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Arquivo da Categoria Heróis do Mercado

segunda-feira, 16 de março de 2015 Câmbio, Crise Brasileira, Heróis do Mercado, Politica Economica | 12:59

Liberais 2 X 1 Desenvolvimentistas, de virada. Cadê o PT?

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O excelente economista Edward Amadeo da Gávea Investimentos em artigo recente coloca com enorme precisão as diferenças entre os chamados Liberais e os chamados desenvolvimentistas. Veja no link abaixo:

Neoliberais e nacional desenvolvimentistas

Creio que após o fiasco do experimento desenvolvimentista, tentado com vigor pelo então Ministro Mantega nos últimos 4 anos cujas consequências hoje começamos a sentir na pele,  indicam que o chamado caminho Neoliberal não era tão equivocado assim.  Vamos ver agora o custo que iremos ter que pagar para corrigir estes equívocos do então Ministro, que trazem hoje tantos problemas para nossa Presidenta.

Contudo, o que me deixa preocupado, é que o PT não se manifesta em apoio às medidas da Presidenta eleita pelo próprio Partido, apesar do Ministro Rossetto ter afirmado a importância do ajuste fiscal no seu pronunciamento de ontem à noite, em resposta direta aos manifestantes da sexta-feira que criticaram o ajuste fiscal na passeada patrocinada pela CUT e pelo MST.

Veja o pronunciamento do Ministro:

https://www.youtube.com/watch?v=ngbYpZi6Dus&noredirect=1

O Ministro disse claramente que:

  • a economia em 2014 cresceu menos do que esperavam ( ou seja, estímulo fiscal contracíclico do Guido não funcionou!);
  • as medidas fiscais anunciadas pelo Governo são importantes e necessárias para arrumar as contas públicas ( que portanto estão desarrumadas, apesar do Guido ter dito o contrário)
  • e que precisamos de tal ajuste para manter as conquistas sociais!!

Enfim, o Planalto aos poucos reconhece os problemas, o que já é um baita progresso. Mas sem o apoio do PT o ajuste não vai sair do papel e aí iremos ter nossa nota de crédito rebaixada e a crise se aprofundará.

Vejam a declaração do Ministro Levy, endereçada ao PT:

Se a gente tiver coragem, não vai ser difícil’, diz Levy sobre ajustes

Diante do cenário do enfraquecimento da economia, que tem levado o governo a fazer um ajuste fiscal e enfrentar resistência no Congresso, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, disse que as medidas anunciadas nada mais são que uma adaptação a uma nova situação e que se houver coragem, “não vai ser difícil” executá-las.

[Medidas anteriores de estímulo] São claramente insustentáveis do ponto de vista fiscal. Qualquer pessoa que pegasse um armazém, pensaria assim. Enquanto está tudo bem, contrata, expande, rearruma a casa para voltar a crescer”, disse Levy, durante encontro nesta segunda-feira (16), na Associação Comercial de São Paulo (ACSP). “Todos que têm sucesso são muito cuidadosos com a dívida. Não muda muito do que estamos fazendo. A presidente [Dilma Rouseff] está absolutamente tranquila”, afirmou.

 

Ps: vocês se lembram da frase do então Ministro Guido Mantega em 2014 de quem apostar no dólar vai quebrar a cara? De outubro até agora dólar subiu 33%:

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2014/10/1534636-vai-quebrar-a-cara-quem-apostar-na-alta-do-dolar-diz-mantega.shtml

E vale a pena ler o resto da entrevista. Parece que foi escrita há 5 anos ou se trata de um outro país. Ela mostra bem do que escapamos.

Boas férias, Ministro! Os alunos da GV certamente irão apreciar sua volta.

 

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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014 Crise Brasileira, Heróis do Mercado, Impostos, Livros e publicações, Politica Economica, Sem categoria, utilidade | 16:58

Uma importante lição de uma grande líder revolucionária

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Em tempos de ajuste fiscal, discursos como este, do vídeo do link abaixo, são muito inspiradores:

https://www.youtube.com/watch?v=WFIN5VfhSZo

São palavras simples, numa linguagem direta, que refletem o mais puro bom senso na gestão da política orçamentária e fiscal.

É por esta e por outras que sou tiete desta senhora do vídeo há vários anos.

Obrigado!

 

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sexta-feira, 28 de novembro de 2014 Câmbio, Crise Brasileira, Heróis do Mercado, Impostos, Inflação, Investimentos, Juros no Brasil, Politica Economica, Sem categoria | 15:13

Déficit externo = falta de poupança = ajuste fiscal

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E chegamos ao inevitável ajuste fiscal, que tem muito a ver com a realidade de nossas contas externas.

Um dos conceitos mais importantes da contabilidade nacional é o saldo em conta corrente. Ele mostra o quanto estamos trocando com o mundo em termos de divisas internacionais nas transações de comércio exterior e nas rendas que recebemos e pagamos ao exterior. SE gastamos mais divisas com o exterior do que recebemos, ou seja, se as rendas recebidas do exterior e nas exportações geram montantes inferiores ao que gastamos com importações e rendas pagas ao exterior ( como viagens, dividendos remetidos, juros pagos, fretes, etc.), temos um déficit nas contas externas. Isto significa que temos um buraco em nossa conta corrente com o exterior que precisa ser coberto com empréstimos tomados junto a bancos internacionais ou através da venda de ativos locais a estrangeiros, sejam ações, títulos de renda fixa ou participações em empresas brasileiras ( o tal do Investimento Direto Estrangeiro). E este é precisamente o nosso quadro atual, como vemos no gráfico  abaixo:

 

SALDOCC

 

 

O gráfico azul mostra a evolução de nosso saldo em conta corrente acumulado em 12 meses desde 1994, como % do PIB ( tudo que produzimos no país no mesmo período). A reta laranja mostra o saldo médio de todo o período, que é um déficit de cerca de 2% do PIB. Vemos que desde 2004 só apresentamos superavit de conta corrente ( mais receitas do que despesas com o exterior) entre 2003 e 2008 , marcado em cinza. Vimos que após o Plano Real entramos numa região de déficit bastante elevado( marcado em amarelo). Para eliminar a inflação naquele momento foi preciso manter nossa moeda valorizada diante do dólar que serviu de âncora inflacionária nos primeiros anos de estabilização. Foi isto que permitiu a quebra da inércia inflacionária que tínhamos até 1994. Vemos também a forte piora do saldo desde 2006 ( seta vermelha), que coincide com o período onde nosso R$ se valorizou fortemente diante do dólar.

O gráfico azul abaixo mostra a evolução do valor real do câmbio no Brasil calculado pelo BC desde 1994, já descontados os efeitos da inflação doméstica e internacional e da variação das diversas taxas de câmbio de nossos parceiros comerciais:

 

cambioreal

 

A taxa média real em termos de número índice é representada pela reta laranja horizontal ( aprox. 95). Quando o gráfico azul está acima de tal reta indica que, em termos relativos,o nosso R$ está mais barato e vice versa. UM real caro indica que as moedas estrangeiras estão mais baratas, o que torna as importações mais baratas e prejudica as exportações. Foi exatamente isto que ocorreu entre 94 e 99 ( após plano real) marcado em amarelo. No período entre 2000 e 2004  tivemos um processo de desvalorização de nossa moeda ( seta rosa)  que ajudou as exportações. A grande desvalorização do R$ ocorrida após 2002 ( seta rosa) deveu-se à percepção de maior risco político nas eleições de 2002 quando o PT chegou ao governo pela primeira vez. Já a forte valorização de nossa moeda que veio de 2004 até 201o ( seta negra) foi resultado da forte redução do risco econômico interno e do ambiente externo bastante favorável para os produtos básicos que são aqui produzidos. E vemos na seta verde que nossa moeda retomou o processo de desvalorização desde 2011.

