixo:

infldesagregaa inflação dos itens que flutuam livremente de preço sobe a mais de 7% a.a nos últimos 12 meses ( seta vermelha), e continua acelerando. Com a economia fraca, não há como afirmar que temos um excesso de demanda. Tampouco pode-se afirmar que o comportamento do preço dos alimentos tenha sido o fator determinante desta alta, pois seus preços estão subindo em ritmo similar à sua média dos últimos 10 anos como vemos no gráfico abaixo:

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Ou seja, a palavra I continua a ser dita e repetida cada vez mais forte… Isto tudo num cenário onde a palavra R começa a ser cada vez mais ouvida nos meios econômicos ( http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/07/08/a-palavra-r/  ).

E, como já vimos:

R+ I = E, onde E é estagflação (http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/07/03/rumoestag/)

Nem os mais pessimistas imaginariam este estado de coisas. Final melancólico, similar ao jogo de Nossa Seleção contra a Alemanha. Triste. Quatro anos jogados fora.

 

 

 

 

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quarta-feira, 9 de julho de 2014 Crise Brasileira, Politica Economica | 01:27

Delfim reclama que o governo não entende..

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Ministro, o senhor não é o único que acha isto. Mas quando eu falo, sou acusado de neoliberal, numa tentativa de desqualificar quem fala. Quando o senhor fala, os desenvolvimentistas keynesianos tropicais fingem que não escutam. É a tal surdez seletiva. A tática parece que agora mudou: ao invés de atacar ferozmente quem defende idéias e caminhos diferentes dos deles, nos chamando de direitistas conservadores reacionários,  eles agora nos ignoram. E há agora a cegueira seletiva também: eles ignoram os dados que mostram o completo fracasso das políticas até hoje adotados.

Eu acho que esta turma aí que está tocando nossa economia precisava ouvir mais o senhor e abrir os olhos para o que de fato está acontecendo com a economia.

Veja alguns trechos da excelente entrevista do Ex Ministro ao Valor Econômico

A questão ainda é fiscal

Valor: Ao contrário de 2008/2009, quando havia espaço.

Delfim: Havia espaço. Hoje, não. É a única coisa inconveniente e que o governo tem, em um momento qualquer, de entender isso. Não tem nenhuma tragédia. A questão da inflação, por exemplo, a gente discute, discute, mas são coisas óbvias. Em primeiro lugar, não é possível, persistentemente, estimular o salário real, acima do aumento da produtividade. Isso é como um sanduiche: você coloca no pão um pedaço de carne e joga mostarda. Quando você apertar o sanduíche, a mostarda vai sair para o lado. Ou vai sair como inflação ou vai sair como déficit em conta-corrente, que é o que nós estamos vivendo. Não é o salário-mínimo [o problema], mas é aquilo que nunca foi tirado. É ligar o mínimo a todo o resto. Hoje, é o salário-mínimo que determina a despesa pública. Este é único país do mundo em que isso sobrevive. O salário- mínimo é um instrumento muito útil. Agora, você não pode, além de garantir o poder de compra para o aposentado, garantir o aumento de produtividade per capita. Não se pode usar o salário-mínimo para fixar o salário-educação, fixar o seguro-desemprego, o abono salarial etc.

Valor: Ou seja, em algum momento o salário-mínimo terá que ser desvinculado dos demais benefícios sociais.

Delfim: Não tenho dúvida disso. Mas, no Brasil, isso só vai ser feito quando estiver caindo no abismo. Aí aparece um campeão e corrige tudo isso. O drama é que nós estamos jogando fora uma oportunidade de ouro. O crescimento medíocre e uma distribuição de renda medíocre do Fernando Henrique elegeram o Lula. Um crescimento um pouco mais elevado e uma distribuição melhor elegeu a Dilma. Agora, a distribuição está comendo o crescimento. Agora tem que ter uma mudança. É isso.

…….

 Valor: Vinte anos depois do Plano Real, a inflação mostra resistência, girando em torno de 6% ao ano. Em sua opinião, quais são os fatores que mantêm a inflação do Brasil elevada?

