Publicidade

Arquivo da Categoria Crise global

quarta-feira, 14 de outubro de 2015 Bancos, CHINA, Crise global, Juros EUA | 11:34

Fed com um olho na Ásia

Compartilhe: Twitter

Fed tem mais um problema na lista: crise de crédito na Ásia. Tudo indica que uma elevação dos juros americanos possa detonar uma crise na Ásia, onde, mesmo com as suas enormes reservas cambiais,  crédito poder se tornar uma baita problema….

http://bicadasdogallo.blogspot.com.br/2015/10/o-que-esta-de-fato-segurando-o-fed.html

Autor: Tags:

quinta-feira, 27 de agosto de 2015 CHINA, Crise Brasileira, Crise global | 21:29

O que está acontecendo na China???

Compartilhe: Twitter

China está perdendo reservas. O Capital estrangeiro, que nos últimos anos foi atraído para lá por retornos elevados vis a vis os juros extremamente baixos pagos nas grandes economias e por um câmbio que se valorizava contra o dólar, começa a fugir. Assim, o BC chinês tem precisado vender dólares para manter o câmbio estável.  Isto provoca queda das reservas chinesas que estão investidas em títulos do governo americano e de outros países desenvolvidos. O BC chinês então precisa vender tais títulos o que faz com que os juros de longo prazo pagos por tais papéis parem de cair, o que acaba gerando um aperto monetário inesperado nas economias centrais, que pode afetar sua retomada de crescimento. Se este processo continuar, o FED precisará reduzir a velocidade de alta do juros de curto prazo para contrabalancear tal efeito, o que deverá manter o mercado de consumo e o setor de serviços aquecidos nos EUA.

Ao mesmo tempo em que o BC da  China vende dólares, a liquidez em Yuan (moeda local chinesa) se contrai, o que prejudica expansão de crédito na China e afeta negativamente o preço das ações chinesas.  Tal aperto no crédito interno, somado à forte queda da atividade econômica dos últimos meses, coloca as empresas chinesas, extremamente endividadas ao longo dos últimos anos, em situação bastante difícil. Este quadro levará à forte elevação da inadimplência, reduzindo ainda mais a oferta de crédito interno, algo que pode gerar um colapso na atividade econômica.  Desta forma, o Estado Chinês não terá alternativa senão salvar as grandes empresas estatais e os governos locais endividados e retirar os empréstimos problemáticos do balanço dos bancos.  Isto ampliará o déficit fiscal Chinês e o endividamento do Estado.

Isto tudo combinado força o BC Chinês a reduzir os juros e o compulsório sobre bancos locais. Contudo, esta queda dos juros pode realimentar a fuga de capitais para o exterior. Para controlar isto, China precisa reativar a economia com impulsos fiscais e assim aumentar retorno dos investimentos locais, o que pode segurar a fuga de capitais. Ao mesmo tempo precisa permitir uma desvalorização controlada da sua moeda para inibir a fuga de capitais.  Tal desvalorização da moeda tornará produtos chineses mais competitivos, o que afetará a competitividade de seus vizinhos na Ásia que precisarão desvalorizar suas moedas. Isto pode desencadear uma rodada de desvalorizações na região e, por reflexo, em outros emergentes. OU seja, a vida de nossa já combalida indústria ficará mais difícil.

No final do dia, o déficit externo americano vai ter que subir, pois os EUA irão absorver este excesso de oferta global gerado  neste processo.  Ruim para a indústria americana, mas excelente para o  seu consumidor que vai ter seu poder de compra ampliado. O problema sério virá se a valorização do dólar não for suficientemente forte para evitar que a inflação suba nos EUA, pois emprego no setor de serviços e de construção deve continuar a subir por lá, levando os EUA ao pleno emprego em breve, o que deve gerar pressões salariais.  Quando isto acontecer, o instável equilíbrio global de oferta e demanda será quebrado e aí podemos ter uma crise global bem mais séria.

Ou seja, precisaremos acelerar os ajustes em nossa economia para estarmos aptos a resistir a este choque. A crise externa, tanto aclamada pelo governo nos últimos quatro anos, está chegando. Uma pena que tenhamos queimado nossas gorduras fiscais e monetárias antes da hora. Só nos resta um baita ajuste fiscal, reduzindo gastos públicos e subsídios, que permita assim juros menores.

Autor: Tags:

quarta-feira, 20 de maio de 2015 Crise global, EUA, Juros EUA | 18:20

Quando sobem os juros nos EUA?

Compartilhe: Twitter

Resposta: ninguém sabe. Uns acham que em Setembro. Outros que será só no ano que vem. O fato é que o FED é quem vai decidir isto…

Lendo a ata da última reunião do FED , fiz algumas observações sobre o que o FED está vendo:

  • aumentou a incerteza com relação ao ritmo de crescimento da economia nos próximos trimestres à luz da atividade econômica relativamente fraca do primeiro trimestre;
  • foi só inverno mais forte ou outros fatores, como a queda dos investimentos no setor de petróleo e os efeitos negativos do dólar forte sobre as exportações americanas, que atrapalharam a economia?
  • ou será que o consumo de fato está perdendo força e o savings rate vai subir de novo?
  • nota-se já a falta de oferta de mão obra qualificada e aumentos salariais maiores em alguns setores, apesar da queda no ritmo de melhora do mercado de trabalho ocorrida no primeiro trimestre;
  • parece que a inflação parou de cair;
  • mostraram preocupação com relação ao baixo premio de risco demandado pelo mercado nos papéis de longo prazo em US$, o que pode causar problemas na hora do FED começar a subir os juros, pois isto causaria perdas elevadas aos detentores de tais papéis, com efeitos sobre a estabilidade financeira do sistema. Ou seja, FED espera aumento na volatilidade de tais taxas de longo prazo;
  • para que se inicie o processo de alta de juros eles precisam ver uma continuada melhora nos dados de emprego e ter razoável convicção que inflação voltará a subir;
  • maioria acha pouco provável que eles cheguem  já na próxima reunião em junho com as condições necessárias satisfeitas para se iniciar a alta de juros, pois precisarão de mais tempo para ter certeza que o desaquecimento da atividade do início do ano tenha sido apenas algo pontual, mas não descartaram inteiramente essa possibilidade;
  • com base nisto, as decisões de quando vão iniciar processo de alto serão tomadas reunião a reunião, com base nos dados econômicos que forem saindo;
  • houve uma discussão sobre qual seria a taxa de juros real neutra e ficou evidente a enorme incerteza que existe na sua determinação, embora o debate tenha mostrado que tal taxa deva ter caído bastante e estaria em níveis bem baixos quando comparadas ao passado, o que, na visão de alguns, poderia justificar a elevação da meta de inflação de longo prazo, algo que foi descartado em função da perda de credibilidade que isto acarretaria.