Voltando a análise de nosso déficit externo, temos que um de seus principais componentes é o saldo comercial que mostra a diferença entre o que exportamos e o que importamos. O gráfico azul abaixo mostra a evolução de nossa balança comercial como % do PIB dos últimos 12 meses:

 

balcom

 

 

Apesar de termos uma balança comercial (exportações – importações ) equilibrada, isto não impede que tenhamos déficits nas contas externos, como vimos mais acima. Tais déficits que são gerados por:

a. remessas de juros ao exterior em função do endividamento externo das nossas empresas

b. remessas de dividendos das empresas que tenham participação de capital estrangeiro;

c. remessas decorrentes de pagamentos de serviços contratados no exterior, como aluguel de máquinas, de equipamentos e frete;

d. despesas com viagens ao exterior.

A soma destes valores aumentou nos últimos anos, porém a magnitude da alta não justificou o total da piora do saldo em conta corrente, como vemos abaixo:

 

pioradeficit

 

 

 

 

 

A piora do saldo de nossa conta corrente desde 2005 foi da ordem de US$ 100  bi ( vermelho), enquanto o déficit nos itens de serviços e rendas piorou US$ 60 bi. A diferença é explicada pela piora do saldo comercial que, como vemos em vermelho no gráfico abaixo, caiu, de 2005 até hoje,  US$ 40 bi :

 

 

balancaus$

 

 

Um déficit anual de US$ 85 bi como temos hoje significa que deveremos nos endividar externamente ou vender ativos brasileiros a estrangeiros neste montante anualmente. Isto significa que no futuro tais US$ 85 bi anuais irão gerar mais despesas de serviços com juros, royalties ou dividendos pagos ao exterior, piorando ainda mais nosso déficit.

Mas por que temos déficit externo?  Da contabilidade nacional sabemos que :

P = C + I + ( X – M)

onde:

P = o que produzimos, em termos de produtos e serviços internamente,

C = o que consumimos, em termos de produtos e serviços,

I = o que investimos em capacidade produtiva,

X = o que exportamos, em termos de serviços e produtos ao exterior

M = o que importamos de serviços e produtos do exterior

Ou seja:

P – (C + I) = (X – M)

Logo, nosso saldo externo ( X – M) é igual ao excedente do que produzimos sobre o total que consumimos e investimos. SE consumimos e investimos mais do que conseguimos produzir , teremos saldo externo negativo = déficit. Ou seja, a demanda interna é maior do que capacidade interna de atender tal demanda (oferta) a preços de mercado. 

Como nossa renda líquida é resultado do que produzimos aqui dentro menos o que pagamos de renda ao exterior em decorrência das dívidas e obrigações acumuladas no passado, podemos inferir que nossa renda líquida atual é insuficiente para atender nosso consumo e nosso investimento. Ou seja, para atender este excesso de demanda sobre oferta interna precisamos recorrer a importação de poupança externa, que é reflexo do déficit de conta corrente com o exterior. Ele nos mostra que temos internamente um excedente de consumo e de investimento sobre nossa renda líquida. Imagine uma família que  gasta mais do que recebe em rendimentos. No final do mês tal família tem um buraco na conta bancária, que é coberta ou come venda de bens ou com empréstimos tomados nos bancos. Este é o nosso caso. Para compensar tal “insuficiência de renda” esta família precisa importar poupança de terceiros tomando empréstimos no banco. Estes empréstimos irão custar juros, que serão pagos no futuro aumentando o buraco da família.  Se tal família não quiser quebrar, ela precisa poupar:

a. aumentando a renda familiar e manter consumo ou

b. reduzindo o consumo

Para se aumentar a renda, mais pessoas da família precisam trabalhar ou os membros das famílias precisam procurar empregos que paguem mais, ou seja, empregos onde as pessoas sejam mais produtivas, pois geram mais valor a seus empregadores. Para se reduzir o consumo é preciso rever o orçamento familiar e reduzir os gastos.

Um país nada mais é do que um aglomerado de famílias, porém com empresas e com governo. As famílias geram renda com trabalho e com o investimento de sua poupança acumulada ao longo da vida. As empresas geram rendimentos às pessoas que as controlam ( poupadores) através de dividendos ou juros pagos. Tais empresas reinvestem na produção a parcela dos lucros que não é distribuída aos seus acionistas e credores. Os governos arrecadam recursos tributando famílias e empresas, reduzindo assim os rendimentos e os lucros privados. O governo então gasta tais recursos em consumo ( oferta de serviços públicos gratuitos ou subsidiados á população), investimentos ou os transferem para outras famílias e empresas, através do pagamento de aposentadorias, de programas sociais ou de subsídios.

Para que a renda nacional cresça, precisamos aumentar o lucro real das empresas ( e desta forma seus dividendos, aluguéis ou juros pagos a seus controladores) e/ou os salários pagos a seus empregados, isto tudo de forma sustentável e não inflacionária. Isto só se consegue com o aumento da quantidade de bens produzidos ( P da fórmula acima) por tais empresas e empregados ou por aumento do valor agregado desta produção. Se mantivermos o volume de investimentos e de mão de obra disponível inalterado, isto só é possível através de aumento da produtividade geral. 

Voltando à  igualdade acima, podemos concluir que:

P – (C + I) = (X – M)

Desta forma, mantido o nível atual de produção, só podemos aumentar o Investimento I se reduzirmos o Consumo C , caso não desejemos aumentar o déficit externo. Logo, para reduzir o déficit externo, sem reduzir o Investimento e mantendo a produtividade atual, só nos resta reduzir o consumo agregado da economia. Portanto, todo aumento de Investimento precisa ser correspondido inicialmente por uma queda de consumo. Caso contrário, nosso déficit externo aumenta.

Vimos que o consumo pode ser dividido em :

a. consumo das famílias

b. consumo do governo

Para se reduzir o consumo da famílias não existe forma mais eficiente do que através da elevação dos juros, pois boa parte do crescimento do consumo é financiado através do crédito bancário, ou seja, representa um consumo no presente  financiado pela renda futura das famílias. Juros maiores acabam reduzindo a capacidade de compra atual das famílias, o que inibe o consumo presente, sem alterar a capacidade futura de consumo das famílias.

Outra forma de se reduzir o consumo das famílias é através do aumento dos impostos por elas pagos. Desta forma, a renda disponível das famílias cai, o que causa uma queda no consumo. Outra maneira do governo aumentar sua renda é através da elevação das tarifas cobradas nos serviços públicos por ele subsidiados. Isto funciona de forma similar ao aumento dos impostos. A renda que é transferida para o governo através do aumento dos impostos e das tarifas precisa ser poupada, ou seja, não pode ser usada nem em investimento tampouco no consumo. Na prática o governo usa tais recursos para amortizar sua dívida, que é a forma mais eficiente do governo investir sua poupança.

Para se reduzir o consumo do governo é preciso que se reduza a oferta de serviços públicos ou que se aumente a eficiência do setor público, de tal forma que o governo consiga assim oferecer o mesmo serviço atual com menos recursos.

Dada á elevada necessidade por investimentos na infraestrutura do país e a crescente demanda por serviços públicos, só existem as seguintes alternativas viáveis para se reduzir o consumo interno:

a. redução do consumo das famílias através do aumento dos juros, o que é plenamente justificável a esta altura dos acontecimentos pois nossa inflação está beirando o topo da banda de meta de inflação e estamos com o menor nível de desemprego dos últimos 20 anos;

b. redução do consumo das famílias através do aumento de impostos e elevação das tarifas públicas como transporte e energia, o que é mais delicado pois nossa carga tributária já é muito elevada e as tarifas já são bem elevadas;

c. redução do consumo do governo, através do aumento da eficiência do gasto público;

Os itens b e c estariam no âmbito de um ajuste fiscal ou aperto fiscal como o anunciado pelo Ministro Levy.

Uma consequência natural deste ajuste seria, como vemos, a redução do déficit externo, pois a queda do consumo levaria à queda da absorção doméstica (C+ I).  Porém a coisa não para aí. A partir do momento em que os juros trouxerem nossa inflação para o centro da meta, o aumento da poupança do governo, gerado pelo aumento de eficiência do gasto público e pelo aumento dos impostos e tarifas, provocará uma queda na trajetória do endividamento do estado e da economia como um todo. Ou seja, a demanda por crédito interno cai e a oferta de poupança aumenta. Neste cenário, seguindo a lei da oferta e da procura por capital, os juros de equilíbrio da economia caem, o que ajuda a evitar uma queda maior do Investimento.

