Publicidade

Arquivo da Categoria Crise Brasileira

quarta-feira, 15 de abril de 2015 bizarro, Crise Brasileira | 15:56

Frase da semana

Compartilhe: Twitter

Ouvi hoje do meu amigo Barba (não é o Lula) um resumo interessante sobre sua visão a respeito da evolução das negociações políticas sobre o ajuste fiscal e da política monetária e inflação:

Existem dois tipos de ajuste fiscal: o bom e o ruim. O bom é aquele onde os outros pagam o seu custo. Assim como há dois tipos de ajuste de preços relativos: o bom e o ruim. O bom é aquele onde os preços que sobem são dos produtos que os outros consomem.

 

Lembra da lei de Gérson?

https://www.youtube.com/watch?v=J6brObB-3Ow

Assim pensa todo mundo. Fica fácil ajustar economia neste cenário?

 

Gerson-Vila-Rica

 

 

Autor: Tags:

terça-feira, 14 de abril de 2015 Crise Brasileira, Inflação | 18:23

Efeito da desvalorização do R$ na inflação

Compartilhe: Twitter

Tenho dito aqui que a desvalorização cambial é um componente fundamental no processo de ajuste de nossa econ0mia:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2015/01/15/a-mecanica-do-ajuste-economico-em-curso/

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2015/01/27/por-que-o-dolar-nao-sobe-mais/

Contudo, quanto mais o dólar sobe mais pressão inflacionária se cria, uma vez que produtos importados ou comercializáveis com o exterior têm seus preços afetados pela alta do dólar. Os economistas se preocupam, portanto, em saber em que medida um aumento de 10% na cotação do dólar afeta a inflação. Este é o chamado pass-through. O BC tratou sobre este assunto em seu último relatório de inflação:

http://www.bcb.gov.br/htms/relinf/port/2015/03/ri201503b8p.p

Porém outros economistas têm uma visão diferente sobre o assunto. Neste sentido vale a pena ler o texto abaixo, preparado recentemente pela competente equipe de economistas do Banco J Safra, sob o comando de Carlos Kawall.

 

Política Monetária – Pass-through do câmbio para os preços domésticos e a resposta da política monetária

O 1T15 foi marcado por uma substancial depreciação do real, com a moeda tendo se desvalorizado cerca de 16,4% frente ao dólar no período. Apenas em março, a depreciação foi de 10,3%. Para o ano, esperamos a continuação desta tendência, com o real chegando em R$3,50/US$ ao final de 2015, o que representaria uma desvalorização média de 27% do real em relação a 2014.

Dada a magnitude da desvalorização esperada, os impactos na inflação deverão ser relevantes. O nível de repasse da depreciação cambial para a inflação (pass-through) é um parâmetro não observável. Assim, estimá-lo se faz tarefa importante para projetar a variação do nível de preços no ano.

O Banco Central (BC) disponibilizou um anexo no Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de março com algumas considerações a respeito. No trabalho apresentado, o BC argumenta que o movimento da nossa moeda contra a cesta de moedas que compõem nosso comércio externo é o mais relevante para a inflação, em detrimento do movimento do real diretamente contra o dólar. No caso, o BC utilizou a taxa de câmbio efetiva para o Brasil calculada pelo Bank for International Settlements (BIS), que é uma medida ponderada pela corrente de comércio.

 

realcestamoedasafra

 

Para contribuir com a discussão sobre o tema, apresentamos uma medida de câmbio nominal efetiva para o real construída com os pesos dos nossos parceiros comerciais2, porém só considerando as importações, o que, em nossa visão, deve refletir de maneira mais realista a taxa de câmbio relevante para o repasse a preços internos. Optamos por utilizar esta métrica para o câmbio efetivo, pois, em momentos em que o real tenha se desvalorizado contra o dólar, se esta desvalorização também acontece para as moedas dos nossos demais parceiros comerciais, o repasse para os preços domésticos deveria ser menor.

Esta discrepância entre a taxa de câmbio efetiva e o movimento do real contra o dólar de fato ocorreu em 2014. Ao considerarmos esta medida de câmbio efetiva, temos que a depreciação observada naquele ano foi de apenas 5,2%, enquanto o real se desvalorizou 11,2% contra o dólar no período.

Porém, em 2015, o real também se depreciou contra os seus demais parceiros comerciais. Em comparação com a depreciação de 16,4% observada contra o dólar no 1T15, o real se desvalorizou 14,1% contra a cesta de moedas. Assim, o efeito que poderia mitigar o pass-through por conta do dólar se apreciando também contra nossos demais parceiros comerciais ficou bem menos intenso este ano, mantendo-se a visão de que o efeito na inflação deverá ser elevado. 

Utilizando esta série de câmbio efetivo, estimamos o pass-through, em condições normais, em 6%, com impacto máximo entre o terceiro e quarto trimestre subsequentes à desvalorização. Em outras palavras, uma depreciação de 10% do câmbio efetivo elevaria a inflação em 0,60 ponto percentual (p.p.). Já quando o nível de atividade está deprimido – quando o hiato do produto é negativo, como no momento atual -, nossos modelos indicam que o repasse cai para 4%.

Porém, agindo na direção contrária do baixo nível da atividade, existe a possibilidade de efeitos não lineares no repasse da variação cambial à inflação. A ideia aqui é que uma depreciação cambial modesta, por exemplo de 5%, pode ser absorvida por uma redução de margem de lucro em alguns casos. Porém, quando esta depreciação é mais elevada – como em nossa projeção de acima de 25% para este ano – haveria menos espaço para esta absorção via redução de margem, sendo então maior o repasse aos preços.

Para analisarmos este ponto, estimamos um modelo de mudança de regime. Para o nosso caso em particular, esta classe de modelos tenta apontar se, primeiro, existe um nível de depreciação a partir do qual o repasse cambial à inflação muda. Após apontar o nível em que esta quebra de comportamento acontece, estima-se qual é o comportamento do pass-through em cada um dos dois regimes encontrados. Os resultados encontrados apontam que, quando a depreciação cambial trimestral ultrapassa 2,6%, o repasse cambial pode se elevar dos 4% para 5,5% por conta do efeito não-linear do nível da depreciação no repasse aos preços.

 

passth

 

Autor: Tags:

sexta-feira, 10 de abril de 2015 Crise Brasileira, Inflação, Juros no Brasil, Sem categoria | 15:22

O enorme custo de trazer a inflação de volta à meta

Compartilhe: Twitter

Os números recentes de inflação são de fato preocupantes. Ela bateu mais de 8% nos últimos 12 meses, como mostra o gráfico vermelho abaixo, turbinada mais recentemente pelo reajuste das tarifas públicas (gráfico laranja abaixo) e do câmbio, e por uma inflação persistente de serviços que insiste em ficar acima de 8% já há alguns anos como vemos em verde no gráfico abaixo:

 

recentinlf

 

Para agravar a situação, a inflação continua bem espalhada, como mostra o índice de difusão:

 

dispersao

 

E seu núcleo, excluindo preços monitorados e preços de alimentação em casa, seguem fortes, como vemos no gráfico vermelho abaixo, porém dando alguns sinais de estabilização, porém ainda acima do topo da meta:

 

nucleoexmonitalicasa

 

Os rendimentos das pessoas empregadas nos grandes centros seguem subindo em ritmo acelerado, como mostra gráfico abaixo:

 

RENDIMNOMINALOCUPADO

 

 

 

estando há vários anos rodando ao redor de 9% a.a. e sem sinais de queda significativa que fosse consistente com uma inflação caminhando para o centro da meta.

Um fator que tem ajudado a aliviar a inflação tem sido as commodities apesar da forte alta do dólar. Seus preços em R$ tem se mantido estáveis, como mostra o gráfico abaixo:

 

indicecommbravarano

 

 

O mesmo pode ser visto na inflação dos bens comercializáveis com o exterior, que estão subindo a uma velocidade inferior à inflação média:

 

comercializa

 

Isto é uma boa e uma má notícia pois, como somos exportadores líquidos de commodities e nossa principal aposta em termos de investimentos nos últimos 4 anos foi o petróleo do pré sal cujo preço despencou nos últimos anos, isto não é nada bom para nossas exportações e para o financiamento de nosso déficit externo. Os termos de troca, que mostram a relação dos preços do que exportamos sobre o que importamos, têm caído muito como mostra gráfico abaixo:

 

termtroca

 

Ou seja, vamos precisar manter o dólar elevado para conseguir financiar nosso saldo externo e promover o ajuste de preços relativos necessários neste novo cenário.

Desta forma, a pressão sobre o BC aumenta ainda mais pois, como já comentei no passado ( http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2015/03/21/credibilidade-do-bc-uma-moeda-perdida/  ), os custos em termos de credibilidade incorridos pelo BC nos últimos anos afetam a gestão da política atual.

O BC faz política monetária através da variação dos juros básicos na economia, o SELIC. Tal taxa atua através de dois canais principais: através do crédito, ao variar o custo do dinheiro, afetando assim a demanda interna, tanto no consumo como no investimento. E através das expectativas. Um BC com credibilidade, ao fazer pequenos movimentos com os juros sinaliza aos agentes que não irá tolerar elevação excessiva dos preços ou preços caindo. Assim os agentes se retraem e passam atuar no sentido desejado pelo BC, seja de aumentar os preços ou de reduzi-los. As expectativas com relação à inflação futura ficam assim contidas e estáveis, apesar de eventuais choques que afetem os preços no curto prazo. Isto elimina a necessidade de se fazer grandes flutuações nos juros ou de se impor muita volatilidade na atividade econômica.