Delfim: No momento em que se aumenta, sistematicamente, o salário real acima da produtividade não tem como você caminhar… Não tem política monetária nem política fiscal que sejam capazes de enfrentar esse problema. Tem, sim. Você entrega o Banco Central independente para um sujeito que seja um profundo portador de uma ciência monetária, ele põe os juros a 40% ao ano, faz uma recessão para valer, desemprega todo mundo e tem uma inflação de 4,5%. Tudo bem. Isso no quadro-negro funciona. No livro-texto também. Só que no Brasil real não funciona. Não tem política fiscal que compense isso. A não ser que o governo produza um excedente gigantesco e baixe o nível de atividade. É preciso compreender o seguinte: se não tiver o apoio da política salarial, não há política de combate à inflação que funcione. Nós estamos vivendo neste momento exatamente isto. A inflação está em 6,5%, mas você tem guardado aí pelo menos 1,5% ou um pouco mais. E isso é péssimo para o combate à inflação. Porque no combate a inflação é importante a expectativa. O Banco Central está funcionando. Estou achando que a queda da atividade vai ser maior do que a gente suspeita. Eu não sei se já não tem a mão pesada demais. O trem está chegando. Chegou o primeiro vagão, chegou o segundo, chegou o terceiro. O nível de atividade está caindo. Começou na indústria. Passou para o comércio. Está chegando no serviço. Há os primeiros sinais de que vai ter desemprego. O câmbio se valorizou. Ou seja, está funcionando [o aperto monetário]. O ritmo de crescimento do crédito desacelerou. Está tudo na direção certa. No momento em que se instalar a ideia de que a expectativa de inflação vai cair, a correção será rápida. Por que isso não acontece? Por causa do erro do governo de esconder a inflação. Ou seja, todo sujeito que pensa diz o seguinte: não, a expectativa de inflação não vai cair. A expectativa de inflação vai primeiro subir e aí eu não sei o que eles vão fazer, pode ser uma tragédia, e aí vai cair.

…..

Valor: Essa resistência da inflação não está relacionada com os resquícios da indexação, que não foram retirados?

Delfim: Com essa política monetária que está aí, que está funcionando, se invertesse a expectativa, a inflação ia cair. Agora, não cai porque a própria ação do governo elimina a possibilidade de reduzir a expectativa. A política de controle de preços nega a expectativa. Para ela cair, ela precisa antes absorver os erros que foram cometidos tentando corrigi-la equivocadamente.

….

Valor: Há uma discussão neste momento sobre a meta de inflação. Inclusive, propostas de candidatos de reduzir a meta. O que o senhor acha disso?

Delfim: Eles estão absolutamente defasados da teoria econômica mais moderna. Todo mundo está vendo que 2% de inflação já não é tão satisfatório. Aprenderam que é preciso ter uma taxa de inflação que torne flexível o salário. Se puder ter 3%, muito bem. Se puder ter 2%, muito bem. Até ter uma crise. Em minha opinião, 4,5% de inflação seria confortável se a flutuação estiver em torno da meta e não ficar namorando o limite superior da banda. O problema é o laxismo com relação à meta. Alguns dizem que a meta é de 2,5% a 6,5%. Não, a meta é de 4,5%, com um intervalo de tolerância de dois pontos percentuais para acomodar choques de oferta ou, eventualmente, de demanda. Essa ideia de desmontar o que está feito não funciona, pois as pessoas receberam os benefícios que só foram possíveis porque o país teve uma melhoria dramática das relações de troca, porque o país fez déficits em conta-corrente gigantescos. O governo distribuiu o que tomou emprestado e o que ganhou de presente. Isso terminou. Quando a Dilma entrou, começou a cair a relação de troca. Foi possível distribuir porque pegou um vento de cauda. Agora, não, a Dilma está pegando um vento de frente.

Valor: Há um entendimento de que o Brasil não vai mais contar com esse vento de cauda.

Delfim: É, isso acabou. Daqui para a frente, você precisa afinar os seus instrumentos. Primeiro, você não terá o presente. O nosso naviozinho estava no mar. Subiu o nível do mar, o navio subiu junto. O PT pensa que foi ele que elevou o nível do mar. Agora, o nível do mar está baixando, ele não quer saber disso. Ele diz: isso não é comigo. É com a Dilma. E terminou também a possibilidade de continuar com o déficit em conta corrente de 3,6% do PIB. Nós temos que pensar que temos que ganhar a vida honestamente. Não vamos receber nem presente mais do mundo e nem financiamento mais do mundo. Nós temos que viver com as restrições físicas do nosso sistema. Nós temos que entender que a identidade da contabilidade nacional é inviolável. Quando eu tento violar, eu só faço besteira. O sistema de preços tem dificuldades, mas o ser humano não inventou um melhor. Então, eu preciso respeitar o sistema de preços. Eu preciso, na verdade, abrir um espaço para a política fiscal. Não é por que eu vou quebrar. Não. É porque eu vou precisar disso em algum momento, em que afrouxar a demanda. Eu preciso também fazer convergir a minha inflação para 4,5% e esquecer a ideia de que 6,5% é meta.