Com a desaceleração do consumo abre-se então espaço para o aumento do Investimento sem piorar o déficit externo. Porém com a queda do consumo, o que levaria uma empresa a investir aqui? Entra em campo a tal da mudança de preços relativos que já comentei em posts passados. Para que um novo equilíbrio ocorra é preciso substituir a demanda interna perdida no processo de ajuste pela expansão da demanda externa. Uma vez que a demanda externa é definida pelo crescimento econômico no resto do mundo que não deve se acelerar nos próximos anos, só nos resta produzir bens aqui a custos menores do que aqueles que são produzidos no exterior e aumentar assim nossa parcela no comércio internacional.  

Tais preços relativos podem se alterar em função da elevação dos preços externos dos produtos que exportamos vis a vis o preço dos produtos que importamos, como ocorreu entre 2005 e 2011,  como mostro em verde no gráfico dos termos de troca abaixo:

 

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Isto me parece improvável, em virtude da recente queda no preço das commodities que exportamos, como mostra a seta vermelha acima. O esfriamento da economia chinesa impede uma retomada dos preços das commodities que exportamos.

Logo, a única maneira disto ocorrer é através da continuação do processo de desvalorização de nossa moeda, indicado na seta verde no gráfico abaixo:

 

 

cambioreal

 

 

 

Entretanto, tal desvalorização gera pressões inflacionárias, pois os preços dos produtos e insumos importados sobem na mesma medida. Isto então demanda a manutenção de juros elevados enquanto tal ajuste de preços relativos ocorre, para evitar que tal inflação se espalhe pelo resto da economia. É muito difícil estimar ex ante o tamanho da desvalorização real necessária para equilibrar as contas externas. Tudo vai depender da velocidade do ajuste do custo unitário do trabalho medido em moeda estrangeira, como mostra gráfico abaixo preparado com dados do BC:

 

 

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Ele mostra a evolução do custo da mão de obra em dólares dividido pelo volume de produção calculado pelo BC, assim definido:

Custo Unitário do Trabalho em US$ = ( Gasto total com salários em R$ / Volume produzido ) / Taxa de Cambio R$-US$

Ou seja, ele mede o gasto medido em US$ com mão de obra de uma unidade de produto. Como a série é longa, decidi aplicar o log. A reta laranja horizontal mostra a média dos últimos 17 anos. Ou seja, o custo da mão de obra ajustado pela produtividade medido em dólares, embora tenha parado de subir desde 2012, ainda se encontra acima da média. Para reduzir este custo local de produção precisamos aumentar a produtividade, reduzir os salários ou desvalorizar o câmbio, como ocorreu nos últimos anos. Com um custo de produção mais baixo, os mercados externos ficam mais atraentes, o que acaba elevando o Investimento produtivo no setor de bens comercializáveis com o exterior e reduzindo os Investimentos nos setores de bens e serviços não comercializáveis com o exterior. Ou seja, o capital muda de foco. Na prática estamos falando que os nossos salários precisam cair quando medidos em dólares. Desta forma teremos uma perda de poder aquisitivo com relação aos produtos e serviços importados, que em R$ passam a custar mais caro. Estes preços mais caros inibem seu consumo, o que aumenta a renda poupada.

Mas o que garante que o R$ vá se desvalorizar? Aqui está a beleza da coisa. Quando há a redução do consumo em função do aperto fiscal, a demanda interna cai rapidamente, levando à queda inicial do Investimento por parte das empresas. Isto acaba gerando um excesso temporário de poupança nas empresas que é usada para liquidar seu endividamento externo, o que cria um aumento da demanda por dividas externas. O fluxo de capital externo também se reduz, pois as oportunidades de investimento aqui caem. O aumento de demanda por divisas e a queda de sua oferta acabam naturalmente elevando a cotação do dólar e desvalorizando o R$.

Esse processo pode demorar na medida em que o BC mantenha os juros elevados para trazer inflação para o centro da meta e continue vendendo dólares via swaps cambiais ao mercado. Contudo, na medida em que o BC atinja seu objetivo, ele pode reduzir os juros básicos o que induz a uma depreciação mais rápida do R$. Quando o R$ atingir um novo patamar de equilíbrio, o investimento vai se acelerar novamente, em particular no setor de bens comercializáveis, pois fica competitivo produzir aqui vis a vis  importar. As empresas então param de poupar e voltam a investir, reduzindo a demanda por divisas. E o fluxo de capital externo aumenta novamente , que agora vem à procura de investimentos no setor de bens comercializáveis.

Mas o que acontece com o emprego neste processo? Ele inicialmente cai pois há uma queda da demanda agregada. Porém na medida em que o Investimento seja retomado no setor de bens comercializáveis, este passa a demandar mais mão de obra. Ou seja, o aumento temporário do desemprego é inevitável neste tipo de ajuste, uma vez que vai ser preciso uma realocação da mão de obra dos setores mais ligados ao consumo para os setores mais ligados à produção de bens comercializáveis. A boa notícia é que os salários pagos neste setor tendem a ser maiores do que os pagos no setor de serviços, pois demanda-se aí uma mão de obra mais qualificada. Mas vai ser preciso algum tempo para que a oferta de mão de obra seja qualificada para estes novos empregos.

Mas poderíamos ter evitado a necessidade  de fazer tal ajuste? Somente teríamos evitado tal ajuste se a produtividade ( produção / hora trabalhada) tivesse subido mais rapidamente, de tal forma que a elevação do custo da mão de obra que tivemos nestes últimos 5 anos pudesse ser compensada por aumento maior da produtividade. Assim o custo unitário de produção não teria subido como vimos no gráfico acima. E desta forma nosso déficit externo não teria aumentado.

Mas como poderíamos ter promovido tal aumento de produtividade? Além das reformas de oferta ( que já mencionei aqui algumas vezes), uma maior disciplina fiscal e a manutenção de superávits fiscais sólidos nos últimos anos poderiam ter provocado uma queda sustentável nos juros internos e gerado assim a poupança interna necessária para financiar um aumento do investimento em maior sincronia com o aumento do consumo. Com um volume maior de Investimentos, seria possível aumentar a produtividade do trabalho através do que os economistas chamam de capital deepening.  Foi este processo que permitiu que as economias asiáticas apresentassem taxas de crescimento econômico elevadas durante anos.  Tais países mantiveram um nível elevado de poupança interna, o que permitiu a elevação do investimento sem contudo aumentar seus déficits externos, ao mesmo tempo mantendo a inflação baixa.   Já no nosso caso, a poupança nacional, que é a parcela da Renda Nacional Líquida que não é consumida pelo estado ou pelas famílias, que já era baixa quando comparada com tais países, tem caído de forma dramática desde 2010, como vemos marcado em preto no gráfico abaixo, e tendo atingido o pior nível em mais de 14 anos ( vermelho):

 

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Ao permitirmos que isto tenha ocorrido, nos colocamos numa situação de desequilíbrios externos crescentes com fortes pressões inflacionárias, como já escrevia aqui umas 3458 vezes. Logo, é  inevitável que passemos por um período de ajuste na demanda e da poupança. E a escolha dos Ministros Levy e Barbosa precisa que ser comemorada, pois pouca gente neste país reconhece mais a necessidade de tal ajuste e sabe como fazê-lo melhor do que estes dois. E Levy tem ainda uma vantagem: é engenheiro de formação, como este que vos fala…

Parabéns Presidenta Dilma pela excelente escolha.

E aos Ministros, desejo sucesso, pois a tarefa pela frente é bastante desafiadora.