Como já coloquei acima, a credibilidade do BC atual foi afetada pelos resultados da condução da política monetárias nos últimos anos que permitiu que inflação abandonasse o centro da meta e se estabilizasse perigosamente acima do topo da banda de metas.  Desta forma, o custo em termos de queda de atividade econômica para trazermos a inflação de volta para o centro da meta em 2016, como já prometido pelo BC, serão bastante grandes, pois, além da questão da perda de credibilidade, existe hoje um componente inercial importante na inflação atual devido a alguns fatores:

  • Os salários dos trabalhadores vêm subindo acima de 8% a.a. já há algum tempo, e com inflação andando a 8%, é muito difícil que os reajustes nos dissídios que teremos no segundo semestre sejam inferiores a este número, o que determinaria um patamar médio a ser perseguido pelos sindicatos.
  • O salário mínimo em 2016 deve subir ao redor de 8%.
  • A persistência da inflação de serviços em níveis bem elevados em função da alta do custo com mão de obra.
  • O aparente abandono por parte do BC de perseguir o centro na meta nos últimos anos (http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2015/03/21/credibilidade-do-bc-uma-moeda-perdida/)
  • Uma elevação maior do dólar ou do preço do petróleo podem levar a Petrobrás a subir os preços dos combustíveis mais uma vez, à luz de sua frágil situação financeira.
  • A incerteza sobre regime hídrico impede uma redução dos preços da eletricidade, o que poderia ajudar bastante a conter a inflação.
  • O processo incompleto de ajuste de preços relativos entre os bens comercializáveis e os não comercializáveis com o exterior, fundamentais para reversão do déficit externo.
  • Expectativas elevadas de inflação para 2016 que ainda estão fortemente ancoradas em 5,6% a.a., ou seja bem acima da meta estabelecida pelo BC.
  • Redução das margens de lucro das empresas em função de aumento dos impostos o que limita sua capacidade de absorver aumentos de custos.

Para quebrar estas potentes forças inerciais, iremos precisar de um aumento no desemprego ainda maior. Os dados recentes mostram uma reversão clara na tendência de queda do desemprego, como vemos abaixo em vermelho:

 

desempregose

 

 

Mantida tendência atual, o quadro deve continuar piorando gradualmente nos próximos 12 meses como indica o gráfico amarelo acima.  O mesmo pode ser visto no comportamento da geração de empregos formais no CAGED, que já tem causado uma queda no consumo que segue desacelerando:

 

conspayroll

 

O problema é que, em função da piora do quadro fiscal, da crise na Petro, nas empreiteiras, juros elevados, dólar caro, a atividade econômica piorou bastante nos últimos meses, e o mercado já aposta numa contração de atividade de mais de 1% a.a. no PIB deste ano. SE mesmo com o PIB levemente positivo dos últimos meses o desemprego já mostrou uma elevação, imagine o que vai acontecer com este se PIB de fato cair como se prevê ? É bem provável que terminemos 2015 com uma taxa de desemprego (dessazonalizada) ao redor de 7%.

Temos abaixo a evolução de nosso PIB desde 1996:

 

pibtend

 

 

O gráfico azul mostra a evolução dos dados trimestrais do PIB desde 1996. O gráfico verde mostra sua tendência central. Vemos que em 2009 (amarelo)  em função da crise internacional nosso PIB andou bem abaixo de sua tendência. Assumindo que a economia se retraia 1,5% este ano, como esperam alguns analistas, nosso PIB deverá seguir o gráfico vermelho, se distanciando bastante de sua tendência central.

O gráfico abaixo mostra a evolução do desvio da tendência desde 2003. As setas amarelas mostram momentos onde PIB se desacelerou em relação a sua tendência. Podemos ver que se de fato o PIB cair 1,5% este ano (gráfico marrom), o desvio da tendência em 2016 será maior do que aquele visto em 2009:

 

desviopibtendencia

 

 

Nos períodos onde desvios são negativos temos  quedas na inflação, uma vez que as pressões de custos não são repassadas aos preços, pois a demanda cai muito nestes momentos. O gráfico abaixo mostra nas setas amarelas o comportamento da inflação dos últimos 12 meses nestes momentos em que no PIB anda abaixo de sua tendência. Podemos notar que há quedas de inflação nestes momentos. Em 2009, a inflação saiu de quase 6,5% a.a. e recuou para quase 4% em 1 ano. Ou seja, uma redução de 2,5% a.a.  Vê-se uma queda maior ainda de 2005 a 2007 (5%):

 

inflacaorecente

 

 

O que explica esta queda mais acentuada da inflação de 2005 a 2007 foi a forte queda do câmbio real (valorização de nossa moeda) ocorrida naquela época, como vemos em vermelho no gráfico abaixo (R$ fica mais forte quando gráfico desce):

 

cambioreal0509

 

Vemos que após 2009 o câmbio se valorizou menos ( verde), o que impediu uma queda maior da inflação. E a tendência de valorização do R$ se reverteu desde 2011. Logo, não é razoável esperar ajuda deste front.

Ou seja, apesar do desvio previsto da atividade econômica de sua tendência ser maior do que o vivido em 2009, não é razoável esperar uma queda tão acentuada da inflação como a que vimos em 2005 / 2007 em 2016, em particular se a economia voltar a crescer no ano que vem, como torce o governo. Ou seja, a probabilidade de não atingirmos a meta em 2016 é elevada. A alternativa seria o BC impor juros ainda maiores, de tal forma a aprofundar o desvio ainda mais, o que propagaria a recessão atual para 2016. Contudo, um número crescente de analistas imagina que governo deve reduzir o ritmo da queda dos juros no próximo Copom para 0,25% e sinalizar que encerrará em breve ciclo de alta. Seria isto um equívoco? Bem, isto seria coerente com o cenário político que descrevi em ( http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2015/02/06/o-limite-politico-do-ajuste-necessario/ ).

Resumindo: tudo indica que dificilmente teremos a inflação na meta em 2016. Mais uma vez. O sonho agora fica para 2017. Isto se não cairmos na tentação de tentar acelerar a economia já em 2016.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Autor: Tags:

quinta-feira, 2 de abril de 2015 bizarro, Crise Brasileira, Politica Economica | 12:32

Caminhões: crise chegou

Compartilhe: Twitter

Vocês se lembram do que falei sobre caminhões ? E sobre os estímulos “contracíclicos keynesianos”  dados no financiamento das compra destes nos últimos anos? Só para relembrar:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2015/03/03/muito-caminhao-para-pouco-pib/

Vejam agora o que está acontecendo com o número de licenciamentos de caminhões novos:

 

licensiacami

 

 

Voltamos aos níveis de 7 anos atrás. Tais medidas contracíclicas Manteguianas foram ineficazes, ineficientes, populistas e nefastas. Só anteciparam demanda futura. Vamos lembrar desta lição da próxima vez. Este é só mais um exemplo emblemático do fracasso de tais medidas que estão sendo revertidas e corrigidas com um custo fenomenal, político e econômico, para a esquerda e para o andar de baixo. Subsidiar caminhão é coisa de direitista populista, meus caros!

Pelo o amor de Deus não se esqueçam disto. Deveriam ter pego a grana gasta em subsídio ( uns R$ 15 bi) é dado aos pobres. Teria sido igualmente populista e maluco, mas menos danoso à economia!

 

 

 

Autor: Tags:

sexta-feira, 27 de março de 2015 Crise Brasileira, Politica Economica, Sem categoria | 20:40

Golpe ou suicídio econômico?

Compartilhe: Twitter

A história recente do Brasil apresentou pelo menos duas grandes crises políticas: uma culminou com o suicídio do então Presidente Getúlio Vargas em 54 e outra que terminou no Golpe dos militares em 64. Não creio que do ponto de vista político estejamos nem perto de nenhuma destas situações. Mas, como não me proponho fazer análises da história política do Brasil, quero focar apenas nos impactos da situação política atual no quadro econômico.

Para o PT e seus apoiadores, a enorme reviravolta na política econômica da Presidenta Dilma após as eleições se assemelha a um golpe de estado: o PT ganhou mas não levou. De fato a Presidente está tendo que rever completamente o que defendia até o final de 2014 e assim adotar alguns dos remédios mais amargos defendidos por alguns dos candidatos da oposição. Isto, infelizmente, é muito recomendável, pois fica claro a esta altura que o caminho seguido até então exauriu nossos recursos fiscais, desacreditou a condução da política monetária pelo BC e causou enormes desequilíbrios na estrutura econômica do país. O governo usou políticas anticíclicas para combater um problema que não era de falta de demanda interna, mas de incapacidade de gerar oferta. Errou totalmente no diagnóstico. O que acabou nos últimos anos foi a enorme ajuda que recebemos dos chineses na forma de alta do preço das commodities que vinha desde 2004. Se as commodities não tivessem subido como subiram, nosso PIB teria subido muito menos de 2004 a 2010.  O que o governo chama de crise internacional, eu chamo de fim da moleza dada pelas commodities em alta. Final este que iria acontecer mais cedo ou mais tarde. O mesmo aconteceu no final do ciclo do pau brasil, do ouro, da borracha, do café e por aí vai…

E as tais políticas anticíclicas, usadas e abusadas pelo Ministro Mantega visando combater os efeitos da tal da crise externa, foram na verdade medidas pró desequilíbrios, como mostram:

  • O enorme déficit fiscal gerado em 2014 e a piora consistente do mesmo desde 2012, que coloca nosso endividamento bruto em rota insustentável;
  • O crescente e bilionário déficit externo;
  • A inflação persistentemente acima da meta que agora disparou após o realinhamento dos preços administrados pelo governo;
  • A falência do Estado empresário, evidente na situação da Petrobrás e da Eletrobrás e da saúde;

O que o governo fez foi ignorar a necessidade de reformas liberalizantes. Sem o impulso das commodities,  a economia perdeu tração e ficou evidente que precisaríamos de reformas liberais para continuar a crescer. Para não ter que encarar a derrota do modelo desenvolvimentista e estatizante, eles apelaram ao contracíclico que quase nos arrebentou.