Valor: Os economistas estão dizendo que não será mais possível fazer, daqui para a frente, uma distribuição de renda na mesma velocidade com que foi feita nos últimos anos.

Delfim: Eu acho que foi feita uma distribuição correta. Você recebeu de presente e tomou emprestado. A consciência nacional é a seguinte: eu só posso distribuir o que já foi produzido. Não posso distribuir o que não foi produzido. A posição de cada um é o degrau em que ele se encontra. O sujeito que subiu quatro degraus tem que ficar no quarto degrau. Ele vai chegar no quinto com um tempo maior do que ele passou do terceiro para o quarto. Mas ele vai chegar no quinto. Agora, você tem que dar para ele a esperança de que ele vai chegar no quinto. Você não pode dar o quinto para ele hoje. Você vai ter que compatibilizar o investimento com a distribuição. Nenhum dos dois vai parar. Você tem que acelerar o investimento, mas não prejudicar a distribuição. Você tem que reduzir a velocidade da distribuição. E é isso que vai ter que ser feito, mantendo os programas sociais.

 Leia mais em:

http://www.valor.com.br/cultura/3595304/questao-ainda-e-fiscal#ixzz35qh67QAN

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terça-feira, 8 de julho de 2014 Crise Brasileira | 01:37

A palavra R

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Durante minha infância Jo Soares participou de uma campanha de propaganda para uma seguradora onde, ao se referir à palavra morte, dizia Jaime. Por exemplo:

“Meu cachorro foi atropelado e Jaime”

“Parece que minha tia adoeceu e vai Jaime em breve”

“Quando eu Jaime quero deixar um bom seguro de vida para minha família”

Nossas superstições algumas vezes nos impedem de pronunciar certas palavras, como morte e azar, pois “corremos o risco de atrair tais coisas”. Imediatamente após ouvirmos tais palavras batemos  três vezes na madeira para nos protegermos destas coisas. Nos mercados e entre alguns economistas a palavra “recessão” causa este mesmo efeito. Em alguns círculos do poder político falar tal palavra é pecado mortal, ou, no mínimo,  politicamente incorreto. Para evitar este sentimento de “pânico”, alguns analistas do mercado se referem ao fenômeno econômico de contração da atividade como R.

E  tudo indica que o R chegou aqui, como vários dados recentes mostram ( ver meu últimos post), dados estes que são aqui coroados com o gráfico do volume mensal de produção de veículos em azul abaixo:

veicuprod

 

Desde 2009, durante a grande crise externa, a produção não esteve tão baixa. E a tendência dos últimos 12 meses ( vermelho)  indica uma piora mais à frente.

Logo, sugiro que comecemos a bater na madeira, pois o R chegou:

bater-na-madeira

 

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quinta-feira, 3 de julho de 2014 Crise Brasileira, Politica Economica, Sem categoria | 02:45

Chegamos de vez à estagflação?

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Vários dados econômicos recentes mostram uma piora importante na atividade nos últimos meses e projetam uma piora ainda maior para frente:

icibra

 

pibras

onibuscamina

 

inadimpl

cagedruim

saldmincrescreal

 

nucilongo

arrecad

 

 

Resumindo temos: confiança da indústria em queda, produção industrial afundando, inadimplência subindo, geração de empregos despencando, salários desacelerando, utilização da capacidade caindo e arrecadação de imposto desacelerando. Estes dados, numa situação normal, indicariam que o BC devesse iniciar um processo de redução dos juros, pois, com uma atividade mais fraca, a inflação tenderia a cair mais a frente.

Contudo, o próprio BC em seu último relatório trimestral de inflação ( http://www.bcb.gov.br/htms/relinf/port/2014/06/ri201406c6p.pdf )  projeta um cenário bastante ruim para a inflação mais a frente:

  • Expectativas de inflação para este ano subiram bastante desde março último, como mostra gráfico abaixo:

expect2014

  • Nas suas projeções, o BC indica que a inflação ficará acima do centro da meta ( reta amarela) pelo menos até meados de 2016, como mostra gráfico abaixo:

trajetinflamodbc

  • E isto tudo com um PIB esperado andando abaixo a menos de 2% a.a. , como mostra gráfico abaixo:

pibbcesperado

Ou seja, o cenário atual e o futuro para a inflação são bastante ruins, mesmo assumindo um crescimento medíocre da economia (abaixo de 2% a.a.), o que, em situações normais, deveria indicar uma queda mais rápida da inflação do que a indicada nos modelos do BC. Ou seja, existem algumas forças inflacionárias atuando que superam as forças desinflacionarias geradas com a queda do produto.  Isto pode indicar que nosso crescimento potencial tenha de fato despencado.