Resumo: incerteza, incerteza e mais incerteza. Ou seja, volatilidade dos juros lá fora deve subir. Mas tudo indica que o cenário de maior probabilidade seja que o FED irá adiar a alta dos juros enquanto puder, correndo o risco real de ficar atrasado, ou seja, que comece a subir os juros quando a inflação de salários já tenha começado a subir. Se  isto vier a acontecer, a volatilidade dos juros de longo prazo lá fora pode disparar.

Portanto, fuja de renda fixa mais longa lá fora ou se proteja bem.

Vida dura, Dona Yellen: mas quando é que a senhora vai deixar a pombinha dos juros decolar??

 

doveyell

 

Autor: Tags:

quinta-feira, 25 de setembro de 2014 Crise Brasileira, Crise global, Inflação, Sem categoria | 02:49

A inflação no mundo caiu, mas aqui…

Compartilhe: Twitter

Num mundo  globalizado é de se esperar que as inflações entre os diversos países caminhem com alguma sincronia no longo prazo. Através do comércio exterior, os preços de produtos similares nos diversos mercados tendem a flutuar juntos, uma vez que é possível em alguma extensão importar ou exportar tais bens, o que acaba equilibrando a variação dos preços no globo.

Pois é. Parece que esta regra não se aplica ao Brasil.

Elaborei, com dados da Bloomberg, um ranking de alguns países com base na inflação acumulada em doze meses em Julho último:

 

rankinfla

 

 

Vemos que dentre estes mais de 50 países temos uma das dez maiores taxas de inflação ( verde) . Isto é bem acima da média da amostra de 4,5% a.a. ( vermelho) e da sua mediana de 2,9% (amarelo) , que de fato é a medida mais significativa pois ela reduz o efeito dos países de altíssima inflação ( marcados em marrom no topo da tabela) e com baixa inflação e deflação ( em vermelho no inferior da tabela) no cálculo de uma valor representativo da amostra.

Conclusão: nossa inflação em termos relativos está elevada. Mas isto é novo?

Para responder esta questão, o gráfico abaixo mostra a evolução da mediana da inflação da amostra acima, da inflação na Zona do Euro e nos EUA desde a crise de 2009 vis a vis a nossa inflação:

 

nossainfmundo

 

O gráfico verde mostra a evolução de nossa de taxa de inflação de 12 meses. O laranja mostra a evolução da inflação na Zona do Euro, em vermelho nos EUA e em azul da mediana da amostra. Vemos que de 2011 para cá a inflação global vem caindo gradativamente, tendo se estabilizado contudo ao redor de 2,5% a.a. Contudo vemos que nossa inflação se descolou da inflação global desde 2010. Em cinza podemos notar que naquela época nossa inflação era cerca de 1,5 pontos percentuais superior a média global.  Hoje tal diferença chega a mais de 3,5% a.a ( marcado em preto). Ou seja, nossa inflação se distanciou da inflação global. E isto  aconteceu num cenário de desaquecimento da nossa economia vis a vis a dos outros países, como vimos em:

http://ricardogallo.ig.com.br/index.php/2014/09/23/sra-presidenta-que-crise-externa-e-essa/

Seria de se esperar que nossa inflação caísse mais rápido do que no restante do mundo, na medida em que a nossa economia se desaqueceu mais nos últimos anos.

É muito importante entender os motivos deste comportamento tão disparatado de nossa inflação e de nossa economia. Acho importante que os candidatos tragam  ao debate eleitoral seus diagnósticos sobre esta questão  e tragam propostas em seus planos de governo para alterar este dinâmica atual tão perniciosa, quando convivemos com uma inflação elevado e um crescimento baixo. 

 

 

Autor: Tags:

terça-feira, 23 de setembro de 2014 bizarro, Crise Brasileira, Crise global, Sem categoria, utilidade | 14:11

Sra. Presidenta: que crise externa é essa que tanto nos atrapalha?

Compartilhe: Twitter

Um dos principais argumentos usados pelo governo para justificar a performance pífia de nossa economia nos últimos meses é que ela seria uma consequência da crise de 2008 e 2010 que estaria afetando a todos os países, como vemos neste trecho abaixo retirado de entrevista recente:

http://g1.globo.com/politica/eleicoes/2014/noticia/2014/09/dilma-diz-que-mudanca-na-economia-brasileira-depende-dos-eua.html

A presidente Dilma Rousseff, candidata do PT à reeleição, afirmou, em entrevista gravada no domingo e transmitida nesta segunda-feira (22) pelo “Bom dia Brasil”, que a política econômica atual está na “defensiva” por causa da crise financeira internacional e que qualquer mudança dependerá de uma melhora na economia dos Estados Unidos.

(Veja a íntegra da entrevista e leia a transcrição da entrevista em Bom Dia Brasil entrevista Dilma Rousseff.)