E agora você pode me seguir em:

https://twitter.com/RicardoGalloIG

No twitter @RicardoGalloIG

 

Joaquim-Levy

 

 

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quinta-feira, 12 de junho de 2014 Crise Brasileira, Heróis do Mercado, Politica Economica | 22:49

Delfim explica o PIBinho

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Embora muitas vezes o ex Ministro tenha marchado sob  bandeiras opostas às minhas, é necessário dar a Cesar o que é de Cesar. E neste artigo abaixo, onde ele comenta mais um dado fraco do PIB, ele foi , mais uma vez, bem preciso:

Opinião Econômica – Sem surpresa

Opinião Econômica - Sem surpresa
04/06/14 – 13:22 
*Por Delfim NettoO crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro no primeiro trimestre, de 0,2%, corrigido pela variação estacional, não surpreendeu nem mesmo o governo, mas projeta grande preocupação sobre o ano de 2014.

O resultado reflete as incertezas do setor privado e o efeito da política monetária por seus canais de transmissão: a redução do nível de atividade, a redução do ritmo de expansão do crédito e a valorização do dólar. Disso algum gênio heterodoxo pode concluir que para fazer crescer o PIB é preciso aumentar a demanda global, o que, pelo uso mais eficiente dos fatores de produção, reduziria “naturalmente” a taxa de inflação.

Isso seria verdade se existisse ampla capacidade produtiva: energia, mão de obra e capital não utilizados. O pequeno problema é que, infelizmente, a hipótese é falsa!

O que deveria surpreender é por que o crescimento médio tão sem graça dos últimos anos não teve efeito visível sobre a taxa de inflação. A explicação é sem dúvida complicada, mas alguns fatos podem ajudar a entendê-la:

1) Existe um limite para a arbitragem do governo sobre a distribuição de renda a favor do trabalho numa economia de mercado. Quando ele é excedido, gera inflação porque os empresários tentam transferir para os preços o aumento do salário real superior à produtividade física do trabalho. Na medida em que não têm sucesso na transferência, reduzem os investimentos pela queda da capacidade de seu autofinanciamento e o crescimento murcha.

2) É impossível fixar ao mesmo tempo o pleno emprego e o salário real numa economia de mercado. Quando o governo subsidia os setores em que a demanda está mais fraca para manter o emprego, ele impede o funcionamento do sistema. O custo do subsídio transforma-se em pressão fiscal que deságua na dívida pública e pressiona o juro real.

3) A política monetária é necessária para controlar a inflação, mas não é suficiente. Se ela não tiver o apoio de uma política fiscal que reduza a demanda do governo e de uma política salarial que compatibilize o consumo com o investimento, seu custo é politicamente inaceitável.

4) A redução da taxa de inflação exige a redução de sua “expectativa”, o que é difícil quando preços controlados sugerem um aumento futuro da taxa de inflação.

O baixo crescimento, o estresse no mercado de trabalho, a inflação tensionada no limite da tolerância e o substancial déficit em conta corrente confirmam que o que temos é um problema de oferta, cuja solução exige o aumento da produtividade de toda a economia.

É o que o governo tenta agora produzir.

*Economista, ex-deputado federal e ex-ministro da Fazenda, do Planejamento e da Agricultura

Meu Pitaco e Bicadas: Só me resta aplaudir. Eu não vi até agora ninguém colocar de uma maneira tão sucinta uma análise tão precisa da atual situação econômica.  Como até pouco tempo o ex ministro era frequentemente ouvido pela Presidenta Dilma, quem sabe ela poderia voltar a ouvi-lo agora e assim obter a explicação que tanto procura:
Resumão: para aumentar salário e distribuir renda, precisa-se ao mesmo tempo aumentar a renda. Para aumentar renda, salário + lucro, precisa de maior produto…. Para ter mais produto precisa de :
  • mais capital humano ( L) = mais gente qualificada!!
  • mais investimento de capital ( K) = mais poupança !!
  • mais produtividade ( A) = menos governo ineficiente!!

Se tentarmos aumentar os salário sem aumentar 0 produto, temos mais inflação  e estagnação!  “Entennnde”?

Se até o Romário e o Pelé erram, como vemos no link:

https://www.youtube.com/watch?v=OoVuRBYVxRc

Chuta a bola, Presidenta!

Ou convoca o Solow:

solowzinho

Robert Solow 1

 

E não vamos agora   ficar perdendo tempo discutindo o alfa da fórmula acima e elucubrando sobre o trabalho do Piketty, pois a fila anda. E o povo tem pressa.

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terça-feira, 1 de abril de 2014 EUA, Heróis do Mercado, Investimentos, Juros EUA, Politica Economica | 02:47

FED de Yellen: entre a deflação e a bolha?

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Existe um ditado que minha mãe sempre usava para descrever situações difíceis, onde não há saídas fáceis: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. O BC americano está entrando nesta fase, pois o bicho está solto.

Ao longo dos últimos 3 anos a vida do FED foi relativamente fácil. Ele se limitava a convencer o mercado que a moleza monetária, o afrouxamento nas condições de liquidez, iria continuar por muito tempo. Ou seja, Bernanke esteve 100% do tempo preocupado em dar boas notícias para os detentores de ativos de risco, ou seja, ações, imóveis ou até mesmo commodities. Ele precisava convencer a turma a comprar bens, a inflacionar os preços de ativos e com isto gerar um impulso na economia real, aumentando o investimento privado e o emprego, para tirar os EUA da lama.

Pois bem, parece que a coisa está dando certo:

  • Desemprego caiu de quase 10% em 2010 ( vermelho abaixo) para 6,7%, e continua em tendência de queda ( verde). Segundo o FED deve chegar a 5,5% (nível considerado normal naquela economia – cinza abaixo) em 2016;

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  • Segundo o mesmo FED, o PIB deles deve crescer este ano cerca de 3% a.a., e deve manter este ritmo daqui para frente, o que é bastante positivo para uma economia daquele tamanho, pois neste ritmo a cada 5 anos os EUA crescem um Brasil inteiro;
  • De 2011 para cá os preços das residências nos EUA subiram 20%.

Por outro lado, a inflação e os salários crescem muito pouco:

  • O núcleo da inflação sobe 1,1% a.a. ( amarelo abaixo) vis a vis os 2% meta do FED ( verde) , como vemos no gráfico abaixo:

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  • Os salários hora no setor privado sobem hoje  2,5% a.a. ( amarelo abaixo), vis a vis os quase 4% a.a. que cresciam antes da crise :

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Tal cenário tem possibilitado a redução gradual dos estímulos monetários dados à economia americana pelo FED, que tem diminuído o ritmo de compra de títulos no mercado em US$10 bi por reunião do FOMC. No ritmo atual o FED deixará de comprar papéis a partir de outubro próximo, caso a economia americana continue a evoluir desta forma. Terminado o processo de injeção de liquidez via compra de títulos de longo prazo no mercado, os próximos passos no processo de normalização monetária passarão por:

A. Início do processo de elevação dos juros de curto prazo;

B. Término das operações de reinvestimento por parte do FED, que hoje investe 100% dos recursos gerados nos resgates dos títulos de sua carteira (juros e principal) em novas compras de papéis da mesma natureza (títulos públicos e imobiliários de longo prazo).

Desde que a nova Presidente do FED Janet Yellen assumiu o comando do FED, o mercado tem especulado sobre o item A acima.  O processo de normalização dos juros de curto prazo tem enorme importância para a precificação de ativos de risco, pois uma normalização mais rápida e acentuada pode causar a queda da bolsa e de outros ativos de risco.

São 3 as variáveis que caracterizam este processo de normalização dos juros:

  1. Quando ele se iniciará
  2. Qual o ritmo da alta de juros que se seguirá;
  3. Qual a taxa de equilíbrio final, quando tal processo se encerrar.

Na entrevista que se seguiu ao último FOMC, Yellen sinalizou duas coisas:

  • Que a compra de títulos pelo FED deve se encerrar no outono deles, ou seja em Outubro;
  • Que os juros ficarão em zero por cerca de 6 meses após tal data, tudo isto se a economia americana desempenhar como eles esperam.

Ou seja, se tudo correr como o FED espera , os juros nos EUA começam a subir perto de abril de 2015.