Mas, ao que tudo indica, as previsões de crescimento econômico  feitas pelo BC podem estar superestimadas.  Os dados recentes mostram uma estagnação completa ou até retração na atividade em alguns setores. E os indicadores de confiança nos mostram que tal desaquecimento da economia pode se aprofundar nos próximos meses. Logo, é provável que nossa economia cresça a taxas próximas de zero nos próximos trimestres ou até mesmo se contraia.

Quanto a 2015, dado o desarranjo das contas públicas, é razoável esperar um forte ajuste fiscal em 2016. Os dados até Maio das contas do governo mostram um quadro em franca deterioração, com o superavit nas contas públicas ( eliminando-se os truques contábeis do governo – gráfico laranja abaixo) em forte tendência de queda, atingindo o pior nível desde meados dos anos 90:

superaviprim

 

 

Com as receitas crescendo abaixo das despesas, temos o déficit financeiro dobrando quando comparado com mesmo período em 2013.  Ou seja , podemos esperar algum ajuste nas contas públicas no futuro, seja com corte de gastos ou elevação de impostos. Tal retração fiscal tomará o lugar da expansão fiscal que temos tido nos últimos anos, o que deverá desacelerar ainda mais a demanda interna.

Também a razoável esperar uma desaceleração na oferta de crédito por parte do BNDES, em virtude do crescente impacto dos repasses do TN ao banco no endividamento público. CEF e BB também terão problemas em manter as taxas atuais de crescimento de seus ativos, dadas as restrições de alavancagem que deverão surgir nos próximos anos em virtude da implementação dos critérios de limitação de alavancagem da Basiléia III impostos pelo BC. Ou seja, é bastante razoável esperar uma redução importante na oferta do crédito público em 2016. Os bancos privados também devem manter-se retraídos em virtude do aumento da inadimplência que já começou.  O crédito externo também deverá ficar menos abundante em 2015, pois estaremos mais próximos do início da elevação dos juros nos EUA. Tudo isto nos levará a um cenário de menor oferta de crédito na economia em 2015 e 2016.

Algum aperto fiscal associado a uma menor oferta de crédito ao setor privado deverá desaquecer ainda mais a economia e colocar o PIB em estagnação ou até mesmo em recessão, independentemente de quem for eleito presidente (a). Some-se a isto os indicadores do mercado de trabalho e do consumo que já dão sinais de fraqueza, as perspectivas para o crescimento nos próximos trimestres são péssimas! O desemprego deverá subir o que deverá reduzir as pressões de custos e  as pressões inflacionárias. Isto pode sim acelerar a redução da inflação para o centro da meta, o que poderia viabilizar uma queda dos juros Selic ao longo dos próximos trimestres. Porém há uma variável chave nesta equação: o comportamento da taxa de câmbio. Um dólar mais alto cria pressões inflacionárias ao elevar o custo dos bens importados. Em particular, do custo da energia. Hoje  20% da geração de energia elétrica vem de usinas termoelétricas, cujos insumos são óleo combustível ou gás. Tais insumos têm seus custos vinculados a cotação do dólar. Um dólar mais alto aumenta os custos da Petrobras que vai precisar repassar tal aumento ao preço dos combustíveis usados nas termoelétricas que por sua vez aumentarão o custo das distribuidoras de energia. Isto já vem ocorrendo e tende a se agravar em 2015, uma vez que as distribuidoras precisarão aumentar usas tarifas para  honrar suas obrigações atuais com bancos que emprestaram recursos a estas assumindo que as tarifas serão reajustadas nos próximos anos. Nesta linha, no próprio relatório do BC há uma estimativa de que para cada 10% de elevação do dólar, a inflação nos próximos 12 meses subiria 0.4%. O bom comportamento atual do dólar se deve à forte intervenção do BC nos mercados, que vende US$ 4 bi em derivativos cambiais ao mercado todos os meses, o que segura a cotação do dólar e assim a inflação. A tal da âncora cambial para segurar a inflação voltou a funcionar, a mesma que foi usada no primeiro mandato do governo FHC. Uma elevação das taxas de juros lá fora ou a saída do BC deste mercado levaria a uma elevação do dólar com impacto bem negativo na inflação.