Este cenário fez com que as agências classificadoras de risco colocassem nosso país em observação e afirmassem que, se as políticas atuais propostas pelo Ministro Levy e apoiadas pela Presidenta Dilma, não forem implantadas, o Brasil perderá seu grau de investimento. Caso isto venha acontecer:

  • Perderemos totalmente o acesso ao financiamento externo de longo prazo para nossa infraestrutura.
  • Dependeremos exclusivamente de nossa poupança interna, que hoje é totalmente insuficiente, para financiar os investimentos que precisamos.
  • Precisaremos de uma enorme queda nos salários reais (poder de compra) para aumentar margens de lucros das empresas de tal forma que estas possam assim gerar e acumular a poupança necessária para o crescimento do investimento.
  • Isto demandará um enorme aperto fiscal (muito acima do que está sendo proposto) e a manutenção de juros reais ainda maiores por mais tempo, com um Real ainda mais fraco.

Uma perda do grau de investimento significaria na prática uma interrupção do fluxo de capital externo, nas mesmas linhas que tivemos nos anos 90, com as nefastas consequências para a renda e o emprego. Já expliquei como isto funciona em inúmeros posts durante 2014. Estas conclusões vêm da teoria econômica básica que explica o funcionamento da economia de mercado. Não se trata de globalização, neoliberalismo, imperialismo econômico ou ideias propagadas pela mídia burguesa. Basta entender um pouco de contabilidade, aritmética e ter bom senso que você chega a estas mesmas conclusões, mesmo sem ter feito mestrado em economia na Unicamp.

Porém dá para entender a razão da reação do PT e dos setores chamados progressistas e da esquerda, pois de fato, até novembro de 2014, o governo e seus ministros da área econômica não aceitavam a necessidade de mudanças e de ajustes. O governo pelo visto entendeu a realidade, porém os “progressistas desenvolvimentistas” ainda não. Basta ver a reação do PT. As próprias lideranças do PT, partido da Presidenta, não dão apoio necessário às medidas no Congresso, deixando a missão a cargo do Ministro Levy apenas. O PT se omite nesta hora de necessidade de nossa Presidenta. Nas manifestações promovidas pela CUT e pelo MST recentemente em apoio (??) ao governo, eram abertas as críticas ao pacote de ajuste fiscal proposto pela própria Presidenta então defendida. Foi a coisa mais esquizofrênica que eu já vi na política.  De forma emblemática, o Senador Paim, do PT, ameaça deixar o partido no meio desta enorme crise se não houver mudança do pacote fiscal:

http://www.em.com.br/app/noticia/politica/2015/03/25/interna_politica,631096/paulo-paim-condiciona-permanencia-no-pt-a-mudanca-no-ajuste-fiscal.shtml

E, para minha perplexidade total, próprio Senador Paim, assustado com os números do desemprego que começaram a sair, agora chama os neoliberais da direita (oposição)  para um Pacto:

http://www12.senado.gov.br/noticias/materias/2015/03/27/pib-paim-quer-pacto-nacional-e-cassio-ve-governo-201cnota-zero201d?utm_source=midias-sociais&utm_medium=midias-sociais&utm_campaign=midias-sociais

Senador: o desemprego não foi causado pelo ajuste fiscal, que nem começou, tampouco pela globalização ou crise externa, mas sim pela elevada inflação e pela perda de confiança dos agentes em função da enorme deterioração dos fundamentos macro do país e do caos político muito bem retratado pelo ex secretário de comunicação do governo. Esta piora do emprego já vem acontecendo há meses. Muito antes do Levy chegar lá. Basta ler esta coluna. A coisa só se agravou mais rapidamente em função da fenomenal queda de confiança de empresários e dos consumidores à luz deste caos. Caos que o Partido do senhor está criando. Esta reação do PT e dos progressistas de oportunidade contra o possível “golpe econômico neoliberal” que as elites burguesas estariam dando na Presidenta nos coloca na direção de um possível suicídio econômico coletivo. E se o senhor e seu Partido não concordarem com o diagnóstico, esquece qualquer conversa. 

As pessoas com que me relaciono sabem que tenho sido um dos menos pessimistas no meu meio no que diz respeito ao quadro atual, e que tenho apoiado às medidas propostas pela Presidenta desde sua posse, apesar das divergências ideológicas do passado recente. Porém os acontecimentos da última semana mostram que meu quase otimismo está se transformando em ingenuidade.

O comportamento dos três poderes, Executivo, Judiciário e Legislativo, lembra uma conspiração auto destrutiva:

  • A Presidenta toma inúmeras atitudes políticas que fragilizam sua tênue base de apoio, como patrocinar a criação de um novo partido visando esvaziar o poder de ser maior aliado, o PMDB;
  • A Presidenta coloca para negociar com o Congresso a aprovação do ajuste fiscal no Congresso um time de pessoas com zero experiência na gestão de crises e que não está comprada com a ideia do ajuste fiscal.
  • Esta equipe manda o pacote para o Senado sem negociar nada com nenhuma liderança de sua base.
  • O BC se compromete com metas que sabe que não vai cumprir e dá sinas confusos ao mercado sobre como vai conduzir a política monetária;
  • O legislativo aprova medidas que reduzem os encargos das dívidas dos Estados, o que irá permitir que eles contratem novas dívidas, piorando o déficit público;
  • O legislativo prorroga a lei de correção do salário mínimo, sem contudo avaliar o impacto disto na previdência;
  • O judiciário legisla indicando que Precatórios dos Estados e municípios sejam pagos até 2020, criando mais gastos e piorando a chance de um ajuste fiscal.

E por aí vai. Parece uma ação orquestrada para que percamos o grau de investimos, o que nos colocaria não mais em recessão, mas numa depressão econômica profunda.

Para agravar a situação, todos sabem que as medidas de ajuste propostas não resolvem nossos problemas de crescimento de forma sustentável. Precisaremos de reformas liberalizantes se quisermos retomar o  crescimento econômico. Infelizmente será inevitável rever o escopo de inúmeras políticas sociais, a previdência, a forma de tributação, o papel do Estado na economia, o tamanho do estado, a carga tributária e o pacto federativo. Se não endereçarmos todas estas questões, não voltaremos a crescer os 4 ou 5% que tivemos quando fomos beneficiados pela alta da demanda por commodities. E neste quadro político atual, sonhar que teremos reformas desta magnitude neste governo é coisa de maluco de hospício. Mencionei num artigo recente o custo político do ajuste:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2015/02/06/o-limite-politico-do-ajuste-necessario/

No “modelo” que apresentei eu coloquei que seria preciso que o governo minimizasse as perdas de capital político se pretendesse manter o grupo atual no poder. Pois bem, à  luz do quadro atual já, as chances de tal grupo permanecer no poder após 2018 são muito pequenas. Desta forma, não há neste governo a força política necessária nem para iniciar o debate sobre reformas. Veja a reação do Senador acima…

E cada dia que passamos sem que sejam reduzidas as incertezas, o quadro se deteriora ainda mais, aumentando o custo social do ajuste necessário.  Esta crise de governabilidade e econômica atual pode se transformar em grave crise institucional e política, pois ninguém na sociedade deu mandato a estes senhores para promover este caos ou  destruir nossa economia. Pelo bem da democracia é preciso que o caos político instaurado não se transforme em caos econômico, pois aí o quadro político ficaria não gerenciável.

Temos tido sorte até agora pois os juros internacionais ainda vão demorar para subir. Porém tudo indica que de 2016 não passa. Aí as pressões externas irão aumentar,e, se não tivermos colocado a casa em ordem do ponto de vista fiscal, teremos uma séria crise cambial e econômica. E quanto mais tempo demorarmos para endereçar as reformas que precisam ser feitas, menores serão as chances de voltarmos a crescer de forma sustentável acima de 3% a.a. Ou seja, nossa renda per capita crescerá menos de 2% a.a. na melhor das hipóteses. É isto que queremos?

Golpe ou não, o que está em jogo agora são os nossos próximos 10 anos. Está na hora do partido do governo assumir sua responsabilidade e defender o ajuste da Presidenta Dilma em público e no Congresso Nacional. Caso contrário, o isolamento político da Presidenta pode afetar a governabilidade e trazer uma profunda crise institucional.  Cabe também aos outros partidos da base de apoio ao governo pressionarem o PT para que ele assuma uma postura de apoio ao Governo e ao pacote. Mas também será preciso que o PMDB, partido do Vice Presidente Temer, e seus aliados que ocupam vários ministérios, assumam sua responsabilidade e apoiem a aprovação das medidas duras e necessárias propostas pelo governo. Não dá para fingir que vocês são da oposição a esta altura, meus caros. Eleição já acabou e vocês ganharam! 

Nesta mesma linha, não creio que seja razoável o Senador Paim pedir ajuda à oposição, pois ela perdeu as eleições. Além disto não dá para pedir apoio a ninguém se seus próprios aliados do PT se omitem e não apoiam o que a Presidenta Dilma propõe. Nesta linha, o senhor apoia mesmo o pacote fiscal, mesmo com a inclusão do imposto sobre herança? Ou apenas quer que os outros apoiem, para que o senhor possa se dizer contra e ficar bonito com a galera? Por que o senhor não pega o ministro Levy pelo braço e o ajuda a aprovar o pacote fiscal e o tal do imposto sobre herança que o senhor acha tão importante? O que exatamente o senhor propõe em termos de ajuste fiscal? Ou o senhor apenas quer uma desculpa para poder abandonar o navio antes que ele afunde?  