“A gente tem de ver como que evolui a crise […] Os Estados Unidos evoluindo bem, eu acho que o Brasil pode entrar numa outra fase, que precise de menos estímulos. Pode ficar entregue à dinâmica natural da economia e pode, perfeitamente, passar por uma retomada”, afirmou aos jornalistas Miriam Leitão, Chico Pinheiro e Ana Paula Araújo.

Segundo a presidente, apenas com a recuperação econômica de outros países será possível adotar, no Brasil, uma política econômica “ofensiva”. “Estamos numa situação em que o Brasil está na defensiva em relação à crise internacional. Protegendo emprego, salário e investimento. Essas três variáveis. Por quê? Porque vamos apostar numa retomada. Na retomada você muda a política econômica de defensiva para ofensiva.”

Levantei uma amostra de alguns países (com dados da Bloomberg ) eu calculei a média da taxa trimestral anualizada de crescimento econômico nos últimos quatro trimestres para cada país da amostra do segundo trimestre deste ano:

 

pib4t

 

 

Vemos nesta lista de países de diversos continentes, inclusive entre aqueles que estiveram no epicentro das últimas crises, que nossa economia (verde)  de fato tem performado muito mal em termos relativos: -0,81 % vs. 2 % na média ( amarelo).

O gráfico abaixo mostra a performance deste indicador para algumas regiões do mundo, contra a média e mediana da amostra e o Brasil, desde 2004 :

 

 

grafpibregiglobal

 

Em roxo, temos a região do Euro. Os EUA estão em vermelho. A média da amostra está em preto. A mediana em amarelo. E em verde o Brasil.

Uma análise do gráfico preto mostra que a economia mundial de fato se desacelerou depois de 2009.  Até 2008 a média dos países da amostra crescia a mais de 4% a.a. Hoje tal crescimento está ao redor de 2%.a.a.

Porém nossa performance foi bem pior do que a média. Vemos no gráfico verde que a nossa economia vinha performando acima da média da amostra (preto) até 2011. De lá para cá a coisa piorou, e mais recentemente nossa performance ficou bem abaixo da média da amostra, dos EUA, da Europa e da mediana da amostra. Nos últimos trimestres a coisa ficou mais dramática, pois nossa performance relativa afundou de vez ( cinza?).

Logo, se há alguma crise, ela não me parece que seja tão externa não. Eu entendo que em campanhas políticas o que importa são as versões e não os fatos, mas neste caso eu não pude resistir e apontar isto. Sra. Presidenta:  sabemos que existem coisas positivas em seu governo. Portanto, não precisamos ficar procurando desculpas como esta para ganhar votos…

E o que quer dizer medidas defensivas? Preservar investimento?? Mas nossa taxa de investimento está despencando!!!

E quais são as medidas ofensivas preparadas para 2015?

O que de fato importa mesmo é o que a senhora pretende fazer para mudar este quadro num segundo mandato.  E negar a realidade dos fatos não nos ajuda em nada neste sentido.

 

 

 

 

 

Autor: Tags:

segunda-feira, 1 de setembro de 2014 Crise Brasileira, Crise global, Crise na Europa | 01:48

Os reais efeitos das crises americana e européia em nosso crescimento

Compartilhe: Twitter

Um dos argumentos usados para justificar a performance fraca de nossa economia nos últimos anos está centrado nos efeitos da grave crise externa, européia  e americana, em nossa economia. De fato a crise americana e sua irmã européia tiveram um forte impacto na economia global, cujas sequelas serão sentidas ainda por alguns anos.  Logo, é incontestável a tese de que a crise tenha tido algum impacto sobre a performance de nossa economia nos últimos anos

Contudo, o que é preciso avaliar é se o impacto de tal crise em nossa economia é suficiente ou não para explicar a nossa pífia performance econômica dos últimos anos. Mas avaliar diretamente os efeitos colaterais no Brasil de tais crises e das reações dos governos daqueles países a elas é uma tarefa muito difícil. O que é possível fazer é comparar o desempenho relativo de nossa economia com outros países e tentar tirar daí alguma conclusão.

Usando dados retirados do banco de dados do FMI :

http://www.imf.org/external/pubs/ft/weo/2014/01/weodata/weoselgr.aspx

eu preparei alguns gráficos, para variar, que mostram a evolução anual de nosso PIB vis a vis outros países desde 2006. Lembrando que crise americana teve seu pico em 2009 e a Européia em 2012.

Vamos começar comparando a evolução do PIB brasileiro  e do americano neste período:

pibeuabrasil

 

 

As barras azuis mostram a variação de nosso PIB ano a ano e as laranjas mostram o mesmo para o PIB americano de 2006 até 2014, usando para 2014 as projeções do FMI, que , estão bem otimistas no caso brasileiro pois apontam um crescimento de quase 2%, algo que, segundo a média dos analistas consultados pelo BC, não deve passar de 1%. Vemos que até 2010 nossa economia performava bastante melhor do que a deles e que de 2010 para cá a diferença entre a nossa taxa de crescimento e a deles ficou bem pequena, como mostra bem o gráfico abaixo:

 

braseua

 

 

Vemos ( seta amarela) que de 2006 até 2010 nosso PIB em média andava bem mais rápido do que o deles. Já após 2010 a coisa se inverteu…

Ou seja, por estes gráficos temos a sensação que a crise americana foi pior para nós do que para os próprios americanos em termos de performance relativa, o que, a meu ver parece meio absurdo.