Bom, o que significa correr bem? Pelo que eu entendo, será preciso que:

  • Desemprego continue a cair e chegue ao redor de 5,6% a.a. já no final de 2015;
  • Inflação termine este ano em 1,4% a.a. e 1,7% em 2015, no mínimo, caminhando para bater os 2% a.a. em 2016 ou 2017.

O FED sabe que numa economia endividada como a americana inflação muito baixa eleva o custo real das dívidas o que deprime o consumo e o investimento. Logo, é fundamental afastar de vez o risco de deflação. Portanto, caso a inflação não mostre esta tendência de elevação esperada pelo FED, é provável que o FED adie a data de aumento dos juros para o final de 2015, através de uma sinalização mais firme em seus comunicados. Contudo, mesmo que a inflação deste ano atinja os 1,4% esperados pelo FED  (hoje está em 1,1% a.a.), o FED espera que vá atingir a meta de 2% a.a. somente no final de 2016: ou seja, será uma alta bastante lenta. De acordo com Yellen, isto se deve aos chamados “ventos de proa” que a economia americana está sofrendo que levarão muito tempo para se dissipar:

  • Excesso de endividamento das famílias
  • Preços dos imóveis ainda deprimidos
  • Dificuldade de acesso ao crédito por parte das famílias
  • Política fiscal ainda restritiva nos próximos anos.

Estes fatores impedem uma aceleração maior da economia, o que restringe o espaço para uma elevação mais rápida da inflação. Da mesma forma, a queda do desemprego que está acontecendo tem sido, pelo menos parcialmente, fruto de uma redução no número de pessoas que procuram o emprego (taxa de participação), pois várias pessoas desistem de procurar emprego dada a dificuldade de encontrá-los.

Também é importante levar em consideração que há um excesso de capacidade de produção em alguns setores da economia americana (construção),  na periferia européia e na China. Isto deve reprimir os preços dos bens industrializados exportáveis, o que pode ser agravado caso os juros maiores nos EUA, em ambiente de juros baixos na Europa, Japão e China, causem uma valorização do dólar. Um dólar mais forte baratearia os produtos importados por aquele país e reduziria ainda mais as pressões inflacionárias.

Logo, o FED trabalha com a hipótese de que o processo de normalização dos juros irá levar bastante tempo e será bem gradual. Como vemos nas tabelas abaixo, as projeções feitas por seus membros indicam isto. A mediana desta amostra espera que os juros do FED atinjam 1% no final de 2015 ( amarelo no gráfico inferior abaixo), e apenas 2,25% em 2016 (preto no gráfico inferior abaixo). Ao mesmo tempo, a mediana de suas expectativas mostra que a inflação estará rodando acima de 1,8% em 2016 ( vermelho na tabela) . Ou seja, de acordo com as expectativas dos membros do FED, os juros reais ao longo de 2016 deverão permanecer negativos, apesar da economia ter chegado próxima ao pleno emprego.

 

projeconmembfed

 

feddotmar14

Com relação à taxa terminal de juros de curto prazo, que seria aquela que a economia americana precisa para equilibrar a oferta e a demanda e manter assim o equilíbrio inflacionário em situações normais de emprego, a grande maioria espera que tal taxa seja de 4% a.a. ( verde na tabela acima) . Porém cerca de 30% de seus membros ( vermelho na tabela acima)  acham que tal taxa seja inferior a isto. E 4 dos 17 membros acreditam que esta taxa seja apenas 3,5% enquanto que apenas 2 acreditem que possa ser 4,25% ou mais. Existe dentro do FED um debate importante sobre tal taxa de equilíbrio. A maioria dos membros trabalha com a hipótese de que o juro real de curto prazo de equilíbrio nos EUA seja de 2% a.a., que, somado a inflação alvo do FED de 2% a.a., resultaria num juro nominal de 4% a.a.  Outros acreditam que tal taxa real de juro de equilíbrio seja menor, pois os danos da crise de 2008 teriam sido muito grandes e permanentes. Eles acreditam que a taxa de crescimento potencial do PIB americano, que antes da crise estaria entre 2,5% e 3% a.a., caiu para 2 ou 2,5% a.a. em decorrência da queda de produtividade que a crise possa ter causado ao obstruir de forma mais permanente o canal de crédito. O crédito é a forma de transformar a poupança acumulada em investimento. Com a crise é provável que o processo de crédito na economia tenha sido danificado de forma permanente o que acabaria reduzindo a produtividade da economia ao tornar mais lenta e ineficaz a transformação de poupança em investimento. Isto prejudicaria a inovação e dificultaria a destruição criativa. Obviamente que este é um debate extremamente especulativo, mas que intriga o pessoal do FED. De fato, a lenta recuperação dos salários nos EUA apesar da forte queda do desemprego pode indicar que a produtividade marginal do trabalho esteja caindo. Com uma produtividade menor, o PIB cresce menos, o que demandaria, no longo prazo, juros menores. Por outro lado, uma produtividade menor e um crescimento potencial mais baixo podem causar uma aceleração mais rápida da inflação nos próximos anos, exigindo que o FED acelere o processo de normalização dos juros. Portanto, além das incertezas com relação ao comportamento da economia no curto prazo, há também incertezas a respeito do nível adequado dos juros de longo prazo.

Mas  todo o discurso do FED  caminha na direção de  uma política mais moderada de normalização dos juros. Isto nos dá um pouco mais de tranquilidade com relação ao fluxo externo de capitais, pois uma normalização mais rápida e intensa dos juros externos poderia afetar negativamente nossa capacidade de levantar recursos para cobrir nossos déficits externos. Por outro lado, como já vimos no passado, esta política pode levar à formação de bolhas nos mercados de ativos e crédito. A manutenção de taxas reais de juros baixas, que segundo as projeções dos membros do FED ficariam negativas até final de 2016, pode estimular investidores e empresas a se endividar e a alocar mais recursos para ativos de risco, como bolsa, créditos de alto risco e imóveis nos EUA. De fato a bolsa americana já opera em múltiplos próximos a sua média histórica (linha vermelha horizontal abaixo), e altas muito maiores além deste ponto poderiam indicar que há uma bolha em formação, com a que vimos nos anos 2000 em azul claro no gráfico abaixo:

pesp

 

Algo similar está acontecendo com  o valor dos papéis de crédito de alto rendimento (empréstimos a empresas de maior risco), que, segundo o gráfico branco abaixo, estão ( amarelo) bem acima da região de normalidade ( entre as retas brancas e marcada em laranja abaixo):

hyibox

 

E os spreads de risco cobrados em tais empréstimos estão caindo rapidamente e chegaram próximo ao menor nível dos últimos 20 anos, como vemos marcado em amarelo no gráfico abaixo que mostra a evolução do spread de risco implícito nos papéis de alto rendimento, calculado pelo Banco Barclays, desde 1994:

spreadhybac1995

 

 

É bom lembrar que em 1997 o mercado de crédito de HY ( títulos de alto rendimento) se encontrava em efervescência, o que levou a uma bolha que estourou alguns anos depois. Os dados de crédito bancário para empresas nos EUA indicam que de fato há uma aceleração mais forte nas concessões de empréstimos nos últimos meses, como mostramos em amarelo e laranja  nos gráficos abaixo fornecidos pelo banco CS:

creditocorpusa

 

Embora os indícios de formação de bolhas ainda não sejam tão evidentes, um comportamento mais acomodatício do que o necessário por parte do FED pode levar a formação de bolhas e a riscos financeiros similares àqueles que tínhamos em 2008, quando o mercado imobiliário estourou. A crise de 2008 nos mostrou que o custo social de uma bolha e de seu estouro pode superar o benefício de se reduzir o emprego mais rapidamente no curto prazo.  Para se fazer tal comparação seria necessário avaliar qual a probabilidade de ocorrer uma bolha nos próximos anos, à luz dos comportamentos atuais e prospectivos dos ativos, e qual o custo em termos de perda de emprego de um possível cenário de estouro desta bolha. Com esta informação seria possível avaliar se os benefícios de se reduzir a acomodação monetária visando evitar uma bolha são de fato menores do que os benefícios em termos de emprego em se manter a política monetária acomodatícia por mais tempo. Estas avaliações, contudo, não são nada simples, mas sem dúvida irão ocupar os debates dentro do FED nos próximos meses