OU seja, embora a atividade esteja definhando, a situação inflacionária é bem frágil, o que limita o espaço de reduções dos juros. Além disto, há uma questão estrutural que demanda uma reflexão. Estaríamos entrando num cenário de estagflação? Estagflação é um cenário onde taxas de crescimento econômico baixas convivem por muito tempo com uma inflação elevada. Isto ocorreu nos EUA nos anos 70 e 80.  Os economistas tentam explicar este fenômeno e a linha mais aceita para explicar este cenário pode ser vista em:

http://www.nber.org/papers/w14563

Onde A. Blinder defende que o choque causado pela elevação dos preços do petróleo teria gerado a estagflação nos EUA dos anos 70 e 80.

Porém outra tentativa de explicar este fenômeno segue uma linha bem diferente:

http://www.nber.org/papers/w8389

onde os autores defendem que a resposta equivocada do FED a tais choques em decorrência da sua falta do entendimento sobre o que ocorria naquele momento com a economia  acabou causando a estagflação. Como não sou economista, não sou apto ara entrar no debate sobre quem estava certo. Porém existem em nosso momento atual várias semelhanças com o que ocorreu nos EUA naquele momento, que poderiam justificar a repetição aqui do cenário que ocorreu naquele momento nos EUA:

  • Queda brusca dos juros em 2011 e 2012, apesar da inflação estar acima do centro da meta;
  • A subsequente elevação dos juros em 2013, caracterizando um cenário de stop-and-go da política monetária, como vemos no gráfico abaixo:

selicstopandgo

  • Um BC mais tolerante com inflação assumiu o comando em 2010, com a prioridade da política mudando para manutenção do pleno emprego;
  • Aumento acelerado do gasto público;
  • Aumento das expectativas de inflação e sua consolidação em níveis bastante acima do centro da meta por muito tempo;
  • Queda da produtividade geral na economia que ainda não foi totalmente percebida pelo BC e governo;
  • Aumento da parcela da renda do trabalho no PIB, através da queda do desemprego e aumentos reais dos salários acima da produtividade, em detrimento dos lucros e do aumento da poupança;.
  • Perda de credibilidade na política econômica por parte de investidores internacionais que induziu uma desvalorização do R$, hoje combatida com vigor pelo BC do B;
  • Dificuldade dos agentes em avaliar qual seria a taxa neutra de juros a luz das enormes flutuações da política monetária desde 2008, o que dificultou a leitura imediata quanto as reais condições monetárias vigentes;
  • Choques de preços, inicialmente alimentos e mais recentemente eletricidade;
  • Queda forte da confiança do consumidor;
  • Aumento do déficit externo;
  • Adiamento dos investimentos privados em decorrência das incertezas quanto à política econômica, incertezas estas agravadas pelo intervencionismo excessivo do governo;
  • Fim do congelamento e da repressão dos preços de algumas tarifas, como eletricidade, transporte público e combustível que deve ocorrer ao logo dos próximos trimestres.

Ou seja, temos hoje inúmeros fatores em ação que estiveram presentes nos períodos de estagflação dos EUA nos anos 70 e 80, fatores estes que, ou na visão de Alan Blinder e Jeremy Rud ou de Robert Barsky e Lutz Kilian, foram determinantes, em menor ou maior escala, na estagflação anos 70 e 80 nos EUA.

No episódio em questão, a inflação americana saiu de cerca de 2% em 1965, bateu 10% em 1975 e só conseguiu voltar abaixo de 4% em 1990:

 

stagusapce

De 73 a 75 a economia se desacelerou fortemente e até 82 alternou períodos de surtos de crescimento, que eram constantemente abortados:

gdpusaestag

Os Juros reais nos EUA de 1970 até 1975 caíram 7 pontos percentuais! Permaneceram negativos até 1980, quando subiram para quase 10% a.a.

Ou seja, se por um momento acreditarmos na justificativa dada por Barsky e Kilian explicitada no trabalho que mencionei mais acima, devemos sim ficar muito preocupados, pois há fortes indícios que estamos caminhando aqui no Brasil para um cenário de estagflação. E num cenário como este os desafios que se apresentam na condução da política econômica são enormes e os custos sociais dos ajustes necessários para sairmos de tal atoleiro inflacionário são bastante grandes. Por outro lado, se nada fizermos, este processo tende a se arrastar e podemos sim por tudo a perder em termos das conquistas econômicas e sociais que conseguimos nos últimos 20 anos.