Enfim, temo que as coisas ainda precisem piorar antes de melhorar. Quem sabe aí o Estado acorda e descobre que ele só existe porque nós existimos. E que a turma lá do governo em Brasília de fato são nossos empregados.

Senador Paim, por favor nos ajude e mobilize seus colegas do PT. Fica aí. Não deixe o PT neste momento tão delicado. 

 

paim

 

 

 

Autor: Tags:

sábado, 21 de março de 2015 Crise Brasileira, Inflação, Juros no Brasil, Politica Economica, Sem categoria | 17:11

Credibilidade do BC: uma moeda perdida

Compartilhe: Twitter

Acompanhei pela imprensa o debate entre o Professor Afonso C. Pastore e o BC do B sobre a credibilidade deste último:

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,bc-se-incomoda-com-criticas-e-ataca-economista,1655082

Ao longo dos últimos anos tenho colocado aqui a questão do risco que se colocava para a credibilidade do BC quando este deixou de tentar buscar o centro da meta desde 2011. Vejam alguns links abaixo:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/09/28/em-favor-da-reducao-da-autonomia-do-governo-na-conducao-da-politica-monetaria

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2012/08/13/inflacao-e-atividade-daqui-para-frente-tudo-vai-ser-diferente/

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2013/02/06/o-regime-de-metas-de-juros/

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/04/15/goeladadragao/

Respeito muito o Sr Tombini e o Professor Pastore. Portanto, não quero fulanizar a questão tampouco tentar desqualificar o interlocutor, da forma que o BC tentou. Pretendo me centrar nos fatos.   E, á luz destes fatos, é preciso reconhecer que desde 2011 a gestão da política monetária tem tido resultados muito pobres. Se o BC fosse gerenciado como uma padaria, uma escola, um banco, um posto de gasolina, etc, os seus controladores ( O Estado = Povo) certamente já teriam tomado alguma providência no sentido de reverter este quadro.

De 2010 para cá, a inflação assim como seus núcleos (  QUE VISAM ELIMINAR OS RUÍDOS CAUSADOS PELOS CHOQUES DE PREÇOS) têm subido de forma preocupante. E isto não é um fenômeno recente:

 

tombininuc

 

O gráfico vermelho mostra a evolução da inflação acumulada em 12 meses medida através do IPCA. Os outros gráficos mostram o comportamento das diversas medidas de núcleo calculadas pelo BC do B. A linha tracejada roxa mostra o centro da meta. E  a preta seu topo. Ou seja, fica claro que abandonou-se a procura pelo centro da meta desde 2011.  [ E a azul claro mostra o piso da meta, que já esquecemos que existe por completo desuso].

Isto pode ser visto com maior clareza quando vemos o número de ocorrências mensais desde 201o que a inflação ficou acima do centro, nos diversos índices:

 

acimadocentrotombini

 

Vemos que na maioria dos índices ela ficou quase a totalidade to tempo acima do centro.

O mais preocupante é quando vemos, no mesmo período, o percentual do tempo que ela ficou acima do topo da meta:

 

ocorracimatopotombini

 

Vemos que, com a exceção de apenas uma medida de núcleo publicada pelo BC do B, a frequência de eventos em que a inflação de 12 meses ficou acima da meta passou de 20%, e que, em alguns casos passou de 50%. Fica claro que o compromisso com o sistema de metas foi seriamente abalado nestes últimos anos.

Uma das consequências nefastas deste abandono aparece no índice de difusão da inflação, que mede quanto a inflação está espalhada pela economia. O gráfico abaixo mostra a clara piora ocorrida neste índice:

 

 

difusaotmobini

 

 

Em vermelho mostro a média deste índice de 2004 a 2010. E em preto mostro a mesma média de 2011 até hoje. Fica evidente sua elevação, indicando que a inflação se generalizou, como já indica o comportamento dos diversos núcleos da inflação que mostrei acima.

A consequência disto tudo é que houve uma desancoragem crescente das expectativas quanto a inflação futura. Os agentes usam tais expectativas para formular suas estratégias de negócios e políticas de formação de preços. Esta é base da teoria moderna do sistemas de metas. Na medida em que a inflação corrente se comporte de forma consistente com o sistema de metas, ou seja, na medida em que:

  • ao longo do tempo a inflação permaneça ao redor do centro da meta
  • e desvios do centro da meta sejam combatidos pelo BC através do uso das taxas de juros de forma eficaz;

os agentes incorporam o centro da meta em suas projeções o que acaba ancorando a inflação ao redor da meta. Assim, quando ocorre algum choque de preços, esta ancoragem impede grandes desvios da inflação do centro da meta, o que acaba demandando taxas reais de juros menores e flutuações menores das mesmas. O gráfico abaixo mostra o desvio das expectativas de inflação para os próximos 12 meses, segundo a pesquisa FOCUS do BC, vis a vis o centro da meta desde 2009:

 

expectinflacaodesancorada

 

 

 

 

 

Vemos que as expectativas foram se distanciando cada vez mais do centro da meta desde 2010, chegando hoje a perturbantes 2%. Ou seja, perdeu-se a ancoragem. E a tendência é de perdermos ainda mais.

Analisando o comportamento de nosso BC do B desde 2010, vemos que ele não impôs grandes oscilações nas taxas de juros definidas pelo COPOM, como mostra o gráfico abaixo da evolução das taxas de juros fixadas pelo BC do B:

 

 

tombinireaç

 

 

Vemos que o BC manteve em média os juros ao redor de 10% a.a.. Contudo, como mostra a linha vermelha tracejada, a tendência das taxas de juros do BC foi  de estável para leve queda. E em amarelo mostro o experimento agressivo de queda de juros ocorrido em 2012. De fato naquele período a inflação se desacelerou, como vemos em amarelo abaixo:

 

infltombinimedtend

 

Contudo, apesar da queda da inflação de curto prazo mostra acima, as expectativas de inflação para os próximos 12 meses permaneceram elevadas, como mostro em amarelo abaixo:

 

expectinflacaodesancorada

 

 

Ou seja, os agentes não estavam convencidos que a queda da inflação corrente seria suficiente para traze-la de volta ao centro da meta. Resultado disto foi a forte alta das expectativas já no início de 2013 ( em marrom acima). Ou seja, o BC errou ao condicionar as taxas de juros ao comportamento da inflação atual ao invés de fixar seus olhos nas expectativas quanto a inflação futura.

E a situação do mercado de trabalho no final de 2011 não justificava, tampouco, uma queda tão abrupta da taxa de juros como mostra o gráfico abaixo:

 

desemprego2012

 

 

O desemprego continuava em forte queda e não havia nenhum indício de reversão neste quadro, pois os salários continuavam a subir acima da inflação. Com relação a geração de novos empregos formais, embora o ritmo de geração viesse caindo desde seu pico em 2009, a velocidade de geração de novos empregos formais se encontrava no final de 2011 em nível superior ao existente até 2007, ou seja ainda bastante forte, como mostro em rosa abaixo:

 

geracaodeempregos12

Ou seja, é muito difícil justificar a forte queda de juros promovida pelo BC em 2012, tanto na ótica das expectativas de inflação como na ótica do mercado de trabalho.

Apesar dos 3,8% a.a. de juros reais ( 10% de selic e 6% de inflação médios), nossa inflação não foi controlada. OU seja, os juros praticados não foram suficientes para controlar a inflação. 

 

licaomonetaria

 

 

Mas o que é preciso fazer para termos uma inflação mais controlada sem precisarmos de juros astronômicos? São basicamente seis coisas:

  • recuperar a credibilidade perdida pelo nosso BC no combate a inflação;
  • persistir no caminho de uma política fiscal equilibrada e com a dívida pública cadente;
  • eliminar os empréstimos dirigidos e subsidiados na economia ( BNDES e CEF);
  • manter um câmbio realmente flutuante;
  • deixar de intervir nos preços administrados de forma irrealista;
  • fazer reformas que aumentem a  taxa de formação de poupança ( previdência) e aumentem a eficiência da economia ( concessões, trabalhista e tributária).

SE tivermos sucesso nisto tudo, os juros reais de equilíbrio ( não inflacionários)  serão bem mais baixos que estes 3,8%a.a. Porém qualquer tentativa de reduzir os juros de forma artificial, como a que foi tentada em 2012,  pode nos levar a mais uma disparada da inflação.

Da lista acima, o ponto que Professor Pastore atacou é o primeiro. DE fato não podemos fingir que não houve uma enorme perda da credibilidade  do BC no combate à inflação. O Professor Pastore teve a coragem e honestidade de colocar abertamente esta questão que já vem sendo abordada de forma sútil por inúmeros economistas nas entrelinhas de seus relatórios e em conversas privadas, por respeito à autoridade monetária. Contudo,  tentando desfulanizar, não podemos nos calar a esta altura dos acontecimentos. A situação econômica é muito séria. Se não endereçarmos esta questão, os custos econômicos do ajuste monetário em curso serão enormes, pois um BC sem credibilidade precisa subir juros com maior intensidade do que um BC que goze de plena credibilidade.  E endereçar a questão não se trata de apenas apontar culpados, mas de reformar as instituições  (Sistema de Metas e Mandato do BC do B), de tal forma que os desvios que ocorreram nestes últimos anos não voltem a acontecer.  A autonomia do BC é um caminho, porém podemos atingir os mesmos objetivos com uma reforma que coloque mais responsabilidade nos dirigentes do BC com relação ao cumprimento da meta de inflação, dando, ao mesmo tempo, estabilidade aos diretores que cumpram seu mandato. Como disse em:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/09/28/em-favor-da-reducao-da-autonomia-do-governo-na-conducao-da-politica-monetaria

nós, a sociedade civil, demos muita autonomia e liberdade ao BC nestes últimos anos. Deixamos ele se submeter a outras agendas e não a que definimos por lei. Está na hora de reduzir esta autonomia e deixar claro de uma vez por todas que eles foram postos lá para cumprir a meta de inflação. E que se alguém atrapalhá-los nesta missão, por favor nos avisem para que possamos tomar as providencias devidas.  E que aqueles diretores que não concordarem com estas metas e obrigações se manifestem logo.