Obviamente que a luz do duro aprendizado de 2008, o FED sabe deste risco e do custo do estouro destas bolhas. Desta forma eu não creio que ele vá assistir a formação de uma bolha de forma passiva. De fato alguns membros do FED (Stein & Kockerlakota) levantaram este ponto recentemente. Porém surge aqui o debate de como determinar a ocorrência de bolhas e qual a melhor forma de combatê-las, dentro dos mandatos legais do FED.  Stein mencionou a taxa de risco dos títulos de alto rendimento, a taxa de prêmio nos juros de longo prazo, o nível de endividamento geral da economia e a alavancagem dos sistema financeiro como indicadores de possíveis bolhas. O gráfico abaixo retirado de um excelente relatório preparado pela equipe de Vincent Reinhart do Banco Morgan Stanley, que serviu-me de base para a elaboração deste texto, mostra a evolução do endividamento do setor privado não financeiro dos EUA como % do PIB desde 1980:

endividamentononfinusa

Vemos alguns períodos de aceleração do endividamento:

  • 1995 a 2001, em vermelho, que resultou na bolha da internet que estourou na virada do século;
  • 2005 a 2008, que terminou na grande crise imobiliária ( em preto),

e vemos em roxo que a aceleração atual, embora não seja da mesma intensidade dos outros períodos, é preocupante. Contudo, o nível de alavancagem dos bancos dos EUA está em seu menor nível dos últimos 25 anos, como mostro em verde no gráfico do nível de capitalização destes desde 1990:

capitalbanksusa

Já os baixos de prêmios cobrados em títulos de renda fixa de alto risco que hoje são praticados ( no gráfico que mostrei mais acima ) indicariam um possível processo de formação de bolha de crédito no mercado corporativo, que poderia levar a um excesso de endividamento por parte de empresas.

Somado a isto,  taxas de juro de longo prazo muito próximas às taxas de curto prazo esperadas para o futuro indicariam que o mercado estaria cobrando pouco por emprestar recursos por longo prazo. Isto poderia induzir a formação bolhas de preços de ativos de maior prazo, como imóveis ou bolsa. O gráfico branco abaixo mostra a evolução da taxa de juros implícita nos contratos de derivativos de juros de 5 anos em 5 anos. Ou seja, estes são os juros implícitos em financiamentos interbancários de 5 anos que se iniciarão após 5 anos da data presente. O gráfico lilás mostra sua média móvel de 6 meses:

5y5yfwd

 

Esta taxa mostra os juros cobrados pelo mercado nas parcelas mais longas dos financiamentos interbancários. Vemos em cinza que o mercado está precificando hoje um juro de 4%a.a. por 5 anos para daqui a 5 anos. Podemos ver que tais juros de longo prazo estavam bem mais baixos (amarelo) em 2012 e 2013, em função da política de expansão agressiva do balanço do FED.  E antes da crise eram bem mais elevados (em verde). A diferença entre tal taxa e a taxa esperada para os juros de equilíbrio de longo prazo dão uma estimativa razoável para o prêmio de prazo que o mercado exige nos empréstimos de longo prazo a taxas fixas. Embora o prêmio tenha subido desde 2012, ele estaria hoje zerado assumindo um juro de saída de 4% a.a.. Ou seja, tal premio de prazo estaria ainda muito baixo na opinião de alguns analistas preocupados com possíveis bolhas em formação. Isto poderia sugerir que  seria recomendável que o FED suspendesse o reinvestimento em títulos de longo prazo dos recursos provenientes dos resgates dos papéis em sua carteira, visando reduzir o preço dos papéis mais longo, levando assim o prêmio de liquidez de longo prazo para níveis compatíveis com os praticados no passado. Porém esta avaliação é bastante complexa, pois se os juros de equilíbrio forem 3,5% a.a. como alguns membros do FED acreditam, tal prêmio de longo prazo hoje estaria mais próximo do normal.

Resumindo: o que fazer quando a inflação está persistentemente abaixo da meta ao mesmo tempo que se formam bolhas de ativos, na bolsa ou em crédito? Como agir? Não seria melhor adiar a elevação dos juros e ao mesmo tempo suspender o reinvestimento em novas compras de títulos por parte do FED, elevando assim o prêmio de prazo, para evitar a formação de bolhas? Mr Greenspan viveu este dilema após o estouro da bolha da internet no início deste século, e optou por deixar os juros de longo prazo baixos (o tal do conundrum), o que pode ter levado os EUA à bolha imobiliária de 2008 e toda a exuberância irracional. Será que os EUA entraram num ciclo vicioso, do tipo que para sair de uma crise gerada pelo estouro de uma bolha eles precisam gerar outra?

Enfim, o debate do FED vai entrar numa fase mais desafiadora, pois o caminho para a normalização dos juros é cheio de incertezas quanto a seu timing, intensidade e forma. O FED está navegando por mares nunca antes navegados. O trabalho da Senhora Yellen não será moleza não: se ela se afobar e apertar rápido demais a liquidez, a economia americana pode afundar. Se ela demorar para apertar, bolhas podem se formar. Ou seja, o bicho está mesmo solto no FOMC.

Vida dura…

yellen

 

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sábado, 22 de fevereiro de 2014 Crise Brasileira, Heróis do Mercado, Politica Economica | 11:40

Delfim, Gleisi e o Estado que não anda

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E em artigo recente, o Min Delfim comenta sobre a Ministra Gleisi e seu papel no programa de privatizações e concessões da Presidenta Dilma, que teve coragem e enfrentou a turma de seu partido que tanto as criticou no passado.

Contudo, eu gostaria destacar algumas colocações da da Ministra Gleisi, selecionadas com esmero pelo Ministro em mais um excelente artigo, sobre a incapacidade do Estado em caminhar mais rápido e nas razões para que isto não ocorra.

Segue abaixo link com artigo completo:

http://www.esmaelmorais.com.br/2014/02/veja-essa-em-artigo-delfim-netto-elogia-privatizacoes-de-gleisi/

Vejam alguns trechos:

Numa entrevista concedida à competente jornalista Débora Bergamasco, publicada no domingo pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, Gleisi revela, por um lado, humildade e coragem e, por outro, que captou as dificuldades da administração pública que o PT ainda não entendeu. Por conta da humildade, temos sua réplica à pergunta “por que as respostas do governo são lentas?” Diz ela: “porque dependem da articulação das três esferas da Federação e de vários órgãos”.

E acrescenta sem rebuços: “Claro que eu gostaria que tivesse maior celeridade. Claro que se eu tivesse, no início, a experiência e o conhecimento que tenho agora, acho que eu teria conseguido fazer isso”.

Mais importante é a sua corajosa reflexão em resposta à pertinente, mas incômoda, pergunta da arguta jornalista: “Qual é a maior dificuldade do governo em fazer o Brasil andar?” Vale a pena transcrever, para iluminar alguns ideólogos das virtudes do estatismo. Ela responde: “Ainda é a falta de cultura da máquina pública de agir por resultado. Temos uma baixa cultura de comprometimento de entregas. O serviço público não está acostumado a isso, então quando nós cobramos resultados muitas vezes tem reação. Quando cobramos metas, organização, não temos o retorno esperado porque é uma questão de cultura e também da própria organização do serviço público, em que a estabilidade está na base e a instabilidade está no comando. Isso faz com que o setor público acabe ficando mais acomodado”. A frase é antológica, “a estabilidade está na base e a instabilidade no comando”!

Se há alguma dúvida sobre a verdade essencial dessa ponderação, basta atentar para as dificuldades que estamos vivendo no setor elétrico, além dos problemas climáticos: 40% do volume de energia planejado para estar em operação não foi entregue na data prevista, por dificuldades de toda natureza. Ainda mais lamentável é o descompasso de mais de um ano entre os projetos que estão prontos e as necessárias linhas de transmissão, o que elevará para sempre o custo da energia.