Quanto a questão: faz sentido o BC do B reduzir os juros num cenário destes a esta altura? Eu acho que não, pois carcaterizaria , mais uma vez, o  mesmo stop and go que teria levado os EUA à estagflação crônica dos anos 70. Porém, eu acho prematuro descartar tal possibilidade, pois  não creio que o diagnóstico do BC e do governo sobre a situação atual da economia do país coincida com o meu. Vale lembrar que nos EUA este cenário só foi de fato interrompido nos anos 80 quando o Presidente do BC americano Paul Volcker impôs um forte aperto monetário, restaurando assim a credibilidade do BC e seu compromisso com o combate à inflação, e no governo Reagan com suas reformas liberais, que aumentaram a produtividade da economia. Foi um processo longo e doloroso, que tende a ficar pior se ficarmos adiando as reformas que precisamos fazer para sair deste atoleiro que entramos.

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segunda-feira, 30 de junho de 2014 Crise Brasileira, utilidade | 02:34

Mercado de trabalho entra definitivamente no vermelho

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Os dados recentes do CAGED ( Ministério do Trabalho) mostram que a geração de empregos com carteira assinada continua em sua tendência de piora e entrou no território negativo, como mostra o gráfico abaixo preparado pelos economistas da Kinea:

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O gráfico azul mostra o número de vagas novas geradas ( ajustado sazonalmente ) mês a mês desde 2005.  O Gráfico verde mostra a média móvel dos últimos três meses.

Vemos que desde 2010 há uma queda consistente no número de contratações líquidas com carteira assinada (amarelo).  E os últimos dados ( vermelho) indicam que o número de desligamentos tem sido superior ao número de novas contratações, algo que ocorreu pela última vez durante a crise de 2009.  Ou seja, o número de pessoas empregadas com registro em carteira começou a cair! Tudo indica que o desaquecimento da economia finalmente chegou ao mercado de trabalho. Isto não é nenhuma surpresa, como tenho afirmado há alguns anos nesta coluna. O modelo econômico atual afundou, pois, como um jovem e brilhante economista amigo me disse:

“Gallo, com nossa taxa de poupança e investimento ridículas, PIB potencial caindo, inflação alta, expectativas de inflação completamente desancoradas, fortes aumentos de preços administrados ainda por vir, aumento da inércia inflacionária e atividade indo pro buraco, o que você esperava?”

Ele tem razão! Mas temos aqui, quem sabe, uma boa e uma má notícia:

  • a boa notícia é que, com um mercado de trabalho menos apertado, as pressões por reajustes de salários e, portanto, de custos para o setor produtivo tendem a diminuir, o que reduz as pressões inflacionárias e a necessidade de aumentos maiores dos juros por parte do BC;
  • a má notícia é que os dados de desemprego deverão subir nos próximos meses e que este quadro só se reverterá se e quando a economia voltar a crescer;

Daqui para frente podemos esperar duas rotas possíveis:

  • o discurso de necessidade de mudanças na política econômica atual, discurso este adotado tanto pelos candidatos da oposição como pela Presidenta Dilma na convenção que a indicou para a corrida presidencial, de fato saia da retórica eleitoral e entre na prática, com reformas macro e micro que desatem os nós do crescimento econômico, como a perda de credibilidade do sistema de metas de inflação, perda de credibilidade da política fiscal e o intervencionismo excessivo na economia, e que criem um ambiente favorável ao investimento privado, promovendo o lucro privado, que é o único atrator de investimentos numa economia capitalista de mercado, e a estabilidade de regras reduzindo os riscos micro e macroeconômicos,  gerando assim a poupança necessária para financiar tais investimentos;
  • ou tal retorica permaneça apenas no papo pré eleitoral, o que nos condenará a um cenário de estagflação similar ao vivido nos países desenvolvidos nas décadas de 70 e 80, onde, aos poucos, as conquistas econômicas e sociais dos últimos 20 anos serão perdidas.

Chegamos, portanto, ao momento de escolher e apostar no caminho que desejamos trilhar: populismo ou realismo? Intervencionismo estatal ou liberalismo econômico? Patrimonialismo do Estado ou justiça social?

O que tentamos nos últimos anos deu errado, infelizmente, e precisa ser mudado. De fato todos os candidatos estão certos nisto. A pergunta que nos resta fazer aos candidatos: onde e o que eles pretender mudar? Iremos de fato resolver os problemas estruturais? Mudar para valer ou só no papo?

 

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