Simples. Né? Se você estivesse lá faria a mesma coisa, né?

Economistas, ouçam este engenheiro aqui: está na hora de indicar caminhos, pois temos que interromper a tendência indicada pela reta vermelha abaixo:

 

tendinflação

 

Autor: Tags:

segunda-feira, 16 de março de 2015 Câmbio, Crise Brasileira, Heróis do Mercado, Politica Economica | 12:59

Liberais 2 X 1 Desenvolvimentistas, de virada. Cadê o PT?

Compartilhe: Twitter

O excelente economista Edward Amadeo da Gávea Investimentos em artigo recente coloca com enorme precisão as diferenças entre os chamados Liberais e os chamados desenvolvimentistas. Veja no link abaixo:

Neoliberais e nacional desenvolvimentistas

Creio que após o fiasco do experimento desenvolvimentista, tentado com vigor pelo então Ministro Mantega nos últimos 4 anos cujas consequências hoje começamos a sentir na pele,  indicam que o chamado caminho Neoliberal não era tão equivocado assim.  Vamos ver agora o custo que iremos ter que pagar para corrigir estes equívocos do então Ministro, que trazem hoje tantos problemas para nossa Presidenta.

Contudo, o que me deixa preocupado, é que o PT não se manifesta em apoio às medidas da Presidenta eleita pelo próprio Partido, apesar do Ministro Rossetto ter afirmado a importância do ajuste fiscal no seu pronunciamento de ontem à noite, em resposta direta aos manifestantes da sexta-feira que criticaram o ajuste fiscal na passeada patrocinada pela CUT e pelo MST.

Veja o pronunciamento do Ministro:

https://www.youtube.com/watch?v=ngbYpZi6Dus&noredirect=1

O Ministro disse claramente que:

  • a economia em 2014 cresceu menos do que esperavam ( ou seja, estímulo fiscal contracíclico do Guido não funcionou!);
  • as medidas fiscais anunciadas pelo Governo são importantes e necessárias para arrumar as contas públicas ( que portanto estão desarrumadas, apesar do Guido ter dito o contrário)
  • e que precisamos de tal ajuste para manter as conquistas sociais!!

Enfim, o Planalto aos poucos reconhece os problemas, o que já é um baita progresso. Mas sem o apoio do PT o ajuste não vai sair do papel e aí iremos ter nossa nota de crédito rebaixada e a crise se aprofundará.

Vejam a declaração do Ministro Levy, endereçada ao PT:

Se a gente tiver coragem, não vai ser difícil’, diz Levy sobre ajustes

Diante do cenário do enfraquecimento da economia, que tem levado o governo a fazer um ajuste fiscal e enfrentar resistência no Congresso, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, disse que as medidas anunciadas nada mais são que uma adaptação a uma nova situação e que se houver coragem, “não vai ser difícil” executá-las.

[Medidas anteriores de estímulo] São claramente insustentáveis do ponto de vista fiscal. Qualquer pessoa que pegasse um armazém, pensaria assim. Enquanto está tudo bem, contrata, expande, rearruma a casa para voltar a crescer”, disse Levy, durante encontro nesta segunda-feira (16), na Associação Comercial de São Paulo (ACSP). “Todos que têm sucesso são muito cuidadosos com a dívida. Não muda muito do que estamos fazendo. A presidente [Dilma Rouseff] está absolutamente tranquila”, afirmou.

 

Ps: vocês se lembram da frase do então Ministro Guido Mantega em 2014 de quem apostar no dólar vai quebrar a cara? De outubro até agora dólar subiu 33%:

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2014/10/1534636-vai-quebrar-a-cara-quem-apostar-na-alta-do-dolar-diz-mantega.shtml

E vale a pena ler o resto da entrevista. Parece que foi escrita há 5 anos ou se trata de um outro país. Ela mostra bem do que escapamos.

Boas férias, Ministro! Os alunos da GV certamente irão apreciar sua volta.

 

download (2)

 

 

 

 

 

Autor: Tags:

sexta-feira, 13 de março de 2015 Câmbio, Crise Brasileira | 14:55

BC mais tímido + PT omisso = descontrole cambial

Compartilhe: Twitter

Parece que o mercado está rodando a 20 mil giros. Mal escrevo um post  e a realidade me atropela… vou precisar ser mais rápido nas postagens!

No meu último post ( ontem) :

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2015/03/12/bc-caindo-na-real/

comentei sobre a mensagem mais leniente do BC do B em sua ata no sentido de indicar uma certa dose de “abandono”  das metas confirmadas pelo seu Presidente Tombini há alguns meses: 6,5% a.a. para este ano e 4,5% a.a. para 2016. Coloquei ali que o risco desta estratégia sinalizada nas entrelinhas da última ata do COPOM seria uma elevação maior do dólar. E à luz ( ou sombras??) das manifestações de rua planejadas para este fim de semana, das dificuldades do governo em negociar as medidas de ajuste fiscais defendidas pela Presidenta junto ao Congresso, da total falta de apoio do partido do governo ( PT) à Presidenta no que diz respeito às medidas por ela propostas, houve uma forte aceleração do processo de desvalorização do dólar, que já assume alguns contornos de descontrole cambial, como vimos em algumas situações em 2002 e 2008.

O mercado perdeu completamente a noção de qual seria a taxa de câmbio de equilíbrio. Ou seja, o processo de price finding no mercado cambial não está funcionando por culpa do governo. As expectativas de inflação estão se desancorando muito rapidamente em função da desvalorização cambial, o que acaba realimentando a elevação do dólar. E a dominância fiscal e política agrava este cenário.

Isto afeta muito a economia real. As informações que recebo sobre as vendas deste mês no varejo são preocupantes. Vários setores reportam quedas nas vendas de até 10% com relação ao ano passado.

Ou seja, a casa caiu!

A sensação que dá é que o governo patrocina uma desvalorização cambial, pois sabe que precisa reduzir os custos relativos internos ( reduzir o poder de compra dos salários), mas, ao mesmo tempo, não consegue ancorar as expectativas inflacionárias. O BC está sendo ineficaz na sua comunicação com o mercado.

Há fortes indícios que já há falta de oferta de recursos externos para o Brasil:

a. Coupon cambial de curto prazo bateu 3% ( chegou a ser negociado a 2% em janeiro): indica escassez de linhas externas para arbitragem de juros de curto prazo;

b. Nenhuma empresa brasileira consegue emitir papéis no exterior há vários meses;

c. Risco país saiu de 2% em janeiro para 3% a.a., já refletindo uma enorme chance de termos nossa nota de crédito rebaixada para nível especulativo.

E isto tudo com juros de dez anos nos EUA a 2% a.a. e abaixo de 0,5% na Europa….

Mesmo eu, que venho ao longo dos últimos 3 anos martelando sobre os equívocos da política econômica do então Ministro Mantega, não conseguiria imaginar uma deterioração nesta velocidade.

E quem vai pagar a conta? O povo. Como sempre. Quem ganha: quem guardou dinheiro, investiu com baixo risco, consumiu pouco,  poupou em dólares ou possui títulos indexados á inflação. Ou seja, como previsto, o experimento sócio desenvolvimentista estatizante afundou big time.  Quem seguiu o espírito animal, como pedia o Guido,  caiu na armadilha.

Meus pedidos:

Desenvolvimentistas: pelo o amor de Deus liguem para o pessoal do PT e não deixem a Presidenta na mão neste momento de ajuste fiscal!  Ouçam o que ela tem dito: o modelo anterior se esgotou! Acabou!

PT: vocês ganharam! Assumam agora os custos de governar! Não se omitam. Não sabotem a Presidenta que vocês elegeram. Quero ver a turma na rua com placas de apoio ao Ministro Levy e ao apoio fiscal!  A sua atitude de fingir de morto está criando este caos nos mercados. Assumam: vocês vão ou não apoiar as medidas da Presidenta? Presidente Lula, a Presidenta indicada pelo Senhor precisa de seu apoio nesta hora para conseguir fazer o pacote fiscal andar. Precisamos de sua manifestação de apoio.

Estatizantes: ajudem o novo Presidente da Petrobrás a vender os ativos da empresa para pagar as burrices que foram feitas lá e honrar as dívidas bilionárias da empresa acumuladas desde 2008!

Empresários da FIESPNDES: aprendam com a turma que comprou caminhão e percam esta mania de pedir juro baixo sem ajuste fiscal. Senão olha o que vai acontecer com a inflação!