Meu Pitaco:

Elogio aqui a humildade e a lucidez da Ministra Gleisi ao reconhecer os problemas e as limitações do Estado, e o brilhantismo do Min. Delfim ao captar estes pontos.

E não se trata qui de uma critica ao Estado do PT, PSDB, DEM, PSB, Republicano, Democrata, Peronista, Justicialista, Bolivariano, etc. Esta é uma característica de todos os Estados do mundo, pois não foram desenhados para empreender, para investir, para competir com o setor privado, pois não visam o lucro e suas estruturas de remuneração e organizacional não promovem a competição interna que move as estruturas privadas, pois não são gerenciados por resultados. É uma questão de desenho. E a Ministra aprendeu esta lição na própria pele.

Logo, precisa entrar na cabeça da turma da esquerda estatizante que defende o “Estado grande e ativo ” o que diz a Ministra Gleisi, o Ministro Delfim, o Min. Pedro Malan e o Ministro Meirelles, entre outros, para que  entendam que seria mais eficiente que o Estado ficasse de fato focado nas atividades sociais, no bem estar social, nas politicas sociais, na educação, na segurança e na saúde,  e deixar o setor provado cuidar do resto,  mas com muita, mas muita competição. Vamos alocar os escassos recursos dos nossos impostos de forma mais eficiente, onde o benefício social seja mais imediato. 

Uma dose de liberalismo não mata. Ajuda muito. Que tal rasgar de vez algumas ideologias socialistas,  antiquadas e ineficazes, que só atrapalham o nosso governo? Privatização e concessão deixou de ser palavrão!!

Parabéns Ministra Gleisi! Obrigado e sucesso em seu futuro político!!!

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sexta-feira, 27 de dezembro de 2013 CHINA, Heróis do Mercado, Politica Economica | 14:31

Herói do ano: Presidente Chinês Xi Jinping

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O herói do ano, na minha opinião, foi o recém empossado Presidente da República Popular da China e Secretário Geral do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping, que reagiu à perda de folego da economia chinesa, que desacelerou dos 10% a.a. de crescimento para cerca de 7,5% a.a. ( e a gente aqui feliz com 3 ou 3,5%…), e lançou um agressivo e ousado plano de reformas com o objeto de liberalizar os mercados financeiros, reduzir a interferência do estado na gestão das empresas estatais e promover uma urbanização de melhor qualidade.  Os juros passarão a ser definidos livremente pelos mercados e o câmbio passará a flutuar mais, seguindo as variações na curva de oferta e demanda. Ou seja, o líder recém empossado da China Comunista está embarcando em reformas liberalizantes, acreditando que os mercados podem sim contribuir para o crescimento de seu país, enquanto mantém o controle de empresas estatais mas saindo de sua gestão, o que deverá torná-las mais competitivas, produtivas e rentáveis.

Ele segue a tradição de outro grande líder chinês, Deng Xiaoping, que há  20 anos disse, de forma provocativa:

“Pobreza não é socialismo. Ser rico é glorioso.”

Um belo exemplo. A estrela amarela quer brilhar ainda mais.

 

 

xi jinping

 

 

 

Vamos torcer para que ele sirva de inspiração para todos os nosso líderes políticos que disputarão as eleições de 2014, por sua coragem e visão.

Deixo assim um agradecimento a todos que me acompanharam este ano. Desejo um super 2014 para todos, com muito PIB, pouco juro, muita escola, muita saúde e pouca corrupção.

Boas festas!

 

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domingo, 22 de setembro de 2013 Heróis do Mercado, Investimentos, Juros EUA, Sem categoria | 04:21

FED deu um drible da vaca?

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Bola de um lado, jogador do outro:

http://www.youtube.com/watch?v=y3FjWVVp0gU

Parece que o Bernanke andou tendo aulas com Robinho…..

Depois de sinalizar que iria começar a reduzir o ritmo de suas compras de papéis já nesta reunião do FOMC  de setembro, Bernanke e sua turma decidiram continuar com o ritmo atual do programa de compras de títulos.

Para quem é aficionado em economia e política monetária, vale  a pena ver o vídeo abaixo da entrevista do Ben logo após FOMC:

http://www.federalreserve.gov/monetarypolicy/fomcpresconf20130918.htm

De fato estas conferências com jornalistas das principais agências de notícias econômicas logo após as reuniões do FED ajudam muito, mas muito, a entender o processo de pensamento do FED. Na opinião do próprio Bernanke, tal processo de comunicação é fundamental para a condução eficiente da política monetária com total transparência:

“Failing to communicate that information would have risked creating a large divergence between market expectations, public expectations, and what the Committee’s intentions were, and that could have led to much more serious problems down the road. So I think the communication was very important.”

Contudo, como ele mesmo disse, corre-se alguns riscos quando se comunica seus planos abertamente. Porém , como ele diz, no longo prazo tal transparência ajuda mais do que atrapalha.

Mas veja o que eu entendi do que ouvi do discurso e das respostas do Ben:

a. Bernanke não gostou dos efeitos da forte alta nos juros de longo prazo ocorrida desde junho, que provocou um aperto excessivo nas condições financeiras no sistema, o que acaba tendo efeito adversos na demanda e, em particular, no mercado imobiliário, que de fato tem mostrado um certo cansaço recentemente;

b. Bernanke parece estar bem preocupado com as discussões políticas no congresso americano nas próximas semanas no que diz respeito ao risco de um possível fechamento temporário do governo americano, ou  de um atraso em aumentar o limite de endividamento do governo, fatos que poderiam causar uma forte volatilidade nos mercados, com efeitos maléficos sobre a economia;

c. Bernanke quis deixar claro que mesmo quando o emprego bater os tais 6,5% não quer dizer que FED irá subir juro automaticamente. Ele disse e repetiu que a grande maioria dos membros do FED prevê que os juros só voltem a subir em 2015, fechando o ano em 1% e batendo 2% em 2016;

d. ele também deixou claro que acredita que os juros subirão devagar, pacientemente, e só chegarão aos 4% ( que seria, na visão deles, o nível neutro de juros)  2 ou 3 anos depois, ou seja, em 2018 ou 2019, bem depois do desemprego bater o nível neutro (NAIRU = 5,5% de desemprego), algo que deve ocorrer em 2016, segundo a mediana das projeções dos membros do fomc;

e.ele mencionou que não haveria razão para subir juros , mesmo quando se atingir tal pleno emprego, se a inflação permanecer persistentemente abaixo de sua meta de 2%, como está ocorrendo agora. De fato, a maioria dos membros do FOMC acredita que a inflação fica abaixo da meta até 2016, pelo menos. Bernanke até cogitou a hipótese de colocar um piso na meta de inflação;

f. ele admite que, como a produtividade tem subido menos do que ele imaginava, o desemprego está caindo mais rápido do que ele esperava e que o desempenho da economia está pior do que previa. Logo, a taxa potencial de crescimento pode ter caído em decorrência de efeitos colaterais ( transitórios??) da grande crise. Isto implicaria em juros mais baixos por mais tempo;

g. avisou que se for preciso ele muda política monetária em qualquer uma das reuniões do FOMC e não somente naqueles onde já estão agendadas conferências;

h. continua achando que a taxa de desemprego é a melhor métrica para acompanhar a saúde do mercado de trabalho, porém não é a única, e que quedas mais acentuadas na taxa de participação na população ( % da turma com mais de 16 anos que está empregada ou atrás de emprego) indicariam uma melhora apenas artificial do mercado de trabalho;

i. acha que foi importante preparar a turma do mercado para  o eventual início do processo de normalização da política monetária, pois ajudou a eliminar os excessos de posições especulativas nos mercados de renda fixa que haviam sido montadas em decorrência dos juros extremamente baixos que tivemos nos últimos anos, e que daqui para frente ele espera que o processo de alta dos juros de longo prazo seja mais gradual. Ou seja, ele chacoalhou a roseira para que uma possível bolha existente nas treasuries e nos outros papéis de renda fixa fosse eliminada;

h. dá sinais que prefere pecar pelo excesso do que pela falta de estímulo;

i.  e tudo isto logo depois da desistência do Larry Summers da corrida para sua vaga….