Outro aspecto comentado por alguns membros da equipe econômica é que o desaquecimento da economia chinesa nos prejudicou muito.  Podemos ver no gráfico abaixo a evolução do PIB anual Chinês ( azul) e o do PIB Brasileiro desde 2006:

brasilchinapib

 

Vemos ( seta amarela) que o PIB chinês vem se desacelerando desde 2007, quando crescia a 14% a.a, e hoje parece ter se estabilizado ao redor de 7,5% a.a.. Nosso PIB teve um comportamento similar,  o que pode ficar mais claro no gráfico de dispersão abaixo:

pibbrasxchina

 

Parece que há uma correlação razoável entre a variação do PIB anual Chinês (verde) e nosso Pib anual ( cinza), cuja regressão aparece na reta pontilhada. Tal regressão indica que se o PIB Chinês crescer 1 ponto percentual mais rapidamente, nosso PIB acelera 0,7% a.a. . Aqui temos uma outra má notícia, pois isto indicaria que se o PIB Chinês em 2015 crescer a 6,5% a.a ao invés dos 7,5% a.a. deste ano, nosso crescimento se desaceleraria em 0,7% do PIB… Ou seja, se terminarmos este ano com 0,7% de crescimento do PIB, ano que vem dá zero, tudo mais constante.. Se isto for verdade quer dizer que não temos vida própria, pois dependemos dos chineses para crescer mais rápido. Mas não seria isto muito perigoso? Seria sim, pois não é razoável esperar que economia chinesa volte a crescer a 10% ou 12% a.a., o que significaria que vamos ficar estacionados em 1 ou 2% a.a. de crescimento por alguns anos pelo menos.

E a Europa? A enorme depressão vivida naquelas bandas estaria nos arrebentando? O gráfico abaixo mostra a taxa média de crescimento entre 2006 e 2010  ( barras azuis) e entre 2011 e 2014 ( em laranja) para o Brasil, Espanha e Itália, 2 países periféricos fortemente afetadas pelos problemas na Grécia e Portugal:

brazieuropa

 

 

Vemos que no caso brasileiro houve uma queda na taxa de crescimento quando se comparam os dois períodos, em linha com o que ocorreu na Itália como na Espanha. Porém parece que os efeitos da crise européia aqui foram maiores do que lá, como vemos no gráfico abaixo que mostra o diferencial de crescimento Brasil / Itália ( barras azuis) e Brasil / Espanha ( barras em laranja) , até 2010 e após 2010:

brasileuroparelat

 

Vemos em verde que antes da crise crescíamos de 3,5 a 4,5% a.a. mais rápidos do que eles, e em vermelho vemos que após a crise européia o diferencial entre nosso crescimento e o deles caiu para 2,5% . Ou seja, novamente parece que a crise Européia nos afetou mais do que aos próprios europeus, o que não me parece fazer sentido tampouco.

Mas quais os efeitos destas crises nos nossos vizinhos da America Latina?

Usei dados da variação do PIB anual de uma amostra alguns países da região desde 2006 como mostra o gráfico abaixo:

 

piblatam0614

 

Embora estejam na mesma região, estes países apresentam vocações diferentes:

– Uruguay, Panamá: serviços

– Argentina, Costa Rica : agricultura

– Chile, Peru, Equador, Colômbia: recursos naturais

– México: manufatura

As barras verticais mostram a variação do PIB anual para cada um dos países da amostra, com destaque em verde para o Brasil e em preto para a média da amostra incluindo o Brasil. Já dá para ver aí que nos últimos anos a coisa aqui ficou pior, mas creio que o gráfico abaixo nos ajude a ver melhor nossa posição relativa:

 

 

posrelatlata,

 

O gráfico vermelho mostra a evolução de nossas taxas anuais de crescimento desde 2006. E o gráfico preto mostra a evolução da média aritmética da taxa de crescimento da amostra inteira. Fica evidente que após 2010 nossa economia tem performado consistentemente pior que a de nossos vizinhos. Ou seja, parece que a crise nos afetou mais do que a nossos vizinhos!

Vemos no gráfico abaixo, que entre 2006 e 2010 crescíamos a uma taxa apenas 0,6% a.a. abaixo da média da amostra, e nos últimos 4 anos temos crescido a quase 3% a.a. abaixo da amostra:

 

 

brazilvsmedialatam

 

 

Para se ter uma idéia do que isto  representa, o gráfico abaixo mostra o crescimento acumulado de cada um dos países latinos de nossa amostra  entre 2011 e 2014:

 

 

piblatamacum1114

 

 

Vemos em verde que nosso país cresceu no período menos de 10%, a pior performance da amostra, vis a vis uma média de 20% da amostra ( amarelo), e bem abaixo dos campeões ( marcado em laranja).

Vamos analisar agora da ótica da inflação, que tem estado persistentemente elevada, apesar da nossa taxa baixa de crescimento. O gráfico abaixo mostra a evolução ano a ano desde 2004 de nossa inflação comparada a de alguns outros países:

 

inflabrasmundoserie

 

 

Nosso gráfico (em verde) se descolou bastante da amostra (vermelho) após 2008, e de lá para cá a coisa só piorou.  Veja o gráfico abaixo que mostra a evolução da diferença entre a nossa taxa de inflação e a média da amostra acima ano a ano desde 2004:

 

infbrasilamostra

 

Vemos que de 2004 até 2007 tal diferença só caiu (seta verde) e que depois de 2008 só subiu (seta vermelha). Ou seja, nossa inflação subiu mais do que a inflação média dos países das amostras após 2008.

Tanto no quesito crescimento como no quesito inflação nossa performance relativa nos últimos anos foi pior do que outras economias igualmente ou mais expostas aos efeitos da crise de 2008/2010. Sejam quais forem os motivos da nossa pífia performance dos últimos anos, acho perigoso e temerário assumir dizer que isto se deva apenas à crise externa, pois se isto for verdade, devemos ser bem mais frágeis que nossos vizinhos ou do que os países que foram diretamente afetados pela crise. Precisamos ou inventar outra desculpa melhor ou tentar entender o que de fato nos tem levado a esta performance horrível e começar a mudar as políticas para reverter este quadro.