Chegou a hora da verdade.  Como se reverte isto? Restaurando a credibilidade do BC e aprovando o ajuste fiscal no Congresso. Simples. Depende dos políticos do governo e congresso. Temos reservas e nossa dívida pública líquida não é tão grande. Logo, é fácil resolver. Basta o PT querer empurrar isto para frente e não fingir que não é com eles…

PS: dada a velocidade dos eventos lá vai meu endereço no tweeter: @RicardoGalloIG

 

casa_caindo

 

Autor: Tags:

terça-feira, 10 de março de 2015 Crise Brasileira, Politica Economica | 22:55

Os piores momentos do jogo econômico e político

Compartilhe: Twitter

Ao longo dos últimos anos tenho escrito neste blog várias críticas ao modelo econômico adotado pelo então Ministro Mantega e alertado sobre os riscos que tal modelo traziam. Logo, caberia agora dizer:

“Mas eu não te disse? Olha que eu avisei, ein…”.

Bacana esta constatação, mas ela não leva a absolutamente nada. Chegamos aqui. E agora, José?

Gostaria de vestir a camisa de comentarista de programa de mesa redonda de futebol e comentar alguns dos meus textos dos últimos anos, sobre os gols feitos e as eventuais pixotadas. Porém, agora tentando ver se tais posts se encaixam no cenário atual, ou se merecem mesmo ficar no TRASH do computador.

 

mesaredonda

 

 

Começo por este texto no link abaixo de junho de 2013 sobre as manifestações nas ruas e o que elas poderiam significar para a condução da política econômica:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2013/06/21/a-economia-vai-pra-rua/

Deste texto extraí a seguinte passagem onde tento colocar o dilema existencial de nossa economia desde a democratização que não decola:

 

Estamos vivendo mais uma vez uma crise que é decorrente da nossa incapacidade de ajustar as expectativas das demandas sociais às realidades das restrições orçamentárias, incapacidade política esta que está presente desde que saímos da ditadura. Desta vez ganhamos tempo usando o consumo e algumas políticas assistencialistas no seu limite, anestesiando esta demanda latente por reformas e evitando assim o debate político e econômico mais profundo. No passado tais momentos terminaram em crise monetária, cambial ou fiscal. Vamos ver se conseguimos evitar isto tudo desta vez. Precisamos encarar de uma vez as questões reais que são colocadas há 30 anos e nos recusamos responder.

Temos sim os recursos naturais, humanos e institucionais para sairmos desta crise muito melhores do que entramos. Mobilizar tais recursos de forma eficiente, fazendo as escolhas mais produtivas, sem onerar as gerações futuras com uma dívida pública ou social impagável é a única saída sustentável. Devemos começar a fazer as escolhas sobre o que queremos ter agora, e o que podemos deixar para amanhã e depois de amanhã, dentro de um debate político de alto nível, que defina uma agenda de prioridades e metas realistas. Talvez viajar ao exterior não seja uma prioridade de gastos a ser financiada por um câmbio valorizado que arrebenta nossa indústria. Talvez um carro novo deva dar lugar a um transporte público melhor e mais barato. Talvez um estádio de futebol deva dar lugar a um porto mais moderno para escoar nossa produção de forma eficiente. Talvez um celular 4g devesse dar lugar a uma educação melhor.  Estamos sim no começo de uma crise de alocação de recursos. A abundância de financiamento vai acabar. E os mecanismos de financiamento do crescimento precisam mudar. Logo, é hora de priorizar o que de fato desejamos. E assumir os custos políticos de fazer tais escolhas. Teremos que abrir mão de certas vantagens no tempo presente, para assegurar que tais vantagens sejam viáveis e sustentáveis no nosso futuro. As eleições de 2014 serão um excelente momento para termos este debate, pois nossa economia já foi para a rua!

 

Bom, embora eu continue acreditando na leitura que fiz na época daqueles eventos, ficou claro que não conseguimos evitar, mais uma vez, a crise. Repetimos hoje a mesma novela que nos segue desde que saímos do regime militar. Empresários e trabalhadores se aliaram neste processo de “demandar” do Estado ajuda e assistência, e se negam a encarar a limitação orçamentária dos recursos públicos. Eles ignoram que o tal do “Estado” representa o povo brasileiro composto de empresários, trabalhadores e seus dependentes. Todos se dizem a favor dos ajustes em curso, desde que os outros paguem, ou melhor, desde que o “Governo” pague, esquecendo-se que o Governo não paga nada. Quem paga é o Estado que na verdade é o povo. Ou seja, o buraco é bem mais embaixo do que eu imaginava… 

Nesta mesma linha, no final de 2014 escrevi um texto  focando no debate eleitoral, na esperança de que pelo menos ali se iniciassem tais questionamentos:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/11/10/o-abismo-entre-o-discurso-e-as-escolhas/

Vejam esta passagem:

 

Contudo, tudo passa por assumir politicamente o abismo existente entre o discurso e a realidade, e começar a endereçar tais questões. Porém antes de mais nada, é preciso entender e concordar com o diagnóstico do problema. E não cair na tentação de aumentar a aposta feita nos últimos quatro anos que infelizmente não funcionou.

SE insistirmos no caminho dos últimos quatro anos, é inevitável que ao longo dos próximos anos tenhamos a nossa nota de crédito rebaixada pelas agências classificadoras de risco, como disse claramente a Diretora de S&P em entrevista recente, o que implicará em redução do acesso ao financiamento externo tão necessário para nosso desenvolvimento. Neste cenário teremos uma crise que pode afetar seriamente a inflação, a solvência das empesas e as finanças públicas.

Ou seja, o tempo está passando e o sentido de urgência precisa imperar. Seja quem for o Ministro da Fazenda, que ele venha logo e já diga seu diagnóstico sobre os problemas da economia. Chegou a hora de saltar o abismo, antes que ele fique grande demais.

 

O debate eleitoral e 2014 não serviu em nada para se construir o consenso necessário para as reformas ou para pelo menos se iniciar o debate sobre quais as nossas prioridades e escolhas que precisamos fazer. Os dois lados fugiram das questões fundamentais. O marketing político imperou.

Embora a Presidenta Dilma tenha reconhecido recentemente que são necessários ajustes na política econômica e trazido assim um economista como o Ministro Levy que apresenta, a meu ver, um diagnóstico mais preciso da situação, e tenha abandonado de vez o discurso social desenvolvimentista, o quadro não melhorou. A crise política no Congresso, a incapacidade do partido da Presidenta abraçar a agenda de ajustes por ela defendida e os escândalos, tudo isto enfraquece o governo em momento que são necessárias medidas duras e impopulares. Ou seja, ignorei em minha análise o custo político de um ajuste após todos estes anos de fartura e de uma eleição tão acirrada, num ambiente de forte incerteza política. E superestimei a capacidade das lideranças empresariais e sindicais de entenderem a realidade dos fatos e apoiassem as medidas emergenciais em curso. Tentei recentemente ajustar este fator de risco político a luz do cenário atual em:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2015/02/06/o-limite-politico-do-ajuste-necessario/

Neste texto, eu colocava que:

 

Chegamos assim a uma situação em que nosso espaço para aumentar PD e TS desapareceu, onde o CP está se erodindo rapidamente em função do modelo político atual e as condições externas nos impõe uma forte elevação do RE.  Para piorar ainda mais, o fator e se tornou negativo em função das crises do Petrolão, hídrica e elétrica que temos pela frente. OU seja, a geração de valor político neste mandato será negativa.  Não tem jeito. A única chance agora é tentar salvar VP2 e minimizar, na medida do possível, a perda de VP1. E como temos uma pressão externa por parte dos investidores internacionais e das agências classificadoras de risco para equilibrarmos as contas fiscais e, consequentemente, as contas externas, nossa margem para evitar uma perda maior de VP1 é pequena pois, se perdermos nosso grau de investimento, o VP2 também irá para o saco.

 

Aqui eu superestimei a capacidade do governo de gerenciar a crise política, pois se VP1 (valor do capital político do mandato atual da Presidenta) se tornar muito negativo em função da baixa capacidade do governo gerenciar a crise, existe o risco real que a governabilidade vá para o saco antes mesmo do ajuste começar. E infelizmente o Partido da Presidenta parece estar disposto a sabotar a agenda por ela defendida neste momento delicado. E seu principal aliado, o PMDB, se sente afastado do poder. OU seja, a luta da Presidenta ficou muito, mas muito mais difícil. Eu me pergunto se estaria o PT desempenhando o papel de Brutus, da tragédia Júlio César, que seria encenado pela Presidenta Dilma? Seria o PMDB o nosso Marco Antônio?

 

Karl_Theodor_von_Piloty_Murder_of_Caesar_1865

 

 

Pois bem, deixando Shakespeare de lado e voltando ao ajuste em curso, em novembro de 2014  publiquei outro artigo sobre insistência do governo em negar a insustentabilidade da nossa realidade fiscal:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/11/13/a-insustentabilidade-fiscal-e-a-negacao-da-realidade/

 

Finalizando, é óbvio que, se não conseguirmos acelerar o ritmo de crescimento potencial sustentável de nossa economia, tal aperto fiscal e monetário terá sido completamente em vão. Somente um aperto monetário e fiscal não resolvem nosso problema estrutural de baixo crescimento. Para aumentarmos o ritmo de crescimento sustentável de nossa economia, precisamos fazer as reformas que supply side que tenho defendido aqui nas últimas semanas. Neste caso, o aperto fiscal e o monetário serviriam apenas para nos dar o tempo suficiente para negociar e implantar tais reformas, que, aliadas à melhora do quadro geral de inflação e fiscal, melhorariam o humor dos empresários que voltariam rapidamente a investir. Tão logo tais investimentos e tais reformas começassem a fazer efeito a economia vai voltaria a crescer, no novo ciclo tão desejado pela Presidenta Dilma.

 Infelizmente não temos a mesma margem de manobra que tínhamos há alguns anos. E ficar culpando os “mercados” é fugir da realidade. Fizemos isto nos tempos de Sarney e aquilo deu em calote e na hiper dos anos 90. Aí não vai adiantar chorar, de novo. Vamos discutir as reformas e aceitar a realidade que hoje nos é imposta. O mundo mudou. 