Gráficos abaixo da curva atual das expectativas de juros futuros mostram que mercado entendeu mensagem:

forwardoiscurve

 

 

 

Gráfico azul mostra a taxa de juros média esperada pelo mercado entre hoje e tal data no futuro. Gráfico vermelho mostra a expectativa atual para os juros do fed naquela data no futuro.

Em vermelho escuro marquei o final de 2015, quando mercado espera que juro do FED esteja a 1%.

Em laranja marquei o final de 2016, quando o mercado espera que juros tenham chegado a 2%.

Em cinza, final de 2019, quando os juros do FED devem bater nos 4% aa, os tais juros neutros.

E daí para frente ( amarelo), juros começam a se estabilizar ao redor de 4 ou 4,5% a.a.

Ou seja, os mercados entenderam claramente mensagem do FED e a curva de expectativas futuras para os juros está refletindo isto.

O prêmio de risco existente  entre a rentabilidade dos papéis do Tesouro e a taxa de juros esperada pelo mercado ( implícita nos derivativos de juros OIS ) está hoje em  próximo a sua média histórica ( o, 30% aa), como vemos no gráfico amarelo abaixo:

treasspreadois

 

 

Ele mostra a evolução do diferencial ( spread) entre a rentabilidade de um papel do tesouro americano de dez anos ( zero coupon) e a taxa média de juros do FED esperada para para os próximos 10 anos (dos contratos derivativos OIS). Hoje ( roxo) estamos bem próximos da média prevalecente ( reta vermelha horizontal) desde 2008. Tal prêmio saiu de 0,15% a.a. em Maio (cinza)  para os atuais 0,30% a.a ( roxo). Ou seja, o mercado já ajustou o prêmio de risco, que até maio estava excessivamente baixo, indicando que de fato estava se formando uma bolha nos títulos do tesouro desde o início do ano.  Tais papéis estavam ficando caros demais, o que resultava em prêmios de risco baixos demais e cadentes, como indicou Bernanke. Acredito que esta tenha sido a razão do Bernanke  sinalizar em Junho último que já estava pensando no início do FIM do QE. Ele pretendia furar assim a tal bolha nos títulos de renda fixa, antes que ela ficasse grande demais. Ou seja, tudo indica que o mercado esteja hoje onde o FED deseja. Logo, acho prematuro afirmar que o FED perdeu sua credibilidade com o movimento. Alguns especuladores perderam dinheiro, foi só isto.

Boa notícia para o Real, para nossa economia e para o financiamento de nossas contas externas… Ou seja, ganhamos tempo precioso para arrumar nossa casa! Não vamos desperdiçá-lo!!!!

E o prêmio de herói da semana vai para o Bernanke:

bernanke-timeline-sfimage-superJumbo (1)

 

 

Ele olhou para o lado esquerdo mas jogou a bola na direita…. e Mr Summers caiu no chão:

 

its-all-because-of-larry-summers-that-the-fed-nomination-has-become-such-a-circus

 

 

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segunda-feira, 6 de agosto de 2012 Heróis do Mercado, Livros e publicações, Politica Economica | 11:21

Cícero comenta sobre orçamento

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Recebi isto de um amigo e, embora eu não tenha checado nos livros de história em que contexto Cícero teria dito isto, achei que valia a pena dividir com vocês algo tão atual escrito há 2 mil anos:

“O orçamento deve ser equilibrado, o Tesouro deverá ser recarregado, a dívida pública deve ser reduzida, a arrogância do funcionalismo deve ser moderada e controlada, bem como a assistência a países estrangeiros deve ser reduzida, a menos que se queira Roma insolvente. As pessoas devem novamente aprender a trabalhar em vez de viver da assistência pública. ”

– Cícero, 55 aC

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sexta-feira, 20 de abril de 2012 bizarro, Heróis do Mercado, Investimentos, Politica Economica, Sem categoria | 11:54

Sem novidade: a Argentina rompe contratos

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O governo argentino segue na sua longa tradição de rasgar seus acordos e contratos com seus parceiros de negócios, na mesma linha que fez quando rompeu as regras que normatizavam os depósitos e empréstimos em moeda estrangeira na década passada. De fato ninguém pode acusá-los de serem inconsistentes. Agora os alvos foram as ações da YPF, que foi privatizada na década de 90 e vendida aos espanhóis da Repsol.

Eles desapropriaram as ações que estavam sob controle da Repsol ( empresa petrolífera espanhola) e que representavam 51% do capital da YPF, tomando assim o controle da empresa.

Qual o valor a  ser pago pelos hermanos aos seus hermanos espanhóis? Não se sabe. Os espanhóis pedem US$ 10 bi. Usando o preço médio das ações da YPF argentina nos últimos anos ( US$ 40 / ação),  os 51% da YPF dos espanhóis valeriam uns US$ 8bi. Usando o valor patrimonial contábil, tal participação valeria uns US$ 2,4 bi. Usando o valor atual da ação, tal participação valeria uns US$ 2,8 bi. Porém há rumores que o governo argentino queira pagar menos do que US$ 2 bi pelos 51% da YPF que foram desapropriados dos espanhóis.

De fato a situação energética na Argentina é lamentável, apesar das suas enormes reservas de petróleo e gás.

O país saiu de um superávit externo de US$ 4 bi no setor de petróleo para um déficit da mesma magnitude em poucos anos. O governo gasta 2,2% do PIB todo ano para subsidiar o preço do combustível que é vendido lá por menos da metade do preço internacional. Os preços lá praticados na venda de combustíveis não acompanham a evolução da inflação real na Argentina que passa de 20% aa. Com esta interferência do estado na economia e nos preços ninguém quer investir lá para aumentar a produção de petróleo. As grandes empresas internacionais do setor preferem vir ao Brasil e investir aqui, onde respeitamos os contratos.

Esta medida deverá afastar a Argentina ainda mais dos mercados financeiros internacionais e dos fluxos de investimentos internacionais que tanto nos beneficiaram nestes últimos 15 anos, o que deve isolá-la economicamente. O Estado argentino, que já é deficitário, não terá como bancar os investimentos necessários para expandir a produção naquele país. Provavelmente o estado irá reter os dividendos que hoje são pagos pela empresa ( US$ 1,3 bi / ano) e usá-los para investimentos na produção. Contudo tal volume é insignificante diante do montante necessário. Só para se ter uma ideia a Petrobras pretende investir mais de US$ 40 bi / ano nos próximos anos.

Com esta confusão toda não eh estranho que os preços das açoes da YPF tenham se comportado como vemos abaixo, caindo de US$ 40 para 13 desde Janeiro último:

Quem mandou ser sócio dos caras? Quem sabe agora os espanhóis aprenderam.

O mais interessante é que estas atitudes se refletem em outros ativos. O gráfico abaixo mostra a evolução dos títulos da província de Buenos Aires que vencem em 2021:

Em um ano o valor de tais papéis caíram de 95 para 67 pct. Nestes preços fica bem difícil para o governo Argentino levantar grana nos mercados internacionais. Vão ter que torrar suas reservas internacionais se quiserem honrar suas obrigações externas.

SE a YPF não estava cumprindo com as leis ou com o contrato de concessão, bastava cassar legalmente a concessão que fora cedida quando da privatização da empresa defendia pelo falecido marido da presidente na década de 90. Há mecanismos legais de fazer as coisas.

Agora imagine se a moda pega no resto do continente???

Argentina, Venezuela, Bolívia…. eta vizinhança… e eu que reclamo do barulho da obra dos meus vizinhos…

Veja abaixo a Presidente Cristina, com o marido e  o então presidente Menem, defendendo a privatizacão da YPF:

E veja ela hoje dando adios aos hermanos espanhóis:

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