Novamente é fundamental que os candidatos(as) à Presidência da República tenham em mente a situação internacional e saibam que não mais seremos empurrados pelos bons ventos externos que nos ajudaram até 2008. Pois quando precisamos usar nossas próprias pernas para nos movermos para frente, elas se mostraram atrofiadas. Ficar usando a economia internacional com desculpa não nos serve para nada. Só atesta nossa incompetência.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Autor: Tags:

quinta-feira, 10 de abril de 2014 Brasil, Crise global, Investimentos, Politica Economica | 11:19

Ministro Delfim aponta as dificuldades que teremos pela frente

Compartilhe: Twitter

Mais um artigo do ministro apontando os problemas que deveremos enfrentar nos próximos anos. E ele termina com uma menção às reformas que serão necessárias para aumentar a nossa produtividade: as famosas supply side reforms, reformas estas que abandonamos quando resolvemos acreditar que nossos problemas tinham acabado e que seríamos, novamente, o país do milagre econômico, com crescimento sustentável, distribuição de renda e consumo crescente. O Ministro conhece bem esta história de milagre e como ela acaba. 

O que ele contudo não fala é que as escolhas feitas  na condução da política econômica no Brasil depois de 2009  nos tornaram mais expostos e sensíveis a tais dificuldades, e reduziram bastante nossa margem de manobra. Ou seja, a vida de nosso próximo Presidente (a) será muito, mas muito difícil.

E repito: sem poupança, a coisa não vai rolar.

 

Não é o apocalipse, mas não é fácil

Por Antonio Delfim Netto

 As incertezas estruturais produzidas pelo futuro opaco, sobre o qual a única certeza é que ele não repetirá o passado, somadas às conjunturais, determinadas pelas circunstâncias locais e mundiais, tornam sempre muito difícil o exercício da política econômica e a sua crítica.

Um problema interessante é tentar entender quais os fatores que condicionam a formulação de uma política econômica para tentar atingir seus objetivos, sendo certo que para cada um é preciso dispor de um instrumento independente. É possível distinguir pelo menos dois: 1) o conhecimento de que se dispõe sobre suas consequências, produzido pelo que se supõe ser a “melhor teoria” disponível naquele momento: como os relaciona e em que tempo se produzirão os resultados esperados. Toda política econômica é assim, por definição, datada; e 2) porque o futuro é opaco, é preciso, necessariamente, tentar antecipar como ele vai materializar-se e determinar as reações dos agentes econômicos em resposta aos estímulos que ela provocará. É por isso que as decepções e os erros são frequentes e devem ser analisados criticamente para que não se repitam. No conhecimento econômico, o que muda são as respostas, não os problemas!

Não há, entretanto, nada mais prepóstero do que a crítica mal informada “em si mesma”, pela interpretação equivocada dos fatos, ou pela ignorância de quais eram o conhecimento e a prática generalizada no momento, ou pior, pela ridícula utilização do truque ordinário de antecipar o “futuro” quando ele já é o “passado” conhecido.

Temos de trocar os pneus do caminhão com ele andando…

Complementando o que disse o grande físico Stephen Hawking, “o grande inimigo do conhecimento não é a ignorância, é a ilusão do conhecimento”, principalmente do obtido por osmose e vendido na televisão a custo marginal nulo. Por exemplo, nos anos 60/70 do século passado, a maioria dos economistas, por inspiração keynesiana, namorava uma “política de rendas” (controle de salários e preços) para controlar a inflação quando havia estresse no mercado de trabalho. Seria o único instrumento, numa economia de mercado, capaz de compatibilizar o pleno emprego com a estabilidade da taxa de inflação. Um grande número de países desenvolvidos – inclusive os EUA – a utilizaram. A exceção, como sempre, foi a Alemanha Ocidental com a sua economia social de mercado.

Como as consequências tardam, mas não falham e acabam sempre cobrando o seu preço, uma década depois, a experiência deu no que deu. Desmoralizado, o tal keynesianismo de “pé quebrado” foi sendo substituído pelo monetarismo delirante, pela incrível teoria das expectativas racionais e pela fantástica hipótese que os mercados financeiros eram perfeitos e autorreguláveis: eles teriam uma moralidade ínsita imposta por uma espécie de “imperativo categórico” kantiano.

Hoje sabemos como tudo terminou. Na Grande Recessão de 2007, que ressuscitou algumas das perspicácias do velho Keynes sobre o papel fundamental, mas destruidor (já intuído por Marx), do sistema financeiro no processo de desenvolvimento econômico, quando não é impedido, por uma regulação inteligente e forte, de controlar o sistema produtivo real e o sistema político. Talvez seja oportuno lamentar que Marx e Keynes continuem vítimas de seus asseclas!

A despeito de tanta confusão, é preciso afirmar que o conhecimento econômico continuou avançado. A ação dos governos e seus bancos centrais, sob cujos olhos míopes o sistema financeiro internacional fez a sua penúltima traquinagem, foi muito melhor informada e eficaz do que a dos anos 30 do século passado e evitou a repetição da Grande Depressão.

Só agora, sete anos depois da crise, o mundo desenvolvido está voltando ao nível de atividade que tinha em 2007, mas em situação fiscal muito mais difícil. O mundo emergente recuperou-se mais rapidamente, mas sente falta do dinamismo produzido pela ampliação do comércio exterior. Os EUA estão em melhor situação pela revolução energética, pela aceleração das inovações e pela combinação do controle de gastos públicos com um aumento do crescimento. A Europa, infelizmente, está atrasada pela dificuldade de coordenação entre os seus países e pelo uso, simultâneo e abusivo, da austeridade fiscal. Flerta, hoje com uma perigosa deflação.