 

Voltar a este texto me ajudou a relembrar que os ajustes em curso são pequenos passos na direção de um plano maior de reformas. O ajuste fiscal e as medidas de arroxo monetário e creditício do setor público não garantem, infelizmente, um futuro melhor. Tais medidas emergenciais apenas nos ajudam a ganhar tempo para que possamos assim endereçar as questões fundamentais que amarram nosso crescimento, através de reformas como as que listei em:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/11/07/a-feira-livre-das-reformas-supply-side/

Onde coloco:

Tais reformas acabam sendo bastante impopulares e na prática só são politicamente viáveis após longos períodos de crise econômica ou de crescimento pífio. Vimos isto nos EUA de Reagan, na Inglaterra de Thatcher, e mais recentemente na Espanha, Portugal e Itália. Tais países que embarcaram nestas reformas impulsionados pelo fracasso de políticas econômicas que ignoraram esta realidade que coloquei no início do texto. Até os Socialistas Franceses estão finalmente aderindo a tais reformas, em função da estagnação econômica em que se encontram.

Porém, como coloquei em:

 http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/10/24/o-omelete-das-reformas-estruturais/

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/10/18/a-urgencia-das-reformas/

 Sou muito, mas muito cético com relação as possibilidades reais de implantação de tal agenda no Brasil neste momento.  Não vejo atualmente as condições políticas tampouco a convicção ideológica de se levar a frente tais reformas. E não vejo ainda que a gravidade da nossa crise tenha chegado ao ponto de precipitar tais reformas, o que atropelaria as questões políticas e ideológicas, como ocorreu na Europa com enorme custo. Espero muito estar muito enganado, pois se eu estiver correto, as coisas vão ficar muito piores antes de melhorarem. E a provável volta da disciplina fiscal e monetária é uma condição absolutamente necessária, mas não suficiente para nos colocar no caminho de crescimento sustentável. Vamos ter que iniciar em algum momento um programa de reformas com tom liberal, mas com foco no consumidor na produtividade e na eficiência, pois o tomate deve ter qualidade e chegar barato na mão do consumidor.

Todo trabalhador também é um consumidor. E todo capitalista só investe para ter lucros. Ou reconhecemos estas verdades ou fica impossível tocar uma economia capitalista.

 

Aqui infelizmente minha análise não poderia ser mais atual. Continuo muito cético. As coisas precisarão piorar muito ainda para que consigamos convencer trabalhadores e empresários que não existe esta história dos “outros” pagarem as contas. Os outros somos nós.  Os “ricos” são trabalhadores e empresários que tiveram sucesso e acumularam poupança, na maioria das vezes com esforço e mérito. E que sem eficiência e trabalho não se ganha nada. Vai levar tempo, lamentavelmente, para se construir a auto confiança necessária e então assumir que não precisamos de ajuda de estado nenhum. E que basta não atrapalhar, que se criem regras justas e que se nivelem as oportunidades que a gente faz o resto. E para que possamos convencer os governantes da necessidade tais reformas, é preciso que a sociedade civil, principalmente trabalhadores e empresários, estejam convencidos disto. Mas parece que vamos precisar sofrer bem mais para aprender isto. Vide espanhóis, gregos, portugueses…

Desculpem-me se fui preguiçoso e abusei do copy and paste. Porém a crise neste país está tomando uma tamanha dimensão que eu achei melhor parar e refletir sobre o que eu achava, e avaliar se o que eu pensava ainda faz algum sentido. Parece que ainda faz, para minha total surpresa e desencanto…

 

Autor: Tags:

terça-feira, 3 de março de 2015 Ajuste, Crise Brasileira, Investimentos, Juros no Brasil, Politica Economica | 15:03

Muito caminhão para pouco PIB

Compartilhe: Twitter

Tenho acompanhado com perplexidade as paralisações e bloqueios dos caminhoneiros em nossas estradas e estava tentando entender o que está acontecendo. A resposta é relativamente simples: o preço do frete tem caído:

http://www.portalntc.org.br/industria-de-transportes/ntc-dialoga-com-mais-de-250-empresarios-e-define-defasagem-do-frete-em-1411/55420

http://www.tabelasdefrete.com.br/noticia.asp?id=29077&areas=not

De fato com a queda da atividade econômica e dos preços de algumas commodities, combinados com a elevação dos preços dos combustíveis, o setor de transporte de carga rodoviária passa por um momento delicado. Embora os preços do petróleo tenham caído fazendo com que o preço do Diesel tenha ficado cerca de 20% acima dos preços internacionais, não há espaço hoje para reduzi-lo. A Petrobrás passa por um forte aperto de liquidez e precisa destes preços elevados para se equilibrar. E a situação tende a piorar, uma vez que há indícios que atividade econômica deva cair ainda mais.

Mas qual o tamanho do problema?

Muitos dos caminhoneiros adquiriram seus caminhões no programa PSI criado pelo BNDES em 2009:

http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Institucional/Apoio_Financeiro/Programas_e_Fundos/Psi/psi_bk.html

Este programa até há pouco financiava 100% do valor gasto na compra de caminhões e cobrava juros fixos de 7% a.a. para serem pagos em até 8 anos de prazo:

 

bndespis

 

Ou seja, um caminhão que custasse R$ 170 mil poderia ser financiado em 96 prestações fixas de 2300 reais por mês. Assumindo uma inflação de 5,5% a.a. ,  os juros reais cobrados nestes empréstimos eram de 1,5% a.a.,  ou seja, uma fração do que o governo paga para captar recursos no mercado e muito abaixo dos juros bancários normais cobrados de empresas no mercado. O Tesouro paga cerca de 6% a.a. acima da inflação para captar recursos no mercado, o que, assumindo uma inflação de 5,5% a.a. , resultaria em juros de aproximadamente 12% a.a. . O valor presente do subsídio concedido pelo Tesouro equivale assim a 17% do valor do caminhão, assumindo 7% de juros no PSI, 96 meses para pagar e 100% de  participação. Na prática econômica o que o PSI faz é reduzir o custo dos bens de capital ( Investimento) através do seu subsídio.  Isto acaba aumentando a taxa de retorno do investidor/ empresário, o que aumenta a demanda por investimentos na economia.

Este programa, o PSI, de fato estimulou o crescimento de novos investimentos como mostra o estudo abaixo:

http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/export/sites/default/bndes_pt/Galerias/Arquivos/conhecimento/efetividade/additionality_of_countercyclical_credit.pdf

O gráfico abaixo, retirado deste estudo, mostra a evolução dos desembolsos do BNDES no financiamento de investimentos de bens de capital:

bndescapgoodsfinanc

 

 

Fica evidente a forte aceleração que ocorreu após a implantação do PSI. E este outro gráfico mostra a evolução do total de investimentos na economia:

 

fbcfbra

 

 

Vemos em amarelo que durante o período inicial de lançamento do programa ( faixa rosa) houve uma forte recuperação (amarelo) do investimento, mas que depois perdeu folego ( marrom). Ou seja, há sinais que os subsídios dados pelo governo neste programa foram perdendo a eficácia já a partir de 2012. Traduzindo: os subsídios existentes no PSI deixaram de criar mais demanda por investimento a partir de 2012. Normalmente isto ocorre quando, em função dos subsídios, são feitos investimentos de baixo retorno econômico ( improdutivos) ou quando o que se criou com PSI apenas foi uma antecipação de demanda futura.

Não consegui infelizmente levantar no site do BNDES o volume de empréstimos dentro do PSI que foram destinados para o financiamento de aquisição de caminhões. Porém, as tabelas abaixo dão uma ideia do tamanho do programa:

 

psidesemb

 

 

Nos últimos 12 meses findos em Novembro último foram desembolsados mais de R$ 70 bi em empréstimos dentro do programa ( vermelho acima).  Isto representou mais de 35% do total desembolsado pelo BNDES neste mesmo período:

 

transportesbndes

 

Sendo que 10% do total de desembolsos foram destinados ao setor de transporte rodoviário ( R$ 19 bi em vermelho acima). De acordo com a CNT (  http://www.cnt.org.br/Imagens%20CNT/PDFs%20CNT/economiaemfoco_09052013.pdf  ), entre 2010 a março de 2013 ( 39 meses) foram desembolsados quase R$ 65 bi dentro do PSI para financiar aquisições de caminhões em quase 300 mil operações:

 

psidesembcaminhoes

 

 

Ou seja, uma média de 90 mil operações por ano ou cerca R$ 20 bi por ano. Ou seja, com base nestes números, daria para se estimar que o BNDES tem hoje um saldo de mais de R$ 70 bi em operações de financiamento de caminhões dentro do PSI.

Mas o que tudo isto tem a ver com os bloqueios de caminhões nas estradas?

Muito. Descobri isto após uma pesquisa em algumas fontes:

http://www.denatran.gov.br/frota.htm

http://www.antt.gov.br/index.php/content/view/20270/Transportadores___Frota_de_Veiculos.ht

http://www.abcr.org.br/Conteudo/Secao/43/estatisticas.aspx

http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/pib/defaultcnt.shtm

http://www.anfavea.com.br/tabelas.html

Consegui, creio, formular uma hipótese sobre o que está acontecendo com a oferta de frete. Desde já peço desculpas aos econometristas de plantão, pois usei conceitos da engenhometria, que é a técnica usada por nós engenheiros para descobrir se algo está errado.

A frota nacional de caminhões vem crescendo bastante nos últimos anos, como mostra gráfico abaixo:

 

frotACAMIN

 

 

Saímos de 1544 mil no final de 2002 para 2588 mil no final de 2014: 4,4% a.a. de crescimento!