Ao olhar o mundo, não parece provável que haja uma recuperação global importante em 2014 e 2015. Talvez um pequeno aumento dos países desenvolvidos com relação a 2003 (1,2%), para 1,8% em 2014 e 2,2% em 2015 e uma redução dos emergentes (4,6% em 2013) para 4,3% em 2014 e 4,5% em 2015.

No Brasil, nada sugere um crescimento muito diferente do de 2013 (2,3%) em 2014 e 2015. Obviamente, não devemos esperar nenhuma contribuição importante do volume físico das exportações, ainda que seus preços possam flutuar em resposta aos eventos climáticos.

Seguramente não estamos à beira do apocalipse, como querem alguns, mas a situação é desconfortável. Precisamos de medidas estruturais (reformas: orçamentária, previdenciária, trabalhista, política industrial etc.) e medidas conjunturais adequadas e coordenadas (fiscais, monetárias e cambiais) que compatibilizem melhor a fundamental política civilizatória de inserção social que estamos praticando, com a necessidade de aumentar a produtividade da mão de obra, o único caminho para a volta ao crescimento. Não vai ser fácil. Temos de trocar os pneumáticos do caminhão com ele andando…

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

 

Autor: Tags:

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014 bizarro, Crise global, Politica Economica | 18:32

Risco Argentina e Venezuela nas alturas

Compartilhe: Twitter

Vejam abaixo o gráfico que mostra a evolução do premio de risco de 5 anos da Argentina desde 2009:

riscoargentina

 

Ele saiu de 500 pontos base em 2011 e bateu 2500 pontos recentemente.  Vejam agora o caso venezuelano:

 

riscovenezuela

 

 

O Risco Bolivariano saiu de menos de 700 pontos em 2013 e hoje está em mais de 1600 pontos.

Vejam abaixo o que aconteceu com o risco da Grécia desde 2009:

 

greciacds

 

 

Nos piores momentos da crise de 2012 ele bateu mais de 1500 pontos, e hoje está ao redor de 550 pontos. E vejam o risco Espanha abaixo:

 

spain

 

que bateu 600 pontos no auge da crise de 2012 e hoje está ao redor de 136 pontos, ou seja, abaixo do risco Brasil, que hoje está ao redor de 180 pontos, depois de bater 215 pontos no final de janeiro, como mostra gráfico abaixo:

riscobrasil

Ou seja, a situação está bem ruim para nossos vizinhos de continente. Quem sabe agora eles aprendem.

 

 

 

Autor: Tags:

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014 ataques especulativos, bizarro, Crise global, Politica Economica | 12:45

Argentina: uma foto do populismo fiscal e monetário

Compartilhe: Twitter

Os gráficos abaixo, do banco GS,  reforçam o quadro descrito no último post:

argiedeficitpub

 

Vemos em vermelho no gráfico acima à esquerda, a rápida piora do quadro fiscal naquelas bandas depois da crise de 2009. O governo, adotou uma política pseudo keynesiana, e  saiu de uma posição de equilíbrio para uma posição de déficit público. Vemos no gráfico à direita que desde 2011 o déficit público foi a principal causa da forte expansão monetária ( barras azul claro marcadas em amarelo). Ou seja, o governo argentino gastou mais e imprimiu moeda para financiar gasto. São dados do próprio governo argentino….

Abaixo vemos o que aconteceu com custo de produção na argentina e com taxa de câmbio naquelas bandas:

argiesalafx

 

No gráfico á esquerda, vemos em azul mais escuro ( marcado em vermelho) a evolução relativa do salário hora medido em US$ pagos na indústria argentina desde 1996 vis a vis outros países. Vemos que na Argentina eles cresceram em ritmo bastante superior ao dos EUA ( preto tracejado) e do Brasil azul clarinho, e até mesmo da Espanha! Ou seja, o custo de produção na Argentina subiu muito, reduzindo a competitividade das suas exportações! No caso do Brasil, marcado em amarelo, fica claro que não é sustentável daqui para frente tentar manter o ritmo de crescimento do salário  ( em US$ ) que tivemos desde 2002, ou corremos o risco de aumentar ainda mais o buraco do déficit externo.

O resultado disto, veja acima à direita, é a enorme valorização real da taxa de câmbio argentina ( verde claro) que bateu o pico da era Menem ( preto) . Ou seja, o governo Cristina K. repetiu o mesmo erro do governo Menem, embora tenham “linhas ideológicas”  opostas: ambos usaram a valorização do câmbio real para ancorar a inflação e manter os salários reais artificialmente elevados. Menem congelou o câmbio nominal, já Christina K reprimiu sua desvalorização nominal. Christina K. promoveu de fato uma apreciação cambial real desde 2008, visando transferir renda dos setores exportadores para os salários. Embora o câmbio nominal tenha se desvalorizado desde 2008, tal desvalorização foi inferior a elevação nominal dos salários e da inflação verdadeira, como mostrou o gráfico à  esquerda. Isto levou a taxa de câmbio real do Peso Argentino à enorme valorização ( Preto à direita), que agora começa a  ser corrigida com a recente desvalorização. Contudo, se os juros não subirem bastante e a expansão monetária e fiscal não for contida, tal depreciação cambial vai virar mais inflação o que reduzirá o efeito da depreciação nominal do câmbio já ocorrida, trazendo mais desvalorização e mais inflação, e, finalmente,  resultando em hiperinflação ou em colapso cambial como aquele ocorrido em 2001.

Hoje, como em 2001, será preciso uma forte depreciação real da moeda para trazer o câmbio, e os salários reais, para uma situação mais equilibrada. Ou seja, a festa acabou. Ou eles percebem ou teremos mais uma crise séria em nossos vizinhos. Desde a era Peron que eles repetem os mesmos erros. Quem sabe agora…. quem sabe.

 

Autor: Tags:

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014 ataques especulativos, bizarro, Crise global, Politica Economica | 05:16

O fiasco do experimento keynesio-marxista argentino

Compartilhe: Twitter

Nossos vizinhos Argentinos têm sido nos últimos anos, ao lado dos venezuelanos, ferrenhos combatentes contra as chamadas “ideologias neoliberais”.  Eles decidiram inovar e fizeram exatamente o oposto do que prega a chamada “cartilha neo liberal” e o bom senso econômico das boas práticas de política econômica que já foram testadas e aprovadas em inúmeros países. Fecharam sua economia através de políticas de proteção aduaneira, negaram dívidas contraídas no passado, promoveram a monetização da dívida pública, relaxaram todos os controles monetários, impuseram controles cambiais, tentam controlar e tabelar preços, congelam tarifas públicas, estatizaram empresas, interferiram na economia e romperam contratos. O idealizador desta política é o jovem economista Axel Kicillof  ( http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,polemicas-no-comando-da-economia-argentina,1123712,0.htm ) que defende algumas idéias que aqui batizo de  keynesio-marxistas.

O modelo é muito simples: você promove uma enorme repressão financeira, impondo taxas de juros fortemente negativas ( 5 a 10% a.a.) através da monetização da dívida e do déficit público. Reprime qualquer forma de indexação na economia ao manipular o índice oficial de inflação. Impõe controles cambiais impedindo que a poupança privada procure refúgio no exterior. Desta forma você impõe uma taxação inflacionária na poupança privada, que ajuda a financiar gastos públicos crescentes, que são destinados para políticas compensatórias dirigidas às massas. A agenda oculta aqui visa promover uma taxação sobre o capital privado das “zelites” (http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-zelite,948701,0.htm,  e usa o Estado para transferir tal capital confiscado de forma inflacionária para as classes menos favorecidas através dos gastos públicos. Com isto ele acredita que é possível manter uma forte expansão da economia enquanto promove esta redistribuição inflacionária da riqueza. É uma forma milongueira  de se promover a desapropriação de bens, que atinge principalmente a poupança das famílias e da classe média, uma vez que o grosso do capital argentino das “zelites” já se encontra há décadas no exterior. O governo até tentou promover uma anistia fiscal para atrair tal de volta tal capital, mas como as “zelites” argentinas já viram este filme antes, tal tentativa não teve o resultado esperado. Há uma crença por parte do governo que tal transferência de patrimônio das “zelites” para as classes menos favorecidas eleve o consumo que por sua vez vai levar a mais investimento e crescimento econômico. É aqui que, segundo Kicillof, Keynes se encontraria com Karl Marx:

karl_marx

 

keynes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Neste sentido, vale a pena ler este texto bastante interessante que mostra, de uma ótica socialista, as diferenças entre as duas linhas de pensamento: http://www.worldsocialism.org/spgb/education/study-guides/marx-versus-keynes.

Porém, o que o Kicillof se esquece ( ou desconheça) é que este processo leva a uma explosão inflacionária que acaba reduzindo o poder de compra das famílias, além de destruir a poupança duramente acumulada pela classe média argentina. O governo tenta impor o controle das tarifas públicas e de outros preços básicos visando impedir que a inflação saia do controle, o que acaba não funcionando, pois leva ao desabastecimento, como mostram os apagões e os saques em supermercados que acontecem por lá, da mesma forma que ocorre na Venezuela.

O processo de expansão monetária argentina é, como ouvi recentemente de um grande economista brasileiro que teve um papel importante na batalha contra a nossa hiperinflação na década de 90, é um caso de “livro texto”. O governo argentino amplia seus gastos e para financiar tais gastos emite títulos que são comprados pelo BC através da emissão de pesos. Ou seja, a grana gasta pelo governo fica depositada nos bancos, que por sua vez mantêm tais pesos depositados no BC argentino sem remuneração. Isto aumenta a demanda dos bancos por títulos de renda fixa no mercado, o que eleva o preço destes papéis,  reduzindo suas taxas de retorno. As taxas pagas pelos próprios bancos em seus depósitos são assim reduzidas pois a demanda por crédito acaba sendo inferior a sua oferta. Com isto as taxas de juros reais caem. Os juros reais esperados são calculados pela diferença entre a taxa de juros nominal esperada e a inflação esperada para o período. Por exemplo, no Brasil espera-se um juro Selic de cerca de 11,5% a.a. até o final do ano e uma inflação de cerca de 6% a.a., o que daria um juro real esperado de aproximadamente 5,2 % a.a . Aqui, como os juros reais são positivos, há um estímulo para que o consumo seja adiado, o que faz sentido quando a inflação está perto do topo da meta. Na Argentina, como os juros reais esperados são negativos em função desta enorme expansão monetária, é tolice guardar dinheiro em banco e adiar o consumo. Com este juro real negativo, as pessoas reduzem sua poupança e gastam mais e mais rápido, antecipando o consumo futuro.  O mesmo se aplica às empresas que reduzem seu caixa investido em bancos e aumentam seus estoques de produtos. Isto tudo cria uma demanda adicional irreal, que num primeiro instante aumenta a produção. Como os investimentos em capacidade produtiva não crescem na mesma velocidade da demanda, a oferta não acompanha o ritmo da demanda, levando a um surto inflacionário. Este surto desancora as expectativas com relação à inflação futura, o que reduz ainda mais a taxa real de juros esperada para o futuro. A aceleração da inflação gera uma descrença na moeda que é ofertada pelo BC de maneira descontrolada, levando à dolarização dos preços na economia ou à indexação, como foi o caso brasileiro nos anos 80 e no início dos anos 90.