 

frotabrasilcaminhoes

 

Mas é importante notar que a taxa de crescimento da frota aumentou após 2008, como mostra o gráfico abaixo:

 

crescfortacaminhões

 

 

De 2002 a 2008 a frota cresceu a 3,9% a.a. enquanto que a partir de 2008 cresceu a 4,9% a.a., uma aceleração de 1% a.a. na taxa de crescimento, provavelmente devida ao PSI como vimos acima. Ou seja, estamos falando de um crescimento adicional  da oferta em cerca de 25 mil caminhões por ano desde 2008. Não é muito, mas em 6 anos isto significa cerca de 150  mil caminhões adicionais de oferta.

Vamos agora ver o que aconteceu com o PIB do setor de transportes neste mesmo período:

 

pibtransporevolano

 

 

Notamos que após 2008 houve uma desaceleração ( seta cinza)  na taxa de crescimento da atividade neste setor, como mostra abaixo:

 

pibsetortransportes

 

 

DE 2002 a 2008 o setor de transportes crescia a 3,3% a.a. e de 2008 a 2014 cresceu a 2,4% a.a.: 0,9% de desaceleração. Para entender melhor da onde veio esta queda no ritmo de crescimento do setor, basta olhar o gráfico abaixo que estima a taxa de crescimento anual da soma do PIB dos setores Agro e Indústria e adiciona as importações ( valores de 1995 das séries nacionais), três setores que criam demanda para o setor de transportes:

 

pibagrptransimpcresc6anos

 

 

Vemos que a taxa de crescimento destes setores combinados também caiu bastante após 2008, o que é consistente com a queda do PIB de transportes.

Desta forma, podemos estimar que a queda da taxa de crescimento da demanda significou uma perda de demanda de serviços de frete de 25 mil caminhões por ano ou 150 mil caminhões no acumulado de 6 anos.

Somando os dois efeitos acima ( na oferta e na demanda) chegamos a cerca de 300 mil caminhões de excesso de oferta de frete sobre a demanda no presente.

DE fato, se ajustarmos a taxa de crescimento da frota nacional de caminhões em linha com a queda da taxa de crescimento do PIB do setor ocorrida a partir de 2008, ela deveria ter caído  de 4,9% para cerca de 3% a.a. Ou seja, 1,9% a.a. abaixo da taxa de crescimento que de fato ocorreu após 2008, como mostro abaixo:

 

ajustecrescfrota

 

 

 

Podemos estimar agora qual deveria ser hoje o tamanho da frota caso ela tivesse crescido de 2008 até 2014 a uma taxa em linha com o padrão de crescimento ocorrido até 2008, porém ajustada pela queda da taxa de crescimento do PIB do setor de transportes ocorrida depois de 2008, e chegar assim a uma estimativa de qual seria hoje o tamanho de equilíbrio da frota de caminhões:

 

frotaajustada

 

 

Ou seja, segundo este modelo simplificado de engenhometria, à luz dos desenvolvimentos da oferta e da demanda por serviços de frete de caminhões,  haveria hoje um excesso de cerca de 300 mil caminhões na frota, equivalente a 12% do total.

Vamos agora ver se o ritmo de entrada de novos caminhões na frota reforça esta visão. O gráfico abaixo mostra a evolução do número de caminhões licenciados nos últimos 12 meses desde 2002:

 

licencia

 

 

Até 2009 vemos que o número de caminhões licenciados seguia sua tendência histórica, mas que de 2010 a 2012 o número de caminhões que entraram na frota subiu bastante ( amarelo), se distanciando da sua tendência ( linha pontilhada), o que explica o excesso de oferta na frota atual. E vemos que em 2014 tal excesso começou a ser corrigido, pois o número de caminhões que entraram na frota caiu para níveis próximos aos do final de 2009 ( marrom). E  o gráfico de longo prazo dos licenciamentos mensais mostra algo similar:

 

licens

 

 

 

Vemos em amarelo que de 2009 a 2013 houve uma forte aceleração no ritmo de licenciamentos mensais (amarelo) que passaram a crescer bem acima de sua tendencia de longo prazo (pontilhado vermelho), mas que nos últimos anos dá sinais de arrefecimento (preto). Ou seja, de fato há fortes sinais que há uma ociosidade no setor causada por uma capacidade extra criada nos últimos anos, que precisa ser destruída ou absorvida por demanda futura, como já mostra a forte queda recente no ritmo dos licenciamentos.

E como se ajusta isto? Nos últimos 2 anos foram licenciados 290 mil caminhões novos enquanto a frota só aumentou 200 mil caminhões. Isto quer dizer que cerca de 90 mil caminhões deixaram a frota em função de sucateamento nestes dois anos. Assumindo que o setor de transportes cresça os mesmos 3,3% a.a.  que cresceu até 2008 nos próximos 2 anos e que entrem apenas 100 mil caminhões novos / ano na frota, adotando o cenário mais pessimista entre os apresentados pelos analistas do Banco Plural para o setor ( em vermelho no gráfico abaixo) :

vendascaminhoesoplural

 

é possível estimar o excesso de caminhões que haverá no final de 2016, se este modelo simplificado estiver correto:

Tamanho da frota atual para “equilíbrio” = 2300 mil

Crescimento esperado do setor para os próximos dois anos = 2 x 3,3% x 2300 mil = 150 mil

Tamanho da frota para equilíbrio no final de 2016 = 2450 mil

Tamanho da frota atual = 2590 mil

Licenciamento nos próximos dois anos = 2 x 100 mil = 200 mil

Sucateamento próximos dois ano = 90 mil

Tamanho da frota esperado para final 2016 = 2700 mil

Excesso projetado para 2016 = 250 mil ( vis a vis os 300 mil atuais). Ou seja, o excesso cairia apenas 50 mil caminhões em dois anos. Mesmo com a manutenção do ritmo de crescimento da demanda por frete ( 3,3% a.a.), só voltaríamos para equilíbrio daqui há vários anos. Logo, é bem provável que o ritmo de sucateamento aumente ao longo dos próximos anos, uma vez que o excedente de oferta deve continuar. Este excedente forçará uma queda duradoura dos preços do frete, que deve levar os caminhões mais antigos a saírem do mercado. E é razoável esperar que a produção de caminhões voltada ao mercado doméstico caia bastante.

Obviamente que todos estes cálculos são muito aproximados e muitas destas aproximações não foram testadas estatisticamente, mas eles indicam que podemos ter uma excesso de oferta no setor de transportes de carga rodoviários. Mas não é o meu objetivo aqui calcular este excedente de forma mais precisa, tampouco prever o comportamento dos preços do frete, mas sim anotar mais um exemplo dos problemas que a interferência do estado através do crédito subsidiado  pode causar. Ao oferecer condições vantajosas de financiamento para o setor, e ao mesmo tempo não incentivar a aceleração no sucateamento da frota existente, o governo, através do BNDES, fomentou uma aparente bolha de oferta no setor. Esta bolha foi inicialmente absorvida pois os preços das commodities agrícolas e as boas safras dos últimos anos deram certa sustentação ao preço do frete. Contudo, na medida em que a economia esfriou e as commodities agrícolas pararam de subir, a bolha estourou.

Para equacionar este problema, será preciso estimular o sucateamento mais acelerado dos caminhões mais antigos e provavelmente renegociar as dívidas contratadas por caminhoneiros junto aos bancos no program PSI.  E isto não vai ser simples não. São mais de 850 mil caminhoneiros autônomos no Brasil e mais de 170 mil empresas que possuem frotas de caminhão. A grosso modo,  de 50 a 100 mil caminhoneiros autônomos precisariam deixar o mercado de transporte de carga em função deste ajuste. Além disto, o setor provavelmente passará por um ajuste de produtividade, uma vez que, se persistirem os fretes baixos, os caminhoneiros e as transportadoras terão que ser mais eficientes, transportando mais carga por quilometro rodado e mais quilômetros por mês. As medidas apresentadas pelo governo ontem vão nesta direção, pois agravam o problema de excesso de oferta de frete, pois aumentam a capacidade ( produtividade de curto prazo, a custo de queda da vida útil dos caminhões) de carga dos caminhões atuais da frota.

E neste sentido, a qualidade das rodovias, que piorou nos últimos anos ( preto abaixo), não tem ajudado muito não:

 

estadorodovcusto

 

 

Do ponto de vista macro econômico, é preciso ter em mente que, quando o governo concede crédito a taxas subsidiadas para determinado setor da economia, ele acaba por aumentar o custo do crédito em outros setores, uma vez que a taxa de juros média de equilíbrio da economia não mudou, pois não se alterou a oferta de poupança interna. Estes juros diferenciados criam problemas sérios de alocação de capital, que sai dos setores que precisam pagar juros mais caros e vai para os setores subsidiados. Cria-se assim uma bolha de oferta em tais setores e escassez em outros setores que não foram beneficiados pelo subsídio. A interferência do governo leva a estes desequilíbrios.

Ninguém pode ser contra a concessão de crédito barato para empresas. Porém, isto precisa ser sustentável. E deixar que o governo arbitre quando, para quem e quanto dinheiro subsidiado será despejado na economia é um erro enorme. As forças de mercado, quando estimuladas através da livre competição, fazem um trabalho imperfeito mas muito melhor na alocação de recursos na economia. Decidir sobre critérios de alocação de capital na economia é muita areia para o caminhãozinho do Estado.

 

Autor: Tags:

  1. Primeira
  2. 3
  3. 4
  4. 5
  5. 6
  6. 7
  7. 10
  8. Última