As consequências disto tudo são óbvias. A poupança privada vai sendo destruída pouco a pouco e o estoque de capital produtivo começa a diminuir, pois os investimentos privados se retraem em virtude da elevada incerteza econômica e institucional. O PIB potencial começa a despencar. Gargalos surgem em vários setores. As exportações ganharam um impulso inicialmente, pois os Estado precisa gerar divisas para cobrir suas importações e seus compromissos externos. Contudo, os ganhos dos exportadores foram também tributados, o que acabou reduzindo os investimentos necessários para aumentar a produção dos bens exportáveis. A Argentina, que já chegou a ser exportadora líquida de petróleo, hoje é importadora de energia ( http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,importacao-de-energia-e-o-ralo-da-balanca-argentina,1115150,0.htm . ) O consumo também é promovido inicialmente, o que acabou  dando um impulso temporário à economia. Porém a elevação de preços causada pelo descontrole monetário destruiu o poder de compra dos trabalhadores. Tudo isto leva a uma tensão política que mina a popularidade da Presidenta Cristina K. que ainda tem mais de um ano de governo pela frente. O isolamento econômico argentino e a hostilidade do governo daquele país com relação aos capitais internacionais privados impedem qualquer ação externa de ajuda ( por exemplo, pacotes de socorro do FMI), o que acaba levando a uma fuga maior dos capitais e ao renascimento do mercado paralelo de dólares com a dolarização informal da economia. É uma triste novela que já ocorreu inúmeras vezes no nosso continente.

Vamos dar uma olhada no que mostram os dados econômicos Argentinos, embora a confiabilidade dos mesmos seja muito questionável, uma vez que os critérios “contábeis” do governo daquele país são questionados pelo próprio FMI. Tomei a liberdade de usar dados coletados pelos bancos UBS, GS e MS:

gsargiemacropicture

Em azul acima mostrei os dados do PIB oficial argentino, que cresceu em 2012 menos de 2%, tentou se recuperar em 2013, porém já indica uma forte desaceleração para 2014, como mostram os dados de produção industrial que veremos mais abaixo.

Embora os saldos comerciais sejam elevados ( amarelo), decorrentes da exportação de produtos básicos, o país apresenta déficits externos crescentes em seu conta corrente ( laranja), uma vez que a  poupança interna está sendo destruída pela inflação.

Apesar da enorme monetização da dívida , que pode ser vista na enorme taxa de crescimento da base monetária em preto, os déficits fiscais mostram tendência de piora ( cinza).

A dívida pública ao redor de 60% do PIB e a dívida externa de 45% do PIB deixam o país vulnerável a crise de financiamento.

Do lado cambial, as coisas estão ficando bastante feias:

argieexterno

 

O primeiro gráfico a esquerda mostra a forte perda de reservas dos últimos meses ( preto), apesar dos controles de capitais. O gráfico vermelho da direita acima  mostra a piora dramática no déficit externo ( em cinza) .

Tudo isto provocou uma desvalorização cambial enorme, como vemos em cinza no gráfico abaixo à direita:

argieinflacambio

 

O gráfico acima à esquerda mostra que a inflação ( medida pelo mercado no gráfico cinza) sobe a mais de 30% a.a., impulsionada pela base monetária que cresce a 25% a.a. Ou seja, fica evidente o enorme descontrole monetário na Argentina, que pode ser visto com mais clareza no gráfico abaixo:

taxarealuroargie

 

Em verde escuro, referindo-se à coluna da direita, temos os juros reais internos, que hoje estão ao redor de -7% a.a ( em vermelho).  Ou seja, se você deixa o dinheiro aplicado num banco argentino, depois de um ano o poder de compra destes recursos cai 7%. Depois de 5 anos você perdeu 30% do poder de compra de sua poupança.  O outro gráfico verde claro refere-se à escala da esquerda e mostra a taxa de crescimento da oferta de moeda. Ou seja, o descontrole monetário é absoluto.

fiscalargie

 

Como mencionei acima, a fonte desta expansão monetária se encontra nas contas públicas. Vemos no gráfico acima à esquerda que as despesas do governo têm crescido em velocidade superior à das receitas ( marcado em preto). À direita vemos que o grosso do aumento da base monetária em 2013 foi ocasionado pela expansão fiscal. Tal expansão fiscal provocou uma piora considerável no déficit público, como vemos em vermelho abaixo:

deficitfiscalargie

 

A produção industrial já mostra uma profunda desaceleração ( vermelho), 0 que indica que a economia já esteja se contraindo:

 

pindargie

 

 

A história econômica argentina ( e latino americana) mostra que este é o receituário para uma crise cambial e monetária de proporções dantescas, que muitas vezes acaba em hiperinflação e em crise institucional. A menos que se revertam estas políticas que levaram a tais desequilíbrios, há um enorme risco da inflação disparar e a crise econômica se transformar em crise política, que pode sim nos afetar e a todo o Mercosul.

Sempre resta a possibilidade de se culpar os capitais neo liberais internacionais que estariam orquestrando um ataque especulativo à Argentina, como acusa o ministro argentino Jorge Capitanich ( http://economia.estadao.com.br/noticias/economia-geral,governo-argentino-diz-que-pais-e-vitima-de-ataque-especulativo-classico,176498,0.htm), e ignorar assim a fragilidade dos fundamentos da economia e as inconsistências das políticas econômicas. Porém espero que o jovem Kicillof não entre nesta,  perceba seus erros e volte a ler Keynes, que antes de tudo, era um exímio especulador no mercado financeiro e forte defensor do capitalismo:

axel-kicillof0

 

Fica aqui uma lição importante para todos aqueles que desejam inovar em política econômica, tentando desviar das práticas provadas de boa gestão de política econômica.

Autor: Tags:

  1. Primeira
  2. 1
  3. 2
  4. 3
  5. 4
  6. 5
  7. 10
  8